Os mbiás,VOLP: mbiáMelatti, Julio Cezar. Indios do Brasil. EdUSP, 2007. também chamados Mbyá,Segundo a grafia dos etnônimos brasílicos, estabelecida na 1ª Reunião Brasileira de Antropologia (Rio de Janeiro, novembro de 1953), os substantivos e adjetivos são invariáveis e grafam-se, no caso dos primeiros, com inicial maiúscula. Ex: os Apinayé, os Borôro, a cerâmica kadiwéu.Dicionário Houaiss: Mbyá M'byá, Guarani Mbya,Em guarani, as palavras são, geralmente, oxítonas. Assim, é consenso, na literatura científica, acentuar somente aquelas em que a sílaba tônica não é a última e que são, portanto, exceções. Ver LADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: O território Mbyá a beira do oceano. Editora UNESP, 2007, p. 19.Instituto Socioambiental (ISA). Povos Indígenas no Brasil. Guarani Mbya. Por Maria Inês Ladeira, outubro de 2003. Mbyá-Guarani ou embiás, são um subgrupo do povo guarani que habita a região meridional da América do Sul, em um amplo território, no qual se sobrepõem os Estados nacionais paraguaio, brasileiro, argentino e uruguaio.Los guaraníes en la actualidad. Los mbyáÍndios Guarani Mbyá: Localização geográfica, população, migração, tradição. Por Laís Campos Moser. Revista Ciência em Curso, V. 5, nº 3, abril-junho de 2010. Apesar de se reconhecerem cotidianamente pela forma "Mbyá", sua autodenominação é Nhandeva, termo que quer dizer "nós" ou "nossa gente", sendo também a autodenominação de vários outros grupos guaranis. Para se referirem ao grupo identificado pela literatura etnográfica como Nhandeva, os Mbyá usam geralmente a palavra chiripá. Os dois grupos reivindicam para si, com exclusividade, a categoria de legítimos índios guarani.
A autodenominação ritual dos Mbyá é Jeguakava Tenonde Porangue'í ('os primeiros escolhidos para levar o adorno sagrado de plumas' ou 'os primeiros adornados').CADOGAN, Leon. "La encarnación y la concepción : la muerte y la resurrección en la poesia sagrada 'esotérica' de los jeguakáva-Tenondé Porã-Gué (mbya-Guarani) del Guairá, Paraguay". Revista do Museu Paulista. São Paulo : Museu Paulista, v. 4, 1952. Jeguakáva tenonde porãnguei. ABC Color, 19 de fevereiro de 2010.
Em razão da proximidade dialetal e ritual, linguistas e antropólogos consideram os embiás, juntamente com os caiouás, nhandevas, avá-chiriguanos, guaraios, chanés (ou izoceños, habitantes dos banhados de Izozog) e tapietésCHAMORRO-ARGUELLO, Cândida Graciela. "Os Guarani : sua trajetória e seu modo de ser". Cadernos Comin, São Leopoldo : Comin, nº 8, 30 p., agosto de 1999. , como subgrupo da grande etnia guarani.
Pré-história
Não são poucos os vestígios arqueológicos que apontam para a presença guarani desde tempos remotos em uma ampla faixa de terra na América do Sul pré-cabralina.
Não há consenso entre os especialistas quanto à sua chegada à região do Cone Sul, onde foram encontrados na época do descobrimento. Alguns arqueólogos estimam que, entre 3 000 e 5 000 anos atrás, os coletivos proto-guaranis, motivados talvez por um aumento populacional, migraram da região da Bacia Amazônica para o sul, ocupando territórios onde já se encontravam outros grupos humanos. Apesar de apresentarem uma dinâmica de mobilidade própria, os grupos proto-guaranis não eram propriamente nômades que dependiam de atividades de extração e caça, mas possuíam, como base de sua alimentação, uma variedade considerável de sementes, legumes e tubérculos que cultivavam no meio da selva, através da abertura de clareiras por meio de queimadas controladas.MELIÀ, Bartolome. A experiência Religiosa Guarani. 1989, p.294. thumb|Antigas panelas guaranis utilizadas como urna funerária. Em exposição no Museu Farroupilha. Os grupos proto-guaranis dos quais descendem os embiás eram também hábeis ceramistas e cesteiros, produzindo toda sorte de objetos que necessitavam para conseguir, preparar e servir a alimentação de que dispunham. Nos sítios arqueológicos proto-guaranis, são raros os vestígios de fibras vegetais, porque não resistem ao tempo. No entanto, as grandes panelas de barro utilizadas como urnas funerárias, os fiadores, pontas de flecha e outros apetrechos de materiais inorgânicos são mais comumente encontrados.
É possível inferir, a partir da localização dos sítios arqueológicos, que os grupos guaranis, em um período anterior ao contato com os europeus, estavam presentes em espaços ambientais que hoje identificamos como domínio da Mata Atlântica, Floresta Ombrófila Densa, Floresta Ombrófila Mista, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Estacional Decidual, entre outras formações vegetais. Em grupos familiares mais ou menos extensos, retiravam destes ambientes tudo o que necessitavam para a sua existência, desde a coleta de frutos e plantas medicinais, passando pela construção de casas e preparação de armadilhas para a caça, bem como a confecção de cestaria e cerâmica e outras peças utilitárias.Filipin, Adriana Perez. Os Guarani Mbyá: considerações sobre suas técnicas agrícolas e manejo do ambiente. São Paulo: Centro de Trabalho Indigenista, 2003.
História Missões Jesuíticas thumb|Ruínas da Catedral de São Miguel Arcanjo Foram conhecidos no século XVIII como habitantes da selva do Mba'everá. Àquela época, habitavam, entre outros pontos, as selvas entre o Rio Acaray e o Rio Monday. Receberam, também, o nome de tarumá e, posteriormente, ficaram também conhecidos como: apyteré, tembekuá (queixos furados), tambeaopé (portadores da tanga), ka'yngua, ka’yguá ou também cainguá (habitantes das matas) e baticola MONTOYA, Antônio Ruiz de. Conquista espiritual : feita pelos religiosos da Companhia de Jesus nas Províncias do Paraguai, Paraná, Uruguai e Tape. Porto Alegre : Martins Livreiro Ed., 1985. 262 p..
Não há consenso entre os antropólogos em torno da ancestralidade dos grupos contemporâneos embiás, nhandevas e caiouás, se seus ancestrais teriam ou não sido aldeados pelos padres jesuítas. Uma das hipóteses aponta para a possibilidade dos embiás e dos caiouás terem resistido à conquista espiritual e à redução nas Missões Jesuíticas, enquanto os Avá katu eté ou Nhandeva serem descendentes dos guaranis que participaram do processo evangelizador levado a cabo pelos jesuítas.MELIÁ, Bartomeu. El guaraní : experiencia religiosa. Assunção : Ceaduc/Cepag, 1991. 128 p.. Outra tese considera que nenhum desses grupos teria se submetido ao processo missionário, escolhendo conservar sua independência através de deslocamentos frequentes por terras onde hoje estão o Paraguai, o Brasil e Argentina. A diferença entre eles se daria conforme níveis distintos de manutenção de laços de parentesco e afinidade com grupos guaranis reduzidos durante o período das missões. Esta tese defende, ainda, que muitos desses grupos guaranis missionados sobreviventes teriam ido viver junto aos habitantes da mata no percurso e conclusão da Guerra Guaranítica.
Ambas as possibilidades visam a explicar modificações na cosmologia guarani pela incorporação controlada de elementos de matriz europeia que persistem até os dias de hoje. Entre esses elementos, encontra-se o abandono da antropofagia, a incorporação de elementos da escatologia cristã ao seu xamanismo e, no caso dos embiás e dos nhandevas, a reprodução e a utilização de certos objetos trazidos pelos jesuítas: entre estes, instrumentos musicais como o ravé (rabeca) e o mbaraká (violão).
Guerra do Paraguai thumb|Em 1869, com o fim da Guerra do Paraguai, um clérigo brasileiro se posta em frente a mulheres e idosos indígenas sobreviventes: entre estes, estão alguns guaranis embiás (no canto inferior, à direita). Uma das Populações mais afetadas durante a Guerra do Paraguai, muitos guaranis, entre eles os embiás, foram obrigados a lutar tanto do lado paraguaio quanto do lado brasileiro. Não existem estimativas quanto ao número de guaranis, entre guerreiros e civis, mortos nesta guerra, uma vez que eram classificados como camponeses e soldados pelo estado paraguaio nas políticas de negação étnica, muito comuns à época.
A Guerra do Paraguai é considerada um dos maiores massacres da história das Américas. Os historiadores divergem enormemente a respeito do número de mortos e do tamanho do território perdido pelo Paraguai.Mário Maestro. Guerra contra o Paraguai: Da instauração à restauração historiográfica. Leituras cotidianas nº 143, 22 de fevereiro de 2005. Na história oral embiá, existem diversas narrativas em torno da Guerra do Paraguai. Muitas falam das terríveis violências sofrida pelos antepassados, do alistamento obrigatório que levaria os homens aos frontes de batalha e da evasão das regiões onde ocorreu o conflito.
Demografia No Paraguai, o censo de 1981 indicou a existência de 5 500 pessoas da etnia embiá. No de 1992, foram registrados 4 744. Para o Foro de Entidades Privadas Indigenistas, em 1995 havia 10 990 representantes da etnia. Essas diferenças se devem à resistência que esta coletividade ameríndia possui aos censos nacionais. Outras estimativas no ano de 2000 os elevam a 12 100 no território paraguaio.
Na região argentina de Misiones, coexistem com eles, nas mesmas comunidades familiares, grupos de Xiripá-guarani (ou Avá katú eté) e Kaiová-guarani (ou Paí Tavyterá). Existem, lá, 74 comunidades (tekoás) e sua população total, aproximada, é de 3 000 pessoas no território argentino. Duas grandes comunidades missioneiras, Fortin Mborore e Yriapú - nas cercanias de Iguazú - concentram mais de seiscentas pessoas, muitas delas vindas do Paraguai e do Brasil.
No Brasil, a população embiá concentra-se nas regiões sul e sudeste, junto às serras atlânticas que do litoral. Existem alguns grupos de pequeno e médio porte em poucas terras indígenas demarcadas continente adentro.GARLET, Ivori José. Mobilidade Mbya : história e significação. Porto Alegre : PUCRS, 1997. 229 p. (Dissertação de Mestrado). É comum também encontrarem-se em acampamentos nas beiras das estradas nos estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, principalmente junto à BR-101 e à BR-116. Segundo o Instituto Socioambiental, a etnia guarani embiá no Brasil conta com, atualmente, cerca de 8 400 pessoas. Há, também, coletivos do povo embiá originários de uma única família que, após a Guerra do Paraguai, migrou para a Região Norte do Brasil, se estabelecendo nas matas dos estados do Pará e Tocantins e, com o tempo, se dispersando também em pequenos grupos familiares pelo Centro-Oeste brasileiro.LADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: O território Mbyá a beira do oceano. Editora UNESP, 2007.
Há, ainda, um número reduzido da etnia habitando terras no Uruguai, dividido entre a Tekoá Marae´i, nas proximidades de Santiago Vázquez, e a Quarta Seção do Departamento de Treinta y Tres.
Atualidade thumb|Líder guarani embiá na tekoá Yriapú, em Misiones, na Argentina
Organização espacial Em geral, os mbiás vivem em pequenos grupos de quatro ou cinco famílias. Os grupos se distribuem entre acampamentos provisórios e aldeias. Os acampamentos provisórios se localizam geralmente na beira de estradas, sendo locais de comercialização do artesanato. As aldeias são assentamentos maiores mais perenes, existindo dentro de áreas demarcadas mas também fora delas. São denominadas tekoa, idealmente locais onde o modo de vida tradicional, o ñande reko, pode ser reproduzido. São caracterizadas pela presença da casa de reza (a opy), onde são realizados rituais, e também pela existência de mata circundante, de roças e de uma fonte de água, mas nem sempre essas condições naturais são possíveis. Os mbiá praticam caça, pesca e coleta, e produzem em suas roças, cujos principais cultivos são milho (avatí), mandioca (mandió), batata, amendoim (manduí), feijão (kumandá), abóbora (mindain) e melancia (janjau). Hoje, os espaços habitados pelas comunidades cada vez menos permitem uma extração natural de recursos, tornando necessário o consumo de produtos industrializados.