O Castro de Santa TregaNi Tecla ni Tegra: Trega é um castro e um sítio arqueológico que se encontra no contorno do monte de Santa Tecla concelho da Guarda província de Pontevedra. Pertencente à cultura castreja e o mais emblemático e visitado dos castros galegos. Foi declarado Monumento Histórico Artístico Nacional em 1931Pelo Decreto de 3 de Junho de 1931. e também tem a consideração de Bem de Interesse Cultural.
O castro, segundo a tese mantida por de la Peña Santos, diretor das últimas campanhas de escavações arqueológicas na década de 1980, teve uma ocupação continuada entre o século I a.C., ao pouco de começar o processo de romanização da Galiza, e o século I d.C., e que a partir desse momento começou um lento processo de abandono, que bem pôde ter sido interrompido por reocupações esporádicas temporárias em época tardo-romana. Foram encontrados também petróglifos, em várias das pedras do monte, elaborados por volta de 2000 anos antes da ocupação do castro.
Situação Situa-se no monte de Santa Trega, de 341 m de altitude, no extremo mais a Sudoeste da Galiza, no concelho da Guarda, num lugar privilegiado desde o que domina a desembocadura do rio Minho. O monte tem umas ladeiras muito pronunciadas, com um domínio visual do contorno que fez dele, possivelmente, um lugar estratégico destacado desde muito antes do levantamento do castro.
Escavações arqueológicas Embora a população da Guarda devesse ter conhecimento da existência de vestígios de antigas edificações no monte desde faz muito tempo, em 1745, quando o Padre Sarmiento visitou A Guarda, não fez menção delas, mas, pelo contrário, fê-lo do monte, sua ermida e a romaria.
Primeiras descobertas e referências thumb|left|300px|O oceano Atlântico desde o monte de Santa Trega.
A primeira descoberta da que se tem constância foi, em 1862, a de uma escultura de Hércules feita em bronze que foi encontrada por uns canteiros que trabalhavam perto da ermida. Esta escultura foi roubada do museu na década de 1970.
Na segunda metade do século XIX as ruínas começaram a ser valoradas na sua justa medida. Constatam-se as primeiras referências escritas das ruínas nos apontes arqueológicos de Ramón López García em 1864,Como relata seu filho Julián López García na obra "La Citania de Sta. Tecla o Una Ciudad prehistórica desenterrada" de 1927 (Imp. Casa Tablas). e na testemunha de Manuel Murguía na sua obra "Historia de Galicia" em 1888, que deduze das ruínas um parentesco dos seus habitantes com a "raça" celta da família dos galos.
Já no século XX, foi criada na Guarda, em 1912, a Sociedade Pro-Monte de Santa Tecla, a qual um ano mais tarde promoveu a realização de obras de acondicionamento das cercanias da ermida e o traçado de uma rodovia de acesso ao cume. As obras desta rodovia puseram ao descoberto, no lugar conhecido como Campo Redondo, muros de edificações e alicerces de vãos da muralha exterior do castro.
Perante estas descobertas, a sociedade solicitou uma autorização oficial para iniciar escavações sistemáticas no lugar, autorização que foi concedida em 26 de Fevereiro de 1914,Comunicada em 22 de Março pelo Marquês de Cerralbo no nome da Junta Superior de Excavaciones do Ministério de Instrução Pública (Espanha). e na que se nomeou arqueólogo chefe a Ignacio Calvo Rodríguez, do Museu Arqueológico Nacional (Espanha).
A partir deste momento o sítio começou a aparecer nos meios de comunicação. Também em 1914 o cônego Domínguez Fontela, sem nenhum tipo de argumentação, atribuiu os restos à "civilização ibérico-romana" e identificou-os com a histórica Abóbrica mencionada por Plínio, o Velho (teoria ainda seguida na atualidade por alguns autores).
Primeiras escavações (1914-1923) Desde 1914 até 1923 o diretor dos trabalhos arqueológicos foi Ignácio Calvo, que foi dando a conhecer o resultado dos trabalhos em vários artigos. A Sociedade Pro-Monte também participa nos trabalhos da zona conhecida como a Fonte Nova. Calvo atribuiu ao povoado uma ocupação desde os inícios da Idade do Bronze até a época romana. Foi o primeiro autor em denominá-lo "citânia" (seguindo o exemplo da arqueologia portuguesa) e em falar da possibilidade de identificá-lo com o mítico Monte Medulio, onde os escritores clássicosFloro e Paulo Orósio. situaram a também mítica derradeira e heróica resistência dos galaicos.
As campanhas de Mergelina (1928-1933) Entre 1928 e 1933, o catedrático da Universidade de Valladolid, Cayetano de Mergelina y Luna dirigiu, utilizando os mais avançados métodos da época, uma série de campanhas arqueológicas centradas, nomeadamente, na ladeira oriental, pondo ao descoberto grande quantidade de moradias e outros edifícios.
Em 1945 publicou o resultado dos seus trabalhos num estudo titulado "La citania de Santa Tecla. La Guardia (Pontevedra)".Boletín del Seminario de Estudios de Arte y Arqueología, XXXVII-XXXIX. Universidad de Valladolid, 1944-1945, pp. 13-56. Seguindo as majoritárias "teorias invasionistas" do momento, datou o povoado com uma ocupação desde o século VI a.C. até o século III d.C., com uma nova ocupação no século V, e atribuiu-lhe aos seus habitantes uma natureza "post-hallstáttica" de origem celta.
Período de abandono (1933-1979) Em que pese a ter sido declarado Monumento Histórico Artístico Nacional em 1931, o sítio sofreu nesses anos a ampliação do traçado da rodovia de subida e um agressivo reflorestamento do monte que deterioraram gravemente o sítio.
Desde 1933, data da última campanha de Mergelina, os vestígios postos ao descoberto sofreram as conseqüências do seu abandono enchendo-se de vegetação. Este período de abandono durou até 1979.
Durante estes anos houve poucas e breves intervenções, como a de Manuel Fernández Rodríguez nas cercanias do edifício conhecido como Casa Florestal ou as reconstruções feitas em 1965 e 1972 em duas moradias a ambos os lados da rodovia, reconstruções que, do ponto de vista científico, apresentam sérios problemas de fidelidade, mas que se tornaram em pouco tempo num ícone da cultura castreja.
Esta etapa de abandono terminou em 1979, quando Alfredo García Alén dirigiu trabalhos de limpeza e consolidação das estruturas mais próximas à rodovia, trabalhos estes promovidos pelo Ministério de Cultura (Espanha).
Campanhas de 1983 a 1988 thumb|right|350px|Cume do monte, conhecido como Pico de São Francisco, com a ermida e o repetidor.
Em 1983, com a colaboração econômica da Junta da Galiza e o concelho da Guarda, o arqueólogo Antonio de la Peña Santos dirigiu uma equipa do Museu de Pontevedra iniciando um novo período de escavações sistemáticas. Esta etapa centrou-se na esquina setentrional do povoado.
As estruturas descobertas nestas campanhas e nas anteriores foram consolidadas nesses mesmos anos por uma equipa dirigida por Montserrat García Lastra Merino.
Desde 1988 não se realizaram mais trabalhos arqueológicos.
Na atualidade Já em 1996 a Conselharia de Cultura e Desporto (Junta da Galiza) anunciara na prensa que empreenderiam ações para o aproveitamento sociocultural desta jazida. Em Julho de 2006 a Conselharia anunciou um plano diretor para o sítio arqueológico de Santa Trega, que incluirá a proteção de tudo o monte, novos trabalhos arqueológicos, etc.
A visita ao monte não é gratuita, porém o sítio carece de vigilância e a quantidade de visitantes sem guia faz que as estruturas sofram importantes deteriorações.
Os povoadores do castro Seguindo os autores clássicos como Plínio, o Velho, Pompônio Mela, Apiano, Ptolomeu… o extremo sudoeste da atual Galiza estaria povoado pela comunidade dos Gróvios, cuja cidade mais importante seria o Castelo Tide ou Tude, a atual Tui. Seguindo a teoria de Antonio de la Peña Santos:
Interpretando os achados arqueológicos tratar-se-ia de um povo com uma estrutura igualitária (construções de tamanhos semelhantes), com um caráter pacífico pouco belicoso (sistemas defensivos mais simbólicos que efetivos) e com uma economia agrária (proximidade às terras férteis, aproximadamente a 1 ou 2 km de distância), mas com certa capacidade aquisitiva e comercial (abundosos produtos forâneos).
Com o tempo e produto das reformas dos imperadores da dinastia Flaviana e a progressiva implantação do sistema romano de exploração, os habitantes do povoado começaram um lento abandono para assentar-se nas novas vilas e vicos, situadas nos vales e próximas às terras de maior valor produtivo.
Economia da comunidade A importância dos cereais na economia da comunidade fica patente nos numerosos moinhos manuais de pedra encontrados disseminados por toda a zona escavada, a maioria deles tardios moinhos circulares, que alguns autores põem em relação à influência romana.
Outros instrumentos encontrados como machados, enxós, podões e fouces de bronze e ferro falam do trabalho agrícola.
Destacam-se as grandes quantidades de "seixos de talhe mono-facial,Ferramentas líticas talhadas por uma só das suas faces. nódulos discoidaisTrata-se do núcleo que fica ao talhar uma peça de sílex. muito regulares encontrados sobre os pavimentos interiores das estruturas. Seu primitivo desenho (similar aos seixos talhados, utensílios líticos muito rudimentares e antigos, do Paleolítico Inferior) e sua possível utilidade causa estranheza entre os estudiosos.
A coleta de frutos silvestres seria outra fonte de recursos testemunhada nomeadamente nos restos de bolotas carbonizadas encontradas.
Para o estudo dos restos orgânicos são fundamentais os cuncheiros, dos que constataram vários no sítio. Eles testemunham, além da atividade de exploração de recursos marinhos, a exploração pecuária das espécies de ovi-caprinos (Ovis aries e Capra hircus), bovinos (Bos taurus) e galináceas (Gallus gallus). Ressalta a ausência de porco doméstico.
Em relação à pesca encontraram-se três anzóis de bronze e dois de ferro, e restos ósseos de exemplares das famílias Sparidae, Gadidae, Lavridade e Morenidae, espécies seguramente capturadas desde o mesmo litoral. Dos restos procedentes do marisqueio mais da metade pertencem à lapa (Patella vulgata), seguida em quantidade pelo mexilhão (Mytilus galhoprovinciális), o caramujo (Littorina littorea) e o bígaro (Monodonta lineata). Cabe destacar a ausência de espécies próprias de zonas de areal.
Entre as atividades artesanais testemunhadas, a mais estendida é a têxtil, testemunhada na grande quantidade encontrada de pesas de tear, fusaiolasPequenas fichas líticas ou de cerâmica a cotio reutilizada com uma perfuração no centro e empregadas para o fiado com o uso do fuso. e nas agulhas de bronze com olho ovalado (todas retas salvo uma). Pela contra são escassos os achados relativos à atividade metalúrgica, só alguns troços de crisol e algum molde de pedra.
A atividade comercial deveu ser de grande importância, tanta que sua própria situação viria determinada pelo seu valor logístico para a navegação comercial marítima de cabotagem como também para a fluvial (remontando o curso baixo do Minho). Com a chegada dos romanos, a comunidade incorporar-se-á ao complexo sistema comercial marítimo e terrestre do império.
O achado de grande quantidade de restos cerâmicos de ânforas confirma este comércio. A maior parte destes correspondem a modelos usados para o transporte de vinhos, outros modelos seria para o azeite (nomeadamente para servir de combustível das lucernas) e outras mercadorias.
As peças cerâmicas encontradas, de vidro e outros materiais, reforçam a importância deste comércio com o mundo romano (cerâmicas campaniformes, de terra sigillata).
Por último, o quase centenar de moedas encontradas, nomeadamente dos governos de Augusto (r. -) e Tibério (r. 14-37), um grupo de época republicana e outro conjunto de exemplares cunhados nas fábrica de moedas do vale do Ebro, achegam um novo dado sobre o processo de incorporação ao novo sistema comercial que estava a viver esta comunidade.
Descrição thumb|right|350px|Vista do bairro setentrional.