História dos Carmelitas em Portugal e no Brasil.

Em Portugal A instituição da província portuguesa da Ordem dos Carmelitas Descalços data de 1612, ano em que se separaram os conventos portugueses dos conventos da Baixa Andaluzia.

O 1º superior português foi eleito em 1628, no Capítulo Geral da Ordem, celebrado em São Pedro de Pastrana (Espanha), mas a separação definitiva da congregação espanhola só se veio a efectivar em 1773, com a realização de um Capítulo Provincial com vigor de Geral em que foi nomeado o primeiro Prior Geral da Congregação da Beatíssima Virgem Maria do Monte Carmelo do Reino de Portugal.

A província portuguesa esteve sediada, desde o início, em Lisboa no convento de Nossa Senhora dos Remédios, primeiro convento português da Ordem dos Carmelitas Descalços, fundado em 1581. Para padroeiro do convento escolheu-se São Filipe, em homenagem ao monarca reinante. Em 1604, quando o convento foi transferido para outras instalações, deu-se à nova casa a invocação de Madre de Deus, tomando a província o nome do apóstolo São Filipe.

Mais tarde, quando se construiu o edifício definitivo, passou a designar-se Convento de Nossa Senhora dos Remédios. No convento funcionava também o noviciado. Na segunda metade do século XVII, os serviços da Procuradoria Geral da Ordem passaram para o convento de Corpus Christi de Lisboa.

Os conventos femininos de Carmelitas Descalços deviam subordinação e obediência ao Geral da Ordem e ao Provincial dos Descalços.

No Brasil Em 1580 quatro padres carmelitas sob a orientação de Frei Domingos Freire acompanharam a expedição de Frutuoso Barbosa encarregada de fundar uma colônia na Paraíba. Da carta de apresentação dos carmelitas destacados para ir ao Brasil, se conhecem também os nomes dos outros seus companheiros: Frei Alberto de Santa Maria, Frei Bernardo Pimentel e Frei Antônio Pinheiro. Na mesma carta se encontra expressa a motivação destes carmelitas: «é obrigação nossa e de todos os religiosos que professam nosso modo de vida, servir a Deus e à sua Mãe SSma., dedicando-se à salvação das almas e incremento da religião cristã». A tentativa da colonização fracassou, por causa de uma violenta tempestade que dispersou os navios. Barbosa voltou para Portugal, mas os carmelitas ficaram em Pernambuco e se estabeleceram numa capelinha dedicada a Santo Antônio, doada pelo governador de Olinda. Chegando outros religiosos, chefiados por Frei Pedro Viana de Portugal em 1583 e 1588, iniciaram as fundações de conventos. O primeiro a ser estabelecido em 1583 foi o Convento do Carmo de Olinda, onde 13 anos depois já funcionava uma escola e um curso de teologia. Os religiosos se dedicavam também à evangelização dos índios.

Em 1586 frei Damião Cordeiro fundou o Convento do Carmo de Salvador da Bahia. Frei Pedro Viana, com outros carmelitas, foi para o sul do país e fundou o Convento de Santos (1589) e o da Praça XV no Rio de Janeiro (1590). Seguiram-se depois outras fundações em Angra dos Reis (1593) e São Paulo (1594).

O desenvolvimento ulterior

O capítulo provincial de Portugal erigia em 1595 o vicariato (ou vigararia, ou vice-província) do Brasil, com as 6 casas já fundadas. O primeiro vigário foi Frei João de Seixas. Em 1606 o vicariato contava com 99 frades. Nos anos seguintes construíram-se conventos em: São Cristóvão (1600), Paraíba (antes Vila Real, 1608), São Luís (MA, 1616), Belém do Pará (1624), Mogi das Cruzes (1629).

Naquele tempo as atividades dos religiosos em várias regiões do país eram a instrução e assistência moral e religiosa do povo, e a propagação da devoção mariana. Em 1635 os carmelitas no Brasil eram mais ou menos 200. Houve mártires entre eles: frei Luís do Rosário, lançado ao mar por piratas holandeses e frei Antônio da Encarnação assassinado por ter censurado a vida errada de um português. Os dois acontecimentos se deram no ano de 1619. Na época da invasão holandesa de Pernambuco alguns padres foram presos, outros conseguiram fugir. thumb|direita|A Igreja do Carmo de Olinda, primeiro templo da Ordem do Carmo nas Américas.

Acolhendo o desejo de independência expressado já desde 1635, em 1640 o Prior Geral Teodoro Straccio instituiu a província brasileira, mas os protestos do governo português anularam esta disposição. O único resultado que ficou, foi a divisão em duas vice-províncias: a do Estado do Brasil, com 9 conventos (Olinda, Salvador, Santos, Rio de Janeiro, São Paulo, São Cristóvão, Paraíba, Angra dos Reis, Mogi das Cruzes); e a do Estado do Maranhão, com 3 (São Luís, Belém e Gurupá). Em 1648 o Capítulo Geral da Ordem tentou uma vez mais a instituição da Província do Brasil, sem resultado. Em 1675, como nos mostra um catálogo, o número dos religiosos era de 186 na Vice-Província do Brasil e de 60 na Vice-Província de Maranhão.

No Estado do Brasil Em 1685 as casas do Estado do Brasil foram divididas em outros dois vicariatos: o do Rio de Janeiro, com os conventos de Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Angra dos Reis, Mogi das Cruzes, Vitória do Espírito Santo (fundado em 1685); e o da Bahia-Pernambuco com os conventos de Olinda, S. Cristóvão, Paraíba, Recife (1654), Goiana (1666), Salvador ou Bahia, Rio Real. Por Breve do papa Clemente XI, de 20 de Abril de 1720, estes dois vicariatos foram constituídos em províncias independentes de Portugal e autônomas: as duas províncias eram assim a da Bahia-Pernambuco e a outra do Rio de Janeiro.

A Província do Rio de Janeiro tinha já fundado no entanto a missão de Marvin (SP), e a residência de Itu (SP) em 1719, que terá igreja e convento reconstruídos em 1765; em 1721 contava 204 religiosos, entre sacerdotes, estudantes clérigos e irmãos leigos.

A província de Bahia em 1720 contava 80 religiosos professos, além de diversos padres que moravam fora do convento, em fazendas, e mais de 25 religiosos com residência em Lisboa. Esta província funda a missão de Sirinhaém (PE) em 1729 e a residência de Alagoas em 1732.

Então, no vicariato da Bahia em 1677 o Frei João de S. José e outros 4 ou 5 padres tiveram a permissão de viver no convento de Goiana e de seguir a reforma iniciada na França no ano de 1636 na província Turonense. Em 1683 o Prior Geral Ângelo Monsignani deu a eles normas (chamadas de «13 artigos») e nomeou o Frei João comissário geral. No ano seguinte o Frei João é autorizado a tomar conta do convento da Paraíba e, em 1686, do conventinho perto de Recife (atual convento da Piedade). A reforma se difundiu em outros conventos e em 1725 foi elevada a Vicariato. Em 1744 tornou-se Província reformada independente (província de Pernambuco) com as casas de Goiana, Recife e Paraíba, 6 residências ou missões no Brasil e uma hospedaria em Lisboa (Portugal). Os frades nesta época eram aproximadamente 100.

O ciclo missionário no Maranhão As casas no Estado do Maranhão eram separadas do resto do Brasil e se desenvolveram independentemente, não se destacando contudo de Portugal.

Em 1615 frei Cosme da Anunciação e frei André da Natividade acompanharam Alexandre de Moura como capelães na expedição contra os franceses a São Luís (MA). No mesmo ano foi dado a eles um lugar para o convento, que constróem no ano seguinte.

Outras fundações no século XVII são: Belém do Pará (1624), Gurupá (1639, mas abandonada em 1674), e Alcântara (1647). Em 1624 os conventos do Grão-Pará tornaram-se vigararia separada (= Vicariato do Maranhão), que em 1674 contava com 60 frades. Seguem depois as fundações de Ponta do Bonfim (1718) e Vigia (1737).

Este vicariato realizou missões no interior do Amazonas ao longo dos rios Negro e Solimões (1695-1755), desenvolvendo intenso trabalho com os índios. Não começou por impulso missionário "puro", mas é consequência de uma política deliberada por parte do Estado colonialista português à procura da segurança e consolidação das fronteiras conflitantes entre Império espanhol e Império lusitano. Os carmelitas atuaram através do sistema comum tripartido daquela época: convento, fazenda, aldeamento; e administravam uma rede importante de aldeamentos na primeira parte do século XVIII. Assim, além de vilas e lugares, eles têm várias aldeias, como as de Barcelos, Moura, São Gabriel, Taraucá, no Rio Negro; as de Javan, Jatal, Coan, etc., no Rio Solimões; o que lhes foi tirado por alvará de 1755, as missões, passando a freguesias, foram desaparecendo aos poucos.

Para o sustento das obras em todas essas regiões, os missionários contavam com doações de terras, possuindo várias fazendas com criação, casas e escravos. Houve, inclusive, abusos de alguns em questões de compra e venda ou no trato dos indígenas.

Em 1714, vários religiosos coristas foram assassinados pelos Anapurus, quando iam de São Luís para a Bahia a fim de serem ordenados. Outros mártires a serem lembrados: frei Francisco de Santo Anastácio mais ou menos em 1699, frei Francisco Xavier em 1701 no Solimões pelos índios Coxiguares, frei José de Aguiar pelos Caburunas em 1709, frei Antônio de Andrade em 1720 pelos Chuaris e Jumás, frei Raimundo de Santo Eliseu Barbosa no lugar Moreira, dia 24 de Setembro de 1754, pelos Daris, e frei Matias de São Boaventura Diniz em 1758 pelos Caiuvicenas.

Época áurea do Carmelo Os séculos XVII e XVIII constituem a época áurea do Carmelo brasileiro, com vasta distribuição geográfica de conventos, subdivididos em 3 províncias distintas (Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco) e mais o vicariato do Maranhão e Pará. Grande era o incremento vocacional e eficaz a presença pastoral na vida do povo. No final do século XVIII no Brasil estavam quase 500 religiosos carmelitas.

As atividades pastorais eram sobretudo as da pregação, da sacramentalização, da devoção mariana. Nas províncias, vários conventos eram sedes para os estudos de humanidade, de filosofia e de teologia. Alguns religiosos participavam da vida cultural da época.

Vários carmelitas foram famosos pela santidade, entre os quais os veneráveis frei Luís do Rosário (1591-1619), frei Jeronymo Pessoa (†1629), frei João de São José, e o irmão leigo frei Gonçalo da Mãe de Deus (†1654), do qual se deu início ao processo para sua beatificação.

Dentre os bispos carmelitas do Brasil nesta época podemos lembrar: dom Frei Francisco de Lima (†1704), segundo bispo do Maranhão; dom frei Bartolomeu do Pilar (1667-1733), primeiro bispo do Pará; dom frei Carlos de São José e Sousa, bispo de Maranhão (1777-1850).

O Carmelo brasileiro deu também à pátria personagens ilustres e valiosos como: Frei Leandro do Santíssimo Sacramento (1778-1829), fundador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro; Frei José de Santa Madalena, o introdutor da vacina contra a varíola no Brasil; Manuel Arruda Câmara (1752-1810), médico e botânico, fundador do Areópago de Itambé, que influenciou a Conspiração dos Suassunas (Pernambuco, 1801); Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca, ativista na Revolução Pernambucana (1817) e na Confederação do Equador (1824), fuzilado em 1825.

Declínio e restauração Como outras Ordens, a Carmelita entrou em declínio nos últimos anos coloniais e no tempo do Império. Como consequência da pouca vivência do carisma e mais tarde com a proibição em 1855 de se receberem noviços e abrir novas casas pelo governo imperial, a Ordem chegou quase a extinção.

No Rio de Janeiro, pelo decreto do despejo real em 1808, o Convento do Carmo foi convertido em paço da cidade e depois no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, assim como a Igreja do Carmo foi transformada em capela real, depois imperial. Os carmelitas mudaram-se provisoriamente para o convento de Nossa Senhora de Oliveira e em 1810 receberam por doação o antigo seminário com capela anexa de Nossa Senhora da Lapa do Desterro.

Após algumas contendas e discórdias com religiosos do Maranhão, os do Pará ligam-se à província carmelitana fluminense. Os do Maranhão conseguem alguns noviços do parlamento provincial (1838) e tentam incorporar-se à província da Bahia (1858); o que não foi levado a efeito.