thumbnail|200px|Castelo de Soutomaior, Residência da família nobre dos Soutomaior

Pedro Álvarez de Soutomaior, conhecido como Pedro Madruga (? – Alba de Tormes, 1486), foi uma das figuras mais notáveis do medievo galego, protótipo de cavaleiro feudal.

Foi um homem de origem bastarda e contra todos os prognósticos, alçou-se ao mais alto escalão da linhagem dos Soutomaior.Os ecos dos seus feitos promoveram dezenas de estudos sobre a sua figura e o seu tempo. Foi um acérrimo inimigo de Alonso II de Fonseca e defensor dos direitos sucessórios de Joana, a Beltraneja, ao trono do reino de Castela.

A figura de Pedro Madruga thumb|250px|Castelo de Soutomaior, residência da família nobre dos Soutomaior.

Dom Pedro Álvarez de Soutomaior foi uma das figuras mais controvertidas da Galiza feudal. Muito se tem escrito sobre os seus modos e ações. Vasco de Aponte, cronista galego de começos do século XVI, narra os acontecimentos desse período tão convulsionado:

"[Pedro] era mui mañoso, y sutil, y mui sabio, y mui sentido en cosas de guerra, era mui franco, y trataba bien a los suyos, y era muy cruel con sus enemigos, comía mucho de lo ageno, era uno de los grandes sufridores de trabajos que habia en España toda, ni por que lluviese, ni nevase, ni elase, ni porque hiçiese todas las tempestades del mundo, no dejaria de haçer sus echos, ni daría un cornado por dormir fuera en invierno ni en casa cubierta. Donde no hallase ropa, sabía dormir ençima de una tabla".

Era filho bastardo, de Fernán Yáñez de Sotomaior com uma familiar da condessa de Ribadavia, provavelmente uma irmã ou uma prima. Sendo filho ilegítimo, o pai procurou proporcionar-lhe um futuro tranquilo na carreira eclesiástica, fazendo de Esteban de Soutelo professor de seu filho. Até mesmo Henrique IV de Castela citou o seu nome para ocupar a Mitra Compostelana, então em mãos dos Fonseca, família que não mantinha boas relações com a Coroa. De fato, o citado monarca considerava os Soutomaior necessários para frear o arcebispo de Santiago.

Após o falecimento de Fernán Yáñez, sucedeu-o no morgado o seu legítimo primogênito, Alvar Páez de Soutomaior, casado com Dona Maria de Ulloa. O seu mandato não esteve isento de confrontações com os Sarmiento, inimigos acérrimos dos Soutomaior. Os interesses de ambas as casas chocavam frontalmente pelo controlo do Sul da atual província de Pontevedra. Mas o matrimônio não teve filhos, e Alvar Páez legitimou o seu meio-irmão, Pedro, em 1468, herdando este contra os desejos de seu pai, que se negava a que um bastardo ocupasse o mais alto escalão familiar.

Os Irmandinhos thumbnail|350px||Os soldados de Pedro Álvarez usavam modernos arcabuzes na segunda guerra irmandinha. O da imagem é de 1425. thumb|Afonso V de Portugal ajudou Pedro Madruga. thumb|Cena de batalha medieval.

Neste mesmo ano a figura de Pedro Madruga entraria no panorama político e militar da Galiza, justo quando a Segunda Guerra Irmandinha (1467-1469) eclodia e varria do panorama o poder da nobreza. Farto das injustiças e desmandos da classe dirigente, o Terceiro Estado (apoiado por fidalgos e membros do baixo clero) ergueu-se em armas contra seus senhores. E durante dois anos ficaram com o poder efetivo do território demolindo quanta fortaleza aparecia ao seu passo. Não se analisam aqui as causas do alçamento irmandinho, como também não as diferentes fases do conflito bélico. Interessa mais a contra-ofensiva da nobreza e seus efeitos, onde a figura a estudar teve um papel decisório.

Ao começo da revolta Irmandinha, Alvar Páez encontrava-se na vila de Tui, onde sua linhagem tinha postos grandes interesses no seu controlo. Ali provavelmente foi o palco do seu reconhecimento como morgado dos Soutomaior. Assediado pela irmandade, Pedro foge para Portugal, onde bons valedores o aguardavam, e nessa mesma vila morrerá seu irmão. Neste período contrai núpcias com Teresa de Távora, filha do cavaleiro Álvaro Pérez de Távora, fidalgo português de certa importância.

Rematada a instabilidade da nobreza entre os nobres partidários do monarca e a liga desafeta a este, a nobreza galega começou a manter contatos visando coordenar uma ofensiva sobre a Galiza e recuperar o poder ; nascia assim uma confederação da nobreza onde se inscreveram aqueles que até o momento estiveram ensarilhados em guerras privadas, acérrimos inimigos. Chegados a um acordo, decidiu-se atacar com três exércitos que penetrariam no território galego por três frentes:

Pedro Madruga, graças à colaboração do rei português Afonso V e do seu sogro, reunira um exército misto de galegos e portugueses e entrou pelo Sul da Galiza desejando reunir-se em Compostela com o arcebispo Fonseca e Juan de Pimentel (irmão do conde de Benavente). De Salamanca partiu o arcebispo Fonseca, à cabeça de um segundo exército acompanhado do citado Pimentel e outros cavaleiros da cidade castelã. O terceiro contingente parte de Ponferrada, comandado pelo conde de Lemos (D. Pedro Álvarez Osorio) acompanhado pelo marechal Pero Pardo de Cela, com o objetivo de chegar até Monforte.

Mas o protagonismo absoluto recaiu no de Soutomaior, cuja iniciativa e ferocidade em combater os irmandinhos foram destacáveis. O primeiro obstáculo a sortear tomou o nome da Framela ou Famela, castro situado no concelho de Cotobade e do que previsivelmente se valeriam os irmandinhos para acometer o Soutomaior. Vasco de Aponte que relata o acontecido:

"Salio Pedro Alvarez de Portugal con muchos de sus vasallos (…) y con esos y sus amigos juntó çien lanças y dos mil peones poco más o menos (…) los de la comunidad y del obispado de Tuy y Orense y del arçobispo de Santiago (…) se le atravesaron delante en el camino (por lo menos serían quatro mil o çinco mil villanos) (…), como buen cavallero esforço los suyos y acometió a los otros de tal manera que los vençió (…). Esta fue la da Famela o da Framela."

O seguinte confronto foi Pontevedra, que apresentou batalha a Pedro Madruga comandada por Lope Pérez Mariño, da linhagem dos Lobeira. Desta ocasião sorteou-se o obstáculo menos expeditivamente. Provavelmente em inferioridade numérica e canso depois do encontro anterior, Pedro Madruga botou mão do engenho e com uma simples treta burlou a ferocidade do adversário que se amparou atrás dos muros da cidade:

"… puso su gente en ordenança, delante de la qual para escudarse puso lanças largas y ballesteros, y en pos de ellos los cavalleros pegados a ellos, y yendo más adelante, y él acerca dellos."

Assim passaram junto aos muros na baixa-mar, seguindo sem oposição até a cidade arcebispal. Fonseca e João de Pimentel mantinham a cidade sob assédio quando dom Pedro Álvarez de Soutomaior parou na cidade arcebispal. Ante eles apresentava batalha Pedro Osorio com um exército de mais de 10 000 homens Vasco de Aponte: que tenian de diez mil hombres acima entre fidalgos e vilãos. Ante a indecisão do Fonseca e do Pimentel, Pedro Madruga recrimina-lhes sua atitude e arremeteu contra o exército inimigo ganhando o decisivo lance. Os autores situam este triunfo num lugar chamado Balmacige (ou a Álmaciga, como aponta algum autor), lugar perto de Santiago. A descrição que faz deste episódio Aponte põe em relevo a ousadia e descaro do de Soutomaior, que faz alarde da fama que o precederá ao longo da sua convulsa vida:

"Aqui somos entre gallegos, portugueses y castellanos treçientas lanças; arremetamos a Don Pedro, que si le desbaratamos, todos los otros fugiran. Y dicho esto se armó de presto com unas armas mal bruñidas, y vestido de ropas bajas porque no le conoçiesen, salió al campo dando voçes: A Don Pedro, a Don Pedro; y todos juntos los suyos arremetieron a los contrarios tan reçiamente que no los osaron esperar en el campo. Y fugiendo Don Pedro todos fugieron, de manera que quantos pudieron ser alcançados quedaron unos muertos, otros feridos o presos;…"

Após esta façanha, o exército da irmandade tinha os dias contados. A partir daqui ajudaria os seus aliados a recuperar seus domínios.

A morte da Condessa de Santa Marta thumb|250px|right|Castelo de Ribadavia, pertencente à família Sarmiento.

Teresa de Zúñiga possuía o senhorio das terras de Ribadavia após enviuvar de dom Diego Pérez Sarmiento, falecido em 1465. Quando a revolta irmandinha se alçou na Galiza, a nobre Teresa adotou uma estratégia de achegamento aos Irmandinhos visando libertar-se da pressão da que era objeto por parte de alguns senhores que pretendiam apoderar-se dos seus senhorios: Sancho de Ulloa, Diego de Andrade e Pero Pardo de Cela. Mas não conseguiu o que desejava, e atraiçoando os dois primeiros, capturou-os em Melide e exilou-se com os prisioneiros em Mucientes (Valladolid), onde possuía senhorio.

Em 1470, derrotados os irmandinhos pela reação da nobreza e acaudilhados por Pedro Madruga, Teresa de Zúñiga decidiu libertar os cativos e voltar para a Galiza desejando tomar posse do senhorio de Ribadavia no nome de seu filho, Bernardino Sarmiento, em minoria de idade. Segundo nos relata Vasco de Aponte, Zúñiga não era uma excelente diplomática, e foi sua atitude pretensiosa e com pouco tato a que a levou à tumba; pois seus vassalos, após dois anos livres das pressões e injustiças senhoriais, não permitiram este comportamento que lembrava anos pretéritos, e mataram-na: "(…) su tia, se avenia mal com los suyos por sinraçones que les haçia… ". É provável que tal senhora fosse lanceada e arrastada pela praça da vila junto com o seu meirinho Pedro Ojea.

Depois deste episódio entrou em cena Pedro Madruga. O Soutomaior já fora advertido pela condessa da sua chegada a Ribadavia; num primeiro momento, seu sobrinho, Sancho de Ulloa, comprometera sua palavra de que lhe ajudaria a recuperar suas terras uma vez que a condessa o libertasse, contudo, chegados à Galiza, pareceu esquecer a promessa. Assim recorreu ao outro sobrinho, Pedro Madruga. A repressão que levou a cabo o Soutomaior foi muito dura e cruenta:

"… hiço matar a unos, y a otros cortar pies, y a otros prender. Y prendió al abad de San Croyo y trájolo por la villa de Rivadavia ençima de un asno y con una resta de ajos al pescueço."

thumb|250px|right|Igreja do Mosteiro de San Clodio ao que pertencia o abade objeto da ação de Madruga.

O Madruga era célebre pelos métodos expeditivos aos que costumava . É destacável sublinhar neste ponto a humilhação à que é submetido o abade do Mosteiro de San Clodio do Ribeiro; algum autor indica que talvez o caudilho feudal mantivesse algum tipo de contencioso com o abade, ou talvez este fosse uma sorte de instigador do assassinato da condessa.

Após o castigo infringido contra o campesinato e o citado abade, Pedro Madruga levou a cabo uma ação mais no castelo de Ribadavia. É provável que junto a ele permanesse na fortaleza o senhor de Sobroso, Diego Sarmiento de Soutomaior, em qualidade de familiar da falecida. As relações entre ambos senhores feudais não eram boas, e as suas disputas pelo controlo do Sul da Galiza eram contínuas.

Um emissário do arcebispo compostelano Fonseca chegou ao castelo portando uma missiva de seu senhor para Diego Sarmiento, encontrou-se com Madruga e este, inquirido pelo emissário se ele era Dom Diego, respostou afirmativamente. Na mensagem em questão o arcebispo instava Diego Sarmiento e os seus a que se aviessem ao seu bando e matassem Pedro Madruga. Sem mais dilações, Pedro Madruga tomou a iniciativa e cortou a cabeça ao Sarmiento. Também tentou pegar e degolar os principais seguidores do nobre, mas estes conseguiram fugir . Deste episódio fala um notário de Pontevedra interrogado durante o pleito Tabera - Fonseca: