Os terafosídeos (nome científico: Theraphosidae), popularmente conhecidos como tarântulas ou aranhas-caranguejeiras (no Brasil), são uma família de aranhas migalomorfas caracterizadas pelo grande porte, corpo robusto recoberto por pelos e pernas longas terminadas em duas garras. Dependendo da espécie, podem medir entre 5 e 11 centímetros de comprimento corporal, alcançando até 30 centímetros de envergadura das pernas e mais de 170 gramas de peso, como em Theraphosa blondi, uma das maiores espécies conhecidas. As tarântulas distribuem-se pelas regiões tropicais e temperadas das Américas, Ásia, África, Oceania, Oriente Médio e parte do sul da Europa, ocupando habitats variados, como florestas tropicais, savanas, desertos e montanhas. Durante o crescimento, passam por sucessivas mudas do exoesqueleto, processo denominado ecdise.

As tarântulas são animais geralmente solitários e predominantemente noturnos, podendo apresentar hábitos arborícolas, fossoriais ou terrestres. Todas produzem seda, utilizada na construção de abrigos, revestimento de tocas e elaboração de teias espermáticas durante a reprodução. Alimentam-se principalmente de insetos e outros artrópodes, embora espécies maiores possam capturar pequenos vertebrados. Sua anatomia inclui pedipalpos sensoriais e reprodutivos, além de quelíceras dotadas de grandes presas ocas conectadas às glândulas de veneno. Em espécies do Novo Mundo, especialmente das subfamílias dos terafosíneos e aviculariíneos, uma importante defesa consiste nos pelos urticantes presentes no abdome, que podem ser lançados ou esfregados contra predadores, causando irritação na pele e mucosas. Já muitas espécies do Velho Mundo utilizam estridulação como mecanismo defensivo e podem apresentar veneno mais potente.

Apesar do aspecto intimidador e do tamanho avantajado, as tarântulas não são consideradas perigosas para os humanos, pois a maioria das espécies não produz toxinas em quantidade suficiente para causar efeitos graves. Por essa razão, diversas espécies tornaram-se populares como animais de estimação. A família dos terafosídeos encontra-se dividida em várias subfamílias distribuídas entre o Novo e o Velho Mundo, incluindo grupos como os terafosíneos, aviculariíneos, e . Entretanto, a destruição de habitat e a captura para o comércio de animais exóticos ameaçam várias espécies, especialmente do gênero Brachypelma, incluído no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) devido ao risco causado pela coleta excessiva.

Etimologia

A aranha originalmente chamada de "tarântula" foi a tarântula-do-mediterrâneo (Lycosa tarantula), uma aranha-lobo da família dos licosídeos nativa da Europa mediterrânica. Esse termo foi registrado pela primeira vez, em italiano, como tarantola no . Geralmente se considera que tarantola derivou do topônimo italiano Taranto (originado no latim tarento, a partir do genitivo grego tarantos, provavelmente a partir do ilírio darantos, "carvalho"), uma cidade do sul da Itália, acrescido do sufixo -ola, onde estas aranhas são facilmente encontradas, embora possa ter igualmente derivado do gaulês reconstruído *tarāre, no sentido de "picar", “furar” ou "ferir com a boca", ou do francês tare, na acepção de "defeito" ou "deficiência biopsíquica". Seu primeiro registro em português ocorreu em 1702, como tarantola. Na crença popular, a picada da tarântula-do-mediterrâneo foi associada à indução de febre, dança e música, levando a manifestações coletivas de delírio convulsivo e movimentos frenéticos de dança (tarantismo). Durante muito tempo acreditou-se, no sul da Europa, que uma pessoa picada pela tarântula seria tomada de extrema melancolia e poderia mesmo morrer se não se entregasse a uma dança frenética, a tarantela, capaz de eliminar o veneno pela transpiração.

Posteriormente, o termo tarântula foi aplicado a quase todas as espécies de aranhas de grande porte, sobretudo as migalomorfas das regiões mais quentes da América (p. ex. licosídeos e terafosídeos), e alguns indivíduos do grupo das araneomorfas. No Brasil, os terafosídeos são também referidos por vários outros nomes populares, como aranhaçu, aranhuçu, migala, mígala, aranha-caranguejeira ou somente caranguejeira. Aranhaçu ou aranhuçu são termos híbridos, formados pelo nome latino aranha () com o sufixo tupi -uçu, com sentido de "aranha grande". Seu primeiro registro ocorreu no . Migala ou mígala derivam do grego mugalḗ (), no sentido de "musaranho" (tem relação com o latim musaranĕus, -i, "rato peçonhento", formado por mus ("rato") + aranĕus ("aranha")). Seu primeiro uso conhecido é de 1873, como mygala. Por fim, caranguejeira é formada por "caranguejo" mais o sufixo -eira e foi registrada em 1608 como caranguejeira e em 1853 como carangueijeira.

O elemento pelma em nomes de gêneros Muitos gêneros de terafosídeos têm nomes, aceitos ou sinônimos, que contêm o elemento pelma. Isso remonta a Carl Ludwig Koch, em 1850, que, ao descrever seu novo gênero Eurypelma, escreveu: Die Sammetbürste der Fussohlen sehr breit (lit. a escova de veludo da sola do pé muito larga). Os aracnólogos alemães usam a palavra Fuß para se referir ao tarso (o último artículo da perna de uma aranha). As traduções de Sammetbürste para o latim usam a palavra scopula. Assim, na terminologia aracnológica inglesa, Koch queria dizer "a escópula da base do tarso muito larga". Eury- deriva do grego eurýs (), que significa "largo", enquanto pélma () significa "a sola do pé", fazendo paralelo com o uso de Fußsohle (na grafia moderna) por Koch. Assim, Eurypelma significa literalmente "sola larga"; no entanto, os aracnólogos convencionalmente interpretam pelma em tais nomes como uma referência à escópula, produzindo assim o significado de "com uma escópula larga".

Outros nomes de gêneros ou sinônimos que Estrada-Alvarez e Cameron consideram ter significados relacionados a "sola do pé" ou "escópula" incluem:

Acanthopelma – do grego ácantha (), "espinho, espinha"; significado geral: "sola do pé espinhosa" Brachypelma – do grego brachýs (), "curto"; significado geral: "escópula curta" Metriopelma – do grego métrios (), "de tamanho moderado"; significado geral: "escópula de comprimento médio" Schizopelma – do grego, o prefixo schizo- (), "dividido"; significado geral: "sola do pé dividida" Sericopelma – do grego sericós (), "sedoso"; Significado geral: "escópula de seda"

Mais tarde, particularmente após a publicação dos nomes de gêneros por R. I. Pocock em 1901, o elemento -pelma parece ter se tornado sinônimo de "terafosídeo". Por exemplo, o autor de Cardiopelma escreve: Cardiopelma fait réference aux genitalia de la femelle qui évoquent la forme d'un Coeur ("Cardiopelma refere-se à genitália feminina que evoca a forma de um coração"), sem qualquer referência a "sola do pé" ou "escópula". Nomes interpretados dessa forma incluem:

Aphonopelma – do grego áphonos (), "sem som"; significado geral: "terafosídeo sem som" Cardiopelma – do grego cardía (), "coração"; Significado geral: "terafosídeo de coração" (referindo-se à genitália feminina em forma de coração) Clavopelma – do latim clavis, "clava"; significado geral: "terafosídeo com pelos em forma de clava" Delopelma – do grego delós (), "claro, óbvio, visível, conspícuo, simples"; significado geral: "terafosídeo sem pelos plumosos" Gosipelma – o elemento gosi- significa "deserto", relacionado ao povo gosiute; significado geral: "terafosídeo do deserto" Spelopelma – do grego spélaion (), "caverna"; significado geral: "terafosídeo da caverna"

Identificação

Os terafosídeos podem ser confundidos com outros membros da infraordem das migalomorfas, como as aranhas-de-alçapão, as aranhas-teia-de-funil e os atipídeos, bem como com alguns membros da ordem das araneomorfas, como os licosídeos. No entanto, existem várias maneiras de identificá-los. Primeiro, os pelos: nas Américas, a maioria dos terafosídeos possui pelos urticantes, embora algumas aranhas, como as do gênero Hemirrhagus, não os tenham. Os pelos costumam ser mais visíveis do que na maioria das outras aranhas. Outro fator é o tamanho, já que os terafosídeos tendem a ser maiores. Eles também não usam suas teias para caçar, utilizando-as como material de construção ou armadilha. Uma das maneiras mais decisivas de diferenciá-las é observando suas presas. As presas dos terafosídeos apontam para baixo, ao contrário das demais, que são voltadas uma para a outra, permitindo que elas façam movimentos semelhantes a pinças. Além disso, possuem dois pulmões folhosos, enquanto as araneomorfas têm apenas um.

Anatomia e fisiologia

Anatomia externa

miniatura|upright=1.1|Uma tarântula ao lado de um sapato tamanho 44 (Brasil), para mostrar a escala, foto tirada perto de Austin, Texas miniatura|upright=1.1|Aphonopelma mojave, uma tarântula nativa do Deserto de Mojave, procura uma toca

A maioria das espécies de terafosídeos da América do Norte são marrons. Em outros lugares, foram encontradas espécies que exibem cores variadas, como azul cobalto (Melopoeus lividus), preto com listras brancas (Aphonopelma seemanni), marcas amarelas nas patas (Eupalaestrus campestratus), patas azul-metálicas com abdome laranja vibrante e prossoma verde (Chromatopelma cyaneopubescens). Dependendo da espécie, o comprimento do corpo varia de cerca de cinco a 11 centímetros, com uma envergadura das pernas de oito a 30 centímetros. A envergadura das pernas é determinada medindo-se da ponta da perna traseira até a ponta da perna dianteira do lado oposto. Algumas das maiores espécies de tarântula podem pesar mais de 85 gramas; a maior de todas, a tarântula-golias (Theraphosa blondi), da Venezuela e do Brasil, já foi registrada com um peso de 170 gramas e uma envergadura de pernas de até 30 centímetros, sendo os machos mais compridos e as fêmeas mais robustas. O tamanho das presas dessa tarântula atinge um máximo de quatro centímetros. Theraphosa apophysis foi descrita 187 anos depois da tarântula-golias, portanto suas características não são tão bem documentadas. Acredita-se geralmente que a tarântula-golias seja a espécie mais pesada, e T. apophysis possui a maior envergadura de pernas. Duas outras espécies, caranguejeira-rosa-salmão-brasileira (Lasiodora parahybana) e Lasiodora klugi, rivalizam em tamanho com a tarântula-golias e T. apophysis.