thumb|220px|direita|Cartão postal da Avenida Paulista vista da residência de Adam Von Bülow, 1902DE TOLEDO, Benedito Lima. Álbum Iconográfico da Avenida Paulista. São Paulo: Ex Libris, 1987. 174p. Guilherme Gaensly, nascido Wilhelm Gänsli (Wellhausen, cantão Turgóvia, 1 de setembro de 1843 – São Paulo, 20 de junho de 1928), foi um fotógrafo suíço-brasileiro. Dedicou-se à fotografia de retrato e à documentação inicialmente na Bahia até meados da década de 1880 e posteriormente em São Paulo, onde foi um dos mais ativos criadores de cartões-postais da cidade entre 1895 e 1925.

Gaensly se mudou para Salvador com a família aos cinco anos de idade. Filho do comerciante Jacob Heinrich e de Anna Barbara Kyn, ambos protestantes, o rapaz parece ter tido sua vocação como fotógrafo firmada cedo, uma vez que supõe-se que atua na área desde os 25 anos de idade, após a morte de seu pai.

Inicialmente, Guilherme trabalhou com retratos, como a maior parte dos profissionais da área, já que aprendeu o seu trabalho no ateliê de Alberto Henschel, o melhor retratista da cidade a partir do ano de 1867. Entretanto, eram as paisagens que chamavam mais a sua atenção e foi a elas que dedicou seu talento a partir do início dos anos 1870. As vistas que produziu foram reunidas pelo próprio fotógrafo em álbuns de dez fotografias, organizadas por região, mas apenas alguns chegaram até os dias atuais.

Sua morte ocorreu em 20 de junho de 1928, devido a uma pneumonia que teve aos 85 anos de idade. O fotógrafo morreu sem deixar descendentes e sua esposa, Ida Gaensly, também morreu em São Paulo, mas aos 70 anos, no dia 1 de outubro de 1933. O arquivo pessoal de Guilherme tem o destino desconhecido.

É conhecido como "o fotógrafo sem face", por não ser conhecida fotografia de seu rosto.

Imigração suíça A imigração suíça para o Brasil é um tema muito presente na historiografia brasileira, apesar de o número de obras sobre o assunto ser restrito. A Suíça foi o segundo país, atrás apenas de Portugal, a ter pessoas livres emigrando para o Brasil. Existiram diversas causas para o fenômeno, como a fome, o excesso de população e a falta de terra para os camponeses, além da cobrança de altos impostos no país.

Nessas circunstâncias, o Brasil é a alternativa para os suíços insatisfeitos com o país de origem, que era caracterizado por muitas e rígidas tradições. A emigração foi uma das soluções encontradas para amenizar os efeitos do fechamento comercial da Europa Oriental, mas não funcionou totalmente. Assim como as pessoas de classes mais baixas, os ricos também vieram para as terras brasileiras; entre os imigrantes, estavam famílias completas, que ficavam abismadas com a falta de estrutura do país receptor: existiam poucas escolas, estradas e comunicação.

Existiram outras questões que incentivaram a emigração, além da crise europeia: no início do século XIX, entre os anos de 1815 e 1816, aconteceu o Bloqueio Continental napoleônico e, consequentemente, o aumento das tarifas aduaneiras. Com isso, esses fatos se repercutiram, provocando o aumento do desemprego na Suíça e estimulando a população a ir para a América.

Ocorreram também processos conjunturais que dificultaram a vida dos suíços, fazendo com que desejassem sair do país: a crise no campo entre 1816 e 1817, em que foram perdidas colheitas e o custo de vida cresceu, a penúria e a fome estavam entre eles. Além disso, de um lado estava a superpopulação e, de outro, a falta de recursos, gerando a necessidade de exportação de muitas correntes humanas. Os suíços que emigraram, na maioria das vezes, eram ligados às atividades comerciais, à produção têxtil e à relojoaria.

A emigração modificou excessivamente a vida dos emigrantes e, somando-se a isso, esse processo sofria ameaças de fatores externos; entre esses fatores, estavam o medo da viagem mal sucedida que poderia terminar em óbito, o risco da espera na cidade portuária, o receio da repatriação devido à dificuldade para conseguir o valor necessário para o embarque; enfim, a travessia era um perigo em potencial e muitas pessoas não chegaram aos seus destinos finais.

Mesmo com todos os fatores preocupantes, diversas famílias suíças escolheram vir para o Brasil, onde se depararam com um país em transição. O fim do tráfico negreiro, no século XIX, trouxe como maior problema a falta de mão de obra e o apelo ao trabalho de europeus nas lavouras.

Entre os imigrantes suíços, estavam Guilherme Gaensly e sua família. Os Gaensly chegaram ao país, no século XIX, separados em dois ramos: uma parte foi para São Mateus do Sul (no Paraná) e, entre eles, posteriormente, alguns foram para Curitiba; a outra parte, que incluía Guilherme, foi primeiro para Salvador. Os dois ramos vieram de Wellhausen, uma cidade do Cantão de Thurgau que fazia fronteira com a atual Alemanha. Lá, a população era de apenas 527 habitantes no ano de 1831, sendo que a cidade estava situada a apenas quatro quilômetros da capital do cantão, Frauenfeld.

Os detalhes e as curiosidades da vinda da família para o Brasil são da parte das lembranças de duas representantes dos Gaensly, Isa Markmann e Freya Gaensly. As duas possuem o hobby de estudar a família e sua gênese, fazendo com que elas tivessem acesso à árvore genealógica, ao brasão e às fotos antigas dos Gaensly. Elas também guardam memórias dos almoços que a família costuma fazer para reunir os parentes vivos anualmente.

Para se ter contato com a genealogia da parte da família que se estabeleceu em Salvador, as principais fontes foram os artigos de Cid Teixeira, publicados no Jornal da Bahia nos anos 1960. Cid, por sua vez, utilizou as fontes de documentos do Consulado da Suíça na Bahia (hoje, representação consular), que atualmente foram enviados para a Suíça.

O pai de Guilherme Gaensly, Jacob, na Suíça, estava inserido no ramo de negócios, possuía uma firma de importação de tecidos e exportação de algodão que se chamava J. H. Gaensly. Porém, ao redor da firma de Jacob começaram a aparecer muitas fábricas de tecidos na mesma época. miniaturadaimagem|Imigrantes europeus posando para Gaensly no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, aproximadamente no ano de 1890. Os primeiros membros da família a virem para o Brasil foram Frederick e Gustav, que chegaram à capital baiana em 1840, mas não se adaptaram e retornaram à terra natal. Mesmo que eles não tenham se instalado fixamente no país, foram de bastante importância para atrair as outras pessoas da família a emigrarem. O pai de Guilherme chegou aqui em 1843, juntamente com outros parentes, mas foi o único a se fixar na cidade de Salvador. Esse constante vai e vem dos membros caracterizam a migração isolada, que não possui suporte fiscal.

Passados cinco anos, em 1848, a mãe do fotógrafo chega à cidade com os três filhos: Ferdinand, Frederick e Guilherme. Ferdinand foi trabalhar com um primo em Belém, no Pará, e, depois, voltou para a Bahia, quando decidiu trabalhar com comércio. Depois disso, sempre morou lá e trabalhou como telegrafista, até morrer, em 1902.

Através do livro de registros do Cemitério dos Estrangeiros, é possível ter acesso a mais informações sobre a família Gaensly: o fotógrafo teve uma irmã caçula, cinco anos mais nova que ele, que se chamava Julia Gaensly. Ele também tinha outra irmã, chamada Aleine Gaensly, que não possui registro de óbito.

A família de Guilherme enfrentou algumas dificuldades no Brasil e, entre elas, destaca-se a seca que atingiu a Província da Bahia em 1858, quando Gaensly tinha apenas quinze anos de idade. Durante os três anos que durou, a seca arruinou o comércio da Bahia. Também tiveram o obstáculo da religião: o primeiro templo presbiteriano do país só foi inaugurado em 1874, na cidade do Rio de Janeiro, o que não colaborava para a realização dos rituais religiosos da família.

O casamento de Guilherme e Ida aconteceu no dia 5 de maio de 1888, na casa dos pais da moça. Já na “Casa Gaensly” ocorreram os casamentos de Lindemann e de Schmidt, dois amigos do fotógrafo. O fato dessas cerimônias de estrangeiros protestantes terem sido realizadas na Casa demonstra a importância da família na colônia suíça-alemã da Bahia. Outro fato que corrobora para essa afirmação é a indicação de Jacob à candidatura para se tornar cônsul da Suíça na cidade de Salvador, apesar de ele não ter conseguido atingir o cargo.

Pesquisas no Centro de Documentação e História Reverendo Vicente Themudo Lessa, da Igreja Presbiteriana de São Paulo, possibilitam a contextualização do clima que Guilherme e seus conterrâneos viveram. Dentre as fontes consultadas, estava o jornal oficial da Igreja Presbiteriana no Brasil, chamado O Estandarte, que fornece numerosas informações sobre a forma como os protestantes viviam na época.

Além de o casamento de Gaensly ter sido realizado por um dos fundadores da igreja presbiteriana no Brasil, o pastor A. L. Blackford, o seu vínculo com a igreja era muito maior. No ano de 1922, já em São Paulo, seis anos antes de sua morte, Guilherme produziu uma foto de um dos principais eventos da instituição: o Sínodo Presbiteriano Independente reunido em São Paulo na igreja da 24 de Maio. Essa fotografia, atualmente, está arquivada no Centro de Documentação citado anteriormente.

Outra indicação do símbolo que essa fotografia representa é o fato de que ela foi publicada na capa de O Estandarte, no dia 2 de março de 1922. Ela foi uma das poucas fotos publicadas no jornal, que era composto unicamente de textos, normalmente.

Início da vida profissional Efetivamente, a profissão de Gaensly foi iniciada em Salvador, onde ele se estabeleceu no fim da década de 1860 e permaneceu até os primeiros anos dos anos 1890. A partir daí, se mudou para São Paulo, pois os empreendedores ofereciam muitas oportunidades durante a cultura do café e o crescimento industrial. Nas duas capitais, ele se dedicou aos retratos de estúdio, à documentação de edifícios e logradouros urbanos, ao acompanhamento das obras públicas e às paisagens rurais.

No ano de 1871, depois de aprender o suficiente no ateliê de Henschel, Guilherme abriu o estúdio fotográfico próprio em Salvador, que era a segunda cidade mais populosa do Brasil, na época. Lá, ele trabalhou por três décadas, até 1895, preservando um estilo só dele e sua rigorosidade como fotógrafo de paisagens. A partir disso, sua carreira progride e seu sucesso aumenta cada vez mais.

Trajetória profissional Na Bahia, Guilherme Gaensly foi associado, por um curto período de tempo, a Joseph Schleier e Waldemar Lange nos anos de 1870 e manteve relações comerciais que não progrediram com Karl Gutzlaff. Segundo pesquisas, provavelmente, seu primeiro endereço de estabelecimento foi inaugurado no dia 20 de junho de 1875, era localizado no Largo do Theatro, número 1, em Salvador, e o estúdio chamava Photographia do Commercio. Durante os anos 1870 e o começo da década de 1880, ele promovia suas obras e seu ateliê nas cartes de visite e fazia anúncios para aumentar a popularidade.

No ano de 1875, Guilherme anuncia o seu estabelecimento no Jornal da Bahia, onde comenta com detalhes os cuidados que tomava na Photographia do Commercio.

Em 1881, Guilherme participou da Exposição de História do Brasil, promovida pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde apresentou 28 reproduções fotográficas das pinturas a óleo de figuras públicas, políticas e religiosas, além das 10 vistas da Bahia feitas nos anos de 1870 em coautoria com Schleier. No mesmo evento, ele mostrou mais 42 vistas do estado e 11 registros que havia produzido da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco.

Em 1888, a empresa Photographia Gaensly & Lindemann, que ele abriu com o sócio Rodolpho Lindemann, já funcionava no endereço do Largo Castro Alves, nº 92. Entretanto, a associação dos dois durou apenas ao longo da última década do século XIX. Lindemann, além de sócio de Guilherme, era também seu cunhado, uma vez que se casou com Alaine, irmã de Gaensly em 1888.