thumb|right|upright=2.0|A expansão territorial de Grécia entre 1832 e 1947 A Grande Ideia (em grego moderno: Μεγάλη Ιδέα, transl. Megáli Idea) foi a expressão do sentimento nacional e depois do nacionalismo grego nos séculos XIX e XX. Visava unir todos os gregos num só Estado-nação com a sua capital estabelecida em Constantinopla (Istambul), evocando o antigo Império Bizantino. Tomou antes de tudo a forma de um irredentismo.

O termo foi inventado em 1844 por Ioánnis Koléttis, primeiro-ministro do rei Oto da Grécia. A Megáli Idea dominou toda a política exterior e, por conseguinte, a política interior da Grécia: desde a guerra de independência na década de 1820, ao problema cipriota da década de 1970, passando pelas guerras balcânicas de princípios do . O principal adversário da Grécia na sua realização da Megáli Idea foi o Império Otomano e, posteriormente, a Turquia.

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O sentimento nacional O peso da ocupação otomana thumb|left|upright=1.5|Ilustração das Crônicas de Jean Chartier que representa a tomada de ConstantinoplaBiblioteca Nacional da França

Os exércitos otomanos conquistaram sucessivamente Constantinopla em 1453, de Atenas em 1458 e de Mistras, situada perto da antiga Esparta, em 1460. Toda a forma de Estado grego independente desapareceu então. Contudo, a administração otomana reconhecia que existia uma população à qual se podia considerar como "grega". O sistema otomano dos Millet ("confissões") organizava as diferentes populações do Império: havia assim, por exemplo, um millet otomano e um millet judeu, e também um millet-i Rum ou millet grego. De fato, este millet grego incluía todos os cristãos ortodoxos, quer falassem grego, búlgaro, albanês ou romeno. Mais tarde, esta ambiguidade desempenhou um papel na definição dos limites da nação grega. O sinal da sujeição nomeadamente era o imposto haraç (para os não-muçulmanos). Até finais do século XVII, era acrescentado a isso o paidomazoma (levas para fornecer os janízaros, além de mulheres para os haréns de paxás e sultões). Estes impostos, além de "gratificações" para os numerosos funcionários públicos imperiais, foram muito mal vistos pela população local. Diversas rebeliões, como a Revolução de Orloff amiúde implicavam massacres (e.g. os "massacres búlgaros" de abril de 1876), seguidas de um aumento nas "deduções" como castigo.Cfr. por exemplo o Itinerário de Paris a Jerusalém de Chateaubriand, Edição Fólio, 2005, pp. 214-215. Os kleftes, cujas exações eram uma forma de resistência ao imposto, são amiúde considerados como os precursores do movimento de libertação nacional.

O millet grego foi dirigido pela hierarquia da Igreja Ortodoxa. O Patriarca de Constantinopla foi considerado pelos otomanos como o chefe da "confissão ortodoxa", que era confundida pelos gregos com a nação grega. O poder da Igreja Ortodoxa estava, portanto, muito ligado ao poder otomano, pelo qual a manutenção dos interesses otomanos na zona acarretava a manutenção dos seus próprios interesses, o qual lhe produziu um descrédito importante entre a população.R. Clogg, História da Grécia, p. 10-14.

Definir um Estado-nação thumb|500px|O objetivo territorial da Megáli Idea: O Império Bizantino na época da dinastia macedônica.

Assim como outros movimentos nacionais do , a Megáli Idea visava reagrupar todos os gregos num único Estado-nação, ideal nascido do pensamento do iluminismo e da Revolução Francesa.assim, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 26 de Agosto de 1789 proclamava o direito dos povos de dispor de si mesmos Os gregos, submetidos ao Império Otomano, desejavam dispor de idênticos direitos e terem um "governo que emanasse do consentimento dos governados", como propunha a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. As ideias iluministas tocaram os fanariotas, os quais, pelas suas funções administrativas e governamentais (entre os que salientavam os papéis de intérpretes para a Grande Porta), estavam muito em contato com o Ocidente.

Havia também intelectuais gregos no exílio na Europa Ocidental: Adamántios Koraís passou toda a Revolução Francesa em Paris; Rigas Feraios estava em Viena; havia mercadores devido à diáspora em cidades como Odessa, Veneza ou Marselha. Alguns jornais (como o Mercúrio sábio de Anthimos Gazis que era publicado em Viena em 1811 e 1812) e círculos intelectuais foram colocados por estes gregos em toda a Europa. Em 1803, apareceu em Paris o Resenha sobre o estado atual da civilização na Grécia; em 1806, foi publicado em Livorno um Discurso sobre a liberdade. Estas obras transportavam as ideias do Iluminismo sobre a liberdade ou o direito dos povos de autogovernarem-se.

Porém, a mesma definição sobre o que era "grego" ou o que era o "grego" levantava em si mesmo um problema. Qual princípio aplicar: a etnia "grega", religião ortodoxa "grega", língua "grega", a geografia, a história?

Iakovos Rizos-Neroulos declarou durante a primeira conferência da Sociedade Arqueológica de Atenas, em 1838, sobre a Acrópole de Atenas:

Evocava aqui o papel dos viajantes ocidentais, os do Grand Tour, no nascimento do sentimento nacional grego em finais do . Seu interesse pelos monumentos antigos mostrou tanto aos gregos eruditos, como às populações locais que existia outra Grécia como referência além da Grécia da Igreja Ortodoxa submetida ao poder otomano. Nasceram então na Grécia uma progonopléxia (obsessão pelos antepassados) e uma arkhaiotreia (fascinação pelo antigo). Começou-se a nomear as crianças "à antiga". O mesmo foi feito com os nomes das embarcações. A questão da língua grega aterrou também: a língua vernácula era considerada "contaminada" por palavras estrangeiras (sobretudo turcas). Era preciso reencontrar uma língua "pura": foi eleito o ático do .R. Clogg, op. cit., p. 28. A antiguidade tornou-se, pois, na nova referência para definir a "Grécia".

A extensão máxima deste Estado-nação seria, para os mais extremistas, a extensão do mundo grego segundo Estrabão. Contudo, a referência histórica recolhida será: o sul da península Itálica (Magna Grécia), a Antioquia, passando por Creta, Chipre e toda a Anatólia; no Norte, do mar Negro (Ponto Euxino) a Creta, passando pela mesma Grécia continental, o norte dos Bálcãs e a Ásia Menor. Isto correspondia à extensão do Império Bizantino nos tempos da dinastia macedônica.

thumb|left|upright=1.0|Rigas Feraios

Outro fator a acrescentar a este sentimento era o trauma político e religioso da tomada de Constantinopla pelos otomanos em 1453. Constantinopla era a capital religiosa da Igreja Ortodoxa e a capital política do Império Bizantino. Sua tomada coincidiu com o desaparecimento da Grécia e com a sujeição de gregos. Sua liberdade e sua existência como nação devia passar pela reconquista da "Cidade".

Em 1796, enquanto estava em Viena, Rigas Feraios, o poeta precursor da insurreição contra os otomanos, publicou uma carta da Grécia (Χάρτας της Ελλάδας), prevista num começo para ilustrar As Viagens do novo Anacharsis na Grécia do francês Jean-Jacques Barthélemy. Se esta carta imensa (4 metros quadrados) for centrada sobre a Grécia Antiga (a história antiga é a única história representada sobre a carta), incluiria Constantinopla, e Valáquia; mas também as atuais Bósnia, Sérvia e Albânia. A Grécia descrita compreendia de fato os Bálcãs e a Roménia. A língua desta entidade devia ser o grego, elemento de base da definição da nacionalidade. A carta de Rigas sofreu da execução do seu criador, porém, em 1800, a Anthimos Gazis publicou uma versão simplificada, incluindo, além disso, a Magna Grécia e Chipre.Jean-Yves Guiomar e Márie-Thérèse Lorain, «La carte de Grèce de Rigas et le nom de la Grèce », em Annales historiques de la Révolution française, N. 319.

As decepções depois da Guerra de Independência A Independência thumb|right|upright=2.0|A Grécia em 1834

A Guerra de independência da Grécia foi primeiro uma guerra de libertação, uma luta contra a opressão otomana. Os movimentos principais efetuaram-se no Peloponeso e ao redor de Atenas. Houve também uns combates no Epiro (sobretudo por causa de Ali Paxá). A vitória final foi obtida graças ao apoio das grandes potências, a França, o Reino Unido e a Rússia, (que logo se fizeram chamar "Potências Protetoras" do novo reino grego) com, entre outras coisas, a Batalha de Navarino e a expedição francesa de Peloponeso. Os gregos não se acharam em situação de obter todo o que queriam no momento das negociações que seguiram o fim do conflito. Com o fim de cuidar-se ainda do Império Otomano, a Conferência de Londres de 1830 fixou as fronteiras do novo Estado. A Grécia devia contentar-se com o Peloponeso, com uma parte da Rumélia (a fronteira ia de Arta a oeste a Vólos a leste) e de algumas ilhas próximas do continente como Egina ou Hidra e uma parte das Cíclades. de três milhões dos considerados como gregos reencontravam-se no novo Estado enquanto Constantinopla reagrupava gregos.C. Tsoucalas, La Grèce de l'indépendance aux colonels, p. 13. (em francês) Os grandes centros culturais, religiosos e econômicos estavam todos fora do reino, que não contava nenhuma grande cidade: as três primeiras capitais (Egina, Náuplia e mesmo Atenas) não ultrapassavam os 5000 habitantes.G. Contogeorgis, Histoire da Grèce., p. 352. (em francês) Desta forma, a decepção dos patriotas gregos dentro e fora do Estado foi grande.

Autóctones e heteróctones Após o golpe de Estado de 3 de setembro de 1843, num momento difícil das negociações para a redação de uma constituição, o primeiro-ministro Ioánnis Koléttis converteu-se no líder dos direitos dos "heteróctones", gregos nacionais nascidos fora das fronteiras do reino. Sua família era originária de Valáquia e ele próprio nascera em Epiro, duas regiões ainda não relacionadas com a pátria grega. Considerava pois que Grécia devia englobar os "autóctones", os nascidos no reino e os "heteróctones". Havia, segundo ele, dois centros do helenismo: Atenas e Constantinopla ("o sonho e a esperança de todos os gregos"). Assim declarou na assembleia constituinte a 14 de janeiro de 1844 num discurso que dava origem à "Megáli Idea":

Havia então populações às quais se podia considerar como gregas, não somente segundo a definição de Kolettis, senão que também por razões de língua, de religião ou de origem étnica por causa das migrações:

Nos Balcãs desde Valona, na atual Albânia, a oeste e Varna, na atual Bulgária, a leste; Ao longo do mar de Mármara e na Constantinopla; Ao longo da costa de Ásia Menor, nomeadamente em Esmirna; Na Anatólia, sobretudo na Capadócia e ao longo da costa norte, sobre o mar Negro, nos Alpes Pônticos, mas também até a Armênia; A Norte do mar Negro, na Rússia, onde se instalaram certos gregos pônticos e mercadores "autóctones", ao redor de Odessa.

Alguns destes gregos do exterior, sobretudo os camponeses, diferiam em pouco dos seus vizinhos não gregos. Se ferozmente eram ortodoxos, falavam a língua vernácula local. Assim, os gregos de Anatólia (e de Constantinopla), que falavam somente o turco, foram chamados "karamanlides". Uma das grandes famílias de homens políticos gregos do século XX é a família Karamanlis. Certos sobrenomes oriundos da Anatólia ainda começam hoje com "Hadji" (o compositor Manos Hadjidakis, o pintor Nikos Khatzikyriakos-Ghikas ou o fundador da EasyJet Airlines Stelios Haji-Ioannou) recordando que um dos membros da família fez sua peregrinação a Meca e tornou-se assim "Hadji".

Procurar reunir estes "nacionais" na Grécia foi uma das constantes da política e da diplomacia grega do século XIX.

Ao mesmo tempo, procurou-se também purificar Grécia e seus "autóctones" de toda influência estranha. Era preciso re-helenizar a Grécia. A "purificação" da língua com a criação do katharévousa foi um dos exemplos desta vontade política.

Primeiras extensões territoriais