A Questão Coimbrã (também conhecida como Questão do Bom Senso e Bom Gosto) foi uma célebre polémica literária que marcou a visão da literatura em Portugal na segunda metade do século XIX.

Opôs os vários membros daquela que viria a ser conhecida como “Geração de 70” (que, à data da contenda, estudavam em Coimbra), portadores da “Ideia Nova” europeia do Realismo e Naturalismo, aos seus antecessores (muitos dos quais, seus professores em Coimbra), marcadamente românticos. 

Em 1865, António Feliciano de Castilho (velho poeta romântico) publica um posfácio elogioso ao “Poema da Mocidade” de Pinheiro Chagas (também romântico), aproveitando a ocasião para censurar o grupo de jovens da Escola de Coimbra. Acusa-os de exibicionismo, de obscuridade, de tentarem subverter a noção de poesia e, finalmente, de falta de “bom senso e bom gosto”.

A carta de resposta de Antero de Quental (diretamente mencionado no posfácio) a esta provocação, foi por ele intitulada de “Bom Senso e Bom Gosto” e como que oficializou a contenda. Nesta carta são atacados “os valores convencionais das camarilhas instaladas”, demonstrando-se grande ânsia de modernização.

Sublinhe-se apenas que, apesar de extremamente conotado com o romantismo português, a obra de Castilho é, geralmente, considerada medíocre, sendo a relevância do autor mais notória no que toca ao apadrinhamento de outros escritores (prática que levaria Antero a chamar aos prefaciados por Castilho a “Escola do Elogio Mútuo”).

Breve história

Castilho tornara-se um padrinho oficial dos escritores mais novos, tais como Ernesto Biester, Tomás Ribeiro ou Manuel Joaquim Pinheiro Chagas. Dispunha de influência e relações que lhe permitiam facilitar a vida literária a muitos estreantes, serviço que estes lhe pagavam em elogios.

Em redor de Castilho formou-se assim um grupo em que o academismo e o formalismo vazio das produções literárias correspondia à hipocrisia das relações humanas, e em que todo o realismo desaparecia, grupo que Antero de Quental chamaria de «escola de elogio mútuo». Em 1865, solicitado a apadrinhar com um posfácio o Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, Castilho aproveitou a ocasião para, sob a forma de uma Carta ao Editor António Maria Pereira, censurar um grupo de jovens de Coimbra, que acusava de exibicionismo, de obscuridade propositada e de tratarem temas que nada tinham a ver com a poesia, acusava-os de ter também falta de bom senso e de bom gosto. Os escritores mencionados eram Teófilo Braga, autor dos poemas Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras; Antero de Quental, que então publicara as Odes Modernas, e um escritor em prosa, Vieira de Castro, o único que Castilho distinguia.

Antero de Quental respondeu com uma Carta Aberta publicada em folheto dizendo que os românticos estão "ultrapassados" . Nela defendia a independência dos jovens escritores; apontava a gravidade da missão dos poetas da época de grandes transformações em curso e a necessidade de eles serem os arautos dos grandes problemas ideológicos da actualidade, e metia a ridículo a futilidade e insignificância da poesia de Castilho.

Ao mesmo tempo, Teófilo Braga solidarizava-se com Antero no folheto Teocracias Literárias, no qual afirmava que Castilho devia a celebridade à circunstância de ser cego. Pouco depois Antero desenvolvia as ideias já expostas na Carta a Castilho no folheto A Dignidade das Letras e Literaturas Oficiais, evidenciando a necessidade de criar uma literatura que estivesse à altura de tratar os temas mais importantes da actualidade. Seguiram-se intervenções de uma parte e de outra, em que o problema levantado por Antero ficou esquecido. Provocou grande celeuma o tom irreverente com que Antero se dirigiu aos cabelos brancos do velho escritor, e a referência de Teófilo à cegueira dele.

Foi isto o que mais impressionou Ramalho Ortigão, que num opúsculo intitulado A Literatura de Hoje, 1866, censurava aos rapazes as suas inconveniências, ao mesmo tempo que afirmava não saber o que realmente estava em discussão. Este opúsculo deu lugar a um duelo do autor com Antero. Mas outro escrito, este de Camilo Castelo Branco, favorável a Castilho — Vaidades Irritadas e Irritantes — não suscitou reacções. Na realidade nada foi acrescentado aos dois folhetos de Antero durante os longos meses que a polémica durou ainda. Eça de Queiroz, em O Crime do Padre Amaro, de forma implícita, toma parte dos jovens literários.

Romantismo vs. realismo Apesar da Questão Coimbrã ir muito além de uma simples disputa entre diferentes concepções de arte, é necessário entender aquilo em que cada um dos opostos acreditava. É inultrapassável a diferença entre a “Escola do Elogio Mútuo” — que defendia uma arte conservadora e presa no marasmo da tradição literária — e a perspectiva dos jovens da “Geração de 70” que, numa tentativa de trazer a Portugal a modernidade europeia, consideravam que a arte deveria estar ao serviço das transformações sociais, retratando a realidade tal como ela seria e fazendo da poesia “a voz da revolução”.

Explore-se então esta temática:

À época da Questão Coimbrã, o estilo literário vigente em Portugal, e do qual não advinham quaisquer inconveniências, era o romantismo/ultra-romantismo. Este movimento exaltava o instinto, as emoções e os sentimentos, embelezando a realidade em nome da Arte.

Em oposição, surgiu o Realismo, que pretendia tratar a realidade e os factos tal como eram, rejeitando toda a subjectividade e idealização através de uma reprodução objectiva da realidade social.

A Escola de Coimbra era especialmente admiradora do género criado por Víctor Hugo, o romance social, que permitia conciliar o apelo das emoções (tão eficaz para demover o público) e o retrato fiel da miséria social.

Extrai-se a diferença profunda entre românticos e realistas em Portugal: enquanto os primeiros tomam a Arte como fim em si mesma, os realistas orientam o fim daquela para a denúncia dos males sociais, de forma a promover a evolução da sociedade. Para rematar a noção do que seria o Realismo para aqueles que tanto se esforçavam por implantá-lo, veja-se as seguintes citações de Eça de Queiroz. 

Na 4.ª Conferência do Casino Lisbonense: “(O Realismo) É a análise com o fito na verdade absoluta (…) é uma reacção contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mal na nossa sociedade”. Numa carta a Rodrigues de Freitas em 1878:“O Realismo (…) é a grande evolução literária do século e é destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós do Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado."

Antecedentes da polémica

Primeiro confronto entre Antero de Quental e António Feliciano de Castilho No ano de 1862 decorreu um dos diversos saraus no teatro académico de Coimbra. Castilho, como habitualmente fazia, esteve presente de forma a divulgar e promover o seu “Método Repentino”. Nesse dia, os poetas que não concordavam com a visão de Castilho recusaram-se a entrar em palco. No entanto, a pedido do seu tio Filipe de Quental, Antero entra em palco. Porém, surpreende todos os presentes ao recitar com violência e paixão as polémicas estrofes de abertura das Odes Modernas, livro que viria a ser publicado no ano de 1865.

Apesar de provocado, devido ao statu quo inerente Castilho abraçou Quental, saudando como "um poeta de génio". As aparências mantiveram-se, mas a oposição ficou semeada.

1865 – Publicação das "Odes Modernas" de Antero e do "Poema da Mocidade" de Pinheiro Chagas A publicação das "Odes Modernas" de Antero de Quental em 1865 criou um impacto geral, tanto nos apoiantes dos ideais de Quental como na geração anterior que parecia temer qualquer tentativa de inovação. 

Nas "Odes Modernas" podemos ver expresso: Um desejo de inovação artística; Uma valorização das ciências e da sua aplicação nas Humanidades (crença no positivismo); Uma preocupação social evidenciada pelo apontamento da gritantes desigualdades sociais, em que enaltece o trabalho árduo mas nunca valorizado ou devidamente compensado da classe trabalhadora, em oposição ao ócio e luxo despropositado da classe superior.  Várias críticas foram feitas nos jornais da época, tanto em defesa do trabalho de Antero, como em oposição. Um escritor em especial fez o seu critismo sobressair. Manuel Pinheiro Chagas, protegido de Castilho, deixa a sua irónica crítica no Jornal de Comércio a não só Antero mas também Teófilo Braga.

A mando de Castilho, Eduardo Vidal ataca também Antero numa série de folhetins intitulados “A Crítica”.

Mais tarde no mesmo ano, em Outubro, Pinheiro Chagas publica o seu “Poema da Mocidade”. Encarregado de escrever o Prefácio (que se chamaria “Carta ao Editor Pereira”) para a obra do seu protegido, Castilho aproveita a oportunidade para, através do seu habitual palavreado elaborado, fazer violentas alusões a Antero de Quental, Teófilo Braga e a Vieira de Castro (que nada tinha que ver com o assunto). Esta carta, que constata a fraca opinião de Castilho em relação à credibilidade destes jovens escritores, é mais do que provocação suficiente para originar uma resposta de Antero de Quental, dando início da toda a polémica.

Ruptura É no prefácio dos “Contos da Solidão” de Manuel Ferreira da Portela, escrito por Antero, que este último começa a anunciar a sua resposta a provocação do posfácio de Castilho no “Poema da Mocidade”. 

O texto começa numa clara alusão a Castilho que demostra disposição para entrar numa polémica:“Isto não é uma crítica, e menos ainda um elogio. A crítica deixemo-la aos sabedores de regras horacianas, aos levitas das unidades aristotélicas, aos académicos, que bem se entendam com ela.” Continua referindo-se, em tom provocatório, aquela que ele mesmo viria a denominar como "Escola do Elogio Mútuo" (Castilho e seus protegidos):“O elogio, esse é outra cousa. É moeda corrente na literatura contemporânea (…)".

"Bom Senso e Bom Gosto" É pouco depois deste prefácio que, acabando de vez com todas as provocações discretas, Antero redige uma carta explícita de ataque a Castilho, intitulada “Bom Senso e Bom Gosto”. Ressaltam-se nesta carta vários pontos furais.

Começa por explicar que escreve a carta por dois motivos:

1- Porque por não ambicionar qualquer reputação na sua época pode criticar com isenção os que têm essa posição de renome e reconhecimento e o seu modo de trabalho.

2- Por necessidade moral. Considera ter de defender a verdade e a justiça, vendo naqueles que ataca “o mal profundo que as coisas miseráveis representam; uma grande doença moral acusada por uma pequenez intelectual”.

Procede, afirmando que a "Escola de Coimbra" é olhada de lado pelos românticos por vários motivos: Pela sua vontade de inovar. Por não recear quebrar as regras da literatura oficial (atrofiada por um marasmo padronizado sem verdadeira criação). Por cada um se guiar apenas pela própria consciência e reclamar para sí uma plena liberdade criadora que até aí era ignorada, sem “pedir licença” aos “mestres” (grandes nomes da literatura oficial - Castilho e seus protegidos). Ou seja, Antero acusa Castilho de começar uma guerra não contra a “Ideia Nova” em sí mesma mas sim contra a irreverência dos que a tentam proclamar. Vai mais longe ainda acusando-o e a todos os escritores da literatura oficial de ignorarem toda a possibilidade de inovação, considerando isso “(…) levantar a mão roubadora contra o património sagrado da humanidade - o futuro (…) e “atrofiar as ideias e os sentimentos das cabeças e dos corações que têm de vir.”