Marcelo de Campos Velho Birck (Porto Alegre, 13 de agosto de 1965) é um cantor, compositor, guitarrista e professor brasileiro. Desenvolve sua carreira desde 1984, participando de vários grupos, com destaque para a Graforréia Xilarmônica, Aristóteles de Ananias Jr. e Os Atonais, além de participar de outros conjuntos como convidado. Trabalha também como produtor e arranjador. Sua produção musical tem sido destacada pela sua criatividade e originalidade, rompendo padrões consagrados e fazendo associações incomuns entre tendências aparentemente incompatíveis, absorvendo influências de uma ampla gama de referenciais populares e eruditos, da literatura e das artes visuais. Participou de vários grandes festivais, como o TIM Festival e a Bienal de Música Brasileira Contemporânea.
Formação e carreira acadêmica Marcelo Birck vem de uma família com nomes destacados na cultura, sendo sobrinho de Carlos Augusto de Campos Velho, mais conhecido como Jota Pingo, ator, roteirista, diretor e dramaturgo, de grande atividade em Brasília, e de Paulo César Pereio, ator de cinema e TV de fama nacional."Cultura de Brasília perde um dos seus principais artistas, Jota Pingo". Correio Braziliense, 04/12/2012 Sua mãe, Rosa Maria de Campos Velho, foi diretora do Teatro de Arena de Porto AlegreBones, Elmar. "Grupos de teatro vão ocupar salas do Hospital São Pedro". Jornal Já, 10/10/2005 e presidiu o Sindicato dos Artistas (SATED).Rolim, Michele. "Artistas revindicam mais espaços teatrais em Porto Alegre". Jornal do Comércio, 08/07/2014 É irmão de Alexandre Birck, outro músico destacado.Campos, Wolney Leite. A Arte de Viver da Música: um estudo de caso com músicos atuantes no cenário rock/pop gaúcho. Dissertação de Mestrado. UFRGS, 2011, pp. 23-48
Desde cedo revelou interesse pela música, ouvindo discos na eletrola de seu pai. Formou-se Bacharel em Composição Musical na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e depois aperfeiçoou-se com um Mestrado em Composição e Novas Tecnologias pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Sua dissertação versou sobre associações de séries matemáticas complexas derivadas do Xadrez, do I Ching e do calendário maia com design de som e composição. Foi professor substituto na UFRGS de disciplinas como Acústica, Improvisação Musical e Laboratório Experimental de Música entre 1999 e 2000, e professor-colaborador na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) nas disciplinas Análise Musical, Laboratório, Música e Mídia e Prática de Conjunto e Arranjo entre 2002 e 2003. Desde 2015 é Professor Auxiliar no Bacharelado em Música e Tecnologia da Universidade Federal de Santa Maria e participou da organização de vários eventos, oficinas e encontros acadêmicos. Publicou vários artigos em veículos especializados, enfocando processos híbridos e as inter-relações entre música, performance, artes visuais e tecnologia.
Carreira musical Prisão de Ventre
Participou da banda Prisão de Ventre, fundada em 1984 com seu irmão Alexandre Birck, e mais Frank Jorge e Luís Gomes."Prisão de Ventre, a pré-Graforréia Xilarmônica, ainda nos anos oitenta" . Senhor F online, 16/10/2009 Em seu início a banda não tinha uma proposta definida, buscavam apenas chocar, mas oito meses depois passaram a desenvolver um trabalho mais sério, ainda que mantendo como seu foco a quebra de paradigmas. O grupo durou apenas dois anos, até que Frank teve de se retirar para prestar o serviço militar.
Graforréia Xilarmônica
250px|thumb|Marcelo Birck em show da Graforréia Xilarmônica. thumb|250px|Show da Graforréia Xilarmônica para gravação de um DVD, 2013. Marcelo é o segundo da esquerda para a direita. Os outros músicos, na mesma ordem, são Frank Jorge, Alexandre Birck e Carlo Pianta.
Em 1987 fundou, com Alexandre Birck na bateria, Frank Jorge e Tasso Ferreira na guitarra e Carlo Pianta no baixo, a Graforréia Xilarmônica, com um estilo eclético, fundindo regionalismo e rock derivado da Jovem Guarda e dos Beatles. Tasso Ferreira ficou por pouco tempo, e Marcelo participava como cantor, guitarrista e co-autor das composições."Graforréia Xilarmônica, a cronologia de uma carreira supersônica". Senhor F online, 01/01/2007
A Graforréia estreou no Auditório Araújo Vianna e em 1988 gravou sua primeira fita demo, Com Amor, Muito Carinho pelo selo Vórtex, quando sua estética já estava consolidada. Em 1992 participou da coletânea A Vez do Brasil lançada pela gravadora Eldorado de São Paulo, com as faixas "Buda Baby" e "Eu". A música "Eu" fez sucesso nas rádios de Porto Alegre. No mesmo ano realizaram sua primeira excursão para fora do estado, tocando em Curitiba, e participaram a inauguração do bar underground Garagem Hermética, em Porto Alegre, que se tornou famoso na cidade por oferecer uma programação com grupos de música pouco convencional. Em 1995 apareceu o primeiro disco, Coisa de Louco II, também com expressivo sucesso no estado, fazendo uma bem recebida excursão por outras cidades brasileiras. A música "Amigo Punk" tornou-se muito popular, "uma espécie de segundo hino do Rio Grande do Sul", como disse Lívia Guilhermano no Jornal do Comércio.Guilhermano, Lívia. "Graforréia Xilarmônica comemora 25 anos". Jornal do Comércio, 02/05/2012 Dois anos depois lançaram uma fita demo, The Best of Graforréia, apresentando material que seria reelaborado em seu segundo disco, Chapinhas de Ouro, lançado em 1998 pela Zoom Records, que recebeu o Prêmio Açorianos, concedido pela Prefeitura de Porto Alegre.
Em 2000 a banda encerrou suas atividades, mas neste mesmo ano a música "Eu" foi gravada pela Pato Fu, incluída no seu CD Ruído Rosa e usada como peça de trabalho, cujo videoclip recebeu o prêmio de Melhor Videoclipe Pop no Video Music Brasil da MTV. Isso deu grande divulgação ao trabalho da Graforréia, e a partir de 2001 eles retomaram apresentações esporádicas. Em 2005 voltaram a uma atividade consistente, mas por pouco tempo, dissolvendo-se outra vez. Porém, em 2011 o grupo se reuniu para uma nova temporada de apresentações regulares. Em 2012 foi gravado um DVD no Bar Opinião, comemorando os 25 anos de história da Graforréia."Graforréia Xilarmônica volta ao Opinião como um quarteto". Rock Gaúcho, 02/04/2012 O grupo causou forte impressão no circuito gaúcho, tornando-se uma banda cult e conquistando um público fiel."Graforréia Xilarmônica, de lenda cult à clássico do rock nacional". Senhor F online, 02/08/2006"Marcelo Birk é atração do próximo Música no Jardim". Casa de Cultura Mario Quintana, 16/12/2012Essinger, Silvio. "Graforréia Xilarmônica: os desconhecidos pioneiros". Clique Music, 02/04/2001Borges, Glaucir Ferreira. O Rock Gaúcho na Sintonia das FMs. Biblioteca 24 Horas, 2010, p. 48
Eric Follmann disse na Senhor F que "uma geração inteira na década de 1990 desenvolveu seus tímpanos com as atonalidades de Pianta, Jorge e dos irmãos Birck"."Tigres, elefantes, tamanduás!". Senhor F online, 28/07/2005 Segundo Vinícius Cunha, da revista Rock in Beats, "a banda é considerada uma das criadoras do que hoje chamamos de 'rock gaúcho', estilo de bandas como Cachorro Grande, Ultramen, Tequila Baby, TNT, Bidê ou Balde, Superguidis, entre muitas outras", Diego Medina, da Video Hits, também deu uma declaração neste sentido, dizendo que "a Graforréia Xilarmônica foi a grande inspiradora do novo rock de Porto Alegre. Quando ela acabou, deixou muita gente órfã", e para Fernando Rosa, diretor do selo Senhor F Discos, é "uma das bandas mais importantes e fundamentais da história do rock brasileiro"."Informações sobre o disco Graforréia Xilarmônica ao Vivo" . Senhor F online, 01/01/2007 Além de "Eu" e "Amigo Punk", outras músicas da Graforréia que se tornaram conhecidas são “Nunca Diga”, “Bagaceiro Chinelão”, “Minha Picardia”, “Benga Velha Companheira” e “Fúlvio Silas”."Atendendo a pedidos: Graforréia Xilarmônica grava seu primeiro DVD" . Correio do Povo, 12/11/2013 Luís Fernando Veríssimo assim falou sobre o grupo:
"Definição? Se Schoenberg tivesse ganho uma guitarra elétrica no Natal... Não, não. Se os Beatles ainda estivessem todos vivos e ativos e decidissem só se auto-parodiar... Não, não. Se a Jovem Guarda voltasse ao mundo sem as calças boca-de-sino e com um espírito crítico... Não, não. Tente esta: a 'Graforréia Xilarmônica' é tudo que você ouviu nos últimos 40 anos (mesmo que só tenha 17), reunido, batido e servido no seu estilo inconfundível - e indefinível. O que é isto? Só ouvindo"."LFV: 'Graforréia Xilarmônica é tudo que você ouviu nos últimos 40 anos...". Senhor F online, 14/01/2007
Aristóteles de Ananias Jr.
Enquanto se graduava na UFRGS, em 1988 Marcelo deixou temporariamente a Graforréia e formou a banda Aristóteles de Ananias Jr., cujas propostas eram a investigação sonora e a liberdade criativa. Esta fase se caracterizou por composições polimorfas, de estruturas originais, coloridas pela manipulação de timbres em computador e instrumentações inusitadas. Nos shows a apresentação era performática, com figurinos e cenários criados pelo conjunto. Embora já tivesse realizado muitas apresentações em bares, em 1992 a banda foi lançada "oficialmente" com o show Mim Notauro, Você Jane na Casa de Cultura Mario Quintana. A proposta incomum despertou antecipadamente a curiosidade da imprensa, que publicou várias matérias na ocasião, dando grande visibilidade ao conjunto."Radar a mil". Pioneiro, 02/09/1993"Pop erudito". Zero Hora, 20/06/1991"Analogias entre clássico e popular". Zero Hora, 20/06/1991 thumb|left|250px|Show Mim Notauro, Você Jane, na Casa de Cultura Mario Quintana. thumb|left|250px|Marcelo Birck, com o baixo, em apresentação da Aristóteles na TV Educativa do Rio Grande do Sul.
Em 1993 o grupo lançou uma fita demo no Garagem Hermética, quando sua formação já havia se estabilizado com Marcelo na guitarra e vocais, e compondo a grande maioria das peças, mais Ricardo Frantz ao violino, Pedro Porto no baixo, Luciano Zanatta no saxofone e Diego Silveira na bateria. A demo teve boa repercussão local e circulou bastante na cena underground paulista.Gomes, Marco Pinho. "Iconoclastas experimentalistas com grande senso de humor". Correio do Povo, 28/11/1993"Gomes, Marco Pinho. "A maluquice do Aristóteles em K-7". Zero Hora, 28/09/1993Ratner, Rogério. "O rock gaúcho dos anos 90 e 2000". Overmundo, 28/12/2009Mendes, Marcelo. "Grandes histórias do rock 2002/2003: cap. 3". Overmundo, 01/06/2006 Segundo Marcelo Mendes, "as músicas tocavam no rádio e o clipe de 'Bico de Pato', um dos carros chefes da banda, tocou direto na MTV".
O único CD da Aristóteles apareceu em 1996, através do selo independente de Birck, Grenal Records."Gaúchos a mil". Zero Hora, 16/07/1995 A gravação do CD se revestiu do caráter de um laboratório de criatividade, utilizando extensamente recursos digitais impossíveis de serem reproduzidos em shows ao vivo e que eram novidade, numa fase em que a gravação analógica entrava em declínio. O CD desencadeou reações bastante divergentes pela originalidade e radicalidade das suas pesquisas sonoras, mas foi considerado por Rogério Skylab como um marco importante na carreira de Birck, a quem chamou de "genial", por enveredar decididamente por um experimentalismo sem concessões ao mainstream e por nortear sua produção posterior.Skylab, Rogério. "Entrevista com Marcvelo Birck". O Matador de Passarinho, 09/09/2013 A produção da banda incluiu também dois filmes trash em vídeo e vários videoclips.Faria, Arthur de. Um Século de Música. CEEE, 2001, pp. 339-340"Aristóteles trash". Zero Hora, 03/10/1995Ferla, Marcelo. "O presente da Vortex (I)". Zero Hora, 09/11/1995