Os congos (também Dicionário Houaiss: "bacongo", singular: ou M'kongo; , , singular: )Wyatt MacGaffey, Kongo Political Culture: The Conceptual Challenge of the Particular, Indiana University Press, 2000, p.62 são um povo banto definido principalmente como os falantes do congo. Subgrupos incluem os beembes, buendes, vilis, sundis, iombes, dondos, laaris e outros.

Vivem ao longo da costa atlântica da África Central, região que no século XV formava o centralizado Reino do Congo, hoje parte de três países. Suas maiores concentrações estão ao sul de , no Congo-Brazavile; a sudoeste do lago Malebo e oeste do rio Cuango, no Congo-Quinxassa; ao norte de Luanda, províncias do Zaire e do Uíge em Angola, e no sudoeste do Gabão.

Os congos formam o maior grupo étnico do Congo-Brazavile e um dos principais nos outros dois países. Em 1975, sua população era estimada em 4.040.000.

Etimologia A origem do nome Kongo é incerta. Para o pesquisador Samuel Nelson, pode derivar do verbo local konga, que significa “reunir”.Nelson, Samuel Henry. Colonialism In The Congo Basin, 1880–1940. Ohio University Press, 1994. Para Alisa LaGamma, pode vir da palavra regional nkongo, que significa “caçador” em sentido heróico.

O termo também aparece com variantes como Esikongo, Mucicongo, Mesikongo e Moxicongo nas literaturas colonial francesa, belga e portuguesa. No Caribe, missionários cristãos usaram o termo Bafiote para identificar escravizados congos da costa, especialmente do povo Vili.

Desde o início do século XX, o termo congo tem sido usado com mais frequência, sobretudo ao norte do rio Congo, para designar os falantes do congo e de línguas aparentadas.

História esquerda|miniaturadaimagem|200x200px|Distribuição aproximada do povo congo na África Segundo Jan Vansina, a região do rio Congo foi ocupada há milênios, embora as primeiras evidências arqueológicas seguras, como o sítio de Tchissanga, datem de cerca de 600 a.C.

Já no século XIII, surgem pequenos reinos e principados, e no século XV, os portugueses registram a existência de um reino altamente organizado com capital em Mabanza Congo.

Os congos foram um dos primeiros povos africanos a acolher os portugueses em 1483 e converter-se ao cristianismo. Protestaram contra a escravidão nos anos 1510–1520, mas acabaram envolvidos no tráfico atlântico como vítimas e agentes, especialmente nos séculos XVII e XVIII. A partilha colonial da África no século XIX dividiu os congos entre os impérios português, belga e francês.

No século XX, os congos estiveram entre os grupos mais ativos nos movimentos de independência das ex-colônias.

Reino do Congo

miniaturadaimagem|256x256px|Mapa de Angola com os principais grupos étnicos. A área congo está no extremo nordeste, marcada na cor creme. Segundo a tradição oral conga, o Reino do Congo foi fundado antes do século XIV, possivelmente ainda no século XIII.Kimbwandènde Kia Bunseki Fu-Kiau, Le Mukongo et le monde qui l’entourait: Cosmogonie Kongo, Office National de la Recherche et de Développement, Kinshasa, 1969; Reimpressão de 2021, Paari.Arte (Invitation au voyage), En Angola, au cœur du royaume Kongo, Arte, 2020.

O reino não seguia um modelo de sucessão hereditária como era comum na Europa, mas sim por eleição entre os nobres da corte conga. O rei precisava legitimar-se por meio do reconhecimento dos seus pares, da construção de consenso, do uso de insígnias e de rituais religiosos. O reino possuía muitos centros comerciais próximos a rios e também no interior, espalhados por centenas de quilômetros, e tinha como capital a cidade de M'banza Congo, situada a cerca de 200 km da costa atlântica.

Os portugueses chegaram à costa da África Central, ao norte do rio Congo, entre 1472 e 1483, à procura de uma rota marítima para a Índia. Não encontraram portos ou oportunidades comerciais nessa região, mas ao sul do rio Congo encontraram o povo congo e seu reino, com governo centralizado, moeda própria (nzimbu) e mercados prontos para relações comerciais.

Os portugueses encontraram infraestrutura de transporte bem desenvolvida e uma sociedade aberta a trocas culturais. O rei da época, Nzinga a Nkuwu, aceitou voluntariamente o cristianismo e, ao ser batizado em 1491, adotou o nome português de João I.

Por volta de 1450, um profeta chamado Ne Buela Muanda teria profetizado a chegada dos portugueses e a escravização espiritual e física de muitos congos.Thomas T. Spear & Isaria N. Kimambo, East African Expressions of Christianity, James Currey Publishers, 1999, p. 219.Godefroid Muzalia Kihangu, Bundu dia Kongo, une résurgence des messianismes et de l’alliance des Bakongo?, Universiteit Gent, Bélgica, 2011, p. 178.

A partir de 1500, o comércio entre os congos e os portugueses se intensificou. O reino permitiu que os portugueses se instalassem na então desabitada ilha de São Tomé e enviou nobres congos à corte portuguesa. Os missionários converteram a elite local ao catolicismo e, no início do século XVI, o Reino do Congo tornou-se um reino cristão aliado de Portugal.

Os congos e o tráfico atlântico de escravizados Inicialmente, o povo congo trocava marfim e objetos de cobre por produtos de luxo portugueses. No entanto, após 1500, a demanda portuguesa voltou-se para escravizados. Os colonos em São Tomé precisavam de mão de obra para as plantações de cana-de-açúcar e começaram a capturar pessoas do Congo. A partir de 1514, incitaram campanhas militares em regiões vizinhas para obter mais escravizados.

Sob influência portuguesa, o sistema de sucessão do Reino do Congo foi alterado: em 1509, abandonou-se a eleição entre nobres em favor da sucessão hereditária, levando à coroação de Afonso I do Congo, filho de João I.

A captura de escravizados causou grande desordem social entre os congos. O rei Afonso I chegou a escrever ao rei de Portugal protestando contra essas práticas, mas eventualmente passou a aceitar o envio de pessoas capturadas que consentissem com a escravidão, mediante o pagamento de taxas. A partir de 1520, cerca de 2.000 a 3.000 escravizados por ano eram exportados para as Américas — número ainda insuficiente para a alta demanda.

Os portugueses passaram a negociar com comerciantes nas fronteiras do reino, como na região da Lagoa Malebo, oferecendo bens de luxo em troca de pessoas escravizadas. Isso fomentou conflitos de fronteira e o surgimento de rotas de caravanas de escravizados que atravessavam etnias e territórios diversos, com participação ativa dos próprios congos.

Na década de 1560, o número de escravizados exportados ultrapassava 7.000 por ano. Essa dinâmica provocou reações violentas, como a Invasão dos Jagas em 1568, que devastou o reino, incendiou igrejas e quase destruiu M'banza Congo.

O povo congo criou canções de advertência contra os portugueses, como a célebre “Malele” (que significa “Tragédia”), cantada pela família Massembo na Guadalupe durante o ritual Grap a congo.

Com apoio militar português, o reino recuperou-se do ataque, mas o conflito gerou uma grande quantidade de cativos de guerra — muitos dos quais foram transformados em escravizados. A dependência do rei congo em relação à proteção portuguesa cresceu. Paralelamente, os rebeldes e povos africanos eram descritos pelos portugueses como “bárbaros canibais pagãos” do “Reino dos Jagas”, uma caricatura amplamente divulgada por traficantes de escravizados, missionários e cronistas coloniais para justificar moralmente o tráfico de seres humanos.

miniatura|200px|Mapa do Congo de 1595, impresso em 1623. O mapa enfatiza os rios e igrejas portuguesas. Marca a capital do povo do Congo como Citta de São Salvador. Estudiosos modernos, como Estevam Thompson, demonstraram que há muita confusão entre os "Jagas originais", que deixaram a terra dos Yaka na margem oriental do rio Kwango e invadiram Mbata e M'banza Congo, e outras referências posteriores a "guerreiros Jagas" que percorriam o interior da África Centro-Ocidental e que, na verdade, eram diferentes grupos Mbangala.MILLER, Joseph C. (1973). Requiem for the "Jaga" (Requiem pour les "Jaga"), Cahiers d'Études Africaines, Vol. 13, Cahier 49, p. 121-149. Outros estudiosos, como Joseph Miller, acreditam que essa desumanização unilateral dos povos africanos nos séculos XVI e XVII foi uma fabricação e um mito criados por missionários e traficantes portugueses para esconder seus abusos e intenções.

A partir da década de 1570, comerciantes europeus chegaram em grande número, e o tráfico de escravizados através do território do povo congo aumentou dramaticamente. O enfraquecido Reino do Congo continuou a enfrentar revoltas internas e violências resultantes das investidas e captura de escravos. Em 1575, os portugueses estabeleceram a cidade portuária de Luanda (atualmente em Angola), em cooperação com uma família nobre do Congo, para facilitar sua presença militar, operações africanas e o tráfico de pessoas.

O Reino do Congo e seu povo encerraram a cooperação com os portugueses na década de 1660. Em 1665, o exército português invadiu o Reino, matou o rei congo, desmantelou seu exército e instalou um substituto aliado.

Outros reinos

A guerra entre o Congo e os portugueses em 1665 e o assassinato do rei hereditário pelas tropas portuguesas provocaram um vácuo político. O Reino do Congo se fragmentou em pequenos reinos, cada um controlado por nobres considerados aliados dos portugueses. Um desses reinos foi o Reino de Loango. Localizado ao norte, acima do rio Congo, Loango já era uma comunidade estabelecida do povo congo antes mesmo da guerra. Novos reinos surgiram nesse período, a partir das partes sudeste e nordeste do antigo Reino do Congo. A antiga capital do povo congo, São Salvador, foi incendiada e permaneceu em ruínas e abandonada em 1678. Os novos reinos fragmentados disputavam entre si fronteiras e direitos, inclusive com outros grupos étnicos vizinhos, gerando guerras e invasões recorrentes.THORNTON, John. (1983). The Kingdom of Kongo: Civil War and Transition, 1641–1718. Madison: University of Wisconsin Press.

As guerras entre esses pequenos reinos criaram um fornecimento constante de cativos, alimentando tanto a demanda portuguesa por escravizados quanto a necessidade de arrecadação desses reinos para financiar os conflitos. No século XVIII, uma jovem batizada chamada Dona Beatriz Kimpa Vita afirmou estar possuída por Santo Antônio de Pádua e que visitava o céu para falar com Deus.

Ela começou a pregar que Maria e Jesus não nasceram em Nazaré, mas sim na África, entre o povo do Congo. Criou um movimento entre os congoleses, que os historiadores chamam de Antoninismo do Congo.

Dona Beatriz questionava as guerras que devastavam o povo congo, conclamava a todos a cessarem os conflitos que alimentavam o tráfico humano e a se unirem sob um único rei., Citação: "Dona Beatriz havia buscado acabar com as guerras que alimentavam esse comércio de seres humanos..." Ela atraiu milhares de seguidores para as ruínas da antiga capital. Foi declarada falsa santa pelo rei congo Pedro IV, nomeado pelos portugueses, com apoio de missionários católicos portugueses e monges capuchinhos italianos. Com apenas 22 anos, Dona Beatriz foi presa e queimada viva na fogueira sob acusações de feitiçaria e heresia.

Era colonial miniaturadaimagem|Busto de mulher congo de 1910 Após a morte de Dona Beatriz em 1706 e mais três anos de guerras com ajuda portuguesa, Pedro IV conseguiu recuperar grande parte do antigo Reino do Congo. No entanto, os conflitos continuaram ao longo do século XVIII, e a demanda por escravizados – tanto do povo congo quanto de outros grupos – aumentou, alimentando as caravanas rumo aos portos atlânticos. Embora, nos documentos portugueses, todos os congos estivessem tecnicamente sob um único soberano, isso já não correspondia à realidade a partir da metade do século XVIII. O povo do Congo estava dividido em regiões lideradas por famílias nobres locais.