Guinle é uma família de origem francesa documentada desde o século XVII em Bazet e arredores, onde foram membros da pequena burguesia. Um ramo transferido para o Brasil ganhou grande proeminência a partir do último quarto do século XIX, quando o seu patriarca, o empresário gaúcho Eduardo Pallasim Guinle, fundou ao lado de Francisco de Paula Ribeiro e Cândido Gaffrée a Companhia Docas de Santos, tornando-se riquíssimos. Entrando na elite carioca, vários descendentes se projetaram na política, no empresariado, nas artes e na sociedade. A família construiu o famoso hotel Copacabana Palace.

França A família tem origem na vila de Bazet, um subúrbio de Tarbes, nos Altos Pirenéus franceses. Estão nesta região pelo menos desde 1630, quando Domenge Mamnus, dito Guinle, tem obrigações com a Igreja de Saint-Saver-de-Rustan, a 13 km de Bazet. Em 1699 Bernard Guinle, de Bazet, estava sendo processado pelo médico Dofailla; em torno de 1706 Jacques era advogado; Pierre e Martin foram açougueiros; em torno de 1720 Pierre filho do açougueiro Pierre era advogado do Parlamento; em 1776 Jean, de Tostat (4 km), recebeu do mosteiro de Saint-Lézer metade dos direitos sobre os dízimos de Tostat, e Jean, de Bours (2 km) em 1779 recebeu um arrendamento de terras das Ursulinas.Durier, Charles & Labrouche, Paul. Inventaire-sommaire des Archives départementales antérieures à 1790: Hautes-Pyrénées. Archives ecclésiastiques. Séries G et H. Archives départementales des Hautes-Pyrénées, 1892, pp. 35; 175; 188-189; 191; 217 Em 1789 um Guinle citado sem nome próprio era conselheiro e cônsul em Bours, participando da elaboração das petições do senescalado de Bigorre para os Estados Gerais.Balencie, Gaston. Départment des Hautes-Pyrénées: Cahiers de doléances de la sénéchaussée de Bigorre pour les États généraux de 1789. Lesbordes, 1925, pp. 194; 247

Jean-Pierre, nascido em Tarbes em 1806, foi brigadeiro chefe das cavalariças municipais, aposentado em 1867."Décret Impériale du 17 janvier 1867". Bulletin des lois de la République française, 1867; XI (XXIX): 358 Um Guinle citado sem nome próprio foi notário em Tarbes em torno de 1860.Abadie, Joseph-Bernard. Les Hautes-Pyrénées au temps de Napoléon III: indicateur des Hautes-Pyrénées. Association G. Mauran, 1999, p. 317 Outro Guinle foi oficial sanitário em Andrest (3 km), morto em 1852.Tarbes et la Bigorre. Fédération des Sociétés académiques et savantes Languedoc, Pyrénées, Gascogne, 1979, p. 166 Romain foi agricultor e assessor administrativo municipal em Andrest, aposentado em 1911."Pyrénées (Hautes)". Journal officiel de la République française, 1911, p. 5907 Alexandre (1884-1957), de Tarbes, foi músico e poeta,Riviere, Jacques. The Ideal Reader: Proust, Freud, and the Reconstruction of European Culture. Routledge, 2017 recebeu da Academia Francesa o Prêmio de Poesia em 1931 e o Prêmio Auguste Capdeville pelo conjunto da obra em 1957."Prix de l'Académie: Alexandre Guinle". Académie française Os Guinle de Sarniguet (3 km) e Pujo (6 km) na II Guerra Mundial auxiliaram a esconder judeus e abrigar aviadores norte-americanos caídos na campanha.Pottier, Francis. Le commando Hispano: Épisodes de la Résistance en Bigorre. Marrimpouey, 1975 Disse Marcel Céroni que "esta família generosa e patriótica participou ativamente da Resistência".Céroni, Marcel. Le Corps franc Pommiès, Organisation de résistance de l'armée: La clandestinité. Editions du Grand Rond, 1980, p. 225

Os Guinle se aparentaram com a família Ducasse, nativa de Bazet. Antoine Guinle (1819-1854) casou com Jeanne Ducasse, gerando Dominique, Alexis e Marc.Rocca, Pablo. "Enigmas para resolver: los últimos días de François Ducasse". In: Alea, 2019; 21 (1): 305-342 Jeanne era irmã de François Ducasse, que foi diplomata em Montevidéu e pai de Isidore Ducasse (mais conhecido como Lautréamont), nascido em Montevidéu. Marc foi carpinteiro e avô de Marcel Guinle, secretário da prefeitura de Bazet.Saillet, Maurice. Lautréamont: Obra completa. AKAL, 1988, p. 16 Lefrère, Jacques. Le visage de Lautréamont: Isidore Ducasse à Tarbes et à Pau. Horay, 1977, p. 36

Brasil A linha brasileira inicia com Jean-Arnauld Guinle, nascido em Bazet, filho de Pierre Guinle e Jeanne Bragat, que em torno de 1840 decidiu emigrar para o Uruguai. Ao chegar encontrou Montevidéu em meio a turbulência militar, sendo aconselhado pelo representante consular francês Theodore Pichon a mudar-se para o Brasil ou a Argentina. Casou em 24 de novembro de 1843 com a francesa Josephine Désirée Bernardine Pallasim (ou Palassim), partindo imediatamente depois para Porto Alegre, onde nasceu em 1846 seu filho Eduardo Pallasim Guinle.Bulcão, Clóvis. Os Guinle: a história de uma dinastia. Intrínseca, 2015, pp. 18-20

Eduardo começou trabalhando como caixeiro viajante, e depois de conhecer Cândido Gaffrée, natural de Bagé, estabeleceu com ele uma parceria comercial. Eduardo casou em 1875 com Guilhermina Coutinho, e no mesmo ano, levando o sócio, se instalou no Rio de Janeiro, onde abriram um pequeno comércio na zona central da cidade. No Rio nasceriam os filhos de Eduardo: Eduardo (1878), Guilherme (1882), Carlos (1883), Arnaldo (1884), Octávio (1886), Celina (1887) e Heloísa (1890).Bulcão, pp. 11; 18-20

Os dois sócios, tendo vencido em 1888 uma licitação para modernizar uma parte do Porto de Santos, conseguiram nos primeiros anos da República, e desta vez sem nova licitação, expandir a concessão de 866 metros para 4.720 metros, e prorrogar o período de vigência de 39 para 92 anos. Passaram então a receber a enorme receita resultante de um percentual do valor de toda a carga que usava o porto.Bulcão, Clóvis. Os Guinle, A História de Uma Dinastia. Editora Intrínseca, 2015, ISBN 978-85-8057-752-5

Eduardo Guinle, falecido em 1912, deixou uma grande fortuna para seus descendentes."Saudades do tempo da fartura". Jornal do Brasil, 15/09/2001 Gaffrée, que morreu em 1919 sem deixar herdeiros, também deixou sua parte nas empresas aos sete filhos de Eduardo, que expandiram, na primeira metade do século XX, os negócios familiares para as áreas de produção e distribuição de energia elétrica, imobiliárias, indústria têxtil, bancos, construção civil e hotelaria. Pertenceu à família — protagonista de alguns dos principais capítulos da história econômica do Brasil — o Copacabana Palace Hotel, o mais luxuoso hotel brasileiro da época, construído a pedido do então presidente do Brasil Epitácio Pessoa, que desejava um hotel de turismo na capital do país.IstoÉ Dinheiro: O Guinle que deu certo

A proximidade do poder na então capital federal, o Rio de Janeiro, favoreceu sobremaneira os negócios da família Guinle, que além de ter explorado por décadas o Porto de Santos, executou diversas obras públicas no país. A transferência da capital para Brasília causou a derrocada financeira do clã.

Atuação do Grupo Guinle & Cia e sua disputa com a São Paulo Tramway, Light and Power Company

A família Guinle inicia os seus negócios, na praça do Rio de Janeiro, ainda na segunda metade do século XIX, em 1871, quando Eduardo Palassin Guinle resolve abrir uma loja de tecidos importados, no centro da cidade, tendo como sócio Cândido Gaffrée. Já no ano seguinte, em 1872, os dois sócios ampliam os seus negócios para o ramo de ferrovias, incluindo, à época, a construção de estradas de ferro no Nordeste, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1888, a Gaffrée & Guinle obtém a concessão para a construção do novo Porto de Santos, em disputa com diversas empresas concorrentes. Mais tarde, em 1892, a mesma dará origen a Companhia Docas de Santos, que terá Cândido Gaffrée e Eduardo Palassin Guinle como os seus principais acionistas.

Os negócios que envolviam a construção do Porto de Santos passaram a ser as principais atividades dos Guinle na década de 1890. Em 1899, os Guinle adquirem, em localidade próxima à Petrópolis, uma queda d`agua no rio Paquequer, “com o objetivo de construir uma hidrelétrica para fornecer eletricidade ao Rio de Janeiro”. Contudo, esse plano fora adiado, em função da então construção do Porto de Santos. Nesse mesmo ano, foi fundada em Toronto, no Canadá, aquela que seria a maior concorrente dos Guinle no setor elétrico, a São Paulo Tramway, Light and Power Company, voltada inicialmente para a praça de São Paulo .

A disputa com a São Paulo Tramway, Light and Power Company teria início a partir da própria capital de São Paulo. Em 1901, a Gaffrée & Guinle recebeu autorização para instalar uma usina hidrelétrica no rio Itatinga, destinada a fornecer eletricidade para a Companhia Docas de Santos. Ainda naquele ano, quando a usina já estava em funcionamento, tentariam fornecer o excedente de energía elétrica produzida para a cidade de São Paulo, objetivando ingresar naquele mercado. Contudo, seriam barrados pela força do monopólio da São Paulo Tramway, Light and Power Company, que aquela altura já havia absorvido a Companhia de Água e Luz do Estado de São Paulo por meio de controle acionário, tomando, então, para o seu dominio, as concessões que esta última detinha. Aliás, essa foi a mesma estratégia utilizada pela São Paulo Tramway, Light and Power Company para obtenção de monopólio no setor de transporte, com os carris urbanos - bondes, que, uma vez conquistada a primazia na cidade de São Paulo, logo voltaria suas atenções para o Rio de Janeiro.

A disputa pela concessão da iluminação pública no Distrito Federal vinha desde 1892 e alguns impedimentos legais e conflitos de esfera de jurisdição e competência entre companhias concessionárias e entre os poderes federal e municipal, tornaram mais difícil a equação da geração e do fornecimento de energia elétrica à cidade do Rio de Janeiro assim como colocaram em evidencia o problema dos monopólios nos serviços públicos. A primeira disputa se deu entre a SAG (Société Anonyme du Gaz) e a Companhia Jardim Botânico de bondes. Ainda, por decreto imperial, em junho de 1886, foi asegurado à SAG, companhia de origem belga, a “exclusividade no fornecimento de gás canalizado à cidade para os serviços de iluminação pública ou quaisquer outros, podendo o governo imperial determinar a substituição do gás pela eletricidade dentro do prazo da concessão, que findaria em 1915”. Com o advento da República, em novembro de 1889, e a nova Constituição de 1891, a concessão de iluminação e outros serviços públicos foram municipalizados e passaram para esfera do Distrito Federal. Apesar da Lei Orgânica de 1892 garantir a SAG a “exclusividade no fornecimento dos serviços de iluminação pública e particulares”, esta, na prática, não aceitou “a subrogação da municipalidade nas obrigações que cabiam à União, (...) configurando uma dualidade de competências no que concerne aos serviços públicos de eletricidade do Distrito Federal, refletida na legislação e nos atos administrativos emanados de decisões quer municipais quer federais”.

A SAG só reconhecia, como “poder concedente e fiscalizador dos serviços de iluminação no Rio”, o então Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas (MIVOP). Nesse contexto de dualidade de competências entre o poder municipal e a União, em 1893, a SAG acusou a Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico de estar vendendo “a terceiros, com fins de iluminação, o excedente da energia elétrica produzida” e fornecida por ela à companhia “com a finalidade original de acionar seus bondes”. A SAG obteve ganho de causa na questão e a Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico “passou a poder usar as ruas apenas para a transmissão de força”, colocando seus bondes em funcionamento22 . A segunda disputa se deu em torno da Concessão Reid, como ficou conhecida. Esta foi a primeira concessão municipal, de dezembro de 1899, referente ao fornecimento de energia elétrica ao Distrito Federal por fontes hidráulicas.