Panem et circenses (em português "Pão e circo", ou ainda "pão e jogos") é uma frase metonímica que se refere a apaziguamento superficial. É atribuída a Juvenal (Sátiras, Sátira X), um poeta romano ativo no final do primeiro e início do segundo século da Era Cristã, e é usada comumente em contextos culturais, particularmente políticos.Potter, D. & D. Mattingly, Life, Death, and Entertainment in the Roman Empire. Ann Arbor (1999).
Até metade do , pesquisadores e historiadores acreditavam que essa política havia sido criada como uma medida de manipulação de massas, onde a aristocracia incentivava a plebe de certa forma ficar desinteressada em política e dar atenção somente para prazeres como a comida, através do pão, e o divertimento, retratado pelo circo.Faversani 2000,p.81-82
No entanto, tal visão pode ser considerada elitista e inverossímil, pois os historiadores ao estudar tal assunto se prendiam muito a documentos produzidos pela aristocracia romana, os quais tinham uma visão pejorativa da plebe. Desse modo, a partir da segunda metade do alguns historiadores e arqueólogos começaram a buscar e descobrir mais informações sobre tal camada e a real influência do pão e circo sobre a plebe.Faversani 2000,p.82-83
Com base nessas novas informações, foi possível entender um pouco da política em relação à população romana, desenvolvendo um novo conceito e simultaneamente desconstruindo o antigo. Assim, o entendimento de tal política se torna de vital importância para que a história do Pão e Circo seja entendida como um todo e não somente a partir de uma única visão.Faversani 2000,p.81-86
O surgimento da expressão “Pão e Circo” Os historiadores acreditam que a expressão “Pão e Circo” foi usada pela primeira vez durante a administração Caio Graco pelo poeta satírico Juvenal, em suas SátirasGarrafoni 2005,p.77-78;ARAUJO,Alexandre Almeida Lima & Vieira,Ana Livia Bomfim 2015.p.30. Nascido em uma família de aristocratas, suas obras além de imbuídas de fortes valores morais, demonstram certa aversão para com a plebe romana.Garrafoni 2005,p.79 Uma teoria alega que a causa desse repudio seja a pobreza que acometeu Juvenal em sua velhice tendo que se tornar um cliente, algo visto como um estatuto de inferioridade pela aristocracia romana. Juvenal descreve a plebe como viciada, apática e dependente do pão e do circo dado pelo Império Romano, por esse motivo alguns historiadores acabaram utilizando dessa expressão para designar o controle da plebe pelos imperadores feito através do pão (distribuição do trigo) e do circo (espetáculos).Garrafoni 2005,p.81-84
Do passado ao presente: A mudança da visão sobre a política do “Pão e Circo”
A historiografia, principalmente do e início do XX, acreditava que a plebe romana era sustentada pelo pão distribuído pelo Estado e divertida pelos jogos de gladiadores apresentados nos anfiteatros.Araujo,Alexandro Almeida Lima & Vieira,Ana Livia Bomfim,2015.p.28 Jérôme Carcopino, em sua obra A vida cotidiana: Roma no apogeu do Império argumenta que a plebe romana era controlada por meio de lazeres e diversão, para que assim não tivesse tempo livre para pensar em revoltas contra os Imperadores.Garrafoni 2005,p.83-84 Essa foi a principal ideia aceita pelos historiadores, que utilizavam como fontes discursos e obras escritas pela elite romana, que carregavam uma visão bastante pejorativa sobre as pessoas pobres.Araujo, Alexandro Almeida Lima & Vieira, Ana Livia Bomfim 2015, p. 31-32 Carcopino afirma que, por ter muito tempo livre e por ser ociosa, a plebe poderia revoltar-se contra o governo, e para que isso não ocorresse era necessário criar políticas, como a do pão e circo, para mantê-la sob controle.Araujo, Alexandro Almeida Lima & Vieira, Ana Livia Bomfim. p.29. Sem vontade própria, a plebe seria despolitizada, menosprezando a terra em que trabalhava.Garraffoni 2005, p. 78-83; Araujo, Alexandro Almeida Lima & Vieira, Ana Livia Bomfim 2015, p.31. Além de ter tendência à agressividade, sendo vista como sanguinária, afirmando que elas gostavam e apoiavam as lutas de gladiadores, essas pessoas, por não terem nada para fazer durante o dia, utilizavam do anfiteatro para festejarem e ocuparem seu tempo, nos anfiteatros as lutas de gladiadores serviam para entreter a população, em geral esses gladiadores eram pobres, escravos e bandidos e, ao participar dos jogos de luta, aceitavam o risco de perder a própria vida para que a população se divertisse.Garrafoni 2005,p.77-85 Mas alguns historiadores do discordam dessa interpretação, pois para eles os anfiteatros também eram utilizados para o Imperador e o povo se confrontarem e defenderem as suas necessidades.Garrafoni 2005,p.4. Dessa forma, a elite seria responsável pela política do pão e circo, pensada no intuito de coibir possíveis revoltas. Entre os historiadores dessa vertente interpretativa, encontram-se Theodor Mommsen, Julius Friedländer, Montesquieu, Jérome Carcopino, Jean Noël Robert, Howard Scullard e Pedro Paulo Funari.Araujo, Alexandro Almeida Lima & Vieira, Ana Livia Bomfim. p.32-38.
A historiografia da segunda metade do e do XXI acredita que a plebe romana não era apática e ociosa, pois a espórtula - doação em dinheiro fornecida pela aristocracia romana- e o trigo que eram fornecidos pelo Estado eram insuficientes para o sustento da vida de uma família romana, que lidava com aluguéis, vestuários, óleos para banho, entre outras necessidades, fazendo com que o trabalho fosse necessário para os pobres.Araujo, Alexandro Almeida Lima & Vieira, Ana Livia Bomfim. p.38-39 O fato de usufruírem do “pão e do circo” não eliminava o descontentamento dos pobres, apenas diminuíam, ou seja, a plebe exigia melhorias, mesmo com a “política” do pão e circo.Omena 2009, p. 17.
Além disso, os beneficiados pelo fornecimento de trigo eram minoria da população, pois, para receber esse benefício, era necessário ser cidadão romano e morar em Roma.Omena 2007, p. 4-5. Assim, estimasse que o trigo era distribuído a algo em torno de 0,5% da população total do Império Romano e em quantidade insuficiente, cerca de 21 litros de trigo, para suprir as necessidades alimentares de uma família.Faversani 2000, p. 84 Outro ponto era que, para moer o grão de trigo e assar o pão, era necessário ir até uma padaria, pois nas ínsulas em que moravam não havia cozinha por causa do alto risco de incêndio. Não obstante, os lugares onde eram realizadas as festas e os espetáculos não dispunham de lugares suficientes para atender toda a plebe romana, que crescia conforme a expansão romana, ou seja, nem todos podiam frequentar os lugares onde era praticado o “circo”.Faversani 2000, p.85. A capacidade do Coliseu era de 50.000 pessoas e do Circo Máximo era de 250.000 pessoas,Faversani 2000, p. 85. e os espetáculos não ocorriam de forma constante.Garrafoni 2008, p. 114. Porém existiam outros espaços utilizados pelo povo romano, estes espaços também eram utilizados para a sociabilidade romana como os teatros e as termas romanas.Araujo, Alexandro Almeida Lima & Vieira, Ana Livia Bomfim 2015, p.34-42.
Evergetismo e o Pão e Circo
Evergetismo A palavra evergetismo possui muitos significados e distintas aplicações, a utilização de tal termo se desenvolveu no período da Grécia Helenística.Veyne 2015, p.14 O evergetismo pode ser definido como uma prática de doação, ou seja, pessoas que ocupavam altos cargos, tais como políticos e aristocratas financiavam obras ou até mesmo davam quantias em dinheiro para beneficiar as pessoas e a cidade.Veyne 2015, p.15 Ao invés de ser denominado de doação o termo correto utilizado na época era evergesia. Era de se esperar de um evérgeta (pessoa que faz o ato da evergesia), que esse também arcasse com as despesas públicas.
O ato do evergetismo pode ser dividido em duas partes: o evergetismo livre, onde um cidadão, mesmo fora de seu cargo ou posição política e que possuísse recursos para exercer uma evergesia, fizesse por uma livre espontânea vontade, por isso é denominado de evergetismo “livre”. Em contrapartida existia o evergetismo ob honorem que, por sua vez, era praticado principalmente em épocas de eleições políticas, ou seja, para que a população votasse em tal candidato ele praticava algum tipo de evergesia dentre as citadas acima se tornando assim uma obrigação do candidato e do eleito fazerem tais evergesias.Veyne 2015, p.15-16.
O motivo das evergesias e porque elas eram exercidas vai além de uma simples concorrência ou um comprometimento com sua função política. Segundo Paul Marie Veyne, ao citar aristóteles, o evergetismo ocorre por uma magnificência que seria uma “manifestação da virtude ética”,Veyne 2015,p.26. onde o homem como ser humano possui uma ética e dentro dela está incluso magnificência, uma noção de coletivo ligado à religiosidade sempre homenageando deuses, algo muito recorrente na Roma antiga.Veyne 2015,p.27-28
Partindo de uma análise histórica feita por Paul Veyne, autor do livro “Pão e Circo”, podemos entender sua opinião sobre a política do Pão e Circo e a relação com o evergetismo.Veyne 2015,p.92-93. Segundo o autor, o Pão e Circo era considerado uma política de manipulação de massas,Veyne 2015,p.82-93. afinal Roma havia acabado de chegar ao fim de uma série de guerras civis e com isso a instauração de uma monarquia autoritária, ou seja, a população estava exausta devido as guerras e o autoritarismo do regime político fez com que a população desanimasse, pois o fato de ser uma monarquia autoritária faz com que não haja espaço para a plebe na política.Veyne 2015,p.84-85. Diante dessa situação, as camadas populares se abstém do voto político e passam a trocá-lo por um ingresso do circo, ou seja, o circo passa a frente da política pois o cenário era desfavorável a popu lação(plebe) no âmbito político, fazendo com que se deixassem levar pelo circo e pelo evergetismo, pois o circo dependia do evergetismo para acontecer.Veyne 2015,p.85. Ocorrendo assim, o que o autor chama de apolitismo, ou seja, quando há uma abstenção do desejo político do homem pelo prazer devido a situação em que se encontra. Ainda no mesmo capítulo cujo título é “Panem et circenses”, Veyne enfatiza o fato de ser uma política manipuladora devido as formas de governo que estão no poder.Veyne 2015,p.86-87 O primeiro ideal seria uma política extremamente autoritária onde os governados fossem reprimidos em diversas áreas, tendo em vista proteger uma ideologia que favorecesse os dirigentes para que esses possam estabelecer medidas que não pudessem ser criticadas pela plebe, com o auxílio do circo e do evergetismo, a população iria perceber que eles podiam ter espaços fora da política, os afastando cada vez mais de tal.Veyne 2015,p.88 O segundo meio de doutrinação seria um controle juntamente com uma disciplina do povo quando necessário e quando não, os chefes demonstrariam interesses com a população mostrando-se preocupados com o circo e prazeres populares-tal medida foi usada pela oligarquia republicana. A terceira e última tem uma relação direta com o apolitismo, onde o rei (monarca) fazia com que a população se sentisse confortável e que o povo realizasse seus prazeres sem serem interferidos até certo ponto, ou seja, não havia uma negação do prazer ou do circo, o rei somente deixa a população na ignorância para que fosse fácil governar sem revoltas, tal medida fora utilizada durante o Império.Veyne 2015, p.89
O trigo financiado pelo Estado