Luiz Ramalho, nascido no Povoado de Santa Fé, atual Bonito de Santa Fé (PB), em 1931. Compositor brasileiro, é um dos "Ramalhos da Paraíba" (junto com os primos Elba Ramalho e Zé Ramalho). Teve como seu maior sucesso a música "Foi Deus quem fez você", vice-campeã do Festival MPB-80, da Rede Globo, cantada por Amelinha, que vendeu mais de 1 milhão de cópias, sendo a primeira canção a figurar na primeira posição das paradas de sucessos tanto das emissoras de rádio AM quanto nas de FM no BrasilAmelinha - Biografia. Letras.com.br. Também tem como sucessos, as nordestinas “Roendo unha”, “Daquele jeito” e “Retrato de um forró” gravadas por Luiz Gonzaga; além de “Veio d’água”, gravada por Elba Ramalho e do samba “Amor em Jacumã”, gravada nos Estados Unidos por Dom Um Romão. É o patrono da cadeira nº 19 da Academia Paraibana de Música. Assinava suas músicas jocosas com o nome "Luiz Santa Fé". Morreu aos 50 anos em João Pessoa (PB), vítima de leucemia, deixando mais de 170 obras inéditas.

BiografiaUma notável presença de espírito, Jornal “A União”, 19/07/1981Quem foi Luiz Ramalho. Uma vida dedicada à música. Tropeiro de festivais. Jornal “Correio da Paraíba”, 19/07/1981Morreu o autor de “Foi Deus que Fez Você”, Jornal “O Correio da Paraíba”, 19/07/1981 Infância e adolescência no sertão Nasceu em 24/02/1931 (embora registrado como nascido em 24/03/1931) na Fazenda do Pascoal, numa casinha singela localizada à margem do rio Piranhas (também chamado de Piranhas-Açu), próximo ao Povoado de Santa Fé, no alto sertão da Paraíba. O povoado se acabou “por enchente e bala”, como Luiz costumava dizer, e a região da fazenda foi abarcada, em 1943, pelo novo município de Bonito de Santa Fé, situado a 571 metros acima do mar. Santa Fé foi tema de uma de suas composições gravadas por Amelinha.

Filho de Arsênio de Sá Ramalho e Izabel (Bilinha) Leite Ramalho, tendo como avós paternos Coriolano Mariano de Sá e Maria Pinto Ramalho. Teve 5 irmãos: Coriolano Ramalho Neto, Anita Ramalho de Holanda, Francisco de Assis Ramalho, Benonília de Sá Ramalho e Walter de Sá Ramalho.

Passou parte da infância e adolescência em São José de Piranhas, Bonito de Santa Fé e Cajazeiras, concluindo nesta cidade o curso ginasial no Colégio Diocesano Padre Rolim em 1948. Depois disso, voltou à Fazenda Pascoal, dedicando-se à agricultura, arrumando sempre tempo para caçar à noite. Catava algodão, fazia cercas, brocava, encoivarava e destocava capoeiras, além de tanger o gado e os burros, temas sertanejos que permearam várias de suas composições, como “Tropeiro”, “Vazante”, “Roendo Unha”, etc.

Vale citar um caso do qual guardou segredo até o último ano de sua vida para “não fazer média”. Em 1952, quando, como agricultor, empregava 20 famílias, as chuvas pararam e essas famílias ficaram em situação desoladora. Como nesse tempo não havia frentes de emergência, a saída que restou para Luiz foi hipotecar sua propriedade no Banco do Brasil, sabendo os riscos a que estava correndo. Deu trabalho aos moradores, mas foi obrigado a vender seu pedaço de terra. Não se arrependeu e repetia: “Aquele que promete salvar o povo está enganando ou enganado”. O tema da exploração do trabalhador rural foi tratado na sua composição “Meação”, que lhe rendeu alguns problemas com o regime militar vigente à época.

Estudante, bibliotecário e professor em João Pessoa Em 1956, aos 25 anos, chegou do interior do Estado a João Pessoa (PB) com a intenção de seguir adiante para o Rio de Janeiro ou São Paulo. Porém, terminou ficando na capital paraibana, alojado na famosa Casa do Estudante, Rua da Areia, 567 . Lá construiu muitas amizades duradouras como Luiz Nunes Alves (Severino Sertanejo), Wilson Braga, Abílio Plácido, Dorgival Terceiro Neto, José Belarmino da Nóbrega, entre outros tantos. miniaturadaimagem|Luiz Ramalho (anos 60) Para viver, logo arrumou um trabalho de bibliotecário na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba, Praça João Pessoa. Mas depois de passar anos “apenas ganhando minguados tostões naquela repartição” pediu exoneração do cargo em 1967, ficando “de cara pra cima, na Praça João Pessoa em situação igual a daqueles cabras fortes que ali estão como estátuas”. O trabalho na biblioteca lhe rendeu novos amigos por conta de sua prestatividade. É, por exemplo, o caso curioso de Tarcísio Burity, que costumava pedir para ficar trancado na biblioteca após seu fechamento para estudar. Luiz, depois de ir namorar com Jayra na casa da Ladeira da Borborema, voltava para “soltá-lo”, só que um dia o esqueceu e Tarcísio dormiu na biblioteca.

Luiz foi um dos que negociaram uma solução pacífica, em março de 1964, entre, de um lado, os apoiadores de Carlos Lacerda, que pretendiam invadir com violência a faculdade e, de outro, os estudantes secundaristas e universitários lá sitiados, em protesto à vinda de Carlos Lacerda à Paraíba. No seu depoimento à comissão da verdade, José Sabino, à época presidente da União Estadual de Estudantes, afirmou: “Luiz Ramalho me colocou dentro da faculdade por uma janela. Tentamos falar com o reitor Mário Moacir Porto, mas ele estava viajando. Luiz foi à casa do vice-reitor, mas ele também estava viajando. Luiz foi falar com o governador Pedro Gondim. O governador telefonou para o 15º Regimento de Infantaria (15 RI) e falou com o comandante. Os dois acertaram que o Exército retiraria os estudantes e que eles seriam soltos distantes da faculdade para evitar confronto com os lacerdistas”. miniaturadaimagem|Luiz Ramalho e sua esposa Jayra (anos 70) Ainda em 1956, conheceu Maria Jayra de Carvalho Lisboa, por quem se apaixonou e que o impulsionou a retomar os estudos. Em 1957, começou o Curso Clássico (atual ensino médio) no célebre Lyceu Paraibano, onde depois tornou-se professor, passando a ensinar “regrinhas de português” – como dizia. Fez vestibular e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba em 1960, tendo se formado em dezembro de 1964. No dia 19 desse mesmo mês, casou-se com Jayra na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, sendo oficiante o Padre Trigueiro. Com Jayra viveu até seu falecimento em 1981 e teve 5 filhos: Geber (1965), Gualter (1968), Reuben (1972), Kalyne (1973) e Viviane (1976).

Fins dos anos 60 em diante Seu diploma de advogado ficou arquivado até 1967, quando deixou a biblioteca e passou a atuar na execução de dívidas. Nesse campo, seu grande remorso: jamais perdeu uma causa. Mas, quando compreendeu que “aquele negócio de que todos são iguais perante a lei era somente um papo”, abandonou tudo.

Graças à intervenção de um de seus grandes amigos, Antônio Bento, passou a trabalhar como Assessor de Educação para o Trabalho na Diretoria Estadual da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Mas, o dinheiro era pouco. Mal dava para manter a família e sustentar um Dauphine vermelho “tão velho que ao estender a mão, para dar sinal de entrada, quase sempre me jogavam uma esmola”. Contava, já rindo. Com a ajuda de seu amigo, compadre e parceiro Luiz Nunes, colaborou na implantação na Paraíba do Instituto Nacional de Pesos e Medidas – INPM (à época, IPEM-PB), onde depois passou a trabalhar como Assessor Jurídico até o ano em que faleceu. Em meados dos anos 70, o trabalho no INPM exigia os dois expedientes, ficando a atuação na LBA para o período da noite. Como, nesse ritmo “não tinha tempo para cuidar da música”, pediu demissão da LBA.

Em 1979, foi diagnosticado com câncer (leucemia). Fez tratamentos quimioterápicos em João Pessoa, no Hospital Barão de Lucena em Recife, e até no Memorial Hospital em New York (EUA). Em entrevista ao programa Fantástico da Rede Globo, antes de embarcar para Nova Iorque, disse “se não der certo o tratamento, vou voltar para o sertão e beber chá até de raiz quadrada”. Foi desenganado 3 vezes, mas chegou a entrar em um quadro de remissão.  Sempre que era perguntado como estava a saúde, costumava responder em tom de brincadeira: “Me sinto como o Irã: não ganho, mas também não me entrego”, ou ainda “sou como o mocinho dos seriados: quando todos pensam que vai morrer, surge novamente numa outra série”.

Depois de receber o prêmio do Festival da Nova Música Popular Brasileira - MPB 80, no Rio de Janeiro, ficou muito emocionado ao ser recebido com grande alvoroço no aeroporto de João Pessoa, assim como no bairro onde morava desde 1966 (rua Juiz Ovídio Gouveia, 87, Conjunto Pedro Gondim). Em entrevista, narrou: “Essa homenagem da Paraíba me comoveu mais do que a do Maracanãzinho (...). Quando todo o Maracanãzinho cantou, eu fiquei naturalmente vaidoso, mas esperava alguma coisa parecida. O que me surpreendeu mesmo na Paraíba foi a presença maciça de pessoas que, a princípio, não achei que fosse para mim. Eu parei, observei, vendo que não tinha ninguém importante que pudesse receber uma homenagem, aí deu um adeusinho. Quando a turma correspondeu, aí entendi que era pra mim. Eita, como eu fiquei importante!”.

Além de cultivar com afinco suas amizades (de todos os matizes ideológicos e religiosos, e de ser um pai muito entrosado com os filhos, um traço marcante da vida pessoal de Luiz Ramalho era suas conhecidas tiradas de improviso, marcas de uma grande presença de espírito, como ilustram as citações desse texto: “Luiz Ramalho, mesmo nas fases mais difíceis, não abandonava a sua notável presença de espírito, falando sempre com tiradas engraçadas, numa conversa informal com amigos ou até mesmo numa entrevista à imprensa”.

Em 1981, sua saúde teve uma grave recaída. Faleceu vítima de leucemia em João Pessoa no Hospital do Grupamento de Engenharia, em 18 de julho de 1981, sábado de manhã, aos 50 anos, deixando mais de 30 músicas gravadas e mais 170 inéditas, além de muitos amigos e admiradores. Seu enterro, ao qual compareceram mais de 3 mil pessoas, foi motivo de comoção em João Pessoa, cidade que adotou como sua.

Trajetória musicalRamalho e Amelinha fazem sucesso com música romântica. Jornal O Norte, 03/08/1980Entrevista concedida a Edvaldo Mendonça em julho de 1980.

Primeiros passos no sertão Luiz, um autoditada em música e no violão, aprendeu os primeiros acordes com seu Tio Cefas que também lhe emprestava o único violão a que ele tinha acesso. Vale dizer que precisava fazer um trajeto de umas 2 léguas a cavalo a partir da Fazenda do Pascoal para poder tocar.

Segundo o maestro José Neves, amigo de longas datas, desde Bonito de Santa Fé, Luiz já tocava e compunha no final dos anos 40, tendo inclusive composto em 1952 a música instrumental “Pisando em Brasa”, “um dos melhores choros que fez até agora e que ninguém conhece”Maestro José Neves: um amigo que esteve presente em todos os momentos. Jornal “Correio da Paraíba”, 19/7/1981..

Anos 60 – o CEU e os festivais Nos anos 60, criou e liderou um grupo musical que tocava em festas dançantes no famoso CEU (Clube dos Estudantes Universitários), no Cassino da Lagoa, em João Pessoa, local que também funcionava como restaurante universitário e servia de espaço para as assembleias de estudantes. Para poder atualizar o repertório e manter o sucesso do grupo, no qual tocava guitarra, Luiz costumava viajar para o Recife para ver filmes e aprender seus temas musicais. Como não tinha gravador, precisava assistir mais de uma sessão para decorar a música. Depois ensaiava com o grupo e na estreia do filme em João Pessoa, uma ou duas semanas depois do Recife, surpreendia o público já tocando o tema do novo filme.