Estefânia Clotilde Luísa Hermínia Maria Carlota (em francês: Stéphanie Clotilde Louise Herminie Marie Charlotte; Bruxelas, – Pannonhalma, ), foi uma princesa belga, esposa do príncipe Rodolfo e Princesa Herdeira Consorte do Império Austro-Húngaro. Era a terceira filha, segunda menina, do rei Leopoldo II da Bélgica e de sua esposa, a arquiduquesa Maria Henriqueta da Áustria.

Casou-se em Viena no dia 10 de maio de 1881 com o príncipe herdeiro Rodolfo, filho do imperador Francisco José. O casal teve apenas uma filha, a arquiduquesa Isabel. O casamento rapidamente se tornou frágil, pois Rodolfo estava deprimido e desiludido com a política, teve vários casos extraconjugais e contraiu uma doença venérea que transmitiu à esposa, tornando-a estéril. Em 1889, Rodolfo e sua amante Maria Vetsera foram encontrados mortos em um aparente pacto suicida no pavilhão de caça em Mayerling (Incidente de Mayerling).

Em 1900, Estefânia casou-se novamente com o conde Elemér Lónyay de Nagy-Lónya (posteriormente elevado ao título de príncipe), um nobre húngaro de posição inferior, motivo pelo qual foi excluída da corte imperial. No entanto, essa segunda união foi feliz. Após a morte de seu pai em 1909, Estefânia se juntou à irmã mais velha, Luísa, para reivindicar nos tribunais belgas a parte da herança que ambas acreditavam ter sido injustamente negada.

Até a Segunda Guerra Mundial, Estefânia e seu segundo marido viveram pacificamente em uma mansão na Hungria. Em 1935, Estefânia publicou suas memórias, intituladas Eu deveria ser imperatriz (em alemão: Ich Sollte Kaiserin Werde). Em 1944, ela deserdou a filha, que havia se divorciado para viver com um deputado socialista e que não via desde 1925. A chegada do Exército Vermelho em abril de 1945, no final da guerra, obrigou Estefânia e seu marido a deixarem sua residência e se refugiarem na Abadia de Pannonhalma, na Hungria. Estefânia morreu de um derrame na abadia ainda naquele ano.

Princesa da Belgica Estefânia nasceu no Castelo de Laeken em 21 de maio de 1864, durante o reinado de seu avô, o rei Leopoldo I da Bélgica. Seus pais eram o futuro rei Leopoldo II e sua esposa Maria Henriqueta da Áustria. O casamento de seus pais foi celebrado em 1853 no contexto de arranjos diplomáticos voltados à consolidação de alianças dinásticas consideradas estratégicas para o Reino da Bélgica. A união foi estabelecida sem consulta efetiva aos noivos, cujos perfis e interesses eram divergentes. O futuro Leopoldo II demonstrava prioridade por questões político-econômicas do Estado, enquanto Maria Henriqueta mantinha interesses centrados na prática religiosa e em atividades como equitação, criação de cães e música.

miniatura|esquerda|220px|Estefânia (à direita) com sua irmã Luísa, em 1880. Estefânia teve três irmãos. Os dois mais velhos foram Luísa, nascida em 1858, e Leopoldo, nascido em 1859. A irmã mais nova foi Clementina, nascida em 1872. Com a morte de seu avô, Leopoldo I, em 10 de dezembro de 1865, após 34 anos de reinado, seu pai ascendeu ao trono como Leopoldo II.

Na primavera de 1868, Leopoldo, herdeiro do trono, então com quase nove anos, contraiu um resfriado após cair no lago do Parque de Laeken. Seu estado de saúde deteriorou-se rapidamente, resultando em seu falecimento em 22 de janeiro de 1869. Em suas memórias, Estefânia escreveu:

A infância de Estefânia foi profundamente marcada por essa perda. Segundo ela, a partir daquele momento, suas lembranças passaram a retratar a vida conjugal dos pais de forma mais sombria. A morte do filho abalou intensamente sua mãe, que se transformou de maneira significativa, já que a criança representava o sentido de sua existência e a havia reconciliado com o destino que lhe fora imposto.

Primeiro casamento miniatura|200px|Estefânia em seu noivado, por Hans Makart, 1881. Enquanto sua irmã mais velha, Luísa, casou-se em 1875 com o rico príncipe Filipe de Saxe-Coburgo-Gota, oficial do Exército austro-húngaro e primo de seu pai, Estefânia permaneceu na Bélgica, dedicando-se à formação educacional e aos cuidados com a irmã mais nova, Clementina. A saída de Luísa da corte de Laeken reduziu o convívio familiar no ambiente doméstico.

Leopoldo II e Maria Henriqueta esperavam casar a sua segunda filha com um monarca reinante ou um príncipe herdeiro. O primeiro candidato mencionado foi o rei Afonso XII da Espanha, mas essa possibilidade foi quase imediatamente descartada. Nesse ínterim, durante o inverno de 1878–1879, a caminho de Londres, a imperatriz Isabel da Áustria (mais conhecida como "Sissi") fez uma escala na corte em Bruxelas. Estefânia, que tinha apenas 14 anos, foi-lhe apresentada. Já circulavam rumores na Europa sobre o seu casamento com o filho da imperatriz, o príncipe herdeiro Rodolfo.

Durante o inverno de 1879–1880, a imperatriz da Áustria retornou a Bruxelas. Ela foi persuadida pelos argumentos da corte vienense, que incentivava os príncipes herdeiros a casarem-se jovens para garantir rapidamente um herdeiro. Estefânia estava entre as poucas princesas católicas que atendiam aos critérios estabelecidos pelo imperador Francisco José I para se tornar esposa de Rodolfo. Durante uma viagem à Bélgica em março de 1880, o arquiduque Rodolfo pediu a princesa Estefânia em casamento, para grande alegria do rei e da rainha dos belgas. A alegria do casal imperial, porém, foi mais contida. Estefânia recordou:

miniatura|220px|esquerda|Fotografia oficial do noivado de Estefânia e Rodolfo, em 1881. O noivado foi anunciado oficialmente em 7 de março de 1880, quando Estefânia tinha dezesseis anos. Rodolfo deslocou-se a Bruxelas acompanhado por comitiva oficial. Paralelamente, foram iniciadas negociações contratuais entre as cortes. Francisco José I aprovou o contrato matrimonial e aceitou estruturá-lo com base no precedente estabelecido para o casamento de Carlota da Bélgica com Maximiliano do México em 1857, definindo valores relativos ao dote e às dotações anuais. As núpcias, inicialmente planejadas para o 15 de fevereiro de 1881, tiveram de ser adiadas, pois Estefânia ainda não tinha idade para casar.

O casamento foi finalmente celebrado em Viena no dia 10 de maio de 1881, poucos dias antes do décimo sétimo aniversário da princesa, na Igreja Agostiniana. As cerimônias foram suntuosas. A igreja estava tão cheia que a procissão de casamento foi impedida de prosseguir. Estefânia recordou:

Princesa Herdeira da Áustria miniatura|220px|Estefânia em 1885. Após uma noite de núpcias no Castelo de Laxemburgo, da qual Estefânia guardava lembranças desagradáveis, os recém-casados foram obrigados a participar de diversos jantares oficiais. Estefânia suportou os olhares inquisitivos de sua nova família. Na corte vienense, a vida familiar era extremamente presente: passeios, viagens de barco, convites e festas quase sempre contavam com a presença de numerosos membros da Casa d'Áustria. A sogra de Estefânia chegou a apelidar a nora de "o camelo horrendo".Fournoux, Amable de (2019). "Chapitre XI". In: Sissi et Venise . Paris: Éditions de Fallois. ISBN 979-1-03210-142-1. Apesar disso, a princesa herdeira começou a valorizar sua nova posição. Durante uma visita oficial à Hungria, em maio de 1881, ela foi calorosamente aplaudida e pôde perceber as vantagens de sua condição.

Como ocorria em qualquer casamento dinástico, no qual os interesses políticos das casas soberanas prevaleciam, não há comprovação de sentimentos românticos entre o casal. No entanto, o relacionamento inicial do jovem casal baseou-se em respeito e afeto mútuos, evidenciado pelos apelidos carinhosos que trocavam: "Coco" para Rodolfo e "Coceuse" para Estefânia. A harmonia entre eles era genuína. Estefânia descreveu Rodolfo como um marido exemplar e destacou que se compreendiam admiravelmente, o que lhe proporcionava felicidade. Ainda assim, Estefânia relata que Rodolfo mostrava-se desconfiado quando ela estava ao seu lado. Ela não tinha permissão para se afastar e permanecia sob rigorosa vigilância, aproveitando o tempo para se dedicar ao desenho e à pintura.

A partir de outubro de 1881, Estefânia passou a substituir a imperatriz — que havia se afastado da corte — nas recepções oficiais. Atendendo a pedidos de sua sogra, acompanhava o imperador e o príncipe herdeiro em viagens oficiais e recebia soberanos estrangeiros em visita. Participava dos salões de baile de braço dado com seu sogro e atuava como anfitriã em jantares oficiais. Enquanto a imperatriz se afastava da vida na corte, satisfeita por se ver livre dos "deveres oficiais", Rodolfo distanciava-se progressivamente de sua esposa, demonstrando cada vez menos afeto por ela.

miniatura|220px|esquerda|Estefânia com sua filha Isabel Maria, em 1885. No outono de 1881, Estefânia pensou que estava grávida, mas os médicos estavam enganados. Após essa decepção, na primavera de 1883, a gravidez de Estefânia foi confirmada, para grande alegria do Imperador. Após esse anúncio, Rodolfo tornou-se novamente atencioso e carinhoso com sua esposa. O principe e a princesa herdeira tinham certeza de que seria um menino. Eles até se referiram ao futuro filho como "Venceslau", um nome checo que refletia a simpatia de Rodolfo pelas populações eslavas do império.

Em 8 de agosto, a rainha Maria Henriqueta visitou a filha em preparação para o parto. Estefânia não ousou discutir com a mãe as dificuldades em seu casamento. Como era costume para uma princesa herdeira, os preparativos para um nascimento real seguiam protocolo rigoroso: orações nas igrejas e exposição do Santíssimo Sacramento nos templos dos palácios imperiais. Em 2 de setembro, Estefânia deu à luz uma filha, Isabel Maria, conhecida como "Erzsi". Generoso, Francisco José presenteou a jovem mãe e sua família abundantemente. Ao ser informado do sexo da criança, Rodolfo demonstrou decepção por não ter proporcionado um herdeiro à Áustria-Hungria, mas aceitou seu papel de pai, fornecendo inúmeros detalhes sobre a recém-nascida em sua correspondência. Enquanto Estefânia florescia em sua nova função materna, o nascimento marcou o início de profundas dificuldades conjugais.

Doença e morte de Rodolfo

miniatura|220px|Rodolfo em 1886. O príncipe herdeiro Rodolfo levava uma vida luxuriosa e marcada por excessos. No início de 1886, Rodolfo adoeceu gravemente. Seu estado foi descrito de diferentes maneiras, como cistite ou dores de estômago. Esses termos vagos serviam apenas para ocultar a verdadeira natureza da doença do príncipe herdeiro. Na realidade, ele havia contraído uma doença venérea, muito provavelmente gonorreia, durante um de seus casos extraconjugais. Temendo que fosse sífilis, os médicos utilizaram os tratamentos indicados na época, como ópio, conhaque, morfina e também mercúrio. O mercúrio, quando administrado em doses elevadas, podia provocar graves consequências psicológicas.

Para se recuperar, Rodolfo foi para Lokrum, levando Estefânia consigo. Ninguém havia informado a princesa herdeira sobre a verdadeira natureza da doença do marido. Quando ela própria começou a apresentar os primeiros sintomas, os médicos diagnosticaram peritonite. As consequências dessa omissão foram dramáticas. Enquanto o casal tentava conceber outro filho, Estefânia, com menos de vinte e dois anos, tornou-se estéril. A partir desse momento, sentindo-se traída pelo próprio marido, passou a nutrir ressentimento e amargura contra ele. Recusou-se a retomar a vida conjugal com um homem que só voltava para casa ao amanhecer e que, desiludido e consumido por um sentimento de fracasso, mergulhava na devassidão. Apesar das tentativas de reconciliação por parte de Rodolfo, o afastamento entre eles parecia profundo.