thumb|350px|Fachada da Villa Medicea La Petraia. A Villa Medicea La Petraia é uma villa toscana situada na zona montanhosa de Castello, na Via Petraia nº 40, em Florença. É uma das mais belas e famosas villas da Família Médici, magnificamente colocada numa posição panorâmica que domina a cidade de Florença.
História Século XVI: Fernando I thumb|250px|left|A Villa La Petraia numa luneta de Giusto Utens (1599), Museo di Firenze com'era.
Em 1364 o "palagio" da Petraia pertencia à família Brunelleschi, até que, em 1422, Palla Strozzi o adquiriu e ampliou a propriedade comprando os terrenos circundantes.
Na primeira metade do século XVI, a villa passou para a posse dos Salutati, os quais a venderam a Cosme I de Médici, cerca de 1544, que a deu ao filho, o Cardeal Fernando em 1568. Já se tinham iniciado algumas obras de ampliação em 1566, mas foi com Fernando, depois de se tornar Grão-Duque da Toscânia, em 1587, que se inicou a verdadeira transformação do edifício "da signore" (senhorial) semelhante a uma fortaleza numa residência digna de um Príncipe.
Desta forma, a partir de 1588 teve-se uma década de trabalhos que, com poderosas remoções de terra, transformaram a natureza "pietrosa" (pedregosa) do lugar (da qual resulta o Petraia, ou seja, cheia de pedras) numa sequência cenográfica de terraços dominada pela sólida mole do edifício principal.
250px|thumb|Florença vista da Villa Medicea La Petraia.
A autoria da villa é atribuída tradicionalmente a Bernardo Buontalenti, embora a única certeza documentada seja a presença no estaleiro de Raffaello Pagni. A villa foi reorganizada e ampliada em torno da torre central do século XIV, a qual foi transformada num belvedere (onde se encontra um relógio oitocentista), mas as maiores alterações relacionaram-se com o jardim, o qual foi transformado nos três grandes terraços sobrepostos frente à villa, que por aproximação e estilo derivam dos realizados poucos anos antes para a Villa Medici em Roma, na Colina do Píncio, onde Fernando havia passado grande parte da sua vida de (ex-)Cardeal.
thumb|250px|left|Vista lateral da Villa Medicea La Petraia com a torre medieval transformada em belvedere.
Temos uma fiel reconstrução do aspecto dos jardins da época na luneta de Giusto Utens, datada de 1599-1602, executada para a Sala das Villas da Villa Medicea di Artimino e actualmente no Museo Firenze com'era: o primeiro terraço era ocupado por pomar de plantas anãs, uma verdadeira raridade que despertava a curiosidade das outras Cortes europeias; o segundo terraço, o Nível do Viveiro, era dominado por um grande tanque central, com duas rampas de escadas nos flancos, e hospedava canteiros com disposições "simples" (ou seja, medicinais, donde surge o nome do Jardim dos Simples), plantadas segundo desenhos geométricos, com dois edifícios, com loggias, dos lados; o terceiro terraço, o maior, era ocupado por duas grandes zonas elípticas, com árvores e passagens cobertas; em todo o jardim, por outro lado, estavam dispostos os citrinos em vaso e espaldeiras de laranjas ao longo dos muros circundantes, no exterior dos quais se estendia o "salvático", o bosque.
A villa acabou por ter uma função predominantemente de residência, em oposição às funções de representação da Villa Medicea di Castello ou às funções relacionadas com a caça das numerosas villas nas encostas do Monte Albano. Isto explica, também, a presença preferencial das plantas úteis em relação às ornamentais, e a falta de estátuas e fontes.
Depois das bodas do Grão-duque, em 1589, a villa foi concedida à sua consorte, Cristina de Lorena. Da sua intervenção sobressaem os afrescos de Bernardino Poccetti, na capela privada, e os afrescos que celebram a Casa de Lorena, obra de Cosimo Daddi.
Século XVII: Os últimos Médici thumb|180px|Fanciullo ("Menino"), detalhe do ciclo de afrescos de Volterrano.
A villa passou para a posse de Dom António de Médici em 1609, que a enriqueceu com o precioso ciclo pictórico dos Fasti medicei (Faustos mediceos), obra prima de Baldassarre Franceschini dito Il Volterrano, que ainda hoje decora o pátio (1637-1646). As cenas foram concebidas, por sugestão de Pier Francesco Rinuccini, livres da sucessão cronológica e estranhamente sequenciadas como uma série de grandes estandartes com tema histórico que celebravam a Casa Médici. Este importantíssimo ciclo pictórico, no que diz respeito às villas médici, apenas é precedido pelo ciclo do Salone di Leone X (Salão de Leão X) na Villa Medicea di Poggio a Caiano, também esse ligado à celebração dos Médici através de cenas da história romana.
Dom Lourenço de Médici reuniu uma preciosa colecção de pinturas, enquanto Cosme III mandou afrescar a Cappella Nuova (Capela Nova) por Pier Dandini e Rinaldo Botti, cerca de 1696.
Séculos XVIII e XIX: Os Lorena thumb|250px|left|Piano della figurina: fonte e belvedere.
Coo o novo século, a villa deve ter perdido o interesse aos olhos dos seus novos proprietérios, ao ponto de ser gradualmente espoliada: o Príncipe de Craon, que tinha a regência no lugar de Francisco Estêvão, desde 1737, encontrou-a melancolicamente vazia.
Os Lorena remobilaram os ambientes e renovaram as instalações da villa: foi realizada uma sala de jogo, uma sala com uma colecção de aguarelas adquiridas pelo Grão-duque Pedro Leopoldo, em 1785, e foi recompostoo jardim. A Fontana di Fiorenza (Fonte de Florença), de Giambologna, foi transferida do parque de Castello para o jardim de levante da villa, qua ainda actualmente se chama de Piano della figurina, em referência à escultura da Venere-Fiorenza (Vénus-Florença). Em 1816, o arquitecto Giuseppe Manetti cuidou de alguns trabalhos de restauro e modernização.
O parque romântico à inglesa data de 1829, quando Leopoldo II de Lorena chamou o jardineiro boémio Joseph Frietsch, já autor do parque da Villa Medicea di Pratolino. O grande caminho para carruagens que une a Villa de Petraia à Villa Medicea di Castello também data deste mesmo período (1833).
Os saboias thumb|150px|Pátio central com parte da estrutura da cobertura.
Na época dos saboias a villa tornou-se residência de Vítor Emanuel II da Itália e de Rosa Vercellana, sua mulher morganática que muito amou La Petraia. A villa foi novamente remobilada, desta vez com uma série de móveis de valor que os saboias tinham "herdado" das Casas Reinantes dos Antigos Estados Italianos depois da Unificação Italiana. Chegaram, assim, peças de mobiliário, tapetes, quadros e outros ornamentos das Villas e Palácios Reais de Lucca, Modena, Piacenza e de outras villas dos Médici. Em 1911 foi redigido um inventário dos móveis, o qual constituíu a principal fonte para reconstruir a disposição dos móveis para a encenação museológica contermporânea; foram, por outro lado, redecorados muitos tectos com estuques brancos e dourados e com pinturas a grisaille; foi refeita a escadaria e instalado um equipamento de aquecimento do ar, tudo obra dos arquitectos da Real Casa, o turinenses Fabio Nuti e Giuseppe Giardi.
A intervenção mais visível daquele período continua a ser, contudo, a cobertura do pátio central com uma airosa estrutura em aço e vidro, criado em 1872 por ocasião das bodas do filho do Rei e Rosina, Emanuele di Mirafiori, tornando-se o pátio num verdadeiro salão central de festas. Esta solução revelou-se óptima, também, para a preservação dos afrescos do pátio, sem diminuir a luminosidade do ambiente e acrescentando uma estrutura de inegável valor arquitectónico. Esta solução foi, de seguida, copiada e usada noutros ambientes, como o Chiostro dei Voti (Claustro dos Votos), na Basilica della Santissima Annunziata.
Contemporaneamente, no Piano della Figurina foram montados dois espectaculares aviários segundo projecto de Ferdinando Lasinio, infelizmente perdidos mas dos quais restam algumas fotografias da época.
Século XX left|250px|thumb|Vista parcial da Villa Medicea La Petraia.
Em 1919 a villa foi doada ao Estado Italiano, o qual a destinou, como outras villas, à Opera Nazionale Combattenti, os quais venderam a propriedade dispersando os mobiliários e decorações, assim como próprios terrenos que faziam parte do imenso parque. A villa regressou às mãos estatais na década de 1960 e então, com uma acréscimo depois de 1984 quando foi instituído o Museo Nazionale, passou a ser objecto de um lento e profundo projecto de recuperação, seja da parte estrutural seja dos mobiliários.
A fonte de Fiorenza, com o bronze de Giambologna no alto, foi desmontada e recolocada no centro do pátio coberto, onde se encontram, actualmente, também algumas estátuas provenientes da vizinha Villa Medicea di Castello.
Os projectos para o futuro da villa passam pela recuperação dos sugestivos subterrâneos, com as antigas cozinhas e algumas salas onde deviam estar expostos os modelos realizados por ocasião da Mostra di giardinaggio (Mostra de Jardinagem) de 1931, uma curiosa série de maquetes de jardins em miniatura que se encontram depositados na villa .
A villa Piso térreo Pátio central thumb|150px|Aspecto do pátio central. thumb|150px|Afrescos do Volterrano.
Depois de um vestíbulo, a partir do qual se acede a algumas salas secundárias, chega-se ao magnífico pátio coberto afrescado, que é o eixo da villa.
Nas duas paredes principais, as cenas que representam a "Gesta de Goffredo di Buglione na tomada de Jerusalém" (Gesta di Goffredo di Buglione alla presa di Gerusalemme) são de Cosimo Daddi e datam de cerca de 1590. Sob as galerias laterais, por outro lado, estão representados os "Faustos mediceos" (Fasti medicei, obra-prima do Volterrano, pintados entre 1637 e 1646. Da direita para a esquerda, as cenas são: "O encontro entre o Papa Leão X e Francisco I de França" (L'incontro fra papa Leone X e Francesco I di Francia) "A entrada triunfal de Cosme I em Siena" (L'ingresso trionfale di Cosimo I a Siena) "Catarina de Médici com os filhos" (Caterina de' Medici con i figli) "O predomínio da Toscânia no mar" (Il predominio della Toscana sul mare) "Giuliano Duque de Nemours e Lourenço Duque de Urbino em Campidoglio" (Giuliano Duca di Nemours e Lorenzo Duca d'Urbino sul Campidoglio) "Alexandre primeiro Duque de Florença" (Alessandro primo duca di Firenze - esta cena contém um auto-retrato do pintor) "Cosme II recebe os vencedores da expedição de Bona" (Cosimo II riceve i vincitori dell'impresa di Bona) "Maria de Médici rainha de França com os filhos" (Maria de' Medici regina di Francia con i figli) "Cosme I associa ao governo o filho Francisco" (Cosimo I associa al governo il figlio Francesco) "Clemente VII coroa em Bolonha Carlos V" (Clemente VII incorona a Bologna Carlo V)
A cobertura em ferro e vidro, o grande lampadário em cristal e o pavimento datam de 1872, quando o pátio foi transformado em Salão das Festas.
As outras salas left|thumb|220px|Sala de refeições.
Através duma porta à direita acede-se à grande sala de refeições, a chamada Sala degli arazzi (Sala das tapeçarias) ou Sala rossa (Sala encarnada), onde estão suspensas algumas tapeçarias flamengas do século XVII. Os tectos forrados de tecidos representam "Os quatro elementos, As quatro estações, Os meses de Maio e Junho" (I quattro elementi, Le quattro stagioni, I mesi di Maggio e Giugno) e "Cosme II que recebe a himenagem do Senado" (Cosimo II che riceve l'omaggio del Senato), este último executado em Florença no ano de 1655 sobre um cartão de Agostino Melissi.
A sala seguinte, Sala da música, toma o nome do grande pianoforte-harmónio construído em Nápoles no ano de 1868. As paredes estão atapetadas por veludos franceses, sendo de particular valor o relógio francês, em bronze dourado, datado de 1770. O Estúdio do Rei (Studio del Re) tem um reposteiro de fabrico francês em veludo carmesim sobre fundo amarelo laminado em ouro. O mobiliário antigo provém, sobretudo, do Estilo Império, típico da década de 1800.