Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 – Paris, 18 de agosto de 1850) foi um prolífico escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.Grande Enciclopédia Larousse Cultural, Vol. 3, "Balzac", p.613. Editora Nova Cultural. ISBN 85-13-00757-9Brooks, 16. Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste em 91 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.A chamada edição Furne, única edição de A Comédia Humana publicada em vida do autor, continha 85 textos. As edições póstumas, que introduziram correções indicadas pelo autor (entre elas a incorporação de La Grande Bretèche a Outro Estudo de Mulher) e acrescentaram três textos que o autor deixara inacabados (Os Pequenos Burgueses, O Deputado de Arcis e Os Camponeses) e quatro outros que haviam ficado de fora da edição Furne (Pequenas Misérias da Vida Conjugal e os três estudos da Patologia da Vida Social), costumam assim conter 91 textos.

Entre seus romances mais famosos, destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).

Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, as suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoiévski, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polaca Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

Biografia Família Honoré de Balzac nasceu de uma família que se esforçou para ganhar respeito. Seu pai, nascido Bernard-François Balssa, era um dos onze filhos de uma pobre família de Tarn, região do sul da França. Era inicialmente um modesto funcionário,Pelanda e Quintana, 3. mas em 1760, partiu para Paris com apenas um Louis d'or no bolso, decidido a melhorar sua posição social. Em 1776, tornou-se maçon e secretário do Conselho do Rei, mudando seu nome para o de uma antiga família de nobres, adicionando, sem nenhuma causa oficial, o aristocrático de diante do sobrenome.Robb, 4. Após o Reino do Terror (1793–94), estabeleceu-se em Tours para coordenar suprimentos do Exército.Robb, 5.

A mãe de Balzac, nascida Anne-Charlotte-Laure Sallambier, era burguesa, e cresceu em uma rica família de merceeiros (pequenos comerciantes) em Paris. A riqueza de seus parentes foi um fator considerável na troca de alianças: ela tinha somente 18 anos quando se casou com o cinquentão Bernard-François.Robb, 5–6. V. S. Pritchett, crítico literário britânico, certa vez escreveu: "Com certeza ela sabia que tinha sido dada a um velho marido como recompensa pelos serviços que ele havia feito a um amigo de sua família e que o capital estava do lado dela. Ela não era apaixonada por seu esposo".Pritchett, 23.

Honoré (assim chamado por conta de Santo Honoré de Amiens, cujo dia é comemorado em 16 de maio, quatro dias antes do aniversário de Balzac) era à época o segundo filho nascido dos Balzacs; exatamente um ano antes, nascia Louis-Daniel, mas ele só chegou a viver durante um único mês. Posteriormente, um terceiro filho nasceu, chamado Simone de Hudsone.Robb, 6. As irmãs Laure e Laurence nasceram em 1800 e 1802, e seu irmão Henry-François em 1807.Robb, 8.Robb, 18.

Primeiros anos Assim que nasceu, Balzac foi enviado a uma ama de leite; no ano seguinte, ele e sua irmã Laure passaram quatro anos longe de casa.Pritchett, 25. Embora o livro Emílio, ou Da Educação do filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau houvesse convencido milhares de mães da época a amamentarem seus próprios filhos, ainda era comum entre as famílias de classes média e alta o envio de bebês às amas de leite. Quando os pequenos voltaram para casa, os mantiveram friamente afastados de seus pais, o que deve ter afetado o autor profundamente: a sua novela Le Lys dans la vallée de 1835 apresenta uma cruel governanta, chamada Miss Caroline, baseada em sua própria babá.Robb, 9. thumb|esquerda|upright|O Collège de Vendôme – desenho de A. Queyroy.

Aos 8 anos, Balzac foi enviado ao tradicional e rigoroso colégio oratoriano de Vendôme, onde estudou por 7 anos. Seu pai, procurando transmitir a mesma aparência de trabalhador que lhe garantiu a estima da sociedade, enviava intencionalmente pouco dinheiro ao garoto, e isso o fez ser objeto de chacota entre seus colegas de classe mais ricos.Pritchett, 26.Robb, 14.

O menino tinha dificuldades de adaptação ao estilo da rotina de aprendizagem da escola. Por conta disso, não raro era enviado ao "nicho", um castigo de salas reservadas a alunos desobedientes.Pritchett, 29. Alguns biógrafos contam que o zelador da escola, quando perguntado muitos anos mais tarde se se lembrava de Honoré quando pequeno, respondeu: "Lembrar M. Balzac? Como se esquecer? Eu tive a honra de escoltá-lo para a masmorra mais de uma centena de vezes!".Champfleury (1878). Balzac au Collège. Patay. Citado em Robb, 15. Ainda assim, os tempos que passava sozinho lhe propiciaram a liberdade de ler todos os livros que encontrava pela frente.

Balzac usou essas cenas de sua infância — assim como fazia com os vários aspectos de sua vida e das vidas de quem o cercava — em La Comédie Humaine. Seu tempo em Vendôme é refletido em Louis Lambert de 1832, romance sobre um jovem garoto que estuda num colégio oratoriano em Vendôme. O narrador diz: "Devorava livros de qualquer espécie, alimentando-se indiscriminadamente de obras sobre religião, história e literatura, filosofia e física. Ele havia me dito que encontrava prazer indescritível ao ler dicionários, por falta de outros livros".Balzac (1832). Louis Lambert. Citado em Pritchett, 29.

Contudo, embora a sua mente e espírito fossem nutridos, o mesmo não poderia ser dito de seu corpo. Muitas vezes Balzac ficava doente, até que uma vez, finalmente, o diretor da escola contatou sua família com notícias de uma "espécie de coma".Robb, 22. Quando voltou para casa, a sua avó soltou: "Voilà donc comment le collège nous renvoie les jolis que nous lui envoyons!" ("Olha só como a academia nos devolve os bonitos que os enviamos!")Saintsbury, "Honoré de Balzac", xi. O próprio Balzac atribuiu o coma à sua condição de "congestionamento intelectual", mas o seu confinamento prolongado no "nicho" certamente era outro grande fator. Enquanto isso, paradoxalmente, o seu pai havia escrito um tratado sobre "os meios de prevenir roubos e assassinatos, e de restaurar os homens que cometem crimes a um papel útil na sociedade", no qual ele mostrava desdém pelos métodos de prisão, como forma de prevenção da criminalidade.Robb, 24.

Adolescência Em 1814, a família Balzac mudou-se para Paris. Honoré foi enviado a professores particulares e escolas pelos próximos dois anos e meio. Este foi um momento infeliz de sua vida, durante o qual ele tentou o suicídio em uma ponte que fica sobre o Rio Loire.Robb, 30. Em 1816, Balzac entrou na Sorbonne, onde teve aula com três professores famosos: François Guizot, que mais tarde se tornou primeiro-ministro, lecionava história moderna; Abel-François Villemain, recém-chegado do Collège Charlemagne, realizava palestras sobre literatura francesa e literatura clássica para cativar audiências, e Victor Cousin, o mais influente de todos, que dava aulas sobre filosofia e que incentivava seus alunos a pensar de forma independente.Robb, 48.

Uma vez concluídos os estudos, Balzac foi persuadido pelo pai a segui-lo no Direito; por três anos, treinou e trabalhou como estagiário no escritório de Victor Passes, amigo próximo da família. Durante essa época, ele começou a entender os meandros da natureza humana. Em seu romance Le Notaire, de 1840, escreve que um jovem na profissão legal vê "as rodas oleosas de cada fortuna, a disputa horrenda de herdeiros sobre corpos ainda não totalmente frios, e o coração humano às voltas com o Código Penal".Balzac (1840). "Le Notaire". Citado em Robb, 44. Em 1819, Passes ofereceu a Balzac sua assessoria, mas o seu aprendiz estava suficientemente cheio da lei. Desesperava-se com a ideia de ser "um funcionário, uma máquina, um mercenário numa escola de equitação, comendo e bebendo e dormindo em horários fixos […]" e por isso dizia: "Eu seria como todos os outros. E é isso que essas pessoas chamam de vida, essa vida no rebolo, fazendo sempre a mesma coisa… Tenho fome e nada me oferecem para satisfazer o meu apetite".Citado em Pritchett, 42. Aqui, anuncia sua intenção de ser escritor e a família combate o sonho.

A renúncia à oferta do Senhor Passes causou grande discórdia na casa de Balzac, mas Honoré não foi definitivamente abandonado. Em vez disso, em abril de 1819, uma vez que a família mudava-se para cidade mais modesta, autorizou-o a viver na capital francesa, de uma forma que o crítico inglês George Saintsbury descreveria, "em um sótão mobiliado da forma mais espartana possível, com um subsídio de fome e uma mulher idosa para cuidar dele", enquanto o resto da família se mudava para uma casa a 20 milhas [32 km], nos arredores de Paris.Saintsbury, "Honoré de Balzac", xiii.

Primeiros esforços literários O primeiro projeto literário de Balzac foi um libreto para uma ópera cômica chamada Le Corsaire, baseado no The Corsair de Lord Byron. Percebendo, no entanto, que teria dificuldades em encontrar um compositor, voltou-se para outras atividades. thumb|upright|Desenho do jovem Balzac em meados da década de 1820, atribuído a Achille Devéria. Em 1820, já havia completado os cinco atos da tragédia em versos Cromwell. Quando terminada, o seu revisor foi um homem chamado Andrieux, ex-tutor de Eugène Surville, irmã de Balzac, e que no manuscrito escrevia: "O autor pode fazer tudo o que quiser, exceto literatura".Citado em Robb, 60. Apesar desse comentário, e apesar desse trabalho ser fraco em comparação com as suas obras posteriores, alguns críticos de hoje consideram o seu texto de muita qualidade.Robb, 59.Rogers, 19 Balzac estava convencido a mostrar a obra a seus parentes e, depois do ponto final, foi à Villeparisis e leu a peça inteira para sua família, que não se impressionou.Robb, 60. Após essa tentativa, iniciou (embora nunca tenha finalizado) três romances: Sténie, Falthurne, e Corsino. A família o considerava um fracasso e, apesar de o pai lhe cortar a mesada, não desanimou, e viu que era hora de mudar de gênero.