O pensamento selvagem (La pensée sauvage) é um livro do antropólogo Claude Lévi-Strauss publicado em 1962 pela editora Plon em Paris.

Esse antropólogo, criador do método estrutural, estudou os povos ditos primitivos, contestando o racismo e a noção de primitivo, e comparou etnografias realizadas em todos os continentes.Talvez a sua principal contribuição seja sua demonstrável constatação de que os chamados selvagens não são atrasados, "menos evoluídos", selvagens nem primitivos, apenas operam de modo distinto da nossa civilização ocidental, com o que a antropologia convencionou denominar pensamento mítico-religioso ou magia. Lévi-Strauss nos demonstra que o pensamento mítico em termos de operações mentais é comparável ao pensamento científico,Levi-Strauss, Claude. O pensamento selvagem SP, Ed. Nacional, 1976 diferindo quanto à questões do determinismo causal, global e integral para o primeiro e em níveis distintos, não aplicáveis uns aos outros, no pensamento científico. (Levi-Strauss o.c. p.31-32)

Ou melhor o “pensamento em estado selvagem” o mito, enquanto arte (narrativa, bricolagem) ou em suas relações com a ciência e a atividade classificatória em termos das possibilidades formais devem ser considerados como uma pré-condição da linguagem, antes de o tomarmos esta última como a particularidade da espécie humana. LANNA, M.; COSTA, C. E.; SOUZA, A. C. de. Sacrifício, tempo, antropologia: três exercícios em torno de O Pensamento Selvagem. Revista de Antropologia, [S. l.], v. 58, n. 1, p. 321-361, 2015. DOI: 10.11606/2179-0892.ra.2015.102110. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/102110. Acesso em: 18 fev. 2023.

O mito e o rito, escreve Lévi-Strauss, não são simples lendas fabulosas, mas uma organização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal. Para explicar a composição do mito, organiza três características principais: função explicativa, o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo; função organizativa, o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de identidade, de poder, etc.) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões; e, por fim, uma função compensatória, o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e regularizada da natureza e da vida comunitária.Levi-Strauss, C. Mito e significado. Lisboa, Pt, Edições 70, 1963 apud: Cotta, Mirian de Abreu. A filosofia dos mitos indígenas - mitologias e cultura na américa Curso de Filosofia da U.F. Juiz de Fora. 2009 Pdf Jun. 2011

thumb|O reverso do totemismo, o homem naturalizado. Ilustração de Charles Le Brun utilizada no livro

Segundo Viveiros de Castro, antes de limitar-se à uma interpretação de mitos Levi-Strauss, em alguns de seus livros, analisa as disposições universais do pensamento humano: ameríndio, europeu, asiático ou qualquer outro. Em suas palavras: O “pensamento selvagem” não é o pensamento dos “selvagens” ou dos “primitivos” (em oposição ao “pensamento ocidental”), mas o pensamento em estado selvagem, isto é, o pensamento humano em seu livre exercício, um exercício ainda não-domesticado em vista da obtenção de um rendimento. O pensamento selvagem não se opõe ao pensamento científico como duas formas ou duas lógicas mutuamente exclusivas. Sua relação é, antes, uma relação entre gênero (o pensamento selvagem) e espécie (o pensamento científico). Ambas as formas de pensamento se utilizam dos mesmos recursos cognitivos; o que as distingue é, diz Lévi-Strauss, o nível do real ao qual eles se aplicam: o nível das propriedades sensíveis (caso do pensamento selvagem), e o nível das propriedades abstratas (caso do pensamento científico).Castro, Eduardo Viveiros. O pensamento em estado selvagem do pensamento científico Com Ciência 46 Jan. 2011

O livro Subdividido em 9 capítulos com um apêndice sobre a planta, Pansy (Pensée des champs / Viola tricolor, amor perfeito entre nós) homônima ao nome do livro em francês, Pensée sauvage, esse livro instaura uma nova perspectiva de análise dos mitos e sistemas de classificações de objetos, plantas, animais dos povos considerados primitivos. É um livro que se contrapõe segundo seu autor às clássicas definições do totemismo em etnologia. Tem com referencial o seu livro anterior “O totemismo hoje” (Le totémisme aujourd’hui. PU, Paris, 1962), as contribuições de Maurice Merleau-Ponty, a quem o livro é dedicado em memória e Jean Paul Sartre sem buscar uma oposição entre ambos conforme revela no seu prefácio da obra.

O professor brasileiro Eduardo Viveiros de Castro acredita que ao elaborar o conceito básico de" pensamento selvagem " Lévi-Strauss mostrou que a ciência, filosofia, arte, religião, mitologia, magia etc. constituem na realidade em um único eixo, que é, o conhecimento humanoIl a montré l'universalité de la raison », Books, n°1, décembre 2008 janvier 2009, p. 53.

Assim subdivide-se o livro:

thumb|O reverso do totemismo. A natureza humanizada. Ilustrações de Grandville (Jean-Ignace-Isidore Gérard,) utilizadas no livro

1 – A ciência do concreto

2 – A lógica das classificações totêmicas

3 – Os sistemas de transformações

4 – Totem e casta

5 – Categorias, elementos, espécies, números

6 – Universalização e particularização

7 – O indivíduo como espécie

8 – O tempo redescoberto

9 – História e dialética

Epigrafe " Nada se compara no mundo aos Selvagens, aos camponeses e aos provincianos, para estudarem, a fundo, em todos os sentidos, o que lhes diz respeito; eis porque, quando passam do Pensamento ao Fato, encontrais tudo completo. "

" Il n'y a rien au monde que les Sauvages, les paysans et les gens de province pour étudier à fond leurs affaires dans tous les sens; aussi quand ils arrivent de la Pensée au Fait, trouvez vous les choses complètes. " (Honoré de Balzac, Le Cabinet des Antiques)

Ver também Lucien Lévy-Bruhl Pensamento mágico Émile Durkheim As formas elementares da vida religiosa Antropologia e psicanálise Alegoria / Bricolagem

Ligações externas 1962. O Pensamento selvagem. C. Ed. Nacional, 1970 Google Livros Jan. 2011 Goldman, Marcio. Lévi-Strauss e os sentidos da História. Rev. Antropol. vol.42 n.1-2 São Paulo 1999 Scielo Jan. 2011 O pensamento Selvagem. Resenha Shvoong Jan. 2011 thumb|180px|Totem Tlingit (Civilizaçao Nadene) Durkheim, Émile; Mauss, Marcel. De Quelques Formes Primitives de Classification, contribution à l'étude des représentations collectives. Année sociologique, 6, (1903). PDF Social Sciences and Humanities Jun. 2011 Countries and Their CulturesJun. 2011 Frans Boas, 1938. A Mente do Ser Primitivo, RJ, Vozes, 2010 (Interne Archive en. Jul. 2014)

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