A presença do calvinismo no Brasil remonta ao século XVI. Ministros religiosos, enviados a partir da recomendação do próprio João Calvino, chegaram ao país durante a tentativa de colonização francesa conhecida como França Antártica. No século seguinte, durante a invasão holandesa, uma Igreja Reformada chegou a ser organizada (com vários presbitérios) no Nordeste brasileiro. Por fim, a partir do século XIX, os calvinistas instalaram-se definitivamente no território brasileiro, seja por meio da imigração europeia (e estadunidense), seja por meio da atuação missionária.
Atualmente, os calvinistas somam mais de um milhão de fiéis em todo o Brasil (considerando, nesta soma, os membros de todas as denominações de origem calvinista do país).Bauswein & Vischer, The Reformed Family Worldwide, pp. 82ss. Seu impacto pode ser observado não apenas no aspecto puramente religioso, como também no campo educacional, com suas várias escolas e faculdades (como a Faculdade Gammon,FATIPI (Faculdade de teologia da Igreja Presbiteriana Independente e a Universidade Mackenzie).
Calvinismo na Invasão Francesa França Antártica A França Antártica foi uma tentativa de colonização francesa no território brasileiro (na região do atual estado do Rio de Janeiro). Empreendido pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon, o projeto iniciou-se com a chegada das naus francesas em 1555 e durou até a expulsão definitiva em 1567. "Esse empreendimento contou com o apoio do almirante Gaspar II de Coligny (†24-08-1572), influente estadista e futuro líder dos calvinistas franceses, os huguenotes".Matos, A "França Antártica" .
esquerda|thumb|150px|O almirante calvinista Gaspar II de Coligny, elo entre Villegaignon e João Calvino Em dado momento, em virtude de problemas morais e religiosos na tropa, Villegaignon escreveu cartas a Gaspar II de Coligny e ao reformador francês João Calvino "para que enviassem profissionais e religiosos para a nova colônia francesa".Hack, ‘’Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 112. Calvino, por meio da Igreja Reformada de Genebra, respondeu afirmativamente, enviando um grupo de calvinistas franceses (conhecidos como huguenotes) sob a liderança dos pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier.Matos, A "França Antártica". Villegaignon encaminha uma outra carta, então, agradecendo o pronto atendimento: "acredito que não seja possível exprimir com palavras quanto me alegram suas cartas e os irmãos que com elas vieram".Carta de Villegaignon a Calvino, 31 de março de 1557, apud Schalkwijk, "O Brasil na Correspondência de Calvino", p. 109.
A expedição, com a presença dos huguenotes, chegou à Baía de Guanabara em 7 de março de 1557. Três dias depois, em 10 de março, foi realizado o primeiro culto protestante nas Américas, oficiado pelo Rev. Pierre Richier. No domingo, 21 de março, houve a primeira celebração da Ceia do Senhor sob o rito calvinista.
Havia cultos em todos os dias da semana. Aos domingos, especialmente, as celebrações aconteciam pela manhã e à tarde. Em outros momentos da semana, havia reuniões de oração.Hack, ‘’Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 119. Esta quantidade de serviços religiosos aponta para a importância da delegação calvinista em meio à tropa.
Conforme se estruturava o serviço religioso no Forte Coligny, os pastores huguenotes se sentiam à vontade para exercer um trabalho missionário, alcançando os índios do continente. "Realizaram várias visitas às tabas litorâneas dos índios tamoios em Cotina, Ocarantim, entre outras. Os missionários, muitas vezes, permaneciam semanas inteiras percorrendo os aldeamentos e lhes falando do Cristianismo por meio de intérpretes".
thumb|Escultura representando a primeira celebração eucarística protestante nas Américas, oficiada pelos pastores Rev. Pierre Richier e Rev. Guillaume Chartier em frente à Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro thumb|Conjunto escultórico representando João Calvino, Rio de Janeiro, Brasil Tanto nas solicitações encaminhadas a Coligny e Calvino quanto na própria recepção aos huguenotes, as reações de Villegaignon sempre foram as mais positivas possíveis. Segundo o colono Jean de Léry, testemunha ocular, ao chegarem os huguenotes, Villegaignon "os recebeu todo risonho, abraçando a todos".Apud Ferreira, A presença dos reformadores franceses no Brasil Colonial, p. 9. Quando da primeira celebração eucarística, ele foi o primeiro a comungar, professando, assim, diante de todos, a sua fé reformada".Apud Ferreira, A presença dos reformadores franceses no Brasil Colonial, p. 10. Osvaldo Rack apresenta uma viva descrição, com base no texto de Léry, da participação de Villegaignon num dos cultos:
Este espírito de paz e tolerância, no entanto, não durou muito. Em virtude de questões teológicas (que reproduziam as guerras religiosas que grassavam na Europa), Villegaignon passou a perseguir os colonos huguenotes. Um personagem importante desta mudança de atitude foi o ex-frade dominicano Jean de Cointac. Para ele, "a participação sacramental da Ceia não devia obrigar a pessoa a ser cristã de confissão calvinista, e, por outro lado, dizia ele que o sacramento do batismo devia seguir o rito católico romano".Hack, ‘’Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 131. Grupos de opiniões distintas passaram, então, a se confrontar. Villegaignon deixara de lado suas novas convicções calvinistas, pois, numa carta à Igreja Reformada de Genebra, assim se refere às doutrinas dos huguenotes: "esses delírios [a doutrina de Chartier] nos agitavam turbas enormes e quanto mais cuidadosamente se discutia, mais aparecia a vacuidade da doutrina" ".Carta de Villegaignon aos de Genebra, 6 de julho de 1560, apud Schalkwijk, "O Brasil na Correspondência de Calvino", pp. 126, 127. A conseqüência foi, primeiro, a proibição dos cultos dos calvinistas, depois suas reuniões de oração e, por fim, a sua expulsão do Forte Coligny.
Em virtude da expulsão, os calvinistas franceses entraram em contato direto com os tupinambás. Entre os expulsos estava o sapateiro Jean de Léry, que, mais tarde, descreveria suas experiências em seu livro Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil (1578).Léry, Viagem à Terra do Brasil.
Com a passagem de um navio que seguiria para França (o Les Jacques), os colonos expulsos resolveram retornar seu país. "Mesmo não se opondo ao embarque, Villegaignon enviou instruções secretas para serem entregues ao primeiro juiz em França, dizendo para que se executassem os huguenotes como traidores e hereges." " No entanto, estas instruções acabaram não servindo diretamente para alguns dos colonos, pois, ao perceber o risco de naufrágio, cinco deles – Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques Le Balleur – voltaram à terra firme.Matos, 'A "França Antártica". Villegaignon os aprisionou imediatamente e exigiu uma resposta, por escrito, em doze horas, a uma série de questionamentos teológicos. Os huguenotes presos ofereceram a resposta por meio da redação de um documento conhecido como Confissão de Fé da Guanabara.Transcrita em Crespin, A tragédia da Guanabara pp. 65-71.
Como os colonos reformados recusaram-se a abjurar suas convicções religiosas, Villegaignon os condenou a morte. "Bourdel, Verneuil e Bourdon foram estrangulados e lançados ao mar. André Lafon, sendo o único alfaiate da colônia, teve a vida poupada sob a condição de que não divulgasse as suas ideias religiosas". O único que conseguiu fugir foi Jacques Le Balleur.
Le Balleur chegou a São Vicente, onde pregou a fé cristã a partir do ponto de vista calvinista. Foi detido, por insistência dos jesuítas, e levado a Salvador, então capital da colônia, ficando preso entre os anos de 1559 e 1567. Por fim, foi levado para o recém fundado Rio de Janeiro e, sob as ordens do governador-geral Mem de Sá, condenado à forca. O carrasco, no entanto, recusou-se a executá-lo. Diante disso, o padre jesuíta José de Anchieta o teria estrangulado com suas próprias mãos.Rocha Pombo, História do Brasil, vol. 3, p. 514. Cf. Reis, O martyr Le Balleur. Rio de Janeiro, s/ed (1917); Ferreira, A presença dos reformados franceses no Brasil colonial, p. 12.
França Equinocial A França Equinocial foi o esforço francês de colonização no que hoje é o estado brasileiro do Maranhão. Muito curto, o empreendimento se deu entre 1612 e 1615 (apesar de novas tentativas de invasão francesa nos anos seguintes). Pode-se dizer que a "França Equinocial fora um empreendimento comercial católico que teve como principal chefe um protestante: La Ravardière".Mariz & Provençal, La Ravardière e a França Equinocial, p. 129.
De maneira semelhante ao que havia acontecido na tentativa anterior, também na França Equinocial "os huguenotes participaram ativamente na evangelização dos índios locais".Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês, p. 18. No entanto, não há grandes registros desta atividade calvinista no nordeste brasileiro. Segundo historiadores eclesiásticos, após o fim da invasão francesa, alguns dos huguenotes que permaneceram se converteram à Igreja Católica Romana.Jaboatão, Antonio de Santa Maria, Novo Orbe Seráfico Brasileiro (1761), apud Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês, p. 18.
Calvinismo no Brasil Holandês thumb|150px|Rev. Frederico Kesseler, pastor da Igreja Cristã Reformada do Recife, entre 1637 e 1643 A colonização holandesa do Nordeste brasileiro se concentrou na primeira metade do século XVII (primeira fase, entre 1624 e 1625; segunda fase, entre 1630–54). A segunda fase desta colonização, marcadamente nas cidades de Olinda e Recife, teve presença significativa da Igreja Reformada Neerlandesa.
Primeira fase (1624–25) Em 1621, os holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais, com o objetivo de conquistar e colonizar territórios economicamente lucrativos nas Américas.Matos, O Protestantismo no Brasil. Como consequência disto, uma expedição foi enviada à Bahia, em 1624.
Como os holandeses eram calvinistas, a Igreja Reformada se estabeleceu junto à colônia. O primeiro culto reformado na cidade de Salvador aconteceu em 11 de maio de 1624, e a vida da Igreja Reformada da Bahia foi efêmera, existindo por apenas um ano.Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês, pp. 100, 114. Com a expulsão dos holandeses, ainda houve um breve estabelecimento na Paraíba. O estudioso holandês (e professor no Brasil) reverendo Frans Leonard Schalkwijk oferece um relato sobre o início e o fim deste estabelecimento:
Dentre as poucas informações que se têm sobre o calvinismo brasileiro deste período, restam os nomes dos pastores da Igreja Reformada da Bahia: Rev. Enoch Sterthenius, substituído em 1625 pelo Rev. Jacobus Dapper; Rev. Johannes Neander, falecido na Bahia, substituído pelo Rev. Valentinus Artopaeus; Rev. J. C. Pick, Rev. J. Michaelis e Rev. H. Wisman.Schaldwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês, nota 3, p. 100.
Segunda fase (1630–54) A segunda fase das invasões holandesas foi uma colonização em todos os sentidos do termo. Espalhando-se por grande parte do território nordestino, o cristianismo calvinista era a religião oficial durante o domínio holandês. No entanto, havia liberdade religiosa (especialmente sob o governo de Maurício de Nassau) para os católicos e judeus.
O primeiro culto reformado nas imediações de Pernambuco foi realizado a bordo do navio do almirante Hendrick Lonck, em 14 de fevereiro de 1630. O culto foi oficiado pelo rev. Johannes Baers, e marca o reinício das atividades da Igreja Reformada em território brasileiro.Schaldwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês, p. 114.
A força da Igreja Reformada no Brasil se demonstra em sua organização no período. "Foram criadas vinte e duas igrejas locais e congregações, dois presbitérios (Pernambuco e Paraíba) e até mesmo um sínodo, o Sínodo do Brasil (1642–46)". Mais de cinquenta pastores (também chamados de "predicantes") calvinistas serviram nas paróquias organizadas.
Organização