A língua ninam, também conhecida como yanam, waika ou xirixana pertence à família linguística Yanomami e é considerada uma língua estável. Ela é utilizada pelo grupo étnico ninam, que reside na Terra Indígena Yanomami, em Roraima (Brasil) e no sul da Venezuela. Com cerca de 2.092 falantes totais (sendo cerca de 1.674 no Brasil e 418 na Venezuela), é a quarta língua da família mais praticada no Brasil e é a língua oficial indígena do povo de mesmo nome. O Ninam é considerado uma língua estável, com três dialetos falados no Brasil: ninam do norte, ninam central e ninam do sul.
Essa divisão se deu pela intensa migração dos falantes durante sua história: a hipótese principal é que sua origem foi na região da Serra Parima, e eram falantes de proto-yanomami. Após um período, os ninam se deslocam para o leito do rio Awaris, iniciando o contato com a etnia ye'kwana. Com o aumento da tensão entre esses grupos, os ninam descem até o rio Parima, e o grupo se divide por conflitos internos, causando a deslocação de parte dos indivíviduos até o rio Uraricoera e Uraricaá. A porção do grupo que se estabeleceu no rio Uraricaá logo passa para o leito do rio Paraguá, na Venezuela, e em seu trajeto incorporam as etnias uruak, maku, marakana e sapé, por exemplo. Por outro lado, a parte residente do Uraricoera entram em combate com os maku e posteriormente com os ye'kwana, levando grande parte dos ninam a migrar para o rio Mucajaí, onde permaneceram em isolamente até a década de 1950.
A primeira do cumentação do ninam foi feita em 1966 pelo linguista Ernest Migliazza, em um artido intitulado "Grupos linguísticos do Território Federal de Roraima" e publicado na revista Atas do Simpósio sobre a Biota Amazônica volume 2 (Belém, Pará, junho de 1966). Na obra, Migliazza refere-se à língua como kasteri, yanomami ou xirixaná, e a considera como subdivisão linguística dentro da família yanomami. Hoje em dia, a população ninam sofre com a preseça de garimpeiros na região, que contaminam os solos e trazem doenças para os indivíduos.Seu primeiro contato com agentes externos foi em 1838, com Codazzi, que localizou os "kirishana" vivendo na região da Serra Parima, mas sem especificar se teriam ou não deixado a região.
O ninam utiliza o alfabeto latino modificado, como o uso de <ë> e <ɨ>. O principal diacítico empregado é o til (~), para indicar vogais alongadas, e a escrita é feita de cima para baixo, da esquerda para direita. Há variação entre os dialetos ninam, já que a ortografia dos habitantes da região de Ericó-Saúba foi desenvolvida pelos salesianos missionários, Lizot e Ramírez, com adaptações de Glae Goodwin Gomez, enquanto os ninam do Mucajaí e do Uraricoera tem uma escrita desenvolvida a partir das cartilhas de alfabetização da MEVA. A ordem das palavras é Sujeito-Objeto-Verbo (SOV), sendo OVS também possível. Além disso, o ninam tem posposições ao invés de preposições, os advérbios são localizados no fim da oração, o alinhamento é considerado ergativo-absolutivo e há um sistema de diferenciação de substantivos, merônimos e holônimos, com o último se dividindo ainda em classificados e não classificados.
Etimologia O endônimo e exônimo para a língua são o mesmo: ninam, ou ninam thã para o dialeto do Mucajaí. A hipótese predominante dos linguistas é a tradução da palavra 'ninam' para 'pessoa do mesmo grupo', 'ser humano'. Isso é consistente com o estudo de dicionários e o corpus lexical de Ninam. > Diferentemente dos falantes das variações sul e central, que reprovam o termo Xirixana, os falantes do ninam do norte referem-se a si mesmos como povo Xirixana e aceitam o uso do termo. Além disso, os ninam do sul consideram a denominação Xilixana "o modo como os brancos nos chamam" ou "o nome da etnia", sendo preferível seu desuso. Portanto, "ninam" (para os ninam do sul ninam thã) corresponde mais corretamente ao etnônimo comumente utilizado na Amazônia.
Distribuição O ninam é uma língua de distribuição limitada, sendo associado ao povo de mesmo nome residente do Brasil e da Venezuela, com aproximadamente 2.092 usuários no total. Em geral, os falantes estão localizados nas regiões dos rios Uraricoera, Alto e Baixo Mucajaí, Saúba e Ericó em Roraima, e do rio Paraguá na Venezuela. Além disso, é considerada uma língua estável.
+ Falantes de Ninam por país País Número aproximado Brasil 1.680 Venezuela 420
Dialetos O ninam possui três dialetos falados no Brasil: ninam do norte, ninam central e ninam do sul. A divisão desses dialetos se deu pela intensa migração desse povo. Os impactos dessa divisão são muito vistos na ortografia de cada dialeto, por exemplo. Os ninam do sul adotam uma escrita desenvolvida pela MEVA a partir de 1960 e ensinada por cartilhas de alfabetização pelos missionários. Por outro lado, os ninam do norte desenvolveram sua própria ortografia a partir das interações com agentes do contato, como os linguistas Ernesto Migliazza e Gale Goodwin Gomez. Um exemplo claro da diferença entre as duas é a adoção do grafema <tx> pelos ninam do norte, que representa [dʒ] ou [tʃ], além do uso de <ë> e <ɨ> para representação dos fonemas <ə> e <ɨ>, referidos pelos ninam do sul como <è> e <ỳ>. Por fim, os ninam do sul também caracterizam o dialeto central como uma variedade falada de forma mais rápida, com as palavras soando cortadas ao final.
Ninam do Norte - também conhecidos commo Xiriana ou Ninam do Ericó, centalizam-se na região dos rios Ericó e Saúba, e no rio Paraguá, na Venezuela, tendo cerca de 418 falantes na Venezuela e 673 no Brasil. Ninam Central - ou Ninam do Uraricoera, estão presentes na região do rio homônimo, com cerca de 140 falantes. Ninam do Sul - ou Ninam do Mucajaí, estão presentes ao longo do Alto de Baixo Mucajaí, com cerca de 862 falantes. Línguas relacionadas As cerca de 300 comunidades Yanomami no Brasil estão ligadas por relações ocasionais de troca, aliança e antagonismo, acarretando em alguns casos de zonas de bilinguismo. Uma delas é a região do Apiaú, que até recentemete vivia uma situação de bilinguismo assimétrico em relação ao ÿaroamë, com a predominância da língua ninam. Com a migração dos ÿaroamë da Baixada para o rio Mucajaí, muitas relações e antigos laços se fortaleceram entre esses povos, levando alguns membros dos grupos Ninam a voltarem para o Apiaú. Desse modo, até meados de 2015, metade da população da região era falante de ninam do sul (xirixana), a outra metade falante de ÿaroamë (yawari). Durante muito tempo, a língua ninam foi utilizada tanto em relções ninam-ninam como ninam-ÿaroamë, tendo até alguns relatos do seu uso em relações ÿaroamë-ÿaroamë. Depois de 2015, aqueles identificados como xirixana retornaram para o Baixo Mucajaí, com algumas famílias ÿaroamë. Porém, a língua ainda está bastante presente no vocabulário da região do Apiaú.
Outra relação de bilinguismo assimétrico, também com predominância ninam, é com os yanomama. Ao final da década de 1950, os ninam do Mucajaí iniciaram trocas com os yanomam do Papiú, formando uma aliança que dura até hoje. Algum tempo depois, na década de 1990, um grupo do Papiú se mudou para o Rio Couto de Magalhães, formando a região de Kayanaú, próxima das comunidades ninam do Alto Mucajaí e Uxiú. A intensa relação entre os dois povos tem influenciado os yanomam do Kayanaú, que se aproximam de uma estética ninam, com a língua ganhando cada vez mais espaço.
História Os primeiros relatos do povo Ninam indicam sua origem na Serra Parima, sendo a hipótese mais aceita de que eram falantes de proto-yanomami, uma língua ancestral construída pelos linguistas para explicar as semelhanças entre as línguas yanomamis, e deslocaram-se após um período em direção a um novo rio. De acordo com Early e Peters (1990), no final do século XIX os ancestrais dos Pola pèk (autodenominação do grupo que vive hoje na região do Alto Mucajaí) viviam nas imediações do rio Awaris e mantinham relações comerciais, ora amistosas, ora conflituosas com os ye'kwana. Com o aumento da tensão entre esses grupos, os ninam decidem se mudar para a região de confluência do rio Awaris com o rio Parima. Por volta de 1910, um conflito interno causa uma divisão no grupo, com alguns membros descendo o rio Uraricoera até seu encontro com o rio Uraricaá.
Entre 1911 e 1913, Theodor Koch-Grünberg oferece um relato mais detalhado do grupo, encontrando alguns indivíduos habitantes do Alto Uraricaá, referidos por ele como "schirianas". Além disso, ele também documenta outro grupo "schiriana" vivendo no Alto Uraricoera. Nos anos seguintes, os ninam do Uraricaá (considerados os antepassados dos ninam do norte) se deslocaram em direção ao rio Paraguá, na Venezuela, e no caminho incorporaram membros de outras etnias: uruak, maku, marakana e sapé, por exemplo. Por outro lado, o grupo que permaneceu no Alto Uraricoera experienciou diversos conflitos entre 1930 e 1940, envolvendo os maku e posteriormente os ye'kwana. A brutalidade destes, devido ao uso de armas de fogo, levou os ninam (estes os antepassados dos ninam do sul e central) a migrarem em direção ao rio Mucajaí, permanecendo em relativo isolamento até a década de 1950.
Os pesquisadores acreditam que o tempo de migrações (150 anos) dos povos ninam como causa das variações dialetais é satisfatório, mas não explica as variações dentro da família Yanomami. Assim, eles consideram razoável supor que a distância física não foi o principal fator, mesmo que alguns obstáculos tenham propiciado períodos de isolamento, já que as práticas de ocupação e mobilidade desse povo e conhecimento sobre a floresta eram vastos.
Mito de origem O mito que circula entre os povos yanomami sobre sua origem remete à união do demiurgo yanomami Omama com a filha do monstro aquático Tëpërësiki. Esses povos afirmam que Omama tinha muita sabedoria, criando a floresta, os rios (furando a terra em que acreditam ser seu ponto de origem), o céu, o sol, a noite, a lua e as estrelas, e estabeleceu os costumes e regras dessas comunidades. Assim, com a junção do casal, nasceu o filho de Omama, considerado o primeiro xamã.
Um dos principais mitos yanomami é chamado "A queda do céu". De acodo com o xamã David Kopenawa Yanomami, Omama escondeu a xawara, conjunto de doenças que causam a morte dos Yanomami, no fundo da terra; mas, com as explorações da natureza e garimpos, os kraiwa (criados a partir do sangue de um grupo ancestral yanomami, devorado por jacarés e ariranhas) os brancos, trazem essas subtâncias (xawara também é o nome dado aos minérios da região) para os rios, ocasionando a eliminação de vários indivíduos.
Documentação e relações externas O primeiro trabalho que se tem notícia a abordar a língua ninam éi o artigo intitulado "Grupos linguísticos do Território Federal de Roraima", publicado na revista Atas do Simpósio sobre a Biota Amazônica volume 2 (Belém, Pará, junho de 1966) por Ernesto Migliazza. Porém, o linguista se referia a ela como Kasteri, Yanomami ou Xirianá. Na obra, Migliazza retrata o yanam (ou ninam) como uma subdivisão linguística dentro da família Yanomami, oferecendo diferenças fonológicas entre os subgrupos e a variação lexical entre eles. Sua importância principal foi servir de base para estudos posteriores, sistematizando as diferenças linguísticas dos povos de Roraima. Além disso, o linguista também lançou um trabalho cerca da fonologia da língua, intitulado "Shiriana Phonology", com Joseph E. Grimes e Baptist Mid-Missions.
Em adicional aos seus trabalhos, Gale Goodwin Gomez lançou o livro "The Shiriana dialect of Yanam: northern Brazil (1990), estudando a fonologia, morfologia e sintaxe verbal da língua, sendo uma das primeiras gramáticas a tratar do Ninam. Por fim, John D. Early e John F. Peters escreveram o livro "The Xilixana Yanomami of the Amazon" (2000), abordando a história do povo, suas vilas e antropologia.
1838-1839 - Robert Hermann Schomburgk empreende uma viagem do Monte Roraima até o Rio Negro, encontrando um roçado "Kirishana"