Saintes (; em saintongeais, Sénte) é uma comuna do oeste da França, situada no departamento de Charente-Maritime, na região da Nova Aquitânia. É sede do arrondissement de Saintes e uma das subprefeituras do departamento. Em 2023 tinha 25 363 habitantes.
A cidade estende-se pelas duas margens do rio Charente, embora o núcleo histórico se tenha desenvolvido sobretudo na margem esquerda. Foi a capital da província de Saintonge durante o Antigo Regime. O seu património inclui vestígios de Mediolanum Santonum, edifícios religiosos medievais e arquitetura dos períodos moderno e contemporâneo.
Geografia
Localização
Saintes situa-se na parte centro-oriental de Charente-Maritime, na antiga província de Saintonge. O Charente atravessa a comuna de sul para norte e separa os principais setores urbanos das margens esquerda e direita.
Geologia
Saintes situa-se na margem setentrional da Bacia da Aquitânia, numa área formada sobretudo por calcários, margas e arenitos do Coniaciano e, em especial, do Santoniano; no vale do Charente predominam depósitos aluviais mais recentes.
O geólogo francês Henri Coquand tomou o nome de Saintes para designar, em 1857, o Santoniano, um andar estratigráfico do Cretáceo Superior. O ponto estratotípico global (GSSP) que atualmente define a base do andar situa-se na pedreira de margas de Olazagutía, em Navarra, Espanha.
No Vallon de La Berlingue foram documentadas antigas pedreiras abertas em calcários santonianos, provavelmente exploradas já no período romano, bem como trabalhos relacionados com a extração de nódulos de sílex.
Hidrografia e cheias
thumb|O anfiteatro durante a cheia de 1982
O Charente atravessa a comuna de sul para norte. A localização de parte da cidade na planície aluvial torna Saintes vulnerável a cheias periódicas. As inundações de dezembro de 1982 e janeiro de 1994 figuram entre os episódios de referência, e o risco de transbordo do Charente é objeto de um plano específico de prevenção de riscos naturais para a comuna.
Clima
Saintes apresenta um clima oceânico temperado. Para o período climatológico de 1991–2020, a estação de Météo-France de Saintes registou uma temperatura média anual de 13,3 °C e uma precipitação média anual de 907,1 mm.
Durante a vaga de calor de junho de 2026, Météo-France registou 43,8 °C em Saintes nos dias 23 e 24, novo máximo da estação; a mínima absoluta registada é de −19 °C, em 15 de fevereiro de 1956.
Urbanismo
Em 2023 existiam 15 894 alojamentos em Saintes, dos quais 88,7% eram residências principais, 2,7% residências secundárias ou alojamentos ocasionais e 8,6% encontravam-se vagos. As casas representavam 58,1% do parque habitacional e os apartamentos 41,5%. Entre os ocupantes das residências principais, 50,8% eram proprietários da habitação.
thumb|left|O Logis du Gouverneur, preservado no projeto de reconversão do antigo hospital Saint-Louis
O antigo hospital Saint-Louis é objeto de um projeto de reconversão urbana. O programa prevê 116 novas habitações, 25% das quais de habitação social. O Logis du Gouverneur, o claustro e a capela de Saint-Louis deverão permanecer no domínio público e integrar um espaço de cerca de 3 000 m² para usos culturais e partilhados. Os trabalhos de demolição e remoção de amianto começaram em 2024 e a entrega das habitações estava prevista para 2027.
Toponímia
Na época romana a cidade era conhecida como Mediolanum Santonum. A partir do século IV são documentadas as formas Santonica Urbs e Urbs Santonorum; no século VIII surge Sanctonas, que se transforma em Sanctone no século X e em Xainctes ou Xaintes no final da Idade Média.
A grafia moderna Saintes encontra-se documentada no século XVIII. Apesar da semelhança com a palavra francesa saintes («santas»), o topónimo deriva do nome dos Santones. Durante a Revolução Francesa foi brevemente utilizada a forma Xantes. Em saintongeais, a cidade é chamada Sénte.
História
Pré-história e período romano thumb|Aquedutos romanos de Saintes numa representação de 1661
A ocupação da área de Saintes é anterior ao período romano. Em Diconche, no sul da cidade, escavações arqueológicas revelaram um recinto e outras estruturas do Neolítico recente e final, datadas aproximadamente entre 3350 e 2550 a.C. Em Petit Chadignac foram igualmente identificados vestígios de ocupação neolítica e recintos funerários da Idade do Ferro.
Durante a Idade do Ferro, a região fazia parte do território dos Santones. Investigações arqueológicas em Saintes documentaram ocupação gaulesa anterior à conquista romana, incluindo habitats e atividades artesanais do século I a.C., matizando a antiga interpretação de Mediolanum como uma criação exclusivamente romana.
Depois da conquista romana, o assentamento desenvolveu-se como Mediolanum Santonum. Durante a reorganização administrativa de Augusto, tornou-se a primeira capital da província da Gália Aquitânia. No século I, a cidade conheceu uma expansão monumental, com termas, templos, aquedutos, um anfiteatro e uma ponte sobre o Charente. Um sistema de aquedutos abastecia a cidade desde o início do período imperial.
Em meados do século II, a área urbanizada poderá ter alcançado cerca de 100 hectares e uma população estimada entre 10 000 e 20 000 habitantes.Jean Combes; Gilles Bernard, Histoire du Poitou et des Pays Charentais, Éditions De Borée, 2001, p. 96. No século III, o espaço urbano contraiu-se e a população concentrou-se num castrum fortificado de cerca de 16 hectares, cujas muralhas reutilizaram materiais provenientes de antigos edifícios romanos.Alain Michaud (dir.), Histoire de Saintes, Privat, 1989, p. 39.
Segundo a tradição cristã, Eutrópio de Saintes foi o primeiro evangelizador da cidade; a basílica que lhe é dedicada foi construída para acolher as suas relíquias.
Idade Média
A partir do século XI, integrada no Ducado da Aquitânia, Saintes voltou a conhecer intensa atividade religiosa. Em 1047 foi consagrada, na margem direita do Charente, a Abbaye aux Dames, mosteiro beneditino feminino fundado por Geoffroi Martel e Agnès de Bourgogne. Em 1081 começou a construção da igreja dedicada a Santo Eutrópio, ligada à Abadia de Cluny, e em 1096 o templo foi consagrado pelo papa Urbano II. A igreja tornou-se uma etapa da Via Turonensis para Santiago de Compostela.
O casamento de Leonor da Aquitânia com o futuro rei Henrique II de Inglaterra em 1152 colocou Saintes e Saintonge no espaço político dos Plantagenetas. Em 1242, o conflito entre Luís IX de França e Henrique III de Inglaterra culminou nas batalhas de Taillebourg e Saintes; a vitória francesa enfraqueceu a posição Plantageneta no norte de Saintonge.Jean Combes; Gilles Bernard, Histoire du Poitou et des Pays Charentais, Éditions De Borée, 2001, p. 323.
Pelo Tratado de Brétigny, em 1360, Saintes voltou ao domínio inglês. Em outubro de 1361, John Chandos tomou formalmente posse da cidade em nome de Eduardo III de Inglaterra. Em setembro de 1372 a cidade abriu as portas às forças francesas durante a reconquista conduzida em nome de Carlos V de França; a incorporação definitiva na Coroa francesa é tradicionalmente datada de 1404.Alain Michaud (dir.), Histoire de Saintes, Privat, 1989.
Reforma e guerras religiosas
No século XVI, Saintes tornou-se um centro de difusão do Protestantismo em Saintonge. O ceramista e naturalista Bernard Palissy fixou-se na cidade em 1538, aí desenvolveu as suas experiências sobre esmaltes e, após a sua conversão à Reforma, assumiu responsabilidades na comunidade protestante local.
As guerras religiosas francesas causaram danos às igrejas e conventos da cidade; em 1568, a catedral de Saint-Pierre foi particularmente afetada. A posterior Contrarreforma levou à instalação de novas congregações religiosas.Alain Michaud (dir.), Histoire de Saintes, Privat, 1989.
No século XVIII, as antigas fortificações perderam progressivamente a sua função militar; partes das muralhas foram demolidas e novos eixos urbanos transformaram o centro da cidade.Alain Michaud (dir.), Histoire de Saintes, Privat, 1989.
Revolução Francesa e século XIX
A reorganização administrativa revolucionária transformou Saintes em capital do novo departamento de Charente-Inférieure, criado em 1790. O bispo Pierre-Louis de La Rochefoucauld recusou prestar o juramento exigido pela Constituição Civil do Clero e foi morto nos Massacres de Setembro de 1792.
Em 1802, a sede episcopal foi transferida de Saintes para La Rochelle. Em 1810, Saintes perdeu igualmente a prefeitura departamental para La Rochelle, mantendo o estatuto de subprefeitura.
A chegada do caminho de ferro em 1867 alterou a economia local. Foram criadas oficinas ferroviárias e desenvolveu-se um novo bairro em torno da estação. A partir de 1911, Saintes foi sede do VIII distrito dos caminhos de ferro estatais franceses.Alain Michaud (dir.), Histoire de Saintes, Privat, 1989.
Séculos XX e XXI
Durante a Segunda Guerra Mundial, Saintes esteve sob ocupação alemã. A importância do nó ferroviário levou a um bombardeamento aliado em 24 de junho de 1944; o bairro ferroviário e zonas residenciais vizinhas foram gravemente atingidos e morreram cerca de 300 pessoas.Alain Michaud (dir.), Histoire de Saintes, Privat, 1989, p. 291.
A perseguição atingiu também a população judaica da cidade. Dezanove judeus de Saintes foram deportados e assassinados em Auschwitz, incluindo onze membros das famílias Angel e Sidelio. Em 27 de abril de 2025 foi inaugurada no square Angel-Sidelio uma estela com os seus nomes.
Saintes foi libertada em 4 de setembro de 1944. A reconstrução dos setores danificados prolongou-se por mais de uma década e ficou essencialmente concluída em 1956.Alain Michaud (dir.), Histoire de Saintes, Privat, 1989.
Demografia
Em 2023, Saintes tinha 25 363 habitantes e uma densidade populacional de 556,8 habitantes por km².
+ Evolução da população municipal desde 1968 Ano 1968 1975 1982 1990 1999 2007 2012 2017 2023 Habitantes 26 507 26 891 25 471 25 874 25 595 26 401 25 645 25 470 25 363 Fonte: INSEE.
A população mantém-se relativamente estável desde a segunda metade do século XX. Entre 2017 e 2023 diminuiu, em média, 0,1% por ano; um saldo natural negativo (−0,8% ao ano) foi em grande parte compensado por um saldo migratório aparente positivo (+0,7%).
A estrutura etária caracteriza-se por um peso crescente das faixas mais velhas. Em 2023, 21,2% dos habitantes tinham entre 65 e 79 anos e 10,6% tinham 80 anos ou mais, contra respetivamente 16,2% e 10,2% em 2012.
Economia
Saintes concentra emprego e serviços para a sua área envolvente. Em 2023, o INSEE contabilizou 20 756 empregos na comuna e 9 220 residentes com emprego; o indicador de concentração de emprego era de 225,1 postos de trabalho por cada 100 residentes empregados.
No final de 2024 existiam 1 434 estabelecimentos empregadores. Destes, 71,8% pertenciam ao comércio, transportes e serviços diversos e 15,1% à administração pública, ensino, saúde e ação social; a indústria representava 5,1% e a construção 6,8%.
Saintes integra a área da denominação de origem conhaque, no cru Fins Bois. A área de produção do Pineau des Charentes estende-se pelo mesmo vinhedo do conhaque.
Transportes
Rodovias
A A10 atravessa a parte ocidental da comuna e liga o eixo de Saintes a Bordéus, Poitiers, Tours e Paris. A A837 estabelece a ligação em direção a Rochefort.
Caminho de ferro thumb|Estação ferroviária de Saintes
A estação de Saintes é servida por comboios regionais TER Nouvelle-Aquitaine para destinos como Bordéus, La Rochelle, Royan, Angoulême e Niort. Na cidade param também serviços Intercités no eixo Bordéus–Nantes.
Transportes urbanos
A rede BUSS, gerida pela aglomeração de Saintes, dispõe de três linhas urbanas principais (A, B e C), além de uma ligação à estação, transportes escolares e serviço de transporte a pedido.
Educação e saúde