thumb|right|220px|Hsuchow, China, 1938. Uma vala comum cheia de corpos de civis chineses, assassinados por soldados japoneses.China Weekly Review, 22 de outubro de 1938. Crimes de guerra do Japão Imperial foram crimes de guerra que ocorreram durante o período do imperialismo japonês. Holocausto Asiático, atrocidades de guerra japonesas ou simplesmente crimes de guerra japoneses também são expressões usadas em referência a estes crimes. Algumas destas atrocidades foram cometidas por militares do Império do Japão em fins do século XIX, embora a grande maioria tenha ocorrido do início do Período Showa (nome dado ao reinado do imperador Hirohito) até a derrota militar dos japoneses, em 1945, encerrando a Segunda Guerra Mundial.

Historiadores e governos de muitos países consideram as forças militares japonesas, particularmente o Exército Imperial Japonês e a Marinha Imperial Japonesa, responsáveis por assassinatos e outros crimes cometidos contra vários milhões de civis e prisioneiros de guerra. O governo do Japão, embora tenha reconhecido que houve excessos cometidos por suas tropas, jamais apresentou um pedido formal de desculpas pelos crimes de guerra.

Definições Crimes de guerra podem ser definidos de forma ampla como o comportamento ilegal por parte de militares contra a população civil inimiga ou contra combatentes inimigos.Convenção IV, Convenção de Genebra Relativa à Protecção das Pessoas Civis em Tempo de Guerra, de 12 de Agosto de 1949 Militares do Império do Japão foram acusados e/ou condenados por terem cometido uma série de violações de direitos humanos contra civis e prisioneiros de guerra na Ásia Oriental e na região do Pacífico Ocidental, no período do imperialismo japonês (de fins do século XIX até meados do século XX). Estes eventos atingiram seu ápice durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, de 1937–45 e as campanhas da Ásia e do Pacífico na II Guerra Mundial (1941-45).

Direito internacional e japonês Embora o Império do Japão não tenha assinado as Convenções de Genebra, as quais estabelecem a definição-padrão para crimes de guerra desde 1864, os crimes cometidos podem ser enquadrados em outros aspectos do direito internacional e japonês. Por exemplo, muitos dos crimes atribuídos às tropas japonesas ferem o direito militar japonês, e não foram submetidos à corte marcial, conforme exigido na lei.Ver, por exemplo: Wai Keng Kwok, 2001, "Justice Done? Criminal and Moral Responsibility Issues In the Chinese Massacres Trial Singapore, 1947" (Genocide Studies Program Working Paper No. 18, Yale University), p. 27. Acessado em 23 de abril de 2007. O Império também violou acordos internacionais assinados pelo Japão, incluindo cláusulas do Tratado de Versalhes tais como a proibição do uso de armas químicas, e as Convenções de Haia (1899 e 1907), que protegem os prisioneiros de guerra. O governo japonês também assinou o Pacto Kellogg-Briand (1929), com isso tornando suas ações entre 1937-45 suscetíveis à acusação de crime contra a paz, o que efetivamente foi apresentado no Julgamento de Tóquio para processar criminosos de guerra "Classe A". Criminosos de guerra "Classe B" foram aqueles considerados culpados por crimes de guerra per se, e criminosos de guerra "Classe C" foram os condenados por crimes contra a humanidade. O governo japonês também aceitou os termos estabelecidos pela Declaração de Potsdam (1945) após o fim da guerra. A declaração fazia alusão, em seu Artigo 10º, a dois tipos de crimes de guerra: um era a violação das leis internacionais, tal como maus-tratos infligidos a prisioneiros de guerra; o outro era obstruir "tendências democráticas do povo japonês" e as liberdades civis no Japão.

No Japão, a expressão "crimes de guerra japoneses" geralmente refere-se apenas aos casos julgados pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, mais conhecido como Julgamento de Tóquio, que se seguiu ao fim da Guerra do Pacífico. Todavia, o tribunal não julgou acusações de crimes de guerra envolvendo oficiais de médio escalão ou subalternos. Estes casos foram cuidados separadamente em outras cidades da região do Pacífico asiático.Philip Bowring, Everybody Who Trashes the Japanese Over the Yasukuni Shrine Ought to Learn a Little History About It, 4 de outubro de 2006.

A lei japonesa não define aqueles condenados nos julgamentos pós-1945 como criminosos, a despeito do fato do governo do Japão haver aceito as sentenças estabelecidas pelo Tribunal Militar Internacional e ratificado o Tratado de San Francisco (1952). Isto deve-se ao fato de que o tratado não menciona a validade legal do tribunal. Especula-se que se o Japão houvesse confirmado a validade das cortes Aliadas de crimes de guerra no Tratado de San Francisco, as sentenças destas poderiam tornar-se suscetíveis a apelações, e derrubadas nas cortes japonesas. Todavia, é público e notório que o Japão vem utilizando-se do tratado como um pretexto para recusar-se a reconhecer sua responsabilidade pelos crimes de guerra, particularmente do ponto de vista da reparação financeira dos indivíduos afetados e seus descendentes.The San Francisco Peace Treaty and its 50th Anniversary

Extensão histórica e geográfica thumb|A expansão do Império Japonês: 1870-1942 Fora do Japão, diferentes sociedades têm utilizado amplamente diferentes períodos de tempo ao definir os crimes de guerra japoneses. Por exemplo, a anexação da Coreia pelo Japão em 1910 foi imposta pelos militares japoneses, e seguida pela restrição das liberdades civis e exploração do povo coreano. Assim, alguns coreanos referem-se a "crimes de guerra japoneses" como eventos que ocorrem de 1910 (ou mesmo antes) até 1945.Ver, por exemplo, Yutaka Kawasaki, "Was the 1910 Annexation Treaty Between Korea and Japan Concluded Legally?" Murdoch University Electronic Journal of Law, v.3, no. 2 (Julho de 1996) Acessado em: 15 de fevereiro de 2007.

Em comparação, os Aliados ocidentais não entraram em conflito militar com o Japão até 1941, e estadunidenses, australasianos, asiáticos do sudeste e europeus podem considerar que "crimes de guerra japoneses" são eventos que ocorreram entre 1941-45.Ver, por exemplo: Craig Symonds, "War, Politics, and Grand Strategy in the Pacific, 1941-1945", Air University Review, Novembro-Dezembro de 1979 (Acessado: 15 de fevereiro de 2007): "a maioria dos historiadores americanos, datam a guerra a partir de dezembro de 1941". Ver também Edward Drea, "Introduction", in Edward Drea, Greg Bradsher, Robert Hanyok, James Lide, Michael Petersen & Daqing Yang, 2006, Researching Japanese War Crimes Records (National Archives and Records Administration, Washington D.C.; p. 15): "As atrocidades em Nanquim ocorreram quatro anos antes dos Estados Unidos entrarem na guerra. Nessa época, o governo do EUA não possuía uma grande rede militar ou de inteligência diplomática na China. Um punhado de pessoal militar ou diplomático treinado informavam os acontecimentos, algumas vezes de segunda-mão; comparada com a sensacional cobertura da imprensa, a documentação oficial dos EUA era limitada. Como resultado, com exceção dos registros produzidos durante o julgamento no pós-guerra dos crimes Classe A cometidos pelo oficial-comandante das forças japonesas considerado responsável pelo Estupro de Nanquim, existem poucos materiais sobre esse assunto nos Arquivos Nacionais." Ver também, Ben-Ami Shillony, "Book Review, Book Title: A History of Japan, 1582-1941 Internal and External Worlds, Autor: L. M. Cullen, Professor de História, Trinity College, Dublin", (Institute of Historical Research, Fevereiro de 2004) (Acessado em: 15 de fevereiro de 2007); Grant K. Goodman, "Review 'The Kempei Tai in the Philippines: 1941-1945' por Ma. Felisa A. Syjuco" Pacific Affairs, v. 64, no. 2 (Verão, 1991), pp. 282-283 (Acessado em: 15 de fevereiro de 2007); United Nations Human Rights Committee, "Fifty-Ninth Session, 24 March - 11 April 1997, Decisions, Communication No. 601/1994" (3 de abril de 1997) (Acessado em: 15 de fevereiro de 2007);Gary K. Reynolds, 2002, U.S. Prisoners of War and Civilian American Citizens Captured and Interned by Japan in World War II: The Issue of Compensation by Japan(Congressional Research Service, The Library of Congress, 17 de dezembro de 2002) Acessado em: 15 de fevereiro de 2007).

Os crimes de guerra do Japão Imperial nem sempre foram cometidos por indivíduos de origem japonesa. Uma pequena minoria de habitantes de cada país da Ásia e do Pacífico invadido e/ou ocupado pelo Japão, colaborou com os militares japoneses, ou mesmo serviram em suas tropas, por uma ampla gama de razões, tais como problemas financeiros, coação, ou antipatia pelas outras potências imperialistas.

A soberania do Japão sobre a Coreia e Formosa, na primeira metade do século XX, foi reconhecida por acordos internacionais — o Tratado de Shimonoseki (1895) e o Tratado de Anexação Japão-Coreia (1910) — e na época eram considerados como partes integrais do Império Japonês. Todavia, a legalidade destes tratados é motivo de controvérsia,Kawasaki, Ibid. visto que as populações nativas não foram consultadas, houve resistência armada às anexações, e crimes de guerra também podem ser cometidos durante guerras civis.BERQUÓ, Laura Taddei Alves Pereira Pinto. Guerra civil contemporânea. Prim@facie, João Pessoa, ano 2, n. 2, p. 145-146, jan./jun. 2003. Disponível em: Primafacie. Acesso em 4 de agosto de 2008.

Antecedentes Cultura militar japonesa e imperialismo thumb|220px|Samurais do clã Chosyu, durante o período da Guerra Boshin (década de 1860) A cultura militar, especialmente durante a fase imperialista do Japão, teve grande influência na conduta dos militares japoneses antes e durante a II Guerra Mundial.

Nos séculos precedentes, os samurai do Japão haviam sido ensinados a obedecerem seus senhores sem questionar, bem como a serem destemidos em batalha. Depois da Restauração Meiji e o colapso do Xogunato Tokugawa, o imperador tornou-se o foco da lealdade militar. Durante o chamado "Período Imperial", em fins do século XIX, o Japão seguiu o exemplo de outras potências mundiais ao estruturar um império, perseguindo esse objetivo agressivamente.

Como outras potências imperiais, a cultura popular japonesa tornou-se cada vez mais jingoísta, a partir do fim do século XIX e adentrando o século XX. A ascensão do nacionalismo japonês é parcialmente explicado pela adoção do xintoísmo como religião de estado a partir de 1890, incluindo seu entranhamento no sistema educacional. O xintoísmo reputava o imperador como divino, visto que ele era considerado descendente da deusa solar Amaterasu. Isto justificava a exigência de que o imperador e seus representantes deviam ser obedecidos sem questionamentos.

A vitória na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-95) significou a ascensão do Japão ao status de grande potência militar. Diferentemente de outras grandes potências, o Japão não assinou a Convenção de Genebra — a qual estipula o tratamento humano de civis e prisioneiros de guerra — até o fim da II Guerra Mundial. Não obstante, uma Proclamação Imperial (1894) declarava que os soldados japoneses deveriam fazer todos os esforços para vencer a guerra sem violar leis internacionais. De acordo com o historiador Yuki Tanaka, as forças japonesas durante a Primeira Guerra Sino-Japonesa, libertaram ilesos 1.790 prisioneiros chineses, depois que eles assinaram um compromisso de nunca mais pegar em armas contra o Japão.Yuki Tanaka, Hidden Horrors, pp. 72-3 Depois da Guerra Russo-Japonesa (1904-05), todos os 79.367 prisioneiros do Império Russo foram libertados e pagos pelo trabalho prestado, de acordo com a Convenção de Haia.Yuki Tanaka, Hidden Horrors, Japanese War crimes in WW II, 1996, p.72 De modo semelhante, o comportamento dos militares japoneses na I Guerra Mundial (1914-18) foi pelo menos tão humano quanto o dos militares de outros países.

A guinada nos anos 1930 e 1940