Tribalistas é o álbum de estreia do supergrupo musical brasileiro de mesmo nome. O seu lançamento ocorreu em 4 de novembro de 2002 através da editora discográfica independente Phonomotor, sob distribuição da EMI. Desde o início de suas carreiras, os músicos brasileiros Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte estavam presentes nos trabalhos uns dos outros com certa frequência, mantendo também uma amizade pessoal. Em 2001, Monte foi convidada a contribuir com vocais em uma das faixas do quinto álbum de estúdio de Antunes, Paradeiro, que Brown estava produzindo em Salvador, Bahia. A passagem, que estava programada para durar apenas dois dias, acabou estendendo-se por uma semana. Neste período, eles compuseram 13 músicas de uma vez e, após um período discutindo o que fariam com cada uma delas, acordaram por registrá-las em conjunto. As gravações do projeto ocorreram entre 8 a 24 de abril de 2002 no estúdio projetado na casa de Monte, no Rio de Janeiro, sob a produção musical da própria cantora, a qual contou com o auxílio de Antunes, Brown e do músico Alê Siqueira.
Durante o desenvolvimento de Tribalistas, o trio decidiu incorporar gêneros musicais distintos em sua composição, como o pop, o samba, a bossa nova e, principalmente, a tropicália dos anos 1970. A incursão desse último gênero fora sugerida pela mídia como uma tentativa de emular a sonoridade dos Novos Baianos, assim como o conceito de supergrupo recebeu comparações com a proposta dos Doces Bárbaros. Liricamente explora temas díspares, como relacionamentos amorosos, o Carnaval do Brasil e, no caso de faixas como "Mary Cristo" e "Anjo da Guarda", conceitos lúdicos de anjo da guarda e o nascimento de Cristo. Além de terem composto todas as canções, os intérpretes forneceram variados instrumentos para a obra, sendo Dadi Carvalho e Cézar Mendes, os únicos dois outros músicos creditados em seu instrumental. A cantora Margareth Menezes, por sua vez, participa dos vocais e do violão de um número de seu alinhamento, ao qual foi convidada a contribuir após visitar os Tribalistas em estúdio.
Após seu lançamento, Tribalistas foi recebido com avaliações geralmente positivas pelos críticos especializados, com a maioria a elogiar a qualidade de suas canções, a união coesa entre os estilos díspares dos três intérpretes e seus vocais, principalmente os de Monte. Outros expressaram que o excesso de participação dela o fazia soar como um de seus trabalhos solos. O disco foi nomeado em cinco categorias no Grammy Latino de 2003, faturando a de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Foi igualmente bem recebido no âmbito comercial; no Brasil, liderou por várias semanas a parada de vendas de álbuns publicada pela revista IstoÉ Gente, sendo que 23 destas foram consecutivas. Internacionalmente, também foi bem recebido, atingindo o primeiro lugar em Portugal e o segundo na Itália, enquanto qualificou-se entre os cem primeiros na França, Espanha e Suíça. Tal desempenho resultou em diversas certificações, incluindo a de diamante emitida pela Pro-Música Brasil (PMB) e a de platina entregue por outras associações, como a Associação Fonográfica Portuguesa (AFP). Mundialmente, vendeu mais de 3 milhões de unidades.
Dois singles foram lançados de Tribalistas. O primeiro, "Já Sei Namorar", foi um grande sucesso comercial, atingindo o topo das rádios do Brasil, registrando entrada nas paradas de várias nações, como Itália, Países Baixos e Portugal, e recebendo um certificado de ouro pela Federazione Industria Musicale Italiana (FIMI) pelas vendas de cem mil unidades em território italiano. "Velha Infância", a segunda faixa de trabalho, foi lançada seguidamente e repetiu o desempenho comercial positivo da antecessora, culminando nas rádios brasileiras ao ponto de converter-se na mais executada do ano de 2003. O trio realizou divulgação mínima para o disco, limitando-se a apenas algumas entrevistas a veículos de comunicação e apresentações na cerimônia do Grammy Latino, em Miami, e no anfiteatro Arena de Verona, na Itália. Uma versão em vídeo da obra, contendo os bastidores de sua produção e gravação, foi exibida pela TV Globo. Antecedentes
Os músicos brasileiros Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, desde o início de suas carreiras, estiveram a colaborar com relativa frequência nos trabalhos uns dos outros. A primeira contribuição ocorreu no álbum de estreia de Monte, Mais (1990), que foi precedido pelo single "Beija Eu", cocomposto por Antunes. Já sua parceria com Brown iniciou-se em 1994, quando ele foi convidado a colaborar no disco seguinte dela, Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão. A partir daí, ambos também iniciaram uma relação de amizade bastante estreita. Com Brown, inclusive, vindo anos mais tarde, a descrevê-la como a sua "irmã espiritual". A relação deste com Antunes veio acontecer pouco depois, quando os três escreveram e produziram faixas para o álbum duplo de Monte, Barulhinho Bom - Uma Viagem Musical (1996). Ela foi coprodutora do segundo disco de estúdio de Brown, Omelete Man, que contou com composições de Antunes. Este, por sua vez, adicionou letras escritas por Brown em seu projeto Um Som (1998).
Em 2000, Monte liberou seu disco seguinte Memórias, Crônicas e Declarações de Amor. A canção escrita por Brown, "Amor I Love You" tornou-se o primeiro single do projeto e o motor que impulsionou as suas vendas, fazendo-as ultrapassar 1 milhão de unidades em território brasileiro e garantindo-lhe um certificados de diamante através da Pro-Música Brasil (PMB). Rendendo, ainda uma indicação a Melhor Canção Brasileira na 2ª cerimônia do Grammy Latino. Durante a gravação da música, Antunes participou recitando um trecho do livro O Primo Basílio (1978), escrito pelo diplomata português Eça de Queirós.
Gravação e produção
Em março de 2001, Antunes recrutou Brown e o músico Alê Siqueira para produzirem seu quinto álbum de estúdio, Paradeiro. As sessões de produção e composição iniciaram-se em seguida no estúdio Ilha dos Sapos, localizado no bairro do Candeal, em Salvador, Bahia. Pouco depois, eles convidaram Monte para ir ao local realizar uma participação especial contribuindo com vocais para faixa-título deste álbum, a qual ela também assinava a coautoria. A gravação foi rápida, mas a cantora acabou por ficar com eles durante toda uma semana, passando assim a colaborar com Antunes e Brown na criação de novas composições. Em conversa com Nelson Motta, Monte detalhou como o processo surgiu: "A gente não se encontrou para compor um disco. Eu fui gravar com o Arnaldo, aí sabia que ia ficar uns dias com ele, busquei umas coisas aqui, ele tinha umas coisas pensadas lá, e naturalmente quando a gente se encontra, os três juntos, essas músicas começaram a ser feitas, a serem concluídas".
Monte trouxe ao estúdio uma fita demo contendo esboços de letras que ela havia começado a elaborar sozinha anteriormente ou então algo que havia começado a criar com Brown, em alguma outra ocasião, mas que não havia tido a oportunidade de ser concluído, explicando; "Às vezes uma coisa que eu e o Brown tínhamos começado, a gente terminava com o Arnaldo, às vezes uma coisa que eu trazia antiga, às vezes uma coisa que eles tinham começado e que eu fiz algum detalhe". Dizendo, ainda, que o processo criativo era realizado toda as noites "e cada noite a gente fazia mais duas [canções] e cantava as que haviam sido feitas no dia anterior". Durante o processo, o trio recebeu a visita de Margareth Menezes. Segundo eles, a cantora esteve por mais de uma ocasião no estúdio, durante todo o dia, os vendo compor e tocar as peças que estavam sendo criadas, o que os deixou motivados a envolve-la em algumas delas. No final daquela semana, Antunes, Brown e Monte haviam escrito em comunhão por volta de 20 músicas, sendo que três destas foram desenvolvidas com a contribuição adicional de outros parceiros como Menezes, Davi Moraes, Cezar Mendes e Pedro Baby. thumb|150px|direita|A cantora Margareth Menezes participa dos vocais e do violão de "Passe em Casa", sendo convidada a contribuir após visitar os Tribalistas no estúdio
Em seguida, o três retomaram os compromissos de suas carreiras individuais; Monte deu continuidade a turnê de apoio a Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000), que foi registrado em audiovisual e lançado no final daquele ano. Antunes liberou Paradeiro em outubro e iniciou uma excursão para promovê-lo. Brown dedicou-se à produção dos álbuns da Timbalada e de Menezes. Contudo, entre telefonemas e encontros esporádicos, continuaram a aprimorar as composições e, após discutirem o que fariam com cada uma delas, concordaram em registra-las juntos. Em abril de 2002, momento no qual coincidia com menor número de trabalho nas agendas de cada membro, ficou decidido que, finalmente, realizarem a concretização do projeto. Os artistas se reuniram no estúdio pessoal de Monte, localizado em sua casa no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro em 8 daquele mês. Com apenas dois dias de ensaio, as gravações duraram até 24 próximo, acumulando 13 dias no total, tendo registrado uma faixa a cada dia.
No estúdio, apenas outros dois músicos estiveram presentes, Dadi Carvalho e Cézar Mendes, que colaboraram tocando variados instrumentos, além de Menezes que contribuiu com vocais, composição e violão na faixa que é creditada. Monte emergiu como o ponto focal do grupo ao assumir sozinha a função de produtora, enquanto Brown, Antunes e o colaborador Siqueira assinaram a coprodução. A intenção da artista não era monopolizar os holofotes para si, segundo seu empresário Leonardo Netto, mas sim ser a "catalisadora da concretização desse projeto". Os meses de maio e junho foram dedicados a finalização e mixagem por Monte, Siqueira e Flávio de Souza. Pensando a princípio em ter no mínimo material para divulgá-lo, a produtora Trattoria Di Frame Produções foi contatada para filmar a gravação da obra. O cinegrafista Guilherme Ramalho montou com a diretora Dora Jobim uma estrutura com 3 câmeras mini-DV, para captar em tempo integral todo o trabalho realizado em estúdio. Cinco meses foram consumidos na edição e conclusão das imagens, incluindo a volta dos produtores ao estúdio para a mixagem de áudio em dolby 5.1.
Estrutura musical
Temas e influências na composição Musicalmente, Tribalistas é um álbum composto por diferentes estilos, como o pop, o samba, a bossa nova e, principalmente, a tropicália dos anos 1970. A incursão desse último gênero, fora sugerida pela mídia como uma tentativa de emular a sonoridade dos Novos Baianos, assim como o conceito de supergrupo recebeu comparações com a proposta dos Doces Bárbaros. Embora não tenham revelado nenhuma influência direta para elaboração do trabalho, Antunes citou Gil & Jorge: Ogum, Xangô (1975), Elis & Tom (1974), Doces Bárbaros (1976) e Refestança (1977) como exemplos que tiveram "de discos que foram feitos em conjunto, onde artistas fizeram uma coisa que não fariam sozinhos". Ao analisar a contribuição de cada um dos três membros, Marco Antônio Barbosa, do site CliqueMusic, escreve: "Se fossemos definir as percentagens de cada um na somatória final, pode-se dizer que o disco é 65% Monte — fase Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994) —, 25% Brown e 10% Arnaldo. Melodias diretas, cativantes — pop, enfim — pontuam todo o álbum, mais destacadas quando Marisa vem à frente". Ao passo que Matt Cibula, da página PopMatters, sentiu que o disco exibe a combinação do pop de Monte, com o estilo afro de Brown e o experimentalismo de Antunes, resultando, no que definiu ser, um "ménage à trois" entre os três centros musicais do Brasil e três grandes vertentes da música. Mauro Ferreira, da revista Istoé Gente, notou que o "projeto equilibra o concretismo da obra de Arnaldo com o pop classúdo de Marisa e as experimentações rítmicas de Brown".