O Rallus aquaticus, comummente conhecido como frango-d'água, é uma ave da família dos RalídeosPenas Patiño, Xosé M.; Pedreira López, Carlos (setembro de 2004). Guía das aves de Galicia. Ilustrado por Calros Silvar (2ª ed.). A Coruña: Baía Edicións. ISBN 84-96128-69-5. que se reproduz em zonas húmidas bem cobertas de vegetação, nomeadamente caniçais e tabuais, presente na Europa, Asia e no Norte de África. As povoações do Norte e Leste são migratórias, mas esta espécie é sedentária durante todo o ano nas regiões mais quentes dos seus habitats.
Em Portugal distribui-se um pouco por todo o território, sendo mais comum no litoral, onde encontra maior disponibilidade de habitats.
O adulto é uma ave de 23 a 28 cm de comprimento e, tal como os outros membros da sua família, tem um corpo achatado, o que lhe facilita passar por entre a vegetação de juncos do habitat onde vive. A sua parte superior é principalmente castanha e a inferior cinza-azulada, com barras negras nos flancos, dedos longos, cauda curta e bico longo e avermelhado. Os espécimes imaturos são, geralmente, similares em aparência aos adultos, mas a cor cinza-azulada da plumagem é substituída por um tom bege.
Nomes comuns Dá, ainda, pelos nomes comuns de pita-da-erva e fura-mato.
Taxonomia Os ralídeos são uma família que compreende quase 150 espécies. A maioria das espécies encontram-se no Velho Mundo, o que sugere que esta família se originou aí. No entanto, o género Rallus, que corresponde o grupo das espécies de bico comprido, originou-se no Novo Mundo. Há provas genéticas que indicam que o frango-de-água é o mais estreitamente relacionado deste género com as espécies de ralídeos Gallirallus do Pacífico. O frango-de-água foi descrito primeiramente por Linnaeus na obra Systema Naturae em 1758, já com o nome científico actual Rallus aquaticus, cujo significado que equivale em latim ao seu nome comum.
A antiga subespécie R. a. indicus tem vocalizações muito diferentes das do frango-de-água e, em trabalhos recentes, tem sido considerada uma espécie separada. Foi restaurada como espécie de seu co nome R. indicus por Pamela Rasmussen na sua obra Birds of South Asia (2005). O tratamento que lhe dá esta autora obteve aceitação e foi também o seguido pelo Birds of Malaysia and Singapore (2010). Houve ainda, um estudo de 2010 da filogenia molecular que deu um apoio adicional à possibilidade de se conferir o estatuto de espécie à R. indicus, que se pensa que terá divergido das formas ocidentais há cerca de 534 000 anos.
Fósseis Os fósseis mais antigos conhecidos dum frango-de-água ancestral são uns ossos encontrados nos Cárpatos datados do Plioceno (há 1,8-5,3 milhões de anos). Ao final do Plistoceno, há dois milhões de anos, os vestígios fósseis sugerem que o frango-de-água já estava presente na maioria da sua área de distribuição actual. Esta espécie está bem representada no registo fóssil, com uns 30 achados tão-só na Bulgaria e muitos outros no sur de Europa. e China. Um antigo frango-de-água da ilha de Eivisa, Rallus eivissensis, era mais pequeno, mas mais robusto do que o frango-de-água e provavelmente teria pior capacidade de voo. Extinguiu-se aproximadamente ao mesmo tempo que o ser humano chegou á ilha, entre os anos 16 700 e 5 300 a.C.. A raça nominal do frango-de-água é agora uma ave residente muito rara na ilha de Eivisa.
Descrição miniatura|Cabeça da subespécie R. a. aquaticus O adulto da subespécie nominal é um frango-de-água de tamanho médio, entre os 23 e os 28 cm de comprimento com uma envergadura alar de 38 a 45 cm. Os machos pesam normalmente entre 114 a 164 g e as fêmeas são ligeiramente menos pesadas, com 92 a 107 g. As partes superiores desde a fronte até á cauda são castanho-azeitona com listras negras, especialmente nas ombreiras. A parte lateral da cabeça e as partes inferiores até à parte superior da barriga são azul-lousa escuro, salvo uma área negra entre o bico e o olho, e laterais acastanhadas até ao peito superior. Os flancos têm barras negras e brancas e a parte subcaudal é branca com algumas listras mais escuras. O seu longo bico e a iris são vermelhos e as patas são de cor encarnada-acastanhada. Ambos os sexos são similares, se bem que as fêmeas, em média, tendam a medir menos do que o macho e tenham um bico mais fino. Em todo o caso, determinar o sexo somente pelas medidas não é um método fiável. Os espécimes juvenis têm um píleo anegrado e um queixo e gorja brancos. As partes inferiores são beges ou brancas com listas mais escuras, e as marcas dos flancos são castanhas e beges em vez de negras e brancas. A parte subcaudal é bege, e o olho, o bico e as patas são de cores mais claras do que as dos espécimes adultos. Os pintainhos estão cobertos de penugem e são completamente negros excepto, no bico, que é principalmente branco. Depois da reprodução, sofrem uma ampla muda e perdem a capacidade de voar durante três semanas. Os adultos podem identificar-se individualmente pelas marcas subcaudais, que são únicas para cada espécime. Os machos adultos são os que têm as listras subcaudais mais nítidas. Especulou-se que as barras escuras subcaudais desta espécie poderão estar a meio-termo entre as zonas subcaudais completamente brancas, como as que têm as espécies de águas abertas e as gregárias, como a galinha do rio, que servem uma função de sinalização; e as zonas subcaudais completamente negras, que servem para evitar que a ave fique demasiado visível.
A espécie de Ásia tropical que se parece um pouco ao Gallirallus striatus tem um bico mais robusto, um píleo castanho e partes inferiores com manchas brancas. Os espécimes juvenis, bem como aqueles que acabam de fazer a muda de penas, podem apresentar uma zona subcaudal bege como a da franga-d'água-grande, mas a plumagem dessa espécie tem manchas brancas e um bico muito mais curto e principalmente amarelado. A área de distribuição do frango-de-água não converge com a de nenhuma outra espécie de ralídeo, mas os indivíduos errantes poderiam distinguir-se dos seus parentes americanos pela falta da cor avermelhada ou acastanhada. A maior espécie de ralídeo de África, o Rallus caerulescens, tem partes superiores castanhas mais escuras, sem listras e patas e pés dum vermelho mais vivo.
Vocalizações É uma espécie vocalizadora que trila durante todo o ano. O seu trilar consiste numa série de grunhidos seguidos dum chio agudo, parecido ao cuinhar dos bácoros, que acaba com mais grunhidos. Utiliza-o tanto como uma vocalização territorial, como de alarme de alerta ou mesmo de mero anúncio da própria presença. Os dois membros do casal podem fazer a vocalização alternadamente, o macho com notas mais lentas e baixas que a fêmea. A canção de acasalamento dos frangos-d’água, também conhecida por recocar, é cantada por ambos os sexos e consiste numa espécie de tique-tique-tique que costuma concluir com um trilo da fêmea; o macho, por seu turno, pode cantar sem parar durante horas.
A vocalização de voo é um assobio sustido. Há outras vocalizações que são um rangido repetido e alto, feito pelo macho, quando pretende mostrar o sítio de nidificação à fêmea. Há, ainda, um arrolar, a que também se pode chamar recoco, que fazem ambos quando estão no ninho com os pintainhos. São mais vocais quando estabelecem um território próprio e ao início da época de acasalamento, as vocalizações podem continuar pela noite dentro. Os pintos inicialmente piam tenuemente, mas rapidamente desenvolvem um trilo como os dos progenitores.
Quando os investigadores se serviram de altifalantes, que reproduzem gravações das vocalizações da folosa das canaveiras, de noite, para atrair este pássaro, a fim de o capturar, observaram que os frangos-d’água e outras aves aquáticas também aterraram, apesar de o habitat em questão não ser o mais apropriado para elas. O que indica que os frangos-d’água e outras aves migratórias nocturnas reconhecem o cântico da folosa e associam-no ao habitat de pântano ou marisma no qual geralmente vive.
Subespécies miniatura|R. a. korejewi Reconhecem-se três subespécies.
R. a. aquaticus (Linnaeus, 1758). Esta é a espécie nominal que medra na Europa, no Norte de África, na Turquia, no próximo Oriente até ao mar Cáspio e a Oeste do Cazaquistão e numa estreita faixa junto ao leste até à Sibéria central. R. a. hibernans (Salomonsen, 1931). A raça islandesa, que tem as partes superiores dum castanho ligeiramente mais intenso do que a sua congénere nominal. As barras dos flancos são castanhas-escuras, em vez de negras, e o bico é um tanto mais curto; o acinzentado das partes inferiores pode também ter uma ligeira tonalidade acastanhada. R. a. korejewi (Zarudny, 1905) (inclui as formas duvidosas deserticolor, tsaidamensis e arjanicus). Esta subespécie medra no Sul da Ásia central desde o Sul e o leste do Irão, até ao leste da China (às vezes em Pequim, Xangai etc.), e no subcontinente indiano em Caxemira e em Ladakh. É ligeiramente maior do que a raça nominal, apresentando partes superiores castanhas mais claras e partes inferiores negras, de uma tonalidade um pouco mais clara. Tem uma mascarilha castanha ténue, que cruza os olhos.
As diferenças entre as três raças parecem ser clinais e é possível que todas devam consubstanciar-se em R. a. aquaticus. A antiga subespécie R. a. indicus que se considera, agora, a espécie R. indicus.
Distribuição e habitat As junqueiras são um importante habitat para a nidificação e hibernação desta espécie. |miniatura
Pululam nas zonas temperadas da Eurásia desde a Islândia e as ilhas britânicas descontinuamente até ao Norte de África, Arábia Saudita e Oeste da China. A sua distribuição na Ásia está pouco estudada.
A povoação islandesa de R. a. hibernans extinguiu-se por volta de 1965 como resultado da perda de habitat pela drenagem de zonas húmidas e a predação pelo vison americano introduzido. Antes da sua extinção, pelo menos algumas dessas aves estavam presentes todo o ano na ilha, dependentes de fontes termais vulcânicas para sobreviver durante os meses mais frios. Em todo o caso, esta raça encontrava-se também no Inverno nas ilhas Faroé e na Irlanda, e como ave migratória nas ilhas Hébridas Exteriores, o que sugere que a forma islandesa era uma espécie parcialmente migratória.
A subespécie nominal, R. a. aquaticus, é residente na parte Sul e Oeste, de clima mais suave, da sua área, mas migra para o Sul a partir de áreas que estão sujeitas a Invernos rigorosos. Inverna dentro da sua área de reprodução e também em territórios mais a Sul, no Norte de África, no Próximo Oriente e na zona do mar Cáspio. O pico de migração é entre Setembro e Outubro, e a maioria destas aves regressam às suas áreas de reprodução desde Março até meados de Abril.
O habitat reprodutor do frango-de-água são as zonas húmidas permanentes, de águas doces ou salobras paradas ou lentas e com densa vegetação alta, entre a qual pode haver plantas como Phragmites, Typha, Iris, Sparganium ou Carex. Nas áreas costeiras, é comum que se refugie ao pé do Juncus maritimus, entre marismas de água salgada, optando antes pelo Carex e Sparganium em ambientes menos salinos. Um estudo realizado nos Países Baixos e em Espanha mostrou que os juncos oferecem mais resguardo do que outras plantas marítimas. Como noutros lugares, os ninhos são construídos com as plantas mais disponíveis. O Cladium mariscus, onde o houver, proporciona um bom habitat reprodutor, a sua densa estrutura de 1,5 m de altura proporciona uma boa cobertura para os frangos-d’água nidificadores. O habitat preferido, em todo o caso, são as junqueiras com Phragmites com plantas que emergem da água, encontrando-se a uma profundidade de 5 a 30 cm, em áreas lamacentas, para se alimentarem e uma rica diversidade de espécies de invertebrados. As localizações com salgueiros ou arbustos nas proximidades são as preferidas nas áreas grandes de habitat uniforme.