thumb|Fachada principal do Palácio do Comércio
Palácio do Comércio é um prédio histórico da cidade brasileira de Porto Alegre. Construído para sediar a Associação Comercial, é um dos mais icônicos exemplares da arquitetura da cidade.
História O prédio foi erguido como consequência do fortalecimento da Associação Comercial de Porto Alegre e da dinamização do comércio na cidade no início do século XX. Na década de 1920 iniciaram as negociações entre a Prefeitura, o Governo do Estado e a Associação para viabilizar a construção da primeira sede própria da entidade, e em 17 de dezembro de 1929, através da Lei Municipal n° 260, a Prefeitura doou o terreno, mas estabeleceu certas condições: a obra deveria ser a sede permanente da Associação, não poderia ser alienada, deveria ser construída em um prazo de cinco anos e deveria ter significativo valor arquitetônico. O Governo do Estado estabeleceu um imposto especial para financiar a construção das sedes das associações comerciais de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande.Luz, Maturino Salvador Santos da. "Ide todos a José" : a arquitetura de Josef Franz Seraph Lutzenberger (1920-1951). Universidade Federal do Rio Grande do Sul,2004, pp. 259-300 A construção do prédio se inseriu em um amplo programa de reformas e melhoramentos urbanos empreendido pelos governos municipal e estadual na zona central da cidade, para que Porto Alegre se tornasse o "cartão de visitas" do estado.
A Associação lançou um concurso para o projeto em 20 de março de 1931, mas nenhuma proposta atendeu às expectativas. Outro concurso foi lançado em 11 de fevereiro de 1935, tendo como vencedor um projeto de Fernando Corona, mas por razões desconhecidas ele foi abandonado. Em 1936 foi instituída uma Comissão Especial de Construção para resolver o impasse, que contratou o distinguido arquiteto Joseph Franz Seraph Lutzenberger para fazer um novo plano, realizando sua primeira reunião em 18 de agosto de 1936. A ideia inicial foi um prédio mais modesto de quatro andares, mas incentivado pela Associação, logo a proposta evoluiu, ampliando-se consideravelmente para oito mais um terraço. O projeto final foi aprovado em 20 de novembro de 1936. A empresa escolhida para executar as obras foi a construtora Azevedo Moura & Gertum, assinando o contrato em 15 de junho de 1937.
A pedra fundamental foi lançada em 12 de outubro de 1937, benzida pelo arcebispo dom João Becker, sendo inaugurado em 14 de novembro de 1940 com a presença do presidente Getúlio Vargas e grande número de autoridades e convidados. Em seu discurso, Vargas salientou a importância da ACPA como consultora do Governo do Estado e apoiadora do Governo Federal. A inauguração repercutiu muito favoravelmente na imprensa da época, que lhe deu reportagens de capa e suplementos especiais, louvando o edifício pela sua beleza e imponência, considerado motivo de orgulho para a cidade, um sinal claro do progresso porto-alegrense e da pujança da sua classe comercial.Hädrich, Caroline. "O processo de invisibilidade do Palácio do Comércio de Porto Alegre". In: Temporalidades — Revista de História, 2020; 12 (1) — Dossiê Temático Pensar e fazer cidades: história urbana e patrimônio cultural
O projeto previu o térreo com pé-direito duplo para uso principal pela Bolsa de Mercadorias. O Café da Bolsa logo se tornou um importante ponto de encontro de empresários. As esquinas foram reservadas para agências dos Correios e da Telefônica e duas lojas de aluguel, com entradas independentes. Os salões do segundo andar seriam alugados para a Junta Comercial do Rio Grande do Sul, e salas secundárias para escritórios privados. As salas do terceiro ao quinto piso seriam alugadas para instituições sem sede, e o sexto piso ficaria para uso da Associação. No sétimo piso estariam os salões de festas e eventos, e no oitavo o restaurante/sala de banquetes com suas dependências, duas salas para reuniões-almoço, mais a moradia do ecônomo. Por fim, no último piso, os terraços e salas para depósito de materiais e atividades de manutenção.
A Bolsa de Mercadorias encerrou suas atividades em 1975. Em 1985 o térreo foi reformado para a instalação de uma agência do Banco do Brasil. Alguns anos depois o térreo e parte do segundo e terceiro andares foram ocupados pela Junta Comercial. Em 2000 foi iniciado um projeto de revitalização da estrutura, e em 2008 o edifício foi incluído pela Prefeitura em seu Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis do Município. A proteção que o inventariamento concede é frágil e não equivale a um tombamento, o que tem possibilitado intervenções arbitrárias na estrutura. Em 2015 foi aprovado pelo Ministério da Cultura um plano para restauração interna e externa do edifício, a produção de um livro sobre o trabalho e também a criação de um museu, mas o projeto acabou sendo abandonado antes de iniciar.
Arquitetura
O prédio se ergue solitário em um pequeno quarteirão no centro da cidade, fazendo face para a Avenida Júlio de Castilhos ao sul, e a Avenida Mauá ao norte. Lutzenberger desenhou um bloco monolítico com oito andares mais um terraço, com decoração externa austera em estilo art-déco e incorporada à estrutura funcional. A estrutura é organizada em torno de um poço de luz central que atravessa todos os pavimentos e é coberto por uma cúpula.
Todas as suas faces têm entradas, sendo que a principal é ao sul, onde um pórtico de colunas de pedra rústica sustenta uma marquise que corre em todo seu entorno, mas se elevando sobre esta entrada principal. Em cada face o centro da fachada é assinalado com uma faixa vertical de janelas com decoração diferenciada, e no bloco superior, acima da grande cornija, está instalado um grande caduceu, símbolo de Hermes, o deus grego do Comércio.
O projeto era inovador, previa um uso flexível dos espaços, e também incluía quatro elevadores - um luxo para a época - e o primeiro sistema de ar-condicionado central instalado no estado do Rio Grande do Sul."A Porto Alegre do arquiteto José Lutzenberger". Jornal do Comércio, 4 de junho de 2020 Além da parte estrutural, Lutzenberger ocupou-se pessoalmente com o desenho de toda a decoração, mobiliário e peças utilitárias em estudos pormenorizados, evidencia seu interesse pelo conceito de "obra total". Embora os salões e espaços principais sejam decorados com requinte, a decoração é econômica, mas alguns elementos são muito elaborados, como os vitrais, luminárias e os gradis de ferro de portas e escadarias.
Na reforma do térreo de 1985 ocorreram alterações na fachada, com retirada das portas de acesso ao café pela avenida Mauá e fechamento com alvenaria. No projeto de revitalização de 2000 o revestimento externo foi modificado. A restauração completa por dentro e por fora do prédio programada para iniciar em 2015, aprovada pelo Ministério da Cultura, nunca saiu do papel.
Apesar da sua importância histórica e arquitetônica, o Palácio do Comércio foi prejudicado pela evolução urbanística desordenada da área, ficando isolado em um entorno degradado e tumultuado, cercado por terminais de ônibus e do Trensurb, pelo cais do porto e avenidas de intenso tráfego. Segundo a pesquisadora Caroline Hädrich, esses fatores explicam o motivo pelo qual o Palácio é pouco lembrado e pouco conhecido pela população, acrescentando:
"O caso do Palácio do Comércio, portanto, é exemplar de como as más condições dos arranjos dos espaços públicos impactam na percepção e no reconhecimento dos edifícios que compõem aquele espaço urbano. [...] Pode-se dizer que o Palácio foi sendo 'comido pelas beiradas', pelos planos urbanísticos e novas demandas da metrópole moderna, e teve seu projeto primordial parcialmente descaracterizado. A avenida que nunca foi chic, o porto que nunca chegou a ter o movimento esperado e a praça transformada em estacionamento – e, mais tarde, em terminal de ônibus – fizeram seus acessos e o espaço do térreo perderem sua qualidade agregadora, tornando-os, ao contrário, isolados e de difícil aproximação".
Ver também
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