O madurês(Bhâsa Madhurâ) é a língua falada pelo povo da ilha Madura na Indonésia; é também falada nas Ilhas Kangean, Ilhas Sapudi e no leste da província de Java Oriental. O madurês é classificado no grupo súndico das línguas malaio-polinésias ocidentais, um braço da família das línguas austronésia. O madurês era tradicionalmente escrito no período pré colonial com o alfabeto javanês, no entanto, atualmente, o alfabeto latino é o mais utilizado na produção de textos. Apesar de ser a quarta língua mais falada da Indonésia, seu número de falantes tem diminuído e segundo o censo de 2011 exitstem aproximadamente 8 milhões de falantes.

Etimologia O nome nativo da ilha é Polo Madhurâ e foi dado em homenagem a cidade de Madurai, que segundo a cultura Hindu é o lar da divindade de Azhagar. O endônimo da língua é Bhâsa Madhurâ e significa literalmente "Língua de Madura". Já o exônimo "Madurês" simplesmente é uma derivação do nome da ilha "Madura". miniaturadaimagem|Topografia da ilha de Madura

História

Disseminação e influências O madurês é uma língua falada pelo povo nativo das ilhas madura e tem diversas semelhanças com outras línguas faladas em regiões próximas como o javanês e o indonésio, língua oficial da Indonésia. A formação e o desenvolvimento da lingua foi fortemente influenciado pela colonização holandesa e as condições geograficas e climáticas da ilha. Isso se deve ao fato da ilha possuir um solo pobre em nutrientes e um baixo índice de chuvas durante o ano, fatores que dificultam muito a produção de alimentos. Desse modo, a ilha não consegue suportar uma grande quantidade de pessoas, o que causou diversas migrações para regiões vizinhas ao longo da história.miniaturadaimagem|povo madurês comemorando festa tradicional|esquerda

As primeiras populações a se deslocarem em larga escala da ilha migraram para regiões da Java Ocidental por volta do século XXVIII. Essas populações eram geralmente compostas por servos do reino de Majapahit e estavam a procura de terras agricultáveis para fortalecer seu reino. Posteriormente, houve outros fluxos de emigração sobretudo durante os séculos 16 a 19 devido a alianças com outros reinos e colonos holandeses.

Essas emigrações foram responsáveis tanto pela disseminação do idioma quanto pela sua modificação, uma vez que, após o período colonial o alfabeto mais comumente utilizado deixou de ser o javanês e passou a ser o latino. No entanto, hoje, a escrita no alfabeto javanês ainda é ensinada em escolas como forma oficial de escrita.

Registros sobre a língua Os estudos sobre o madurês são relativamente escassos em comparação com outras línguas. No entanto, existem várias publicações sobre o idioma, principalmente em inglês, holandês e indonésio. A maioria das pesquisas acadêmicas foi realizada na metade do século XX. H.N. Kiliaan destacou-se como o principal estudioso da língua nos séculos XVIII e XIX, graças às suas obras "Madoereesche spraakkunst" (Gramática do madurês), publicada em 1897, e "Madoereesche-Nederlandsch woordenboek" (Dicionário Madurês-Holandês), publicado em duas partes em 1904 e 1905.

Embora tenham sido realizados mais estudos sobre o idioma desde então, nenhum alcançou a extensão das obras mencionadas anteriormente. O estudo mais recente que abrange uma grande parte da gramática maduresa é "A Grammar of Madurese" de William D. Davies, publicado em 2010. Fonologia

Consoantes A lingua possui 27 fonemas consonantais descritos na tabela abaixo: +LabialDental/ AoveolarRetroflexaPalatalVelarGlotalOclusivap bt dʈ ɖc ɟk ɡʔNasalmnɲŋFricativafshFricativa aspirada surdapʰtʰʈʰcʰkʰVibrantel rAproximantewj

Vogais O inventário vocálico do madurês é composto por 8 fonemas descritos na tabela abaixo: +FrontalCentralPosteriorFechadaiɨ u ɤMédiaɛ əɔAbertaa

Ortografia thumb|Madurês escrito em alfabeto javanês O madurês jaá foi escrito em diversos sistemas de escrita ao longo dos anos, usava no período anterior a colonização holandesa o alfabeto javanês para produzir escrita. No entanto, haviam algumas limitações na utilização de sistema, pois o madurês possui mais fonemas do que o alfabeto javanês era capaz de oferecer, os fonemas vocálicos eram especialmente incompatíveis. Então, após o período de colonização na região, devido ao contato com povos ocidentais, principalmente holandeses, houve uma mudança no sistema de escrita utilizado, que passou a ser o alfabeto latino, utilizado até hoje. Desse modo, para conseguir abranger todos os sons da língua, houve diversas mudanças ao longo dos anos nos símbolos utilizados para representar cada som. O acordo ortográfico mais recente se encontra na tabela abaixo +símbolofonemappbhpʰbbttdhtʰddṭ ʈ ḍhʈʰccjhcʰjɟkkghkʰgɡ'ʔhhmmnnnyɲngŋssrrllyjwwffvvzziièɛaaâɤeəuu oɔ

Gramática miniaturadaimagem|Distribuição das línguas austronésias A gramática do madurês possui muitas semelhanças com línguas próximas da mesma família como javanês e indonésio, possuindo palavras e estrutura frasal semelhantes. Assim, como outras línguas austronésias, algumas classes lexicais não são tão bem definidas, especialmente no que diz respeito as classes variáveis como verbos, adjetivos e substantivos. Desse modo, é muito importante identificar as características que diferem cada uma dessas classes.

Pronomes Pronomes no madurês são constituídos por apenas três pessoas do discurso, a primeira, a segunda e a terceira pessoa. Os pronomes utilizados variam consideravelmente de acordo com o dialeto falado, no entanto possuem o mesmo significado.

Pessoais {| class="wikitable" |+ !Pronome !Pessoa !Exemplo em uma frase !Tradução |- |sengko', engko', aba|1° |Me' ce' aman-na aba' |Eu tenho uma sensação de bem estar |- |ba'na, ba'en, ba'eng, kake, sedha |2° |Ngarte ba'eng iya |Você entende, certo? |- |aba'na, aba'eng, dibi'na, dibi'eng |3° |Tape dibi’eng nolak karana gilo’ tao dha' kabin. |Ela recusou, pois ainda não sabia sobre o casamento |- |sengko' kabbi |Nós

|ba'na kabbi ‘ |Vós

|aba'na kabbi |Eles

A raiz nominal aba' significa corpo e é utilizada para construir a 1ª, 2ª e algumas formas da 3ª pessoa do discurso. A forma mais comum da 2° pessoa é ba'na. Na madura ocidental a forma ba'eng também é utilizada e ba'en é mais comum na Madura Central. Embora pertençam à terceira pesoa aba'na e aba'eng tamb´pem são frequentemente utilizados como pronomes de 2ª pessoa. As formas dominantes da terceira pessoa são aba'na e aba'eng. Dibi'na e dibi'eng, derivadas da raiz dibi' 'sozinho', também são utilizadas, porém em menor medida. A forma plural dos pronomes é pouco utilizada e é construída utilizando o quantificador "kabbi" (todos) ou através da reduplicação do termo 'aba.

Substantivos A categoria dos substantivos pode ser distinguível de outras classes como adjetivos e verbos, porque esses podem receber prefixos exclusivos, como o prefixo -sa, que indica "muitos", "mesmo" ou "um". Os substantivos que não se referem a pessoas não possuem distinção de gênero. Exemplo: {| class="wikitable" |+ !Palavra !Tradução !Forma com "-sa" !Tradução da forma com "-sa" |- |benko |casa |sabenko |Todas as casas/a mesma casa |- |saba |campo |sasaba |Todos os campos/ o mesmo campo |- |bapa|pai |sabapa|Todos os pais/o mesmo pai |- |toles* |escrever

|penter* |inteligente

*Essas palavras não são substantivos e, portanto, não podem receber "-sa".

Assim, algumas palavras que em sua raíz não são substantivos podem sofrer derivação e se comportar como tal. Exemplos: +Palavra originalTraduçãoSubstantivo derivado da palavraTraduçãosubst. derivado com prefixoTraduçãotolesescrevertolesanescritasatolesantoda a escritapenterinteligentekapenterraninteligênciasakapenterrantoda a inteligência Outras classes gramaticais não podem ser negadas com o morfema "banne" (não/sem). {| class="wikitable" |+ !Palavra !Tradução !Palavra "negada" !Tradução |- |bengko |casa |banne bengko |sem casa |- |saba |campo |banne saba |sem campo |- |''bapa |pai |banne bapa |sem pai |- |toles*|escrever

|penter*|inteligente

*Essas palavras não são substantivos e, portanto, não podem receber "banne".

Novamente, as palavras que não são originalmente substantivos, mas que sofrem derivação podem se comportar como tal. Exemplos Palavra originalTraduçãoSubstantivo derivado da palavraTraduçãosubst. derivado "negado"Traduçãotolesescrevertolesanescritabanne tolessem escritapenterinteligentekapenterraninteligênciabanne kapenterransem inteligência

Verbos Estabelecer distinções entre raízes verbais é desafiador devido à morfologia que frequentemente deriva verbos de substantivos, adjetivos e outras raízes, complicando a diferenciação entre morfologia derivacional e flexional. Essa complexidade é evidente na linguística maduresa, onde a maioria dos verbos é derivada, dificultando a distinção entre classes de raízes léxicas. No entanto, certas características parecem ser exclusivas dos verbos.

Por exemplo, apenas os verbos podem receber o prefixo -ta que signica "por engano" ou "acidentalmente". +VerboTraduçãoAdição de prefixo -taTraduçãotolesescrevertatolesescrever acidentalmentebuwangdescartartabuwangdescartar acidentalmentemoleir para casatamoleir para casa por engano Verbos também podem receber o modal "bisa" que indica permissão para alguma ação. Exemplos: +FraseTraduçãoMored reya bisa ngarte (Estudante esse pode entender)Esse estudante pode entender Mored reya bisa entar (Estudante esse pode ir)Esse estudante pode irMored reya bisa mangkat (Estudante esse pode sair)Esse estudante pode sair

Tempo No madurês o verbo pode receber palavras auxiliares que modificam o tempo da ação. Por exemplo, pode-se adicionar laggu' (amanhã) ou bakal (vai) antes do verbo para se modificar o tempo do verbo. Já para denotar uma ação que foi completada no passado pode-se utilizar o auxilar mare que indica a finalização de uma ação. +FraseTraduçãoBapa' mangkat ka Jember laggu' (Pai deixar para Jember amanhã)Pai vai deixar para o Jember amanhãDeni bakal nompa’ sapedhana (Deni vai pilotar bicicleta)Deni vai andar de bicicletaIta mare a-sassa klambi-na (Ita terminou lavar roupas)Ita lavou as roupas

Modo e Aspecto A distinção entre modo tempo e aspecto não é bem definida na língua. A adição de palavras auxiliares definem condições aos verbos, indicando o modo e a duração do verbo. A construção das formas verbais é realizada por meio da adição do auxiliar antes do verbo. {| class="wikitable" |+ !Palavra !Tradução literal/ Ideia transmitida !Exemplo em uma frase !Tradução |- |gi |ainda/em progresso |Mon gi' ngodha, barnana biru(Se ainda jovem, cor verde) |Se ainda é jovem, sua cor é verde |- |gi|ainda/ gerúndio (apenas em verbos de ação) |Tang ana' gi' asapo kamarra (Minha criança ainda limpa quarto) |Minha criança está limpandoseu quarto agora |- |sateya |agora/ocorre imediatamente |Tang ana' a-sapo kamar-ra sateya (Minha criança limpa quarto agora) |Minha criança limpa seu quarto agora|- |gi' buru |ainda agora/ação que acaba de ser completada |Sa'diyah gi' buru dhateng (Sa'diyah ainda agora chega) |Sa'diyah acabou de chegar |- |buru |ainda agora/ação que acaba de ser completada |Sa'diyah buru dhateng (Sa'diyah ainda agora chega) |Sa'diyah acabou de chegar |- |gita', gilo|ainda não |Sengko' gilo' maca buku juwa. (Eu não ainda li livro aquele) |Eu ainda não li aquele livro |- |kera|penso, acho/futuro conhecido |Marlena kera entar dha' Jakarta minggu adha(Marlena vai ir para Jakarta semana

seguinte) |Marlena vai para Jacarta na semana que vem |- |kodu |deve, deveria/hipótese, obrigação |Hasan kodu alako pole sateya (Hasan deveria trabalhar de novo agora) |Hasan deveria ir para o trabalho agora |- |osa |preciso/necessidade |Lo' osa nyambi kerres koca'-eng (Não necessário trazer Kris, dizem) |Não é necessário trazer um kris, eles dizem

Evidencialidade Alguns elementos podem ser considerados como um tipo de evidencialidade gramatical. São estes: +PalavraTradução literal/ Ideia transmitidaTipo de evidencialidadekodudeve, deveriainterferencialkoca'engeles dizemboato (reportativo)