A Filosofia da Libertação (FdL) é um movimento Filosófico que analisa os processos de domínio, opressão, exclusão...e busca teorizar a práxis para a libertação integral de povos e comunidades. Considerada uma filosofia de Práxis. A FdL se preocupa em analisar o processo que leva de um estado ao outro. Por causa desse foco em atividades prática, a Filosofia da Libertação é considerada um movimento ao invés de uma escola de filosofia.

Segundo o autor Hugo Allan Matos, a filosofia da libertação, além de querer libertar o pensamento em geral e a filosofia em particular do helenocentrismo e eurocentrismo, dentre outras coisas, assume o objetivo de:

"...identificar, classificar, denunciar... os mecanismos pelos quais somos dominados, explorados, enganados, também no campo político. Contudo, esse novo objetivo deve ser perseguido não com o partidarismo, ou seja, criação ou engajamento em partidos e/ou grupos específicos, mas como filósofo(s)...".

A Filosofia da Libertação, também conhecida como Filosofia latino-americana nasce como movimento filosófico na América Latina, inclusive foi o primeiro movimento que problematizou a possibilidade de uma Filosofia Latino-Americana e por isso, há uma discussão se a Filosofia Latino-Americana só o é, se Filosofia da Libertação, Leopoldo Zea escreve: "Filosofia Latino-Americana como Filosofia da Libertação".

Enquanto movimento filosófico, os caracteres decolonial, feminista, antirracista, intercultural, revolucionário...estão impregados no que se entende como Princípio Libertação. que como citado é a libertação de qualquer forma de domínio, exclusão ou opressão possíveis.

História É possível traçar uma história de Pensamentos de Libertação desde a Invasão Europeia .Segue uma breve linha que visa apenas citar pensadoras e pensadores que se inscrevem na história da Filosofia Latino-Americana como Pensamento de Libertação ou que apesar de não se inscreverem como tal, de alguma maneira direta ou indiretamente dialogam com o pensamento de Libertação e/ou são frequentemente citados, citadas, nos textos desta tradição de séculos. A divisão aqui é estritamente pedagógica e tenta nomear não tão cronológicamente uma linha que é complexa, plural.

1. Século XVI: O Grito da Alteridade e a Crise da Consciência Colonial O pensamento de libertação nasce no exato momento em que o "Eu" europeu tenta anular o "Outro" "americano".

Antón de Montesinos: O marco zero é geralmente é visto em seu sermão de 1511 (Ego vox clamantis in deserto), que questiona a base ontológica da conquista: "Estes não são homens? Não têm almas racionais?". miniaturadaimagem|Frei Bartolomeu de las Casas (1484-1566)Bartolomé de las Casas: Evolui da denúncia para uma defesa jurídica e teológica da alteridade. Sua obra Brevíssima Relação da Destruição das Índias é o primeiro tratado contra a totalidade opressora.

Inca Garcilaso de la Vega: Em Comentarios Reales de los Incas, opera uma "tradução cultural". Como mestiço, ele reivindica a racionalidade do sistema incaico, desafiando a ideia de barbárie.

Anacaona (Resistência Taína): No campo da práxis histórica (essencial para a genealogia feminina), a cacique Anacaona representa a resistência política e cultural contra a imposição espanhola, sendo um símbolo de dignidade e recusa à submissão. Guaman Poma de Ayala: Em sua Nueva Corónica y Buen Gobierno, ele utiliza o desenho e a escrita para denunciar o "mundo ao avesso" criado pela colonização, propondo uma reforma que respeitasse a autonomia indígena.

2. Século XVII e XVIII: Razão Crítica, Resistência e Hibridismo Neste período, a libertação transita para a defesa da capacidade intelectual e do direito à história própria.

Sor Juana Inés de la Cruz: A "Fênix do México" é pilar fundamental. Sua Respuesta a Sor Filotea de la Cruz é um manifesto de libertação intelectual da mulher. Ela questiona o patriarcado e a estrutura de saber colonial, defendendo o direito ao conhecimento como ato de liberdade.

Aqualtune (Séc. XVII): Princesa do Congo e estrategista política fundamental na gênese do Quilombo dos Palmares. Dandara dos Palmares (m. 1694): Guerreira estrategista do Quilombo dos Palmares, símbolo da recusa absoluta à escravidão. Bartolina Sisa (c. 1750–1782): Heroína indígena Aymara que liderou revoltas contra o domínio colonial no Alto Peru.

Gregório de Matos (Brasil): Embora satírico, sua crítica à exploração econômica e à hipocrisia da metrópole em relação à colônia pode ser lida como uma semente de consciência nacional.

3. Século XIX: Emancipação Política e Pedagogia Social Com as independências, o foco se torna o "desenodamento" das correntes "mentais" que sobreviveram ao fim do estatuto colonial.

Simón Rodríguez: Mentor de Bolívar, ele afirmava: "Ou inventamos, ou erramos". É o precursor de uma educação libertadora, focada na realidade americana e não na cópia europeia.

José Martí: Seu ensaio Nuestra América é o divisor de águas. Martí introduz a ideia de que o "bom governante" é aquele que conhece os elementos do seu próprio país, denunciando o perigo do imperialismo cultural e econômico. Juana Azurduy (1780–1862): Líder militar nas lutas de independência da região andina. Juan Bautista Alberdi (1810–1884): Político e pensador argentino, central na reflexão sobre a emancipação mental.

Nísia Floresta (Brasil): Pioneira no feminismo libertador. Em Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, ela conecta a libertação feminina à educação, tratando a opressão de gênero como uma extensão das injustiças sociais da nação. miniaturadaimagem|Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) Luísa Mahin (Séc. XIX): Liderança negra na Revolta dos Malês, guardiã da resistência subjetiva e política na diáspora.

Flora Tristan: De origem peruana e francesa, ela vincula a libertação da classe operária à libertação da mulher, antecipando em décadas a união entre a luta social e a de gênero que marcaria a filosofia posterior. Simón Bolívar (1783-1830): Pan-americanismo. Idealizou a união dos povos latino-americanos como estratégia de soberania contra o imperialismo.

4. Século XX: A Filosofia Brasileira e o Pensamento Social como Pensamento Latino-Americano e de Libertação Pensadoras e pensadores anteriores, concomitantes, em diálogo ou não, com os pensamentos de libertação, passam a utilizar esta categoria de libertação (e decolonialidade). Diversas autoras e autores pensam a partir de seu próprio lugar, aplicando ou criticando às ideias eurocêntricas, formando o que hoje geralmente é classificado como Pensamento Latino-Americano e de Libertação.

José Carlos Mariátegui: Com os 7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, ele "provincializa" o marxismo europeu, afirmando que a revolução na América Latina deve passar pela questão indígena e pela terra. W.E.B. Du Bois (1868–1963): Sociólogo e historiador, organizador dos primeiros Congressos Pan-Africanos (1919).

Clorinda Matto de Turner: Autora peruana fundamental. Em seu romance Aves sin nido, ela faz uma denúncia visceral da exploração dos indígenas pelo clero e pelo Estado, sendo uma voz de libertação social através da literatura. Emiliano Zapata (1879–1919): Líder da Revolução Mexicana, símbolo da luta pela terra e liberdade. José Gaos (1900–1969): Filósofo exilado no México que defendeu o pensar a partir da própria circunstância. C.L.R. James (1901–1989): Intelectual de Trinidad e Tobago, autor fundamental sobre as lutas negras internacionais. Raul Prebisch (1901–1986): Economista da CEPAL, formulador da tese sobre a deterioração dos termos de troca. George Padmore (1903–1959): Ativista pan-africano e organizador do Congresso de Manchester em 1945. Josué de Castro (1908–1973): Autor brasileiro que denunciou a geopolítica da fome como estrutura colonial. Kwame Nkrumah (1909–1972): Primeiro líder do Gana independente e figura central do pan-africanismo.

Lélia Gonzalez (Raízes da Amefricanidade): Embora sua obra máxima seja posterior, o pensamento que ela resgata sobre a resistência negra e o feminismo negro no Brasil é vital para entender a libertação como uma luta contra a "colonialidade do poder". Orlando Fals Borda (1925–2008): Sociólogo colombiano criador da Pesquisa-Ação Participativa. Milton Santos (1926–2001): Geógrafo brasileiro que analisou a permanência colonial a partir do sistema-mundo. Alberto Guerreiro Ramos (1915–1982): Sociólogo brasileiro que propôs a "Redução Sociológica" contra o transplante de ideias. Aníbal Quijano (1930–2018): Formulador do conceito de Colonialidade do Poder e da classificação racial mundial. Franz Hinkelammert (1931–2023): Referência na Economia da Libertação e na crítica à idolatria do mercado. Celso Furtado (1920–2004): Economista brasileiro que sistematizou o subdesenvolvimento como estrutura autônoma.

Ruy Mauro Marini (1932–1997): Expoente da Teoria Marxista da Dependência e do conceito de superexploração. Theotônio dos Santos (1936–2018): Um dos fundadores da Teoria Marxista da Dependência. Bento Prado Júnior (1937–2007): Filósofo brasileiro citado por Safatle sobre a leitura generosa de autores. miniaturadaimagem|Álvaro Vieira Pinto (1909-1987)Roberto Schwarz (n. 1938): Crítico literário brasileiro que formulou as "ideias fora de lugar". Vânia Bambirra (1940–2018): Cientista política fundamental na Teoria Marxista da Dependência. Ignacio Martín-Baró (1942–1989): Psicólogo social da libertação, mártir em El Salvador. Beatriz Nascimento (1942–1995): Historiadora brasileira que resgatou o quilombo como categoria de libertação. O ISEB, com ênfase em Álvaro Vieira Pinto (1909-1987), que como expõe o filósofo Breno Augusto da Costa, entende o conceito de Liberdade como Libertação. Vieira Pinto também foi uma das principais referências filosóficas de Paulo Freire, que por sua vez foi uma das matrizes da escola da filosofia da libertação.

5. A Década de 1960: A Formalização do Movimento Aqui, todos os fios anteriores se enodam para criar a estrutura que conhecemos.

miniaturadaimagem|Enrique Dussel (1934-2023)Leopoldo Zea (1912–2004): Defensor da originalidade da filosofia latino-americana e da emancipação mental.

Augusto Salazar Bondy: Com a pergunta "Existe uma filosofia de nossa América?", ele diagnostica que nossa filosofia era inautêntica porque nossa cultura era dependente.

Enrique Dussel: Sistematiza a Ética da Libertação. Ele lê o rosto do oprimido como o "Lugar Teológico" e filosófico. A exterioridade (o Outro) é quem revela a injustiça do Sistema. Dina Victoria Picotti (1936–2025) foi uma influente filósofa, educadora e escritora argentina, reconhecida como uma das figuras centrais da Filosofia da Libertação e da filosofia intercultural na América Latina. Hugo Assmann: Destaca-se pela intersecção entre Teologia e Economia. Critica a "idolatria do mercado" e reflete sobre a dimensão ética das necessidades vitais. Arturo Andrés Roig: Foca na História das Ideias na América Latina e no "a priori antropológico" (o reconhecimento de nós mesmos como sujeitos da nossa própria história). Propõe a "Segunda Independência" (mental e cultural). Raúl Fornet-Betancourt: Principal expoente da Filosofia Intercultural. Defende o diálogo entre as diversas matrizes culturais (indígenas, africanas, europeias) sem a hegemonia de um centro.

Paulo Freire: Transforma a libertação em método. A educação deixa de ser depósito (bancária) para ser diálogo. A conscientização é o processo de "desatar os nós" da opressão.

Maria Lugones e Rita Segato: Embora consolidem suas obras mais tarde, elas bebem dessa fonte para criar o Feminismo Decolonial, criticando a Filosofia da Libertação quando esta esquece as especificidades da opressão de gênero na periferia.

6. Contemporaneidade Na atualidade, diversos pensadores e diversas pensadoras têm refletido lançando mão de categorias e conceitos que podem ser remetidos ao paradigma da libertação. Walter Mignolo (n. 1941): Semiólogo argentino central no grupo Modernidade/Colonialidade