Antitrinitarismo ou Não-Trinitarismo, refere-se a uma corrente monoteísta, especialmente no contexto do cristianismo, que rejeita a doutrina na Trindade, de que Deus é um único ser composto por três pessoas distintas ou hipóstases formadas pelo Pai, Filho e Espírito Santo, e que apesar de distintas, ambas são coeternas, coiguais e indivisíveis em um ser ou essência e substância. (do grego ousia). A formulação clássica desta crença foi estabelecida no Primeiro Concílio de Constantinopla em 381 EC.Peter M. J. Stravinskas. Catholic Dictionary. Our Sunday Visitor Publishing; 2002. ISBN 978-0-87973-390-2. p. 395. Alguns grupos religiosos que emergiram durante a Reforma Protestante são historicamente conhecidos como não-trinitários.
De acordo com as igrejas que consideram a decisão do concílio ecumênico, a Trindade foi definida no concílio do ,Roger E. Olson; Christopher Alan Hall. The Trinity. Wm. B. Eerdmans Publishing; 2002. ISBN 978-0-8028-4827-7. p. 15–16, 173. no Primeiro Concílio de Niceia, como dogma central da fé Católica e declarou a plena divindade do Filho,Bernhard Lohse. A Short History of Christian Doctrine. Fortress Press; 1966. ISBN 978-1-4514-0423-4. p. 55–56. enquanto o Primeiro Concílio de Constantinopla declarou a divindade e personalidade do Espírito Santo.Deno John Geanakoplos. Constantinople and the West: Essays on the Late Byzantine (Palaeologan) and Italian Renaissances and the Byzantine and Roman Churches. Univ of Wisconsin Press; 1989. ISBN 978-0-299-11884-6. p. 152–153. Alguns concílios posteriores ao de Niceia (325), mas anteriores ao de Constantinopla (381), como o Concílio de Rimini (359), já apresentavam discordâncias da fórmula trinitária que se consolidaria anos depois em Constantinopla..Frank Leslie Cross; Elizabeth A. Livingstone. The Oxford Dictionary of the Christian Church. Oxford University Press; 2005. ISBN 978-0-19-280290-3. p. 101.
Em termos de número de adeptos, as denominações não-trinitárias compreendem uma minoria do cristianismo moderno, estimada em menos de 2%. As maiores denominações cristãs não-trinitárias são: Pentecostais do Nome de Jesus; Mórmons, Testemunhas de Jeová; Adventistas Unitários;, Adventistas Bereanos; La Luz del Mundo e Iglesia ni Cristo. Embora existam vários outros grupos menores, incluindo: Cristadelfianos; Ciência Cristã; Dawn Bible Students; Living Church of God; Assemblies of Yahweh; Israelite Church of God in Jesus Christ; Membros da Igreja de Deus Internacional; Cristãos Unitaristas; Cristãos Universalistas Unitários; Congregação Israelita da Nova Aliança; The Way International; Igreja Internacional de Deus e United Church of God.Halsey, A. (13 de outubro de 1988). British Social Trends since 1900: A Guide to the Changing Social Structure of Britain. Palgrave Macmillan UK. p. 518. ISBN 9781349194667 A doutrina da Trindade, como defendida no cristianismo tradicional, não está presente nas outras principais Religiões abraâmicas. Além disso, os cristãos trinitários tradicionais contestam a rotulação de grupos não trinitários como membros do cristianismo.
História Pré Formulação da Trindade
Igreja Primitiva Escritos cristãos do século I, não mencionam a trindade e indicam que os primeiros cristãos acreditavam em uma fórmula divina mais parecida com a do Judaísmo. Os cristãos se viam como continuadores do monoteísmo judaico, mas reinterpretando a identidade de Deus à luz da pessoa de Jesus. A doutrina trinitária formal ainda não existia e o Pai YHWH era visto como o único Deus. (1Cor. 8:4-6 e Ef. 4:6). Entretanto, Jesus era chamado de "Senhor" (Kyrios) e colocado em posição única de autoridade e culto (Fp 2:9-11). E o espírito Santo aparece como poder/ação de Deus, às vezes personificado, mas não é descrito como uma “terceira pessoa” no mesmo nível do Pai e do Filho.
Durante o século II, Inácio de Antioquia, Justino e Irineu de Lião declararam uma cristologia elevada, mas com uma concepção subordinada e inferior ao Pai. Apenas Tertuliano por volta do século III passou a fazer as primeiras declarações da palavra Trinitas (Trindade), mas ainda de modo embrionário.
Arianismo Ário (256-336) era um presbítero encarregado de uma paróquia na cidade de Alexandria. Alexandre (bispo de Alexandria) tentava explicar a ‘unidade da Santa Trindade’. Ário divergia dos pontos de vista expostos por Alexandre. Um tipo de sínodo dos presbíteros da cidade foi convocado, e a questão foi discutida. Ambas as partes declararam vitória, e a controvérsia se espalhou. Então Alexandre convocou um concílio de cem bispos, pela maioria dos quais os pontos de vistas de Alexandre foram endossados. Nisso, Ário foi ordenado a abandonar suas próprias opiniões, e a adotar as de Alexandre. Ário se recusou, e Alexandre o excomungou (no Concílio de Antioquia de 325 d.C) e a todos os que com ele mantinham a mesma opinião, dos quais havia um número considerável de bispos e de outros clérigos, e muitos do povo.
Desde então, Ário passou a ser considerado herege e foi excomungando da Igreja Católica. Ário advogava que somente o Pai era Deus eterno, mas que Jesus Cristo era Filho do Pai (da mesma substância divina deste) gerado na eternidade pelo Pai, advogava, ainda, que o Espírito Santo não era uma personalidade distinta e separada do Pai e do Filho que compunha a Divindade, mas que se tratava da essência de ambos que era partilhada com os filhos e filhas de Deus de inúmeras formas: poder, vento e inspiração. Sendo referente a personificação da presença de Jesus Cristo, ou de Jesus e seu Pai; como fogo, como voz etc.: As possibilidades de materialização e personificação do Espírito Santo do Pai e do Filho poderiam ser diversas segundo a crença ariana.
História Pós Formulação da Trindade Os não trinitários veem o Credo Niceno e os resultados do Concílio de Calcedônia como documentos essencialmente políticos, resultantes da subordinação da verdadeira doutrina aos interesses do Estado pelos líderes da Igreja Católica , de modo que a igreja se tornou, em sua visão, uma extensão do Império Romano. Os não trinitários (tanto modalistas quanto unitaristas) afirmam que Atanásio e outros em Nicéia adotaram a filosofia e os conceitos platônicos gregos e os incorporaram em suas visões de Deus e Cristo.
Foi observado pelo professor episcopal de história eclesiástica James Arthur Muller: “Esta falta de uma doutrina formulada da Trindade reflete o pensamento teológico do segundo século. Nas obras de Justino, o Mártir, que escreveu por volta de 150 A. D., enfatiza-se a pré-existência do Filho, no entanto, em relação ao Pai, fala-se Dele como estando ‘em segundo lugar’.” - Creeds and Loyalty, página 9. Mesmo perto do fim do segundo século, o destacado clérigo Ireneu fala de Cristo como estando subordinado a Deus, não igual a ele. - Veja Irenaeus Against Heresies, Livro 2, capítulo 28, seção 8. De modo que a Trindade era desconhecida aos primitivos eclesiásticos. Realmente foi uns 400 anos ou mais após a morte de Cristo que o conceito de “três pessoas em um só Deus” foi finalmente formulado por homens e introduzido na igreja.
O Credo de Nicéia (Séc. IV) Por volta do quarto século, alguns eclesiásticos, inclusive o jovem arcediago Atanásio, argumentavam que Jesus e Deus eram a mesmíssima pessoa. Por outro lado, homens tais como o presbítero Ário apegavam-se à posição bíblica, de que Jesus fora gerado por Deus e era subordinado ao seu Pai. Em 325 d.C., reuniu-se em Nicéia, na Ásia Menor, um concílio eclesiástico convocado pelo imperador romano Constantino para resolver tais questões. Neste concílio, o imperador pagão Constantino favoreceu o lado de Atanásio. Portanto, os conceitos expressos por Ário foram declarados heréticos.
“Mas os que dizem que houve tempo em que não existia; ou que não existia antes de ser gerado; ou que foi feito daquilo que não teve princípio; ou que afirmam que o Filho de Deus é de qualquer outra substância ou essência, ou criado, ou variável, ou mutável, estes são anatemizados [amaldiçoados] pela Igreja Católica e Apostólica.” - Cyclopedia de M'Clintock & Strong, Volume 2, páginas 559-563.
Digno de nota é também o fato de que o credo original redigido em Nicéia não atribuiu personalidade ao Espírito Santo. Todavia, adições posteriores, que se crê terem sido feitas pelo Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., fizeram isso. O credo ou símbolo redigido em Nicéia, em 325 d.C., com as suas alterações posteriores, passou para a história como o Credo de Nicéia. Reza do seguinte modo:
O Credo de Atanásio (Séc. IV) O Símbolo de Atanásio define a Trindade:
Portanto, a doutrina da Trindade foi finalmente formulada muitas centenas de anos após a morte de Jesus Cristo. Nas palavras do teólogo N. Leroy Norquist, “Os homens experimentaram palavras, afiaram frases, até que definiram a relação das três ‘pessoas’ da Trindade de tal modo, que finalmente podiam dizer: ‘A menos que creia nisso, não é verdadeiro crente.’” Assim se formulou, portanto, o conceito sobre Deus adotado agora na maioria das igrejas.
Popularização do Islã (Séc. VII) Entre os proponentes da escola revisionista de estudos islâmicos, posições que veem o islamismo primitivo como um grupo cristão unitário encontraram vários apoiadores acadêmicos, que argumentam que o Alcorão original era um texto cristão unitário oposto à trindade. Alguns historiadores acreditam que o islamismo primitivo foi um desenvolvimento dentro da seita unitária anti- nicena judaico-cristã nazarena do cristianismo. Uma tese relacionada com as acima mencionadas é avançada por Fred Donner, que argumenta que o Islão primitivo era um movimento unitário inter-religioso de crentes dirigido tanto aos cristãos como aos judeus.
Em escritos pré-modernos, João de Damasco descreveu o Islão como uma heresia cristã liderada por Maomé, a quem ele considera um ariano com base na sua (presumida) negação da trindade.
Período Pós Reforma Protestante Em 1530, após a Reforma Protestante e a Guerra dos Camponeses Alemães de 1524-1525, grandes áreas do norte da Europa eram protestantes, e formas de não trinitarismo começaram a surgir entre alguns grupos da "Reforma Radical", particularmente os Anabatistas. O primeiro antitrinitarista inglês registrado foi John Assheton (1548), um padre anglicano. O "Concílio de Veneza" anabatista italiano (1550) e o julgamento de Miguel Servet (1553) marcaram o claro surgimento de protestantes marcadamente antitrinitários. Embora as únicas igrejas não trinitárias organizadas fossem os Irmãos Poloneses, que se separaram dos calvinistas (1565, expulsos da Polônia em 1658), a Igreja Unitária da Transilvânia (fundada em 1568) e o Socinianismo (por volta de 1580). Em 1733, as Cartas de Voltaire sobre os Ingleses listaram Isaac Newton como um membro dos Antitrinitarianos.
Não-conformistas , dissidentes e latitudinários na Grã-Bretanha eram frequentemente arianos ou unitaristas, e a Lei da Doutrina da Trindade de 1813 permitia o culto não trinitário na Grã-Bretanha. Na América, visões arianas e unitaristas também foram encontradas entre alguns grupos milenaristas e Adventistas, embora a própria Igreja Unitária tenha começado a declinar em número e influência após a década de 1870.
O surgimento de grupos do Restauracionismo, como os Cristadelfianos, os hussitas, anabatistas, landmarkistas,C. Leonard Allen and Richard T. Hughes, "Discovering Our Roots: The Ancestry of the Churches of Christ," Abilene Christian University Press, 1988, ISBN 0-89112-006-8 valdenses e os Estudantes da Bíblia, que mais tarde adotaram o nome de Testemunhas de Jeová passaram a popularizar nos séculos XX e XXI o Unitarismo Cristão.
Variações de Grupos Não Trinitários O Unitarismo crê que apenas o Pai, Jeová, o o Deus pleno. Acreditam que Jesus é sua primeira criação, senhor, meio de salvação e líder, mas não o Deus eterno. Acreditam que o espirito santo seja impessoal, e o poder de Deus em ação.