thumb|250px|Estatuto do Vasco, 1942 A história do Club de Regatas Vasco da Gama começa em 21 de agosto de 1898, na cidade do Rio de Janeiro, onde um grupo de visionários imigrantes portugueses se reuniu para formar uma agremiação esportiva que inicialmente se dedicava principalmente aos esportes aquáticos, especialmente o remo.
Fundação e início das atividades A fundação do Vasco se deu no contexto de popularização da prática do remo no final do século XIX. O esporte foi paulatinamente se popularizando nas décadas finais do século, com a popularização das praias como locais recreativos e com o avanço de uma nova estética corporal, que valorizava um tipo físico condicionado e saudável. Em 1873 foi criado o Club Guanabarense, dando impulso ao remo na cidade do Rio de Janeiro; vários clubes de remo foram fundados nos anos seguintes, e as regatas começaram a se tornar uma constante nas décadas de 1880 e 1890.
A ideia de criação de um clube de remo surgiu de quatro jovens brasileiros, Henrique M. Ferreira Monteiro, Luiz Antonio Rodrigues, José Alexandre d'Avellar Rodrigues, Manoel Teixeira de Sousa Junior, todos comerciários, caixeiros, trabalhando no centro do Rio de Janeiro. Nos tempos de folgas, os jovens alugavam um barco a remo, chamado "Iracema", no Grupo de Regatas Gragoatá, em Niterói. A distância entre o Rio de Janeiro e Niterói trouxe a ideia de criar um clube de remo no bairro da Saúde, onde trabalhavam.
Um quinto membro foi chamado, Lopes de Freitas, e as primeiras reuniões foram realizadas em janeiro de 1898, primeiramente num sobrado que servia de moradia a Henrique Ferreira Monteiro, na rua Theóphilo Ottoni, n.º 80 (ao lado esquerdo do atual n.º 90); em seguida, para melhor acomodação, foram os jovens pioneiros acolhidos no salão da própria Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma. A ideia de num novo clube de remo no bairro começou a ser propagandeada nos meios comerciais, e os quatro rapidamente conseguiram atrair novos interessados. Dentre os convidados a futura nova instituição, estavam os irmãos Couto, comerciantes portugueses, que atuavam no ramo da "serraria a vapor", e que tinham o capital necessário para colocar o clube de pé em seu início.
Após algumas reuniões preliminares, o clube foi fundado no dia 21 de agosto de 1898, na Rua da Saúde n.º 293 (atual n.º 345 da rua Sacadura Cabral). Nesta primeira reunião foi eleita a diretoria, com Francisco Gonçalves Couto Junior como primeiro presidente do clube. Foram 62 os sócios fundadores da instituição. O nome escolhido para o clube - Vasco da Gama - se deu em razão de se comemorar naquele ano o IV centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia, havendo entre os fundadores muitos portugueses. Desse modo, foi dado o nome do navegador português ao clube.
Ficou registrada na ata de fundação:
Não há qualquer controvérsia sobre o local onde o Vasco foi fundado, já que a ata de fundação menciona que os fundadores estavam reunidos no "prédio da Rua da Saúde, número 293", endereço que a agremiação Filhos de Talma nunca ocupou. No entanto, a versão de que o Vasco teria sido fundado na Filhos de Talma acabou sendo difundida, a partir da comemoração do 20.º aniversário do clube, através de um texto publicado pelo jornal "O Paiz", que acabou por difundir o mito desde então. Já o 60.º aniversário do clube acabou sendo celebrado na Filhos de Talma, sendo colocada uma placa de bronze em sua sede, na qual se lê que o conselho deliberativo do Vasco esteve ali reunido por ocasião do 60.º aniversário da instituição, "fundada neste local".
borda|centro|miniaturadaimagem|660x660px|Ata de Fundação do Club de Regatas Vasco da Gama
Segundo pesquisa de Henrique Hübner, ex-Diretor do Centro de Memória do Vasco, a rua onde o Vasco foi fundado - Rua da Saúde - é a atual Rua Sacadura Cabral. O nome da rua foi modificado em 24 de junho de 1922, por meio de decreto da Prefeitura do Rio de Janeiro. A numeração também não se manteve - em 1907 a Prefeitura da Cidade baixou o Decreto n.º 664, determinando a revisão da numeração das ruas do centro da cidade, incluindo a então Rua da Saúde. O número atual foi estabelecido em 1909. Conclui Hübner, em sua pesquisa, que o endereço no qual o Vasco foi fundado é hoje a Rua Sacadura Cabral, n.º 345. O local de fundação do Vasco é muito próximo da sede da Sociedade Filhos de Talma, com uma distância pouco maior que 100m (vide mapa).
No final de 2020, um grupo de vascaínos alugou o imóvel onde o Vasco foi fundado e foi por eles restaurado. Uma placa comemorativa foi colocada na entrada, com a bandeira do Vasco, do Brasil e de Portugal, e os dizeres "Aqui nasceu o Club de Regatas Vasco da Gama", além de um texto explicativo sobre a ocasião histórica. Foram ainda colocadas cruzes de Cristo na porta de entrada e na garagem do imóvel. A ideia é que o local seja utilizado para exposições e eventos sobre a história da Vasco. Em votação realizada pela internet, foi escolhido o nome de "Centro Cultural Cândido José de Araújo" para batizar o imóvel, em homenagem a Cândido José de Araújo, presidente vascaíno em 1904 e 1906, e primeiro negro presidente de um clube esportivo no Brasil.
O primeiro presidente vascaíno foi o comerciante português Francisco Gonçalves Couto Júnior. Fundado o Vasco por muitos membros das classes menos abastadas, necessitava o clube de um suporte financeiro para iniciar suas atividades. Esse suporte foi fornecido por Couto Júnior, que atuava no ramo de serraria a vapor. Foi Couto que providenciou o aluguel da primeira sede provisória do Vasco, que ficava bem próxima de seus negócios; foi também o responsável pela construção do primeiro barracão do clube, que servia de garagem para os barcos.
Oito dias depois de sua fundação, a diretoria foi empossada no salão da Estudantina Arcas, na rua São Pedro, n.º 152, no antigo Largo do Capim (hoje trecho da Avenida Presidente Vargas, defronte à praça da sede do Banco Central do Brasil). Na data também foi eleita a eleita a comissão para elaboração do primeiro estatuto, que foi aprovado em 10 de setembro do mesmo ano.
thumb|esquerda|350px|Ilha das Moças, local da primeira sede definitiva do Vasco, em gravura de Abraham-Louis Buvelot (1845). Fundado o clube, definiu-se uma sede provisória, sendo alugado um antigo sobrado na antiga Rua da Saúde n.º 127 (atual n.º 167 da rua Sacadura Cabral), em frente ao Largo da Imperatriz, hoje Praça Jornal do Comércio. Do prédio que serviu como primeira sede do Vasco, hoje somente resta a fachada em pé.
Em novembro de 1898, 3 meses após sua fundação, o clube se mudou para uma sede definitiva, na praia Formosa, localizada na Ilha das Moças em área já aterrada com os desmonte do Morro do Senado. Para facilitar o acesso à sede, os sócios do Vasco constroem uma ponte de madeira, para acesso dos remadores, além de um caminho de taboas para se andar em dias de chuva. A Ilha das Moças não existe mais, tendo sido aterrada com a conclusão do Porto do Rio de Janeiro. Próximo à Rodoviária Novo Rio. Já a praia Formosa fazia litoral com a atual rua Pedro Alves, naquele tempo aterrada e interligada com a Ilha das Moças, com o desmonte do Morro do Senado.
Escolha das cores, símbolos e uniformes
O primeiro uniforme vascaíno foi escolhido em 6 de setembro, em uma reunião da diretoria do clube. Por proposta do então presidente-fundador, Francisco Gonçalves Couto Junior, o Vasco teve aprovado por unanimidade as suas primeiras vestimentas. Consta das atas da reunião que o uniforme seria composto por um boné de camisa preta com "pompão branco e preto", camisa preta com gola e larga faixa branca, tendo no peito metade sobre o branco e metade sobre o preto a Cruz de Malta encarnada. O cinto seria branco; o calção de "casimira preta", as meias pretas e os sapatos brancos, sendo o uso dos sapatos e meias "somente obrigatório por ocasião de regatas".
Segundo João Ernesto da Costa Ferreira, que foi diretor de Patrimônio Histórico do Vasco, "o negro representa o desconhecido dos mares, pelas quais passavam as grandes navegações"; já a faixa diagonal branca, de um canto ao outro, "representava a luminosa rota vitoriosa dessas grandes navegações portuguesas", conforme descrição poética de autoria do prof. Castro Filho, ex-presidente do clube. Por fim, a cruz simbolizava "a fé cristã, até porque muitos fundadores eram portugueses, vindos de uma nação essencialmente cristã". Já Mário Filho afirmou que a cor preta foi escolhida em detrimento da camisa branca, que era a preferida, por ser "mais econômica", já que "uma camisa preta parece limpa, mesmo se estiver suja".
Apesar de as atas afirmarem que o símbolo seria a Cruz de Malta, foi efetivamente a Cruz de Cristo a utilizada nos uniformes vascaínos. A utilização da Cruz de Cristo se deu em razão de sua ligação com o navegador Vasco da Gama e com as naus portuguesas: Vasco da Gama foi sagrado Cavaleiro da Ordem de Cristo, e as naus portuguesas envergavam em seus velas a Cruz de Cristo. Nas comemorações do IV centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia, a Cruz de Cristo passou a ser representada sem a cruz grega branca (ou vazada) em seu interior; nas representações coloridas, a cruz era mostrada, na maioria das vezes, na cor vermelha ou encarnada. Essa representação foi popularizada pelo pintor português Alfredo Roque Gameiro, em duas famosas obras sobre a partida da esquadra portuguesa e a chegada a Calicute.
Tais obras acabaram servindo de inspiração ao clube na escolha da cruz - daí a referência nas atas a "Cruz de Malta encarnada". Henrique Hübner, ex-Diretor do Centro de Memória do Vasco, afirma que que se trata de uma metonímia em razão de uma interpretação popular do termo "Cruz de Malta" como um apelido para todos os design heráldicos de cruzes páteas (cruzes de pontas abertas e iguais), como se dá, por exemplo, com os termos "Xerox", "Cotonete", "Gillette", dentre tantos. Segundo Hübner, há inúmeros exemplos publicados na imprensa em que, sem qualquer relação com o C.R. Vasco da Gama, a Cruz de Cristo (nome próprio) é designada como Cruz de Malta (apelido)".
Com a tradição popular, a cruz de Malta acabou sendo associada ao Vasco desde a sua fundação, e o clube passou a ser chamado muitas vezes de cruzmaltino. O hino popular do Vasco, composto por Lamartine Babo, logo em seu início afirma "a Cruz de Malta é o meu pendão". Em 2010, o Vasco lançou uma terceira camisa que "corrigia a história", nos dizeres do clube, com a Cruz de Cristo.
Segundo Mário Filho, a faixa branca foi adotada já que era inconcebível a utilização da Cruz de Cristo sob um fundo preto. A solução, então, foi inserir uma faixa branca na altura da cruz. O primeiro uniforme vascaíno apresentava uma faixa horizontal, e não vertical. A tradicional faixa vertical só seria introduzida no ano seguinte. Em assembleia geral no dia 16 de julho de 1889, decidiu-se que a camisa seria "preta com larga lista branca a tiracolo"; em outras palavras, transversal. Não é verdadeira, portanto, a versão que o Vasco teria "copiado" ou se "inspirado" na camisa do argentino River Plate, já que adotara a faixa diagonal antes mesmo do time portenho ter sido fundado. Essa versão se iniciou com uma comparação feita pelo Jornal O Globo, e acabou se tornando popular, figurando inclusive por um tempo no site oficial do clube vascaíno. Outra mudança se deu na posição da cruz: no uniforme original, essa ficava metade entre o preto e metade entre o branco da camisa. Em novembro de 1988, no ofício de filiação à União de Regatas Fluminense, o clube dispôs que a cruz deveria ficar em posição central na faixa.