O golfinho-cruzado (Lagenorhynchus cruciger), ou golfinho-ampulheta, é um cetáceo da família dos delfinídeos encontrado nas águas subantárticas. Costuma ser observado a partir de navios que atravessam a Passagem de Drake, embora sua distribuição seja circumpolar.
A espécie foi reconhecida como nova por Jean René Constant Quoy e Joseph Paul Gaimard em 1824, baseada em um desenho realizado no Pacífico Sul em 1820. É o único cetáceo amplamente aceito como espécie exclusivamente com base em relatos de testemunhas.
Taxonomia A espécie recebeu inicialmente o nome Delphinus cruciger por Quoy e Gaimard (1824) após seu avistamento em janeiro de 1820. Em 1827, Lesson e Garnot denominaram outro golfinho com duas manchas brancas nas laterais de Delphinus bivittatus. Durante o século XIX e o início do século XX, o golfinho-cruzado recebeu diversos sinônimos atribuídos por cientistas, entre eles Phocoena crucigera (Philippi, 1893), Electra crucigera (Gray, 1871) e Lagenorhynchus clanculus (Gray, 1846; 1849; 1850; 1866). Embora tenha sido tradicionalmente incluída no gênero Lagenorhynchus, análises moleculares indicaram que a espécie possui maior parentesco com os golfinhos dos gêneros Lissodelphis e Cephalorhynchus, levando à sugestão de sua transferência para um novo gênero, Sagmatias. A relação taxonômica com o gênero Cephalorhynchus (que inclui, entre outras espécies, o golfinho-de-hector) é ainda mais sustentada pela semelhança entre seus sinais de ecolocalização e aqueles utilizados pelas espécies de Cephalorhynchus. Com base em análises moleculares adicionais, em 2025 este golfinho foi reclassificado para o gênero Cephalorhynchus.
Descrição esquerda|miniaturadaimagem|Necropsia de um golfinho-cruzado. As marcas laterais são uma característica essencial para a identificação do animal direita|miniaturadaimagem|Cruz de Malta direita|miniaturadaimagem|Ilustração do crânio, dentição e da espécie por Alcide d'Orbigny (1847): Voyage dans l'Amérique méridionale O golfinho-cruzado tem o dorso preto e o ventre branco, com manchas brancas nas laterais e, ocasionalmente, variações em cinza-escuro. Por essa característica, foi chamado coloquialmente por baleeiros de "vaca-marinha" (embora não pertença à ordem Sirenia) ou "cangambá-do-mar". Cada flanco possui uma mancha branca na região frontal, acima do bico, olho e nadadeira, além de uma segunda mancha na parte posterior. Essas duas manchas são unidas por uma estreita faixa branca, formando, de modo geral, um desenho que lembra uma ampulheta. As marcações podem variar entre indivíduos. O seu nome científico cruciger, que significa "portador de cruz", faz referência à área escura que, vista de cima, lembra vagamente uma cruz de Malta, assim como seu nome comum.
Dentro de sua área de ocorrência típica, é de identificação simples. O golfinho-liso-do-sul (Lissodelphis peronii) é o único cetáceo de tamanho e coloração semelhantes, com distribuição sobreposta, que habita regiões tão austrais. A ausência de barbatana dorsal nos golfinhos-lisos, em contraste com a barbatana geralmente alta e curva dos golfinhos-cruzados, torna improvável qualquer confusão entre as duas espécies. A barbatana dorsal dos golfinhos-cruzados é variável, e a curvatura pode ser especialmente acentuada em indivíduos mais velhos. Eles possuem vértebras em forma de disco e outros processos inclinados que lhes conferem maior estabilidade.
Um macho adulto mede cerca de 1,8 metro de comprimento e pesa mais de 90 quilos. As fêmeas juvenis variam de 1,6 a 1,8 metro e pesam entre 70 e 90 quilos. Embora seja uma espécie pequena, apresenta grande velocidade e agilidade. Acredita-se que os machos sejam um pouco menores e mais leves que as fêmeas, embora o número reduzido de espécimes não permita conclusões definitivas.
O período de gestação das fêmeas é estimado em 12,9 meses, e geralmente ocorre parto entre meados de julho e o final de outubro.
O golfinho-cruzado possui de 26 a 34 dentes na mandíbula superior e de 27 a 35 na mandíbula inferior. Como todos os golfinhos, utiliza ecolocalização para localizar alimento. Não existem registros confirmados de filhotes, e sua coloração, tamanho e dieta permanecem desconhecidos.
Distribuição geográfica A distribuição deste cetáceo é circumpolar, estendendo-se desde áreas próximas ao gelo marinho antártico até aproximadamente 45°S. Os registros confirmados mais ao norte incluem 36°S no Oceano Atlântico Sul e 33°S nas proximidades de Valparaíso, no Chile, no Pacífico. De modo geral, sua distribuição circumpolar abrange a faixa entre cerca de 45°S e 67°S, com poucos avistamentos próximos a ilhas e a maior parte ocorrendo no Oceano Antártico. Os avistamentos são mais frequentes ao sul da Nova Zelândia, ao redor das Ilhas Shetland do Sul e ao largo da Terra do Fogo, na Argentina.
Habitat O golfinho-cruzado é uma espécie exclusivamente antártica. Prefere águas frias, permanecendo a maior parte do tempo próximo à superfície, onde a temperatura varia de -0,3°C a 7°C. A temperatura mais elevada já registrada para avistamentos de golfinhos-cruzados foi de 14°C.
É uma espécie migratória, deslocando-se mais ao sul durante o verão austral e mais ao norte durante o inverno austral.
Comportamento Os golfinhos-cruzados são vistos com frequência em grupos pequenos, geralmente de até 10 a 15 indivíduos, embora já tenham sido observados grupos com até 100 animais.
Eles dividem zonas de alimentação com outros cetáceos, como baleias-piloto, baleias-minke e golfinhos-lisos-do-sul, além de serem observados regularmente ao lado de baleias-comuns (Balaenoptera physalus). Costumam surfar nas ondas formadas por navios e por grandes misticetos. Há também registros de golfinhos-cruzados na companhia de baleias-bicudas-de-cabeça-plana-do-sul (Hyperoodon planifrons), orcas (Orcinus orca) e baleias-bicudas-de-arnoux (Berardius arnuxii).
As análises do conteúdo estomacal dos poucos espécimes estudados indicam que sua dieta inclui tamarutacas (ordem Stomatopoda), poliquetas e diversas espécies não registradas de lulas e pequenos peixes.
A expectativa de vida do golfinho-cruzado é estimada como semelhante à do golfinho-de-laterais-brancas-do-atlântico (Lagenorhynchus acutus) e à do golfinho-de-laterais-brancas-do-pacífico (Aethalodelphis obliquidens), variando entre aproximadamente 27 e 46 anos.
Situação populacional Foram realizados levantamentos de avistamentos desses golfinhos entre 1976 e 1977 e novamente entre 1987 e 1988. A partir desses dados, estimou-se uma abundância de 144.300 indivíduos, com base em registros obtidos durante transectos lineares conduzidos em janeiro de 1977 e em janeiro de 1988, em águas situadas ao norte da Antártica. Apesar de a população de golfinhos-cruzados ter apresentado uma leve diminuição desde 1988, a espécie não é considerada em perigo de extinção.
Estado de conservação O golfinho-cruzado é uma das espécies contempladas pelo Memorando de Entendimento para a Conservação de Cetáceos e seus Habitats na Região das Ilhas do Pacífico (Pacific Cetaceans MOU). Em 2003 passou a integrar o Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES). Embora ainda não tenha sido investigado de forma aprofundada, o golfinho-cruzado não é considerado ameaçado e, por isso, figura na Lista Vermelha da IUCN como uma espécie pouco preocupante.
Ver também Lista de cetáceos
Ligações externas Lagenorhynchus cruciger – Hourglass Dolphin, Species Profile and Threats Database, Australian Government Department of the Environment and Energy OBIS SEAMAP hourglass dolphin species profile, Duke University
Categoria:Espécies pouco preocupantes Categoria:Delphinidae Categoria:Cetáceos Categoria:Mamíferos descritos em 1824 Categoria:Fauna da Antártida Categoria:Mamíferos da Argentina Categoria:Mamíferos do Chile Categoria:Mamíferos da Nova Zelândia