A língua quicuia ou simplesmente quicuio (gafada gikuyu nas línguas bantas, com base no nome nativo gĩkũyũ) é uma língua banta pertencente à família das línguas nigero-congolesas falada primariamente pelos quicuios do Quênia. O quicuio é uma das cinco línguas do subgrupo kikuyu-kamba (anteriormente thagiicu) das línguas bantas que se estende do Quênia à Tanzânia. Há aproximadamente 8,2 milhões de falantes do quicuio (15% da população do Quênia), formando assim o maior grupo étnico desse país. A língua quicuia é falada na zona entre Nieri, Nairóbi e Nakuru. Os quicuios distinguem as suas terras pelos limites da cadeia montanhosa do Quênia Central, incluindo o Monte Quênia, a que chamam de Quiriniaga, ou "a montanha brilhante". A língua atualmente está ativa, apesar de não ser considerada oficial, e seu uso em meios digitais é cada vez maior. Os sistemas de escrita utilizados são o alfabeto latino e a escrita gicandi.
O quicuio se desenvolveu na região central do Quênia com a chegada de migrantes falantes de proto-bantu durante a expansão banta. Além das línguas vizinhas da família kikuyu-kamba, também recebeu influências de línguas cuxíticas e principalmente da língua maa e do suahili, além do inglês durante o período colonial e línguas faladas no Grande Vale do Rifte, com as quais alguns falantes tiveram contato durante os eventos da diáspora quicuia. O quicuio apresenta quatro dialetos principais, que possuem subdivisões.
A língua quicuia apresenta interessantes fenômenos fonológicos, dentre os quais pode-se destacar a harmonia vocálica, a lei de Meinhof (em que uma consoante plosiva vozeada se torna uma consoante nasal por assimilação) e a lei de Dahl (consistindo, nesse idioma, na substituição de // por // em algumas situações). Essa língua é tonal, apresentando dois tons, um alto e um baixo, e fenômeno de "downstep".
Etimologia thumb|Sicômoro, a figueira que deu origem ao nome "quicuio" A palavra "gĩkũyũ" deriva do nome do herói de um mito de criação quicuio, que por sua vez vem do nome dado a uma figueira sicômoro sagrada, Mukuyu. Gikuyu, gekoyo, kikuyu, quicuio e kuyu são variações da escrita. Em quicuio, o prefixo "gĩ" é adicionado para se referir a um idioma, resultando em "gĩgĩkũyũ" ([ɣēɣēkōjó]).
O povo quicuio tradicionalmente acreditava em um ser supremo (Ngai, termo que significa o deus criador e foi emprestado da língua maa, sendo utilizado também pela língua camba), que vivia no Monte Quênia. Os quicuios ofereciam preces e sacrifícios a Ngai em locais sagrados determinados, como o topo de montanhas e colinas ou embaixo de certas árvores. Os sacrifícios eram conduzidos pelos membros da geração dominante, que escolhiam sacerdotes especiais para cada ocasião à medida em que apareciam.
A crença afirmava que Ngai criou e colocou no mundo o primeiro homem, Gĩkũyũ, e a primeira mulher, Mumbi. Os quicuios acreditam que descendem desse casal. De acordo com o folclore, certo dia Ngai teria aparecido para Gĩkũyũ e lhe oferecido as terras a sudeste do Monte Quênia.
O casal foi abençoado com dez filhas, mas nenhum filho. Quando as filhas cresceram, elas pediram ao seu pai que rogasse a Ngai que lhes desse maridos. Ele então disse às filhas que fossem até a árvore Mukuyu, onde cada uma cortaria um pedaço de corda do tamanho de sua altura. Nove das filhas o obedeceram. Gĩkũyũ então depositou as cordas de baixo de outra árvore, Mugumo (uma figueira mulemba), junto com sacrifícios. No dia seguinte, encontraram nove rapazes embaixo da árvore, cada um com a altura de uma das cordas, com quem se casaram (cada menina se casou com um rapaz de sua altura). Cada casal teria dado origem a um dos nove clãs quicuios.
Distribuição O quicuio é falado por cerca de 8,2 milhões de pessoas, principalmente da etnia quicuio, na zona entre Nieri, Nairóbi e Nakuru, no Quênia, se concentrando na Província Central. Os limites dos territórios quicuios são determinados pelas cadeias de montanhas do Quênia Central, dentre elas o Monte Quênia, que consideram sagrado.
Dialetos O quicuio possui quatro dialetos mutuamente inteligíveis. Os distritos da Província Central são divididos de acordo com as tradicionais fronteiras dialetais: Quiriniaga, Muranga, Nieri e Quiambu. Os quicuios de Quiriniaga dividem-se em dois subgrupos principais: os ndia e o gichugu (ou kĩ-ndia e gĩ-gĩcũgũ). Quiriniaga Os dialetos do Quiriniaga não possuem os sons "ch" ou "sh", e usam o som do "s" no lugar, então a pronúncia da palavra "gĩcũgũ" se aproxima de "gĩchũgũ". Ambos soam como a língua embu, parente do quicuio, e são facilmente reconhecíveis quando comparados a outros dialetos.
Ndia O ndia é falado na cidade de Querugoia a maior do distrito de Quiriniaga. Outras cidades habitadas pelos ndia, onde formas mais puras dessa língua são faladas, ficam na região do plantio de chá de Cagumo, e nas montanhas temperadas de Cangaita. O dialeto também prevalece na área plantadora de arroz Mwea (habitada por uma mistura dos quicuios com outras etnias, principalmente vindas de Quiriniaga, que chegaram à região em 1960 após a independência, ocupando o lugar dos quicuios, cujas terras já antes haviam sido tomadas pelos colonizadores).
Dentre as características mais marcantes dessa variação, destaca-se a tendência de subir a voz no final de frases, conferindo um efeito sonoro. Nesse dialeto, ocorrem as seguintes substituições: h por b (ou por mb quando o h faz som de nh), th por nd ou c (em palavras importadas). Gichugu O dialeto gichugu possui uma cadência lírica e melódica, se aproximando de uma poesia. É falado na zona cafeeira de Quianiaga, Giture, Catunguri e Marigiti, além de Querugoia, Kutus e Muranga. Esse dialeto se adapta facilmente durante conversações com outras variações do quicuio.
Nieri O dialeto nieri (também grafado como nyeri) é falado majoritariamente na região de Nieri. Sua principal versão é o dialeto mathira, falado nos distritos de Mazera e Iriaini, além da cidade de Caratina. Também é chamado de gãki. Juntamente com os dialetos quiriniaga, forma o grupo dos dialetos ocidentais do quicuio.
O dialeto mathira apresenta itens lexicais e padrões tonais únicos. Dentre essas variações, pode-se destacar:
A forma rĩ do afirmativo do tempo presente do verbo ser/ter é preferida em relação à forma ĩ, o que não ocorre nos outros dialetos. Nos tempos formados pela adição do prefixo kũ, os prefixos pronominais não variam conforme o esperado. Os prefixos adjetivos e pronominais dos nomes do grupo mũ assumem a forma ma no plural, em vez de a. O pronome pessoal independente da terceira pessoa do plural assume a forma mo em vez de o. O plural do pronome interrogativo a? assume a forma ma? O prefixo pronominal neutro plural ma assume a forma a. Antes das partículas ta e ngĩ, o prefixo pronominal da primeira pessoa do singular assume a forma ndi em vez de i. Para nomes de mulheres, o prefixo Nya se transforma em Na. O fonema [ð] (vozeado) é substituído por [θ] (não vozeado). Além dessas mudanças, há uma variação de vocabulário, muitas vezes sob influência da língua maa. Devido a todas essas particularidades, o mathira às vezes é considerado um dialeto independente, em vez de uma subdivisão do nieri.
Muranga O dialeto muranga (também grafado como murang'a) é falado no condado de Muranga, cuja capital é a cidade de Muranga, anteriormente conhecida como Fort Hall. Nesse condado encontram-se também as cidades de Quenol, Gatura, Cangare, Cangema, Quiriani, Quirwara, Maragwa e Sabasaba.
Quiambu O dialeto quiambu (também grafado como kiambu) é falado no condado de Quiambu, que inclui regiões como a cidade de Quiambu, Limuru, Quicuio, Githunguri, Juja, Cabete, Quiambaa, Lari, Ruiru, entre outras. É também o dialeto predominante em Nairóbi, capital do Quênia. Essa parte sul do território quicuio é conhecida pelos nativos como Carura. A área falante desse dialeto é separada da área falante do ndia pelo rio Tana.
Nesse dialeto, o fonema representado pela letra "c" deixa de ser [ʃ], como ocorre nos outros dialetos, e passa a ser [t͡s], por influência da língua camba.
Línguas relacionadas O quicuio faz parte da família kikuyu-kamba das línguas bantu do nordeste, anteriormente chamada thagiicu. A organização tradicional da família é feita da seguinte forma:Ethnologue E
No entanto, uma divisão mais próxima da organização dos nativos consideraria o mwimbi e o muthambi como dialetos da língua meru. Em algumas classificações, a língua temi também é colocada nesse grupo. O quicuio também sofreu influências de diversas outras línguas faladas no Quênia, com destaque para a língua maa e a língua suaíli, que emprestaram vários vocábulos ao idioma. A língua dhaiso é considerada um caso isolado da famíla, sendo falada na Tanzânia. Todos os outros idiomas se concentram na região central do Quênia, interagindo fortemente uns com os outros.
A tabela a seguir apresenta exemplos de comparações de palavras nas línguas bantas do Quênia central: +Comparação de palavras nas línguas kikuyu-kambaQuicuioEmbuMeruTharakaChukaCambaTradução para o portuguêsmũrukĩmũrukemũrukĩmũrukĩmũrukemũũke/mũũkicheirartigaraikarakaraikaraikaratigwapermanecerndorondakantakandondontakandaka/mũtondolamanininiininiːniniːniniininiːnipequeno Além da interação com línguas que se desenvolveram em regiões próximas, o quicuio tem intensas interações com o inglês, que se iniciaram no período pré-colonial e persistem até os dias de hoje. A tabela a seguir demonstra algumas palavras emprestadas do inglês em quicuio: +Influência da língua inglesa no quicuioInglêsQuicuioPortuguêsbookbukulivrocarrotkaraticenourapartybatĩfestaschoolcukuruescola
Diáspora quicuia Alguns autores consideram a existência de uma diáspora quicuia, que teria ocorrido no período entreguerras, quando o Quênia britânico foi oficializado como uma colônia. Na década de 1930, cerca de 30 mil colonos brancos viviam na região da Província Central. Cerca de um milhão de membros da nação quicuia haviam sido expulsos de suas terras pelos colonos europeus e viviam como fazendeiros itinerantes. Para protegerem seus interesses, os colonos proibiram a produção de café, introduziram um imposto sobre as cabanas e os trabalhadores sem terra passaram a receber cada vez menos terras em troca de seu trabalho, levando muitos quicuios a deixarem o campo e irem para as cidades (êxodo rural).
Os quicuios resistiram de diversas formas à opressão dos colonos europeus, destacando-se a fundação da Young Kikuyu Association (YKA) por Harry Thuku, em 1920. Em 1922, Thuku foi exilado e as atividades da YKA foram interrompidas, sendo retomadas em 1924 pela criação da Kikuyu Central Association (KCA).
Durante esse período, muitos quicuios se estabeleceram na região do Grande Vale do Rifte, de modo que sua fala sofreu influências dos idiomas falados nessa região. Estuda-se a possibilidade de terem se desenvolvido novos dialetos do quicuio na área, decorrentes da diáspora.
História Período pré-colonial A história da língua quicuia se iniciou há cerca de 500 anos, quando os primeiros falantes de proto-bantu migraram para a região central do Quênia durante a expansão banta. A região era anteriormente habitada por grupos de caçadores-coletores falantes de línguas cuxíticas do Rifte, exercendo certa influência sobre a fala dos bantus recém-chegados. A região de onde eles teriam vindo não é um consenso, apesar de se saber que foi uma migração gradual, feita por pequenos núcleos familiares. A nação quicuia como ela se apresenta hoje ainda não existia. thumb|Esquema da expansão banta