Jules Bonnot (Pont-de-Roide, 14 de Outubro de 1876 – Paris, 28 de Abril de 1912) foi ex-militar soldado de primeira classe, exímio atirador, que ficou conhecido após se identificar com as ideologias anarquistas ilegalistas na França. Tornou-se especialmente notório por seu papel na organização anarquista criminosa apelidada de Bando Bonnot pela imprensa francesa.Biographie de Jules Bonnot - Mounsier Biographie Visto por ele próprio como um profissional do crime avesso a carnificinas, tinha como método enganar e iludir seus alvos. Quase sempre se passando por empresário, seu gosto por roupas caras lhe valeu o pseudônimo pejorativo Le Bourgeois (o burguês) entre seus companheiros.Aftermath, Inc.: Gil Reavill. Cleaning Up After Csi Goes Home. Gotham Books, 2007. ISBN 1-59240-296-8, 9781592402960 284 pp. página 127
Biografia Infância Bonnot nasceu em 14 de Outubro de 1876 em uma família de operários em Pont-de-Roide, cidade no departamento francês de Doubs (o mesmo departamento natal do anarquista Pierre-Joseph Proudhon).Richard Parry. The Bonnot Gang: The Story of the French Illegalists. Rebel Press, 1987. ISBN 0-946061-04-1, 9780946061044.189 pp. página 64 De constituição frágil, sua mãe viria falecer em 23 de Janeiro de 1887Jules Bonnot, o anarquista padrão quando à época a família de Jules vivia em Besançon. O pequeno Jules então com dez anos ficou aos cuidados de seu pai e sua avó paterna. Analfabeto e vivendo em uma época em que os direitos trabalhistas inexistiam, às custas de muito esforço seu pai conseguia trazer somente o necessário para a sobrevivência da família, e por vezes nem mesmo isso.
Vivendo uma infância em clima de insegurança e necessidades constantes, sem perspectivas de futuro, o jovem Jules foi mandado para escola por sua família, mas não tendo um bom desempenho acabou por abandoná-la.Band à Bonnot no Grands Criminels Aos catorze anos começou a trabalhar como aprendiz em uma fábrica. Função que não o motivava por considerar um trabalho penoso,mal remunerado e de superexploração. Por fim brigou com seu patrão e foi demitido.
Adolescência thumb|right|Bonnot (do meio) em uma foto junto com outros dois jovens oficiais do exército francês. Conseguiu outros empregos que também não duraram muito tempo. Em 1891, com quinze anos, Bonnot é condenado à prisão pela primeira vez pelo roubo de algumas escovas de cobre da fábrica onde trabalhava. Mais tarde, em 1895, é encarcerado por agredir um policial em um baile. Após um desentendimento em um café, Bonnot acabaria preso novamente por três meses por obstrução da lei ao reagir à agressão de um policial com ofensas verbais e físicas. Ao ser solto, Jules Bonnot procura por seu pai que se recusa a deixá-lo entrar em sua casa fechando a porta em sua cara.
Aos 21 anos sem lugar para ir ou emprego que o sustentasse, Bonnot foi obrigado a se alistar no serviço militar, servindo na infantaria da França durante três anos. Lá atua principalmente como mecânico de carros e caminhões, mas revela-se também um excelente atirador, de precisão impressionante no tiro com rifle.Richard Parry. The Bonnot Gang: The Story of the French Illegalists. Rebel Press, 1987. ISBN 0-946061-04-1, 9780946061044.189 pp. página 65 No exército também adquire noções de química e manipulação de explosivos. Deixa o exército em 1901 possuindo patentes de soldado de primeira classe.
Em Agosto desse mesmo ano conhece e se casa com Sophie-Louise Burdet. Dois anos depois, em 1903, seu irmão comete suicídio enforcando-se por conta de um desengano amoroso.Biographie de Jules Bonnot en Le Tref & Le Aucube
Problemas familiares thumb|left|Bonnot com sua mulher Sophie-Louise e seu filho. Naquela época Bonnot começa a militar pelo anarquismo na companhia férrea em que trabalha, sendo demitido devido sua atividade política, que fará com que nenhuma outra empresa queira contratá-lo. Muda-se com a esposa para a Suíça onde consegue um emprego de mecânico em Genebra. Sua mulher fica grávida, mas a bebê cujo nome seria Émilie morre alguns dias depois do parto.Biographie de Jules Bonnot - Agora
A morte do filho abala Bonnot, que, não muito tempo depois, é demitido por seu patrão após acertá-lo com uma barra de ferro na cabeça. Desempregado passa a dedicar mais tempo à militância anarquista e adquire a reputação de agitador, motivo pelo qual é expulso da Suíça.
Sua habilidade como mecânico lhe permite encontrar rapidamente um emprego na oficina de um grande fabricante de automóveis em Lyon. Em Fevereiro de 1904 sua mulher dá à luz uma segunda criança. Malgradado em péssima situação financeira, as convicções políticas de Bonnot se mantém vivas e ele segue denunciando as injustiças sociais, participando de greves, irritando os membros da classe patronal e devido a essas ações passa a ser perseguido. Decide abandonar Lyon e ir para Saint-Étienne.Richard Parry. The Bonnot Gang: The Story of the French Illegalists. Rebel Press, 1987. ISBN 0-946061-04-1, 9780946061044.189 pp. página 66
Em Saint-Étienne arranja outro emprego como mecânico em uma oficina de renome. Nesta localidade passa a viver de favor com a sua mulher e o filho, na casa do secretário de um sindicato chamado Besson. Após um curto período, Besson torna-se secretamente amante de Sophie-Louise, fato que Bonnot não demora a descobrir ficando bastante transtornado. Com a intenção de escapar da ira de Bonnot, Besson e Sophie-Louise decidem fugir para a Suíça levando a criança.
Entrada no mundo do crime Após a traição e o abandono da mulher, Bonnot se aproxima ainda mais dos círculos anarquistas, principalmente da vertente ilegalista. Ao mesmo tempo se afasta do sindicalismo revolucionário. Em 1906 de volta a Lyon onde faz contato com diversos grupos anarcoilegalistas da região. Entre estes se associa a um grupo de italianos especializado em falsificações. Um de seus membros, Giuseppe Platano acaba por se tornar seu principal parceiro em diversas ações.
Com a chegada de Bonnot, além da falsificação de notas de dez francos, o grupo realiza uma série de pequenos furtos e roubos, eventualmente utilizando conhecimentos sobre automóveis - que a época ainda eram muito raros, considerados artigos de luxo, para roubá-los. Naquele mesmo ano Bonnot abre duas oficinas que utiliza como fachada para uma série de roubos que comete junto com Platano.
Vão progressivamente centrando sua atenção nas práticas de roubo de carros de luxo na França e na Suíça. Nesta época Bonnot começa a se disfarçar de homem de negócios com objetivo de visitar as casas de ricos advogados em Lyon. Através dessas visitas, ele mapeia as mansões para que depois ele e seus companheiros possam voltar e assaltá-las.A verdade sobre o Bando Bonnot, Ezra Brett Mell - Libcom.org Graças a essa tática ganha o apelido bourgoeis (burguês).
Em 1910 por motivos desconhecidos, Bonnot acaba indo para Londres. Naquela cidade consegue um emprego como chofer de Sir Arthur Conan Doyle, o "pai" de Sherlock Holmes, graças a sua destreza na direção que lhe será de muito maior utilidade em sua aventura ilegalista. Seu ilustre patrão só viria descobrir que seu chofer Jules se tornara o lendário anarcoilegalista no ano de 1921.
Bando Bonnot
Formação do bando thumb|right|250px|Charge da época publicada no jornal Le Figaro. Ver artigo principal: Bando Bonnot.
Ao fim de 1910, Bonnot retorna à Lyon e passa a ser imediatamente procurado pela polícia. Junto com Platano, deixa a cidade de Lyon em direção à Paris. No caminho, Platano é morto em circunstâncias pouco claras: segundo a versão dada a seus futuros cúmplices, Platano havia se ferido gravemente por acidente com seu revólver, e ele fora obrigado a acabar com seu terrível sofrimento. Como registra Alphonse Boudard, Bonnot não poderia dar outra versão, já que Platano era seu aval entre os anarquistas parisienses. Bonnot acaba recuperando uma grande soma de dinheiro, provavelmente desviada por Platano durante anos - a hipótese de um homicídio intencional não pode ser descartada.Alphonse Boudard, Les Grands Criminels, Le Livre de Poche, 1990, ISBN 2-253-05365-1, p. 35-36
Pelo final de Dezembro de 1911, Bonnot se aproxima ao coletivo do periódico l'Anarchie, do qual fazia parte Victor Serge. Muitos outros coletivos franceses participavam das reuniões do jornal, nestas reuniões Bonnot ganha notoriedade com base em seus posicionamentos, mas também por doar mensalmente quantias consideráveis de dinheiro ao jornal. Chama a atenção e ganha a simpatia de um grupo de jovens ilegalistas com cujos membros Octave Garnier, Raymond Callemin apelidado de Raymond-la-science (o Cientista), Élie Monnier cujo pseudônimo era Smientoff, Édouard Carouy e René Soudy, passaria a atuar. Adeptos da expropriação individual, todos haviam cometido furtos menores e se consideravam prontos para partir para um desafio maior a ser alcançado com a chegada de Bonnot. Ainda que a ideia de um líder de fato não seja aceita entre os anarquistas, Bonnot, por ter mais experiência no crime, bem como pela sua idade, passa virtualmente a desempenhar este papel.
Assalto à Société Générale thumb|300px|left|A limousine Delaunay-Belleville roubada pelo Bando Bonnot em dezembro de 1911, e utilizada no assalto à Société Générale. O valor deste carro era na época estimado em duzentos e oitenta mil dólares. Em 14 de dezembro de 1911, Bonnot, Garnier e Callemin roubam um automóvel com a intenção de usá-lo posteriormente para seus projetos. Fazendo uso de seus conhecimentos dos diferentes modelos, Bonnot escolhe um Delaunay-Belleville, uma limousine de luxo considerada na época como confiável e rápida.
Uma semana depois, em 21 de Dezembro, às nove horas da manhã, na Rue Ordener, em Paris, Bonnot, Garnier, Callemin e, possivelmente, um quarto homem, vão ao encontro de cobrador da Société Générale e seu segurança. Assim que tem contato visual Garnier e Callemin se lançam para fora do carro, enquanto Bonnot permanece no volante. Garnier dispara duas vezes sobre o cobrador que cai no chão gravemente ferido. Callemín pega a maleta e ambos fogem na direção da limousine, alguns transeuntes tentam intervir, mas são dispersos pelos disparos de Bonnot para o alto. Tão logo Callemin e Garnier entram no interior do veículo, Bonnot arranca, mas Callemín tropeça na porta deixando a maleta caída na sarjeta. Desce para recuperá-la, e percebe alguém que corre em sua direção, eis que dispara sem mirar, logo volta a subir no carro. Segundo vários testemunhos, o quarto homem teria intervindo neste momento. Por fim, Bonnot arranca e o bando desaparece em fuga.
É a primeira vez que um carro é utilizado para cometer um assalto e o acontecimento tem uma ressonância considerável a nível nacional, aumentado pelo estado grave em que acabou o cobrador. No dia seguinte o acontecimento é manchete nos principais periódicos, tornando-se motivo de preocupação mesmo entre os políticos que ampliam o fundo da polícia para oitocentos mil francos. O banco Société Générale por sua vez se prepara contra novos assaltos oferecendo armas de fogo aos funcionários que operam transporte de valores, oferecendo uma recompensa de cem mil francos por informações sobre os assaltantes.Jules Bonnot, no France This Way
Ao abrir a maleta o bando queda consternado ou descobrir que seu ganho é de apenas alguns títulos e cinco mil francos. Abandonam o carro em Dieppe e logo voltam à Paris. Callemín parte em vão para a Bélgica para tentar negociar os títulos. Enquanto isso a polícia descobre que o assalto está vinculado a grupos anarquistas. Ao ser descoberta pela imprensa sensacionalista, as notícias nos jornais retomam a já antiga temática da conspiração anarquista internacional. Por meio da imprensa as elites logram êxito em incutir nas classes médias e baixas seu próprio medo diante dos expropriadores, uma onda de pânico toma a França..Outlaws of Modern Days, por H. Ashton-Wolfe, READ BOOKS, 2006. ISBN 1-4067-9075-3, 9781406790757. 312 pp. página 49.