thumbnail|333px| O Banquete de Platão, representado por Anselm Feuerbach (1873), Alte Nationalgalerie, Berlim O Banquete, também conhecido como Simpósio (em grego antigo: Συμπόσιον, transl. Sympósion), é um diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C. Constitui-se basicamente de uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor (eros). O Banquete é, juntamente com o Fedro, um dos dois diálogos de Platão em que o tema principal é o amor. A interpretação de Leo Strauss e de Stanley Rosen destaca o aspecto tragicômico deste diálogo, que é, na verdade, a resposta de Platão às acusações da Cidade contra a filosofia.

Temática Tò sumpósion, em grego, é em geral traduzido como O Banquete, mas, no sentido atual, equivaleria a uma festa mundana, em que quase sempre se bebe mais do que se come, a qual no mundo grego antigo era chamada de simpósio. Trata-se, pois, de um festim na casa de Agatão, poeta trágico ateniense. Sócrates é o mais importante dentre os homens presentes. Entre outros, também ali estão Aristodemo de Cidateneu, amigo e discípulo de Sócrates; Fedro, o jovem retórico; Pausânias, amante de Agatão; o médico Erixímaco; Aristófanes, comediante que ridicularizava Sócrates, e o político Alcibíades.

Questões relativas à obra miniaturadaimagem|Obra de Józef Simmler, datada de 1855, representando a sacerdotiza Diotima de Mantineia. Óleo sobre canvas, 210x141 cm. O exagero cometido na festa do dia anterior, sobretudo o excesso de bebida, fatigara os convidados de Agatão. Pausânias propõe, então, que, em lugar de beber, ficassem ali a conversar, a discutir ou que cada um fizesse algo "diferente". A proposta de Pausânias é aceita por todos.

Nesse momento inicial, antes de começarem os discursos, Erixímaco propõe também que se dispense a flautista que acompanhava a festa, sugerindo que ela "toque para si mesma, ou, se preferir, lá dentro, para as mulheres" da casa, e que os presentes passem a se dedicar à conversa por meio do discurso.NUNES, Carlos Alberto. O Banquete. [Tradução]. Belém: EDUFPA, 2011, p. 87. A cena é breve no texto original, mas tem sido lida por comentadores como um gesto simbólico de exclusão do elemento considerado "irracional" para que restasse no ambiente apenas o debate racional e filosófico entre os homens presentes.GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre linguagem, memória e história. 1. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1997, p. 40-41.

Parte da historiografia recente sobre a Antiguidade tem revisitado esse episódio para questionar a suposta ausência absoluta das mulheres no universo do simpósio. Autoras como Marta Mega de Andrade argumentam que a separação estrita entre os espaços público (polis) e privado (oîkos) era, em boa medida, uma construção ideológica da elite ateniense, e que vestígios como a menção às mulheres "lá dentro" indicam que a vida doméstica permanecia entrelaçada à esfera cívica representada pelo simpósio.ANDRADE, Marta De. A vida comum: cotidiano e cidade na Atenas Clássica. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2002, p. 98-103. Nessa leitura, a expulsão da flautista e a centralidade da fala de Diotima de Mantineia — evocada por Sócrates como sua mentora intelectual — são tomadas como indícios de que a racionalidade masculina do debate dependia, em alguma medida, do elemento feminino que procurava excluir.DOS SANTOS, Y. G.; MATIAS LIMA, W. O discurso sobre o amor no banquete, de Platão, e a presença de Diotima de Mantineia: mulher/sacerdotisa/hetaira. Psicanálise & Barroco em Revista, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 106–125, 2019.

Erixímaco sugere ainda que fossem feitos elogios a Eros: os convidados deveriam fazer discursos para louvar o amor. Sócrates intervém, ponderando que, antes de falar sobre o bem que o amor causa e seus frutos, deveriam tratar de definir o que é o amor. Diz que, na sua juventude, fora iniciado na filosofia do amor por Diotima de Mantineia, que era uma sacerdotisa. Diotima lhe ensinou a origem e a natureza de Eros.

O primeiro a discursar foi Fedro, onde, do seu ponto de vista, Eros é o mais antigo dos deuses e inspira os homens a belos feitos e à virtude. Em seguida, Pausânias (amante do Agatão, dono da festa) que afirma que há mais de um Eros, dividido entre bem e mal, real e divino. Após, segue Erixímaco: segundo ele, o amor não exerce influência apenas nas almas, mas dá, ainda, harmonia ao corpo.

Aristófanes, comediógrafo, foi o próximo, e logo avisou que seu discurso seria diferente dos anteriores. Ele começou criticando a falta de reconhecimento dos homens diante do poder de Eros. Para explicar esse poder, contou um mito: no início, existiam três tipos de seres humanos, todos duplos de si mesmos (masculino-masculino, feminino-feminino e masculino-feminino, este último conhecido como andrógino) Os deuses, com medo do poder desses seres, os cortaram ao meio.

Assim, aqueles que foram um corte do andrógino, sejam homens ou mulheres, procuram o seu contrário. Isto explica o amor heterossexual. E aquelas que foram o corte da mulher, o mesmo ocorrendo com aqueles que são o corte do masculino, procurarão se unir ao seu igual. Aqui Aristófanes apresenta uma explicação para o amor homossexual feminino e masculino. Quando estas metades se encontram, sentem as mais extraordinárias sensações, intimidade e amor, a ponto de não quererem mais se separar, e sentem-se a vontade de se "fundirem" novamente num só. Esse é o nosso desejo ao encontramos a nossa cara metade.

O amor para Aristófanes é, portanto, o desejo e a procura da metade perdida por causa da nossa injustiça contra os deuses. O último a elogiar o amor foi Agatão, o anfitrião do banquete. Ao contrário dos que o precederam, Agatão não se propõe enaltecer os benefícios que Eros faz ao homem, mas sim cantar o próprio deus e a sua essência, passando em seguida a descrever-lhe o dote.

Finalmente chega a hora de Sócrates discursar, e ele fala que, sendo o Amor, amor de algo, esse algo é por ele certamente desejado. Mas este objeto do amor só pode ser desejado quando lhe ''falta'' e não quando o possui, pois ninguém deseja aquilo de que não precisa mais.

Aqui, na fala de Sócrates, Platão coloca seu apontamento crucial sobre o conceito de amor, de que o que se ama é somente aquilo que não se tem. E se alguém ama a si mesmo, ama o que não é. O objeto do amor sempre está ausente, mas sempre é solicitado. A verdade é algo que está sempre mais além: sempre que pensamos tê-la atingido, ela se nos escapa entre os dedos. Essa inquietação na origem de uma procura, visando uma paixão ou um saber, faz do amor um filósofo. Sendo o Amor, amor daquilo que falta, forçosamente não é belo nem bom, visto que necessariamente o Amor é amor do belo e do bom. Não temos como desejar aquilo que temos. No mesmo diálogo, Platão ainda fala sobre a origem de Eros (através do mito narrado por Diotima de Mantineia a Sócrates). Eros teria a natureza da falta justamente por ser filho de Recurso e Pobreza.

No texto, Sócrates retira de Eros (Amor) a condição de deus, e transforma-o em um selo, um intermediário entre os deuses e os mortais (o amor como ligação), o que Sócrates chama de ''daimon''. Segundo relatos do texto de Platão e de alguns de seus companheiros, o amor é um dos maiores bens do homem (junto com o inteligência e a sabedoria); não é nem bom nem mal em si mesmo, como prática. Platão relaciona o amor com a verdade, pois quando se ama trata-se da verdade.

Diotima de Mantineia Diotima é apresentada por Sócrates como uma sacerdotisa de Mantineia que teria ido a Atenas para aconselhar a cidade por ocasião de uma peste, ocasião em que Sócrates teria sido por ela instruído sobre a natureza do amor.DOS SANTOS, Y. G.; MATIAS LIMA, W. Op. cit., p. 109. É a única voz feminina de destaque no diálogo, e sua presença — mesmo indireta, mediada pela fala de Sócrates — tem sido discutida por pesquisadores como um dos poucos indícios de participação intelectual feminina na tradição filosófica registrada por Platão, ainda que sua historicidade seja debatida.PACHECO, Julaina (org). Filósofas: a presença das mulheres na filosofia. Porto Alegre: Editora Fi, 2016, p. 51.

O Eros

Platão deixa entrever em O Banquete, que Eros deve ser pensado em termos relacionais: ele é amor de alguma coisa e estabelece relação entre quem ama e aquele que é amado, assim como a opinião certa medeia a sabedoria e ignorância. Mas em sua forma absoluta e maior, Platão propõe na scala amoris da alegoria de Diotima que o Amor verdadeiramente visa sempre ao Bem e ao Belo em si, e todas as suas manifestações particulares conforme a Teoria das Ideias, e que os amantes sempre ascendem de grau em grau a essa contemplação do amor divino.Platão. O Banquete, 211c-dde Almeida, Yuri Galvão Oberlaender. (2018). Scala Amoris: Síntese da Educação Filosófica no Banquete de Platão. Dissertação de mestrado em Filosofia ao Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina.Platão. O Banquete, 206a

No texto, Platão retira de Eros (Amor) a condição de deus, e transforma-o em um selo, um intermediário entre os deuses e os mortais (o amor como ligação). Segundo relatos do texto de Platão e de alguns de seus companheiros, o amor é um dos maiores bens do homem (junto com o inteligência e a sabedoria); não é nem bom nem mal em si mesmo, como prática. No diálogo, existe também uma explicação e a naturalização do amor bissexual e do amor homossexual. Platão relaciona o amor com a verdade, pois quando se ama não é somente exercer o poder sobre alguém ou demonstrar força, mas trata-se de saber ser correspondido, ou seja, trata-se da verdade.

Para alguns intérpretes, o conceito de amor em Platão em O Banquete é irracional e explicado pela natureza.

Ver também Amor platônico Diotima de Mantineia Scala amoris Simpósio Simpósio (Xenofonte) Estádios no Caminho da Vida, uma obra que contém In Vino Veritas, um diálogo de Søren Kierkegaard sobre o amor baseado no Banquete.

Referências

Bibliografia

Ligações externas The Internet Classics Archive: Symposium ou Banquete de Platão, tradução inglesa de Benjamin Jowett L'antiquité grecque et latine: Le Banquet ou o Banquete de Platão, tradução francesa de Victor Cousin, 1834 Symposion, Texto em grego antigo na edição de John Burnet, 1901 Symposion, Banquete de Platão, tradução alemã de Franz Susemihl, 1855 Stanford Encyclopedia: Platão sobre a amizade e o Eros (Plato on Friendship and Eros), texto em inglês de C. David e C. Reeve

Banquete Banquete Categoria:Literatura gay Categoria:LGBT na Grécia Categoria:Ceias e banquetes nas artes