A Guerra do Alto Carabaque () ou Carabaque Montanhoso (), referida como a Guerra de Libertação de Artsaque (, Artsakhyan azatamart) pelos armênios, designa o conflito armado ocorrido entre Fevereiro de 1988 e Maio de 1994, no pequeno enclave étnico do Alto CarabaqueOs nomes da região em várias línguas têm aproximadamente o mesmo significado. O nome teve origem em fontes Geórgias e Persas nos séculos XIII e XIV. Quer em língua arménia quer em língua azeri o nome da região significa "Carabaque Montanhoso [jardim negro]", mas os arménios também usam a expressão Artsaque para fazer referência à região, aludindo à décima província do antigo Reino da Armênia. O nome é frequentemente encurtado para apenas Carabaque em fontes noticiosas e livros. no sudoeste do Azerbaijão, opondo a maioria étnica arménia residente no Alto Carabaque apoiada pela República da Arménia à República do Azerbaijão. Com o decurso da guerra, a Arménia e o Azerbaijão, duas antigas repúblicas soviéticas, envolveram-se numa longa e não declarada guerra nos picos montanhosos do Carabaque, face à tentativa do Azerbaijão de dominar o movimento secessionista no Alto Carabaque. O parlamento do enclave tinha votado favoravelmente à sua integração na Arménia e um referendo levado a cabo resultou numa larga maioria da população do Carabaque a manifestar-se a favor da independência do Azerbaijão. A ideia da unificação com a Arménia, que proliferou no final da década de 1980, começou de uma forma relativamente pacífica, contudo, à medida que a desintegração da União Soviética se aproximava, o conflito tornou-se gradualmente mais violento, resultando em acusações de limpeza étnica de parte a parte.

Os confrontos entre etnias estalaram pouco após o parlamento do Alto Carabaque, na altura um oblast autónomo no Azerbaijão, votou favoravelmente à unificação da região com a Arménia a 20 de Fevereiro de 1988. A declaração de secessão do Azerbaijão foi o resultado final de um "longo ressentimento na comunidade arménia do Alto Carabaque contra as sérias limitações à sua liberdade cultural e religiosa pelas autoridades centrais soviéticas e azeris", mas mais importante, de um conflito pela posse do território.

Juntamente com os movimentos secessionistas nas repúblicas bálticas da Estónia, Letónia e Lituânia, os movimentos secessionistas no Cáucaso caracterizaram e desempenharam um papel importante na dissolução da União Soviética. O Azerbaijão declarou-se independente da União Soviética e removeu os poderes detidos pelo governo do enclave, a maioria arménia votou pela independência face ao Azerbaijão, tendo no processo proclamado o enclave como a República do Alto Carabaque (atual República de Artsaque).Deve notar-se que na altura da dissolução da União Soviética, o governo dos EUA reconheceu por meio da doutrina Stimson a legitimidade das fronteiras de 1933, prévias ao Pacto Molotov-Ribbentrop (o governo de Franklin D. Roosevelt estabeleceu relações diplomáticas com o Kremlin no final desse ano. Por causa disto a administração de George H. Bush apoiou abertamente a secessão das repúblicas soviéticas do Báltico, mas encarou as questões relacionadas com a independência e conflitos territoriais da Geórgia, Arménia, Azerbaijão e o resto do Transcaucásia como assuntos internos dos soviéticos.

O conflito estalou definitivamente no final do Inverno de 1992. A mediação internacional tentada por diversos grupos como a OSCE não conseguiu terminar com o conflito gerando uma solução com que ambos os lados concordassem. Na Primavera de 1993, as forças arménias conquistaram regiões fora do enclave, ameaçando o envolvimento de outros países da região. No final da guerra, em 1994, os arménios controlavam totalmente o enclave, além de uma extensão que ainda controlam de cerca de 9% do território azeri fora do enclave.Usando dados providenciados pelo jornalista Thomas de Waal para as áreas de cada rayon bem como do oblast do Alto Carabaque e a área total do Azerbaijão são (em quilómetros quadrados): 1936, Quelbajar; 1835, Lachim; 802, Cubatli; 1050, Jebrail; 707, Zanguelã; 842, Aguedame; 462, Fizuli; 75, exclaves; totalizando 7709km² ou 8,9%: de Waal. Black Garden, p. 286. Cerca de 400 000 arménios do Azerbaijão e 800 000 azeris da Arménia e do Carabaque foram deslocados devido ao conflito. Envolvimento militar negado pelo governo da Arménia. Um tratado de cessar-fogo foi assinado em Maio de 1994 e conversações de paz, mediadas pelo Grupo de Minsk da OSCE, têm sido mantidas desde então entre a Arménia e o Azerbaijão.

Antecedentes

O domínio territorial do Alto Carabaque é ainda hoje disputado entre Arménia e Azerbaijão. Chamado de Artsaque pelos arménios, sua história cobre vários séculos, durante os quais esteve sob controlo de diversos impérios. Contudo, o foco do debate é o período posterior à Primeira Guerra Mundial. Pouco após a capitulação do Império Otomano, o Império Russo colapsou em novembro de 1917, passando, assim, para o controlo dos bolcheviques. As três nações do Cáucaso (Arménia, Azerbaijão e Geórgia), anteriormente sob controlo russo, declararam a sua independência formando a Federação Transcaucasiana, que se dissolveu após curtos três meses de existência.

Guerra Armeno-Azeri

Os confrontos entre a República Democrática da Arménia e a República Democrática do Azerbaijão estalaram de imediato, em três regiões específicas: Naquichevão, Zanguezur (hoje a província arménia de Siunique) e o Carabaque. A Arménia e o Azerbaijão defendiam diferentes limitações fronteiriças nestas três províncias. Os arménios do Carabaque tentaram declarar a independência mas não conseguiram estabelecer contacto com a República da Arménia. Após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial, tropas britânicas ocuparam a Transcaucásia em 1919, tendo o comando britânico nomeado provisoriamente Khosrov bey Sultanov (apontado pelo governo azeri) como governador-geral do Carabaque e Zanguezur, enquanto se aguardava que a decisão final emanasse da Conferência de Paz de Paris.Ministério dos Negócios Estrangeiros da República da Arménia. Circular pelo coronel D. I. Shuttleworth do Comando Britânico. Arquivos da República da Arménia, File No. 9. Acedido a 2 de Março de 2007.

Integração na União Soviética right|thumb|Mapa do Oblast Autônomo de Nagorno-Carabaque. Dois meses depois, o 11º Exército da União Soviética invadiu o Cáucaso e três anos depois as repúblicas caucasianas formaram a RSFS Transcaucasiana da União Soviética. Os bolcheviques criaram depois um comité de sete membros, o Gabinete do Cáucaso (muitas vezes abreviado para Kavburo), que sob a supervisão do futuro líder da URSS Josef Stalin, o Comissário do Povo para as Nacionalidades (Narkomnats), teve como função tratar dos assuntos no Cáucaso. Apesar de o comité ter votado favoravelmente 4-3 pela integração do Carabaque na recém-criada RSS da Arménia, os protestos levados a cabo pelos líderes azeris, incluindo o líder do Partido Comunista no Azerbaijão Nariman Narimanov, e uma rebelião antissoviética ocorrida na capital arménia Erevã em 1921 azedaram as relações entre a Arménia e a Rússia. Estes fatores levaram o comité a rever a sua posição, atribuindo Carabaque ao Azerbaijão em 1921, tendo depois incorporado o Oblast Autónomo do Alto Carabaque (NKAO) na RSS do Azerbaijão em 1923, sendo 94% da população composta por arménios.Yamskov, A. N. "Ethnic Conflict in the Transcausasus: The Case of Nagorno-Karabakh". Theory and Society, Vol. 20, No. 5, Special Issue on Ethnic Conflict in the Soviet Union October 1991, 659. Acedido a 13 de Fevereiro de 2007. A capital foi movida de Shusha para Khankendi, que foi depois renomeada para Stepanakert.

Os académicos arménios e azeris especulam que esta decisão resultou de a Rússia aplicar o princípio de "dividir para conquistar". O que se pode observar, por exemplo, se se atender à estranha colocação do exclave de Naquichevão, que é parte do Azerbaijão embora esteja deste separado pela Arménia. Outros têm argumentado que esta decisão foi um gesto de boa-vontade do governo soviético para manter "boas relações com a Turquia de Atatürk". A Arménia sempre se recusou a reconhecer esta decisão e continuou a protestar a sua legalidade nas décadas seguintes enquanto parte do estado soviético.

O ressurgimento da questão do Alto Carabaque Com a eleição de Mikhail Gorbachev como Secretário Geral do PCUS em 1985, começaram a ser implementadas reformas na União Soviética, conhecidas como perestroika e glasnost. A perestroika referia-se à reforma da economia da URSS, e a glasnost concedeu aos cidadãos da URSS uma maior liberdade de opinião, especialmente no sentido em que se podia pela primeira vez criticar abertamente o sistema soviético e os seus líderes. Aproveitando esta abertura, os líderes do Soviete Regional do Carabaque votaram favoravelmente quanto à união desta região autônoma com a Armênia, a 20 de Fevereiro de 1988. Os dirigentes armênios do óblast queixavam-se de a região não ter manuais escolares nem emissões de televisão em armênio, e que o Secretário Geral do Partido Comunista do Azerbaijão Heidar Aliev tinha tentado realizar uma "azerização" da zona, incrementando o número e influência dos azeris que viviam no Alto Carabaque, enquanto em simultâneo reduzia a o número de armênios (em 1987, Aliev resignaria do cargo). Regnum News Agency. "Кто на стыке интересов? США, Россия и новая реальность на границе с Ираном" (Who is at the turn of interests? US, Russia and new reality on the border with Iran (em russo) ) 4 de Abril 4 de 2006. Em 1988 a população armênia da zona estava reduzida e compunha apenas aproximadamente três quartos da população total do Carabaque. thumb|150px|Mikhail Gorbachev em 1987

O movimento pela autonomia sempre foi liderado por figuras populares armênias e também por membros da "intelligentsia" soviética, como o conhecido dissidente e prêmio Nobel da Paz Andrei Sakharov. Antes da declaração de 20 de fevereiro, os armênios começaram a protestar organizando também greves de trabalhadores em Erevã exigindo a unificação com o enclave. Estes protestos foram contestados pelos azeris em termos similares em manifestações realizadas em Baku. Como reação aos protestos, Gorbachev afirmou que as fronteiras entre as repúblicas soviéticas não seriam modificadas, de acordo com o disposto no artigo 78 da Constituição da URSS de 1977. Gorbachev afirmou também que outras nacionalidades e povos do país estavam solicitando alterações territoriais, logo uma nova definição de fronteiras no Alto Carabaque estabeleceria um precedente perigoso. Os armênios contemplaram a decisão 1921 do Kavburo com desdém, considerando por sua vez que os seus esforços pretendiam corrigir um erro histórico baseado no princípio da autodeterminação dos povos, um direito também consagrado na Constituição. Os azeris, por seu lado, consideravam esta pretensão dos armênios como inaceitável, por ser a usurpação de uma parte importante da República e alinharam-se com a posição de Gorbachev.

Sumgait

Conflitos étnicos estalaram prontamente entre arménios e azeris residentes no Carabaque. A 22 de fevereiro de 1988 nas proximidades da vila de Askeran (no Alto Carabaque, na estrada que liga Agdam a Estepanaquerte), um confronto entre membros destes grupos terminou em violentos incidentes que deixaram cerca de 50 arménios feridos. Durante os combates, um polícia local, supostamente arménio, alvejou mortalmente dois jovens azeris. Dias depois, a 27 do mesmo mês, enquanto falava na televisão central de Baku, o delegado do ministério público soviético Alexander Katusev mencionou a nacionalidade dos feridos.

thumb|250px|Sumgait (Sumqayit) localiza-se a cerca de 30 quilómetros a noroeste da capital do Azerbaijão Baku, junto ao Mar Cáspio