thumb|350px|Recepção ao imperador Dom Pedro II na Praça da Matriz, 1865

A história de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no Brasil, inicia oficialmente em 26 de março de 1772,A Cidade, Secretaria Municipal de Turismo quando o povoado primitivo foi elevado à condição de freguesia, mas na verdade suas origens são mais antigas, tendo nascido em função da colonização da área por estancieiros portugueses desde o século XVII. A região, contudo, foi habitada pelo homem desde há 11 mil anos. Ao longo do século XIX iniciou seu crescimento, tendo os portugueses contado com o auxílio de muitos imigrantes europeus de várias origens, mais os escravos africanos e porções de hispânicos da região do rio da Prata. Entrando no século XX, sua expansão adquiriu ritmo muito acelerado, em processo que consolidou sua primazia entre todas as cidades do Rio Grande do Sul e a projetou no cenário nacional. Então definiram-se seus traços mais característicos, apenas esboçados no século anterior, muitos dos quais permanecem visíveis até hoje, mormente no seu centro histórico. Ao longo de todo o século XX, a cidade empenhou-se em ampliar organizadamente sua malha urbana e provê-la dos necessários serviços, obtendo significativo sucesso, mas enfrentando também várias dificuldades, ao mesmo tempo em que desenvolvia expressiva cultura própria, que chegou em alguns momentos a influir em todo o Brasil em vários campos, desde a política até as artes plásticas.Costa, Eimar Bones da (ed). História Ilustrada do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Já Editores, 1998Macedo, Francisco Riopardense de. Porto Alegre: Origem e Crescimento. Porto Alegre: Prefeitura Municipal, 1999 Hoje Porto Alegre é uma das maiores capitais do Brasil e uma das mais ricas e de melhor qualidade de vida,IBGE. População residente, em 1.º de abril de 2007 tendo inclusive recebido várias distinções internacionais. Abriga muitos eventos importantes e tem sido apontada várias vezes como um modelo de administração para outras grandes cidades.Ludwig, Fernando. Em busca de outras democracias: a democracia participativa de Porto Alegre. Revista Autor, Mai-2009

Início da colonização thumb|esquerda|Índio Charrua, pintado por Debret no século XIX

Por ocasião do Descobrimento a região onde se ergue Porto Alegre era habitada pelos grupos indígenas guaranis, charruas, minuanos e tapes. Com o estabelecimento do Tratado de Tordesilhas em 1494 e com a posterior colonização do Brasil em 1500, cujo território ficou dividido pela linha demarcada pelo Tratado, a região sob domínio português terminava na altura de Laguna, em Santa Catarina, ficando o Rio Grande do Sul sob domínio espanhol.

Contudo, com a União Ibérica, entre 1580 a 1640, esses limites tornaram-se relativamente inócuos. Havendo pouco interesse da metrópole por estas terras, diversos desbravadores portugueses começaram a se estabelecer espontaneamente perto do litoral e quando Portugal restaurou sua independência do Reino de Espanha, em 1640, já havia muitas estâncias na região, especialmente ao norte da Lagoa dos Patos e junto à desembocadura do rio Jacuí. Em 1680, os portugueses fundaram no Uruguai a Colônia do Sacramento, hoje cidade de Colônia, e o litoral riograndense passou a ser percorrido intensamente como caminho para o abastecimento da colônia e como forma de garantir a posse do território.

Em 1732, Manoel Gonçalves Ribeiro, natural de Laguna, recebeu uma sesmaria na área conhecida como Campos de Viamão, onde se iniciou a formação de um povoado, a Capela Grande do Viamão, que seria a segunda capital do estado. Outros colonizadores que receberam terras na região foram Sebastião Francisco Chaves, Dionisyo Rodrigues Mendes e sobretudo Jerônimo de Ornelas, concessionário da sesmaria mais importante, a de Sant'Anna, localizada sobre o atual Morro Santana, em um lote que já ocupava desde 1732, tendo ali instalado sua residência e uma estância para criação de gado. Junto à antiga desembocadura do arroio Dilúvio já existia um ancoradouro, o Porto do Viamão, que se tornou também conhecido como Porto do Dornelles, uma corruptela de "de Ornellas".

Em 1742, o rei de Portugal, atendendo a solicitação do brigadeiro José da Silva Paes, publicou edital autorizando a emigração de açorianos para o sul do Brasil, que de início deveriam fixar-se na região de Santa Catarina. Em 7 de dezembro de 1744, Jerônimo de Ornelas recebeu, por Carta Régia, a confirmação de posse das terras já ocupadas e intensificou sua criação de gado. Com a sede instalada no Morro Sant'Anna, o restante de sua propriedade era apenas campo desabitado, com a exceção de algumas famílias arranchadas à beira do lago formado pelo rio Guaíba, na ponta da península, onde hoje é o centro histórico de Porto Alegre. Ali ergueram uma diminuta capela, consagrada a São Francisco das Chagas, elevada a curato em 1747.

Em 1750, após a assinatura do Tratado de Madrid, ordenou-se ao governador de Santa Catarina, Manoel Escudeiro de Souza, que enviasse ao Porto do Viamão uma leva dos casais que estavam por chegar dos Açores. Em 1751, foram selecionadas 60 famílias, perfazendo um total de cerca de 300 pessoas, que chegaram ao local em janeiro de 1752, sendo encaminhadas a terras já demarcadas no Morro Sant'Anna. Mas o local era pobre em fontes de água e foi abandonado, tendo a população se fixado junto do porto que, por essa razão, passou a ser conhecido como Porto dos Casais. Em 1752, chegou nova leva de açorianos, que se juntaram a cerca de 60 milicianos do destacamento do Coronel Cristóvão Pereira de Abreu, para cá enviados a fim de dar proteção e assistência aos habitantes. Junto com a tropa veio o primeiro religioso, um capelão militar carmelita, Frei Faustino Antônio de Santo Alberto. Ainda em 1752, Jerônimo de Ornelas, sentindo-se prejudicado com a ocupação, pelos açorianos, da ponta da península, vendeu as suas terras a Ignácio Francisco, embora na Carta de Confirmação de sua sesmaria constasse a obrigação de deixar meia légua a partir do lago em direção ao interior como área de uso público. A área foi então desapropriada e disponibilizada legalmente para os colonos já assentados, mas a partilha e entrega efetiva dos lotes rurais individuais só aconteceria em 1772. O primeiro logradouro construído foi o cemitério, na beira do Guaíba e nas proximidades da Praça da Harmonia que, em seguida, foi transferido para o Morro da Praia, atual Praça da Matriz.

Criação da freguesia thumb|260px|A antiga Matriz e o Palácio do Governador, os dois primeiros edifícios importantes da cidade, erguidos a partir da década de 1770. Aquarela de Herrmann Wendroth, c. 1851

Com a queda nas mãos dos espanhóis, em 1763, da então capital da capitania, a vila de Rio Grande, o governo foi transferido para Viamão e grande parte da população de Rio Grande refugiou-se no Porto dos Casais, estendendo a área habitada. Esse povoado primitivo foi elevado a freguesia em 26 de março de 1772, data oficial de fundação da atual capital dos gaúchos, sob o nome de Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, pois a primeira capela da cidade foi dedicada a São Francisco das Chagas. Ainda em 1772 os colonos receberam os títulos de posse de seus lotes e foi separado um quadrilátero de cerca de 141 ha para a formação do núcleo urbano, ocupando toda a área da península. Seu traçado inicial foi feito pelo cartógrafo Capitão Alexandre José Montanha, na região desapropriada da Sesmaria de Sant'Anna, mas os originais desse traçado nunca foram encontrados. Acompanhando o crescimento da população e em reconhecimento da importância estratégica do porto, o governador Marcelino de Figueiredo transferiu novamente a capital em 1773, que passou de Viamão para Porto Alegre, mas tendo sido mudado seu orago, seu nome passou para Freguesia da Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre. Segundo Sebastião da Câmara, a mudança da capital teria sido ordenada pelo então vice-rei do Brasil, o Marquês do Lavradio.Câmara, Sebastião da. Carta ao Vice-Rei Luiz de Vasconcelos e Souza, de 22 de dezembro de 1780. In: Noal Filho, Valter Antonio & Franco, Sérgio da Costa. Os viajantes olham Porto Alegre: 1754/1890. Santa Maria: Anaterra, 2004, p. 22 thumb|left|Casa da Junta, de 1790, antiga sede da Junta de Administração e Arrecadação da Fazenda, que emprestou o nome ao prédio, e mais tarde da Assembleia Legislativa

Inicia, então, a reorganização da urbe como a capital da Província. Em 1774, são construídos o Arsenal de Guerra, a primeira Igreja Matriz e o Palácio do Governador, quatro anos depois são levantadas fortificações no perímetro oposto ao lago. Nas duas décadas seguintes já havia diversas olarias em atividade, indicando uma crescente demanda por materiais de construção como telhas, pisos e tijolos, estaleiros já construíam navios sob encomenda para o Rio de Janeiro, o comércio em geral se estruturava, e os vereadores preocupavam-se com o embelezamento e a limpeza das ruas e logradouros. Também começavam a tomar forma alguma das praças mais antigas de Porto Alegre, como a Praça XV, a Praça da Matriz e a Praça da Alfândega, que ainda existem. No terreno cultural, em 1794 instalava-se a primeira Casa de Ópera, ainda que fosse apenas um barracão rudimentar de madeira, no Beco dos Ferreiros. Nas cercanias, os colonos aplicavam-se na agricultura e criações várias para mantimento dos cidadãos, com primazia para a produção de trigo e farinha. A importância dessa atividade revela-se em que um dos mais importantes moleiros da época, Francisco Antônio da Silveira, o Chico da Azenha, acabou emprestando seu apelido a todo o bairro, Azenha. Outros moinhos marcaram a memória dos porto-alegrenses, havendo atualmente um bairro chamado Moinhos de Vento. Também as charqueadas instalaram-se na periferia da cidade, atraídas pelo crescimento urbano. Com a proliferação dessas pequenas indústrias em seu entorno agregaram-se os casarios que dariam origem a alguns dos bairros mais afastados do centro, como o Cristal e a Tristeza. No final do século XVIII, Porto Alegre contava com quase 4 mil habitantes.

Século XIX

O alvará de 27 de agosto de 1808 e a Resolução Régia de 7 de outubro de 1809 elevaram a freguesia à categoria de vila, verificando-se a instalação a 11 de dezembro de 1810. Através de alvará de 16 de dezembro de 1812, Porto Alegre tornou-se sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande, recém-criada, e cabeça da comarca de São Pedro do Rio Grande e Santa Catarina. Em 1814, o novo governador, Dom Diogo de Souza, obteve a concessão de uma grande sesmaria ao norte, com o fim expresso de estimular a agricultura local. Com o crescimento de cidades próximas como Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha e, em vista de sua privilegiada situação geográfica, na confluência das duas maiores rotas de navegação interna - a do rio Jacuí e a da Lagoa dos Patos - Porto Alegre começava a tornar-se o maior centro comercial da Província. A frota permanente que frequentava o porto nessa altura contava com cerca de 100 navios, sendo construído um grande trapiche lago adentro para acostamento e foi aberta uma alfândega. Também iniciavam-se exportações de trigo e charque. Em 1816, haviam sido comerciados 400 mil alqueires de trigo para Lisboa e, em 1818, venderam-se mais de 120 mil arrobas de charque, produto que logo assumiria a dianteira na economia da Província.