Sofia de Barros Pereira de SousaNa grafia original, anterior ao Formulário Ortográfico de 1943 e mantida ao longo de sua vida, Sophia de Barros Pereira de Souza. (São Paulo, 27 de setembro de 1877 – Lausana, 28 de junho de 1934) foi uma dirigente associativa brasileira e primeira-dama do país entre 15 de novembro de 1926 e 24 de outubro de 1930, durante a presidência de seu marido, Washington Luís, o 13.º presidente do Brasil. Antes disso, acompanhou-o nos períodos em que ele exerceu a prefeitura da cidade de São Paulo, de 1914 a 1919, e a presidência do estado de São Paulo, de 1920 a 1924.
Proveniente da família Pais de Barros, ligada à cafeicultura e às elites agrárias paulistas, Sofia casou-se com Washington Luís em 1900 e teve quatro filhos. Como primeira-dama nacional, sua principal atuação pública documentada ocorreu na presidência da Associação Mantenedora da Casa Marcílio Dias, entidade encarregada de captar e administrar recursos destinados a um projeto de assistência e educação profissional para filhos de praças da Marinha do Brasil, com prioridade para órfãos.
Depois da deposição de Washington Luís pela Revolução de 1930, acompanhou o marido e parte dos filhos ao exílio europeu. Cartas preservadas no Arquivo Público do Estado de São Paulo registram sua passagem pela França, a saudade dos familiares, sua religiosidade e as dificuldades de adaptação à vida no exterior. Sofia morreu em Lausana, aos 56 anos, e seu corpo foi trasladado ao Brasil e sepultado no Cemitério da Consolação.
Origens familiares
Sofia nasceu em 27 de setembro de 1877, no estado de São Paulo. Seu nome de solteira aparece nos registros arquivísticos como Sophia Oliveira de Aguiar e Paes de Barros. Era filha de Rafael Tobias de Aguiar Pais de Barros, segundo Barão de Piracicaba, e de Maria Joaquina de Melo e Oliveira, conhecida como segunda baronesa de Piracicaba.
A família paterna integrava a elite rural e cafeeira paulista. Seu pai, proprietário rural e membro de uma das famílias tradicionais da província, era filho de Antônio Pais de Barros, primeiro barão de Piracicaba, e de Gertrudes Eufrosina de Aguiar. Pelo lado materno, Sofia descendia de José Estanislau de Oliveira, Visconde de Rio Claro, e de Elisa Justina de Melo Franco.
A historiadora Dayanny Deyse Leite Rodrigues situa Sofia no grupo de mulheres provenientes das famílias oligárquicas que ocuparam a posição de primeira-dama durante a Primeira República. Segundo a autora, o casamento com uma integrante da família Pais de Barros também contribuiu para aproximar Washington Luís das redes políticas, econômicas e familiares da elite paulista.
As fontes utilizam diferentes formas para seu nome. A documentação familiar editada pela Universidade de São Paulo emprega “Sophia Oliveira de Barros”; documentos arquivísticos registram “Sofia Oliveira de Aguiar e Paes de Barros”; e os periódicos de sua época geralmente a chamavam de “Sophia de Barros Pereira de Souza” ou “Sophia Pereira de Souza”. As variantes “Sophia/Sofia”, “Paes/Pais” e “Souza/Sousa” decorrem tanto das formas efetivamente utilizadas nos documentos quanto das reformas ortográficas posteriores.
Casamento e descendência
Sofia conheceu Washington Luís em um sarau de música e poesia realizado na residência de seus pais. Ele era então advogado e político radicado em Batatais, no interior paulista. Os dois se casaram em São Paulo, em 6 de março de 1900.
O casal teve quatro filhos: Florinda Maria Pereira de Sousa, nascida em 14 de fevereiro de 1901; Rafael — ou Raphael — Luís Pereira de Sousa, nascido em 9 de abril de 1902; Caio Luís Pereira de Sousa, nascido em 15 de dezembro de 1905; e Vítor — ou Victor — Luís Pereira de Sousa, nascido em 9 de setembro de 1907.
Após o casamento, Washington Luís transferiu-se definitivamente para a capital paulista e desenvolveu uma trajetória que incluiu os cargos de vereador, prefeito da cidade de São Paulo, deputado estadual, presidente do estado, senador e presidente da República. Entre 15 de janeiro de 1914 e 15 de agosto de 1919, exerceu a prefeitura de São Paulo; posteriormente, governou o estado durante o quadriênio de 1920 a 1924.
Atuação como primeira-dama
Em São Paulo
Como esposa do prefeito da capital e, mais tarde, do presidente do estado, Sofia passou a ocupar a posição social posteriormente identificada como primeira-dama municipal e estadual. As fontes disponíveis concentram-se principalmente na trajetória administrativa de Washington Luís, enquanto os registros sobre Sofia nesse período aparecem sobretudo na documentação familiar, em fotografias e nas notícias sociais da imprensa.
A correspondência da família Pais de Barros, preservada no Fundo Washington Luís do Arquivo Público do Estado de São Paulo, demonstra que Sofia permaneceu integrada a uma extensa rede familiar. As cartas tratam de assuntos domésticos, relações de parentesco, viagens, saúde, religiosidade e acontecimentos políticos, constituindo uma fonte para o estudo da vida privada e das sociabilidades da elite paulista nas primeiras décadas do século XX.
Primeira-dama do Brasil
Washington Luís tomou posse na Presidência da República em 15 de novembro de 1926, fazendo de Sofia a última primeira-dama do período constitucional da Primeira República. Ela permaneceu nessa condição até 24 de outubro de 1930, quando o presidente foi deposto pelo movimento revolucionário que encerrou a ordem política estabelecida em 1889.
Embora não exercesse cargo administrativo, Sofia participou de solenidades e iniciativas assistenciais relacionadas à posição pública ocupada pelo marido. A atividade mais amplamente documentada foi sua presidência da Associação Mantenedora da Casa Marcílio Dias, organizada nos primeiros meses da administração presidencial.
Casa Marcílio Dias
O projeto da Casa Marcílio Dias surgiu em 1926 e destinava-se a oferecer assistência social, educação geral e formação profissional aos filhos de praças da Marinha, dando prioridade aos órfãos. A proposta previa instalações para alunos internos e externos e buscava responder às dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias dos militares de menor graduação.
Em 13 de dezembro de 1926, data em que se celebrava o Dia do Marinheiro, foi instalada, durante sessão solene no Clube Naval, a Associação Mantenedora da Casa Marcílio Dias. Presidida por Sofia, a entidade ficou encarregada da arrecadação e da administração dos recursos destinados à aquisição do terreno, à construção do edifício e ao futuro custeio das atividades. As campanhas incluíram subscrições públicas, doações, eventos culturais, festas beneficentes e contribuições recolhidas nas organizações militares.
A associação possuía um conselho deliberativo formado por militares e civis, incluindo várias mulheres. Sob o patrocínio de Sofia, conseguiu adquirir um imóvel no bairro do Méier, no Rio de Janeiro, e iniciar as obras de um edifício destinado a receber centenas de estudantes. A participação feminina foi especialmente relevante nas campanhas junto a comerciantes, industriais, autoridades e famílias das diferentes regiões do país.
Em 14 de julho de 1928, Sofia realizou a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da Casa Marcílio Dias, na Rua César Zama, no Méier. O ato contou com a presença do presidente da República e de autoridades civis e militares. Notícia publicada pelo jornal A Esquerda identificou-a expressamente como presidente da Associação Mantenedora e informou que a instituição seria destinada aos filhos órfãos dos marinheiros da esquadra brasileira.
Em junho de 1929, durante a apresentação de um balanço financeiro da associação, seu conselho deliberativo aprovou por unanimidade uma moção de agradecimento e congratulações a Sofia pelo “valioso patrocínio” e pelo interesse dedicado à Casa Marcílio Dias. A imprensa também relacionava a visibilidade alcançada pelo empreendimento à sua presidência e à cooperação dos integrantes da Armada.
Apesar da mobilização, os recursos arrecadados não foram suficientes para a conclusão e o funcionamento da escola nos moldes inicialmente planejados. As datas previstas para a inauguração foram sucessivamente adiadas, e o imóvel acabou transferido à Marinha. A área e as construções foram posteriormente empregadas na estrutura de assistência médica naval, sendo consideradas parte da origem histórica do atual Hospital Naval Marcílio Dias.
Visita de Herbert e Lou Hoover
Em dezembro de 1928, Sofia participou das recepções oferecidas a Herbert Hoover e Lou Henry Hoover durante a passagem do casal pelo Rio de Janeiro. Hoover havia vencido a eleição presidencial norte-americana, mas ainda não tomara posse; a documentação oficial dos Estados Unidos classifica a viagem, realizada entre 21 e 23 de dezembro, como uma visita de boa vontade feita na condição de presidente eleito.
Durante o cortejo oficial, Sofia e Lou Hoover seguiram juntas em um dos automóveis da comitiva. O jornal Crítica registrou que os dois casais entraram no Palácio Guanabara e que Washington Luís e Sofia deixaram o local após uma breve permanência. O episódio é por vezes descrito incorretamente como uma recepção a um presidente e a uma primeira-dama já empossados; Herbert Hoover somente assumiria a Presidência dos Estados Unidos em 4 de março de 1929.
Deposição e exílio
Em 24 de outubro de 1930, a junta militar formada durante a Revolução de 1930 depôs Washington Luís, quando faltavam 21 dias para o encerramento de seu mandato. Depois de deixar o Palácio Guanabara, o presidente foi mantido no Forte de Copacabana até 20 de novembro. Nessa data, partiu compulsoriamente para a Europa acompanhado por Sofia e pelos filhos Florinda Maria, Caio Luís e Vítor Luís, além dos cônjuges dos dois primeiros.
A família estabeleceu-se inicialmente na França. Cartas escritas por Sofia em 1931 registram estadias em Plombières-les-Bains e Paris. Em correspondência de 28 de agosto, descreveu viagens pela região francesa, a saudade dos parentes, sua frequência às igrejas e a piora de sua visão. Em 12 de setembro, já em Paris, afirmou que todos estavam bem de saúde, mas relatou o tédio e a angústia da vida no exílio, recorrendo à fé como fonte de esperança.
As cartas também revelam sua preocupação com os bens deixados no Brasil. Sofia pediu à irmã Gertrudes, chamada familiarmente de Tuda, que cuidasse dos retratos de seus pais, de uma imagem de São José, de suas peças de prata e de outros objetos retirados da antiga residência. Em vez de constituírem apenas relatos domésticos, esses documentos oferecem informações sobre a experiência de deslocamento forçado, os vínculos afetivos e a religiosidade de uma família politicamente exilada.
Morte e sepultamento
Sofia morreu em 28 de junho de 1934, em Lausana, na Suíça, aos 56 anos. Washington Luís permaneceu no exterior depois de sua morte e somente retornou ao Brasil em 1947. Tanto uma pesquisa dedicada ao primeiro-damismo quanto o perfil histórico publicado pela Câmara Municipal de São Paulo apontam Sofia como a única ex-primeira-dama brasileira a ter morrido durante um exílio político.
Seu corpo foi transportado ao Brasil por via marítima. Depois de desembarcarem em Santos, os restos mortais seguiram em trem especial para a Estação da Luz, na capital paulista, onde foram recebidos por familiares, autoridades, representantes de associações estudantis, entidades cívicas e integrantes dos meios sociais e culturais de São Paulo.
O sepultamento ocorreu em 31 de julho de 1934, no Cemitério da Consolação. O cortejo foi acompanhado por carros com coroas de flores e por representantes do governo estadual. No momento da inumação, a educadora Carolina Ribeiro discursou em nome da União Feminina Paulista, entidade responsável pelas homenagens prestadas à memória de Sofia.
Documentação e historiografia