Aristóteles de Ananias Jr. (posteriormente grafada como Aristhóteles de Ananias Jr.) foi uma banda brasileira de rock alternativo baseada em Porto Alegre e ativa na década de 1990. Criada em 1988 por Marcelo Birck, integrante da Graforréia Xilarmônica, primeiro como um espaço de experimentação informal e ocasional de novas ideias, em 1991 a banda assumiu um caráter permanente, mas passou por várias formações, realizando diversos shows no estado do Rio Grande do Sul, em bares e espaços institucionais.
Sua sonoridade incorporava a uma base de rock, uma diversidade de outros elementos derivados da música pop, da música regionalista e da música erudita, em uma mistura que despertou atenção da mídia e do público pela sua radicalidade, originalidade e irreverência, sendo elogiada por pesquisadores da história do rock gaúcho e por músicos destacados, mas desencadeando também muita resistência nos apreciadores do rock tradicional.
Seu estilo de apresentação era performático, dando grande importância à visualidade em figurinos e cenários elaborados pelos próprios músicos. A banda dissolveu-se em 1997, tendo exercido influência sobre outros grupos e deixado seu trabalho registrado em uma fita demo e um CD, além de lançar alguns videoclipes e dois filmes trash.
Trajetória A banda foi criada em 1988 por Marcelo Birck (vocal, guitarra e compositor), fazendo seu primeiro show no Bar Ocidente no mesmo ano. Surgida como um projeto paralelo à Graforréia Xilarmônica (da qual faziam parte Marcelo e seu irmão Alexandre), tinha uma proposta informal de diversão ao mesmo tempo em que se aproveitavam espaços favoráveis a investigações sonoras. A princípio o projeto não possuía nenhuma intenção de continuidade, e os músicos eram convidados de acordo com as circunstâncias.Pedrazzi, Iria. "No palco, as competentes escalas exóticas". Zero Hora, 20/04/1991 Com tal proposta, foram realizadas apresentações esporádicas e com diversas formações, que incluíram Alexandre "Ograndi" Birck (bateria), Carlos Eduardo Miranda (teclado), Chico Machado (baixo e vocal), Luciano Zanatta (saxofone alto) e Ricardo Frantz (violino).Gomes, Marco Pinho. "Iconoclastas experimentalistas com grande senso de humor". Correio do Povo, 28/11/1993 O nome da banda surgiu por acaso. De acordo com Birck, ele estava lendo e assistindo TV ao mesmo tempo, quando ouviu o apresentador citar "Aristóteles" na TV, leu no jornal o nome "Ananias", e ouviu alguém gritar "Júnior" na rua."De Atahualpa y us Panqui a Tarcísio Meira's Band: a origem curiosa dos nomes de bandas gaúchas". Zero Hora, 11/07/2013
Em 1991 a formação fixou-se com Marcelo, Alexandre, Luciano, Chico e Ricardo. A partir daí a proposta tornou-se mais definida, com repertório fixo, ensaios e shows regulares, mas continuava a ser a experimental. O Instituto de Artes da UFRGS foi um ponto de encontro. Quase todos os integrantes haviam estudado ou ainda estudavam no Instituto, e ali foram feitas apresentações. Todos também se interessavam pelas artes visuais, Chico e Ricardo haviam se graduado neste campo, o que trouxe a visualidade para o centro das atenções da banda, refletindo-se em seus cenários, figurinos e performances.
Em 1991 foi realizado um show marcante, intitulado Mim Notauro, Você Jane, apresentado em quatro dias (20 a 23 de junho) na Sala Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mário Quintana, e que significou o lançamento "oficial" da banda na cena gaúcha, mesmo já tendo antes realizado muitas apresentações. Até então atuando basicamente no underground, a proposta incomum despertou a curiosidade da imprensa, que publicou várias matérias na ocasião, dando grande visibilidade à banda."Radar a mil". Pioneiro, 02/09/1993"Pop erudito". Zero Hora, 20/06/1991"Analogias entre o clássico e o popular". Zero Hora, 20/06/1991"Rock, blues e clássicos dominam a semana". Zero Hora, 15/06/1991 Após várias aparições em bares da cidade, Alexandre deixou a banda, sendo substituído por Diego Silveira na bateria. left|thumb|200px|Show no Bar Porto de Elis. thumb|200px|left|Um dos cartazes artesanais produzidos para um show da banda juntamente com a Graforréia Xilarmônica, no Kally's Bar, Porto Alegre.
Em 1992 a banda gravou o programa Talentos do Sul, dividindo o palco do bar Porto de Elis com Os Replicantes, show veiculado no mesmo ano pela RBS TV."Oxigenada - um grau a mais". Pioneiro, 30/09/1992 O show marcou a saída de Chico Machado do grupo. Em 1993, mesmo sem um baixista fixo, decidiram registrar o repertório em estúdio. Para esta gravação, Marcelo assumiu o baixo (além da guitarra e vocais), e em duas sessões começou a surgir o que viria a ser a fita demo do grupo. Durante o ano, novas composições foram gravadas, com Pedro Porto no baixo (também integrante da Ultramen), mais a participação especial de Arthur de Faria (vocais) e Carlo Pianta (baixo).
A fita demo foi lançada em 28 de setembro de 1993, num show no bar Garagem Hermética. Com 20 faixas, inclui entre outras "Fúlvio Silas II", "Canibalismo Odara", "Grenal do Amor", "Bico de Pato" e "Saudades do Alegrete". Nesta ocasião, consolidou-se a formação pela qual a banda ficou mais conhecida: Marcelo Birck, Ricardo Frantz, Pedro Porto, Luciano Zanatta e Diego Silveira.Essinger, Silvio. "Graforréia Xilarmônica: os desconhecidos pioneiros". CliqueMusic UOL, 02/04/2001Pulita, João. "Ideias clássicas e premiações merecidas". Pioneiro, 29/10/1993"Gomes, Marco Pinho. "A maluquice do Aristóteles em K-7". Zero Hora, 28/09/1993 Na época, a movimentação em torno de produções independentes estava no auge, e a proposta inusitada chamou a atenção de vários veículos de comunicação do país."Maluquice em cassete". Zero Hora, 28/10/1993 Destacam-se em 1993 também a participação no festival Rock 40 Anos promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre,"40 anos de rock dá festa no Araújo". Correio do Povo, 14/08/1993 e no festival Fora das Média, idealizado por Arthur de Faria.Santos, Luiz Paulo. "O rock esquisito ganha um festival". Zero Hora, 02/10/1993
Em 1994 foram realizados vários shows no interior do estado (Pelotas, Santa Maria, Caxias do Sul, Livramento, São Lourenço e Passo Fundo) através do grande projeto Circuito de Rock, promovido pela RBS TV, que movimentou mais de 300 bandas gaúchas e deixou um registro em CDs."Velhos nomes e novas ideias". Zero Hora, 29/12/1994 Em 1995 participaram da coletânea Segunda sem Ley, (parceria do selo Banguela Records com a Rádio 107.1), com produção de Egisto 2,Segunda sem Ley. CD. Banguela Records/Warner, 1995 e a composição "Grenal do Amor" batizou um evento esportivo promovido pela Rádio 107.1, no qual músicos de várias tendências disputavam um Grenal (clássico do futebol gaúcho), evento que chamou a atenção da mídia pelo seu humor, que lhe deu espaço em várias matérias."Gre-nal do Amor". Zero Hora, 17/05/1995Ferla, Marcelo. "Tudo pronto para o Gre-Nal do Amor". Zero Hora, 09/06/1995"Vareio dos músicos colorados no Gre-Nal do Amor". Zero Hora, 13/06/1995
Com a colaboração de Munir Klamt, a faixa Bico de Pato, virou um videoclipe criado a partir da reciclagem de antigos filmes super-8, tendo sido veiculado com alguma regularidade pela MTV Brasil no verão de 1996. Dois outros clips foram apresentados na MTV: "Freeway" e "Canibalismo Odara". Ainda em 1996 saiu o seu primeiro e único álbum, intitulado Aristhóteles de Ananias Jr., pela Grenal Records, selo independente de Marcelo Birck.Álbum - Aristhóteles de Ananias Jr. CliqueMusic UOL"Gaúchos a mil". Zero Hora, 16/07/1995 Registrado em um período de transição da técnica de gravação analógica para a digital, as sessões de gravação basearam-se na experimentação de possibilidades. Se a princípio as condições técnicas não se mostraram muito favoráveis à proposta, o contato com Thomas Dreher, técnico de masterização do CD, foi fundamental para que o grupo pudesse, através dos meios computadorizados, vislumbrar novas possibilidades de manipulação e transformação do material sonoro. Desta forma a masterização, em geral um procedimento primariamente técnico, acabou se revelando um verdadeiro laboratório de pós-produção criativa. No mesmo ano a banda participou da gravação ao vivo do CD comemorativo da 150ª apresentação do Projeto Unimúsica da UFRGS,Unimúsica 150. CD. Projeto Unimúsica, UFRGS, 1996 e foi realizado um show com o repertório do CD no Programa Radar, exibido pela TV Educativa de Porto Alegre, mas para os seus membros já ficava claro que a banda se aproximava de seu fim. Com novos objetivos e desafios se apresentando para cada um, a dissolução do grupo foi um processo natural. Em 1997, com a formação Marcelo Birck na guitarra e voz, Alexandre Birck na bateria, Thomas Dreher na guitarra e Lawrence David no baixo, ocorreu a última aparição do grupo em palcos, no festival Made in China, que teve lugar no Auditório Araújo Viana.
Obra Contexto thumb|Apresentação no programa Radar, da TV Educativa do Rio Grande do Sul A banda surgiu em um momento de grande efervescência no cenário da música popular brasileira, quando o rock se consolidava em larga escala em todo o país desde os anos 80 e nos anos 90 continuava em uma trilha ascendente, ainda que neste último período enfrentasse crescentes dificuldades de mercado: Segundo Rogério Ratner,
"Em que pese o acesso ao mainstream tenha ficado cada vez mais restrito e difícil, dentro de uma estratégia das grandes gravadoras de concentrar seus investimentos em artistas/bandas do gênero que garantissem retorno garantido, havendo uma diminuição significativa na aposta em novos trabalhos, o certo é que isto não refreou o surgimento de uma infinidade de novas formações, em diversos estilos e trazendo inúmeras referências.... Algumas destas tendências, é bem verdade, já pontificavam nos anos 80, mas foram, sem dúvida, aprofundadas nos anos 90, inclusive com a consolidação de nichos próprios".
O Rio Grande do Sul não foi exceção, com a movimentação roqueira iniciando na capital, Porto Alegre, particularmente em torno do bairro Bom Fim, uma espécie de reduto da contracultura, onde funcionam até hoje um bar que se tornou icônico, o Ocidente (onde a Aristóteles se apresentou pela primeira vez), e o Auditório Araújo Viana, da Prefeitura Municipal, que deram espaço para shows memoráveis, "congregando bandas e artistas com já larga folha de serviços prestados à música urbana e ao rock do RS com novos nomes que iam surgindo", como disse Ratner, embora a produção local só tenha ganhado notoriedade no centro do Brasil relativamente tarde.Ratner, Rogério. "O rock gaúcho dos anos 80". Overmundo, 08/06/2009 Esta expansão foi facilitada pela criação de vários selos independentes no estado, que deram uma certa autonomia aos músicos locais, e pela passagem da tecnologia analógica para a digital, que reduziu a dependência dos músicos em relação às grandes gravadoras, tendo como resultado uma explosão do mercado independente.Ratner, Rogério. "O rock gaúcho dos anos 90 e 2000". Overmundo, 28/12/2009
Estilo e repercussão
thumb|Show Mim Notauro, Você Jane, na Casa de Cultura Mario Quintana. thumb|Show na Reitoria da UFRGS.