Bartolomeu Vilhena Cid dos Santos (Lisboa, 24 de agosto de 1931 – Londres, 21 de maio de 2008) foi um pintor e gravador português. Pertence à terceira geração de artistas modernistas portugueses.França, José Augusto - A Arte em Portugal no Século XX: 1911-1961 . Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 410

Bartolomeu dos Santos residiu a maior parte da sua vida em Londres, onde foi professor na Slade School of Fine Art. Foi autor de uma obra de grande vitalidade, sendo considerado uma das figuras cimeiras da gravura nacional.

Biografia Era filho do cirurgião João Cid dos Santos e neto do médico e historiador de arte Reynaldo dos SantosBartolomeu Cid dos Santos - por terras devastadas, documentário de Jorge Silva Melo, 2009. O seu interesse pelas artes visuais, pela literatura, música, cinema, história, perduraram ao longo dos anos, informando o seu modo de estar na vida e a sua produção artística. De personalidade expansiva, aberta, a sua obra seria caracterizada pela dimensão irónica e por uma forte consciência política (Bartolomeu foi um homem de esquerda, opositor do regime do Estado Novo), mas também, paradoxalmente, por um pendor melancólico, senão mesmo romântico.Lucie-Smith, Edward – "Bartolomeu dos Santos" (1989). In: A.A.V.V. – Bartolomeu Cid dos Santos: exposição retrospetiva. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna, 1989.Aiken, John – "Narrativas entrelaçadas". In: Catálogo da exposição de Bartolomeu dos Santos, Casa das Artes de Tavira, 2008

Estudou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1950-1956). De 1956 a 1958 continuou a sua formação na Slade School of Fine Art (com Anthony Gross), Londres, cidade onde três anos mais tarde iria fixar residência. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1961 e 1964. A partir de 1961 e até à data da sua reforma, em 1996, ensinou no Departamento de Gravura da Slade School. Foi Emeritus Professor in Fine Art da Universidade de Londres e Fellow do University College London; membro da Royal Society of Painter-Printmakers.A.A.V.V - 50 Anos de Arte Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. ISBN 978-972-678-043-4Santos, Bartolomeu dos – Bartolomeu dos Santos: aguarelas e gravuras, 1999-2001. Lisboa: Galeria 111, 2001

A sua obra centrou-se na gravura, embora tenha produção significativa em desenho e pintura, azulejo, etc. Retomando uma técnica adaptada da água forte e que experimentara no início da carreira, nas últimas décadas realizou grandes painéis de pedra gravada para o metropolitano de Tóquio (Estação Nihonbashi) e de Lisboa (Estação Entre Campos).Santos, Bartolomeu dos – Painel para a estação do Metro de Nihonbashi em Tóquio. Lisboa: Metropolitano de Lisboa, 1993.Santos, Bartolomeu Cid dos – Bartolomeu Cid. Lisboa: Galeria Diário de Notícias, 1961.

Bartolomeu dos Santos foi artista visitante em numerosas escolas de Belas Artes na Grã-Bretanha. No estrangeiro foi professor visitante da Universidade de Wisconsin, em Madison (1969 e 1980), na Konstkollan Umea, Suécia (1977 e 1978), no National College of Art em Lahore, Paquistão (1986 e 1987) e na Academia de Artes Visuais de Macau em numerosas ocasiões.Santos, Bartolomeu dos – Tordesilhas revisitado. Lisboa: Galeria 111, 1994

Em 1951 expôs na 6ª Exposição Geral de Artes Plásticas, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa. Em 1959 participou na exposição 50 Artistas Independentes, S.N.B.A., Lisboa; nesse mesmo ano realizou a sua primeira exposição individual, também na S.N.B.A.. Em 1961 foi-lhe atribuído o Prémio de Gravura na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian.A.A.V.V. – II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1961

Expôs coletivamente cerca de duzentas vezes em Portugal e no estrangeiro, destacando-se Avant Garde British Printmaking 1914-1960 no Museu Britânico, 1990, e Signatures of the Invisible em Londres, na Atlantis Gallery, 2001.

Realizou mais de oitenta exposições individuais, em Portugal e no estrangeiro. Além de Lisboa, expôs no Porto, Frankfurt, Rotterdam, Detroit, Madison, Angra do Heroísmo, Oxford, Londres, Umea, Joanesburgo, Cidade do Cabo, Tóquio, Paris, Nassau, Antuérpia, Cidade do México, Wiesbaden, Heidelberg, Bonn, Meinz, Islamabad, Glasgow, Karachi, Braga, Sheffield, Luxemburgo, Granada, Tavira, Macau, Funchal, Osnabrüch, Lahore e Rabat. Trabalhou com a Galeria 111, Lisboa, desde 1969 e até à data da sua morte.

Em 1989 o Centro de Arte Moderna (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa), organizou uma exposição retrospetiva da sua obra. A 21 de maio de 1992, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2001 apresentou duas retrospetivas, no Centro Cultural de Cascais e na Galeria do London Institute, Londres.

Casou, em 1958, com Susan Plant, mãe das suas três filhas, Catarina, Filipa e Susana. Voltou a casar em 1988 com Maria Fernanda Oliveira Paixão dos Santos, que o acompanhou até ao fim da vida.

Obra Desenvolvendo-se quase sempre através de séries temática e formalmente unificadas, a obra de Bartolomeu dos Santos representa um longo e variado repositório de recursos técnicos e formais, que é colocado ao serviço de temáticas onde convergem as dimensões pessoal, social, mítica, cultural. Em imagens onde convivem "a melancolia, a ironia, às vezes à beira da irrisão, e uma espécie de desejo de redenção"Silva, Raquel Henriques da - "Bartolomeu Cid dos Santos". In: A.A.V.V - 50 Anos de Arte Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. ISBN 978-972-678-043-4, são frequentes os cruzamentos não apenas com o universo da arte, mas também da literatura e poesia, da música, da história de Portugal.

De Lisboa a Londres thumb|270px|Four Bishops (Quatro bispos), 1962, Água-tinta, 25 x 30 cm (imagem) O arranque da sua carreira localiza-se no início dos anos de 1950, num momento em que ainda estão vivas as clivagens entre neorrealismo, surrealismo e abstração que, desde meados da década anterior, pontuaram a cena artística portuguesa. Sem aderir a qualquer tendência, Bartolomeu iria criar uma obra autónoma em cuja génese todas estariam, de alguma forma, presentes.

A realidade portuguesa e um particular interesse pela história foram determinantes, desde muito cedo, para a definição do seu projeto artístico. O espaço europeu e a sua cultura, com os quais se familiarizou na juventude, em especial através de longas viagens com o avô Reynaldo dos Santos, seriam uma outra componente estruturante do seu pensamento. Assinale-se ainda a importância crucial do contacto com Londres, onde estudou e fixou residência, num período de grande dinamismo cultural, e das pontes que aí teve oportunidade de estabelecer com o universo da arte e da gravura contemporânea.Dynes, Wayne – "The Numinous World of Bartolomeu dos Santos". In: Santos, Bartolomeu dos – Bartolomeu dos Santos: Graphic Works. London: London Graphic Art Associates, c. 1967.

Datam de 1956 e 1957 as paisagens da Londres enevoada que produziu nos primeiros anos de estadia nessa cidade. A essas obras não será já alheio o contacto com Anthony Gross, ou um confessado interesse pelo "romantismo de Sutherland e Piper, o expressionismo de Bacon e a escultura de Moore e Reg Butler"Bartolomeu dos Santos em entrevista a Inês Sarre. In: A.A.V.V. – Bartolomeu Cid dos Santos: exposição retrospetiva. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna, 1989.. De seguida vê-lo-emos efetuar um desvio, em imagens nostálgicas, intemporais – refeições, naturezas mortas… –, onde se aproxima da dimensão metafísica da pintura de De Chirico ou de Giorgio Morandi, para logo se centrar na realidade e memória de Portugal, em evocações que vão da arquitetura do barroco às subtis alusões aos descobrimentos ou à situação política nacional. Segundo Edward Lucie-Smith, essa ligação às origens terá sido potenciada pela distância do solo pátrio. "De facto, esta ausência ou semi-ausência pode tê-lo ajudado a aguçar a sua perceção do temperamento português".

Referenciada de modo mais explícito à obra gravada de Goya, a serie dos Bispos, que realiza na primeira metade da década seguinte, apresenta-nos imagens identicamente intemporais, fantasmagóricas, cuja aparente placidez é perturbada por uma agressividade velada. Aqui, "as figuras começam a desfazer-se mal se definem, parecendo o artista ter maior comprazimento na sua desintegração do que na sua formação. […] Bartolomeu constrói um barroco mundo público de grandeza esvaziada, onde os anacrónicos dignitários da nação se perpetuam nas formas decompostas da sua função social, como velhos atores duma peça que já foi e que continuam pregados ao palco, apodrecendo nas suas vestes". Aludindo assim, embora indiretamente, à ditadura de Salazar, estas gravuras falam-nos do "pesadelo fatalístico das instituições, onde um macabro incapaz de morrer se perpetua, sem esperança e sem remorso".Macedo, Hélder – "Bartolomeu Cid" (1967). In: A.A.V.V. – Bartolomeu Cid dos Santos: exposição retrospetiva. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna, 1989.

Anos 70 thumb|280px|left|Atlantis, 1972, gravura, 50,5 x 67 cm A intemporalidade das séries iniciais ganha uma nova dimensão na sequência de imagens a que pertencem os Labirintos, que irá criar a partir do final de 1969 depois de descobrir Jorge Luís Borges e 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick: "a combinação de Borges com Kubrik, ambos jogando com ideias e conceitos, com mistérios, espaços e interrogações, completamente modificou o caráter e a direção do meu trabalho". Nestas gravuras assistimos não apenas a uma inflexão temática mas também formal. À expressividade das séries iniciais sucede-se agora um rigor meticuloso, geometrizante; as imagens despem-se quase sempre de gente, sobrando paisagens agrestes e formas arquitetónicas, montanhas, rochedos, labirintos, arcos, esferas, pirâmides…

Nestes trabalhos podem detetar-se ecos da suspensão temporal de De Chirico, da arquitetura visionária de Étienne-Louis Boullée (1728-1799), e talvez mesmo das prisões de Piranesi (1720-1778), numa fusão de referências que "contribui para a inquietação que mora nessas imagens, onde a perfeição e a dúvida vivem lado a lado"Porfírio, José Luís – "Uma viagem com Bartolomeu Cid dos Santos". In: A.A.V.V. – A Biblioteca de Bartolomeu. Ponta Delgada: Presidência do Governo Regional dos Açores, 2010, p. 17. ISBN 978-972-647-241-4. "Os labirintos são ao mesmo tempo nostálgicas paisagens de sonho e cenários absurdos do viver humano, gravuras remotas ou de antecipação de um mundo que ironicamente nos lembra a vida urbana atual, enredada nas suas obsessões, num espaço que se contradiz pela sua beleza surda e pela extensão kafkiana do seu significado". E a polissemia destas imagens abre muitas delas a um outro tipo de leituras, sendo possível interpretá-las enquanto metáforas de prisão ou de um estado totalitário, como era na época o caso português.Wohl, Helmut – Portuguese Art Since 1910. London: Royal Academy of Arts, 1978, p. 25

Anos 80 thumb|Ode Marítima II, 1988, técnica mista, 77 x 60 cm (imagem)