thumb|right|300 px|A Tomada das Tulherias em 10 de Agosto de 1792, pintura de Jean Duplessis-Bertaux, Museu do Palácio de Versailles. No curso da Jornada de 10 de Agosto de 1792, a multidão cerca, com o suporte do novo governo municipal de Paris, que será conhecido pelo nome de Comuna Insurrecional de Paris, o Palácio das Tulherias. O Rei Luís XVI e a família real pedem o apoio da Assembléia Nacional Legislativa. Este acontecimento marca efetivamente o fim da monarquia francesa (que será restaurada em 1814). O término efetivo da monarquia se fará seis semanas depois (21 de setembro de 1792).

Esta insurreição e suas consequências são comumente chamadas pelos historiadores da Revolução Francesa de forma simples: "O 10 de Agosto". Outras designações são "Jornada de 10 de Agosto", "Insurreição de 10 de Agosto" ou "Massacre de 10 de agosto".

Contexto histórico Desde o início do ano de 1792, a França entrara na Primeira Guerra Revolucionária. Em abril, fato sem precedente, o rei forma um gabinete de governo com os Girondinos. Em 20 de abril, a guerra é declarada contra a Áustria, terra natal da rainha Maria Antonieta.

thumb|left|200 px|Marquês de La Fayette

As primeiras batalhas são um desastre para os franceses e a Prússia alia-se à Áustria, formando a Primeira Coalizão contra a França. No início, o intervalo necessário para a preparação desta aliança inimiga permite à França formar um exército.

A Revolução então estava entrando em uma fase mais radical. A Assembléia Legislativa faz aprovar uma série de decretos, notadamente contra os padres refratários, que se recusam a prestar juramento à Constituição Civil do Clero, o que leva, no início do mês de junho, a um conflito entre Luís XVI e os ministros girondinos. Quando o rei ameaça formar um novo gabinete com o Clube dos Feuillants (nome familiar dos Amigos da Constituição, grupo político moderado de tendência monarquista constitucional que se opõe à queda do rei, fundado em 16 de julho de 1791), o abismo entre o rei e a maior parte dos chefes da Assembléia se alarga, bem como com o povo parisiense.

Em 20 de junho, a multidão armada invade o hall da Assembleia Legislativa e os apartamentos reais, nas Tulherias, mas não ataca o rei. O fracasso da insurreição provoca um movimento de simpatia com relação a Luís XVI. La Fayette tenta utilizar esta circunstância para por fim ao conflito interno em Paris, mas o povo, os deputados e a Corte suspeitam que ele aja tendo em vista apenas suas próprias ambições.

Uma última proposta dos Girondinos é recusada e os "Feuillants" caem. Os Girondinos fazem então um desvio à esquerda para se unir aos que estão dispostos a recorrer à força para destronar a Monarquia. Em um discurso na Assembleia, Pierre Victurnien Vergniaud questiona diretamente o rei sobre questões retóricas: Brissot é ainda mais direto: « Eu vos digo que atacar a corte das Tulherias é atacar a todos os padres de uma só vez. Vos dizem para perseguir por toda parte os intrigantes, os facciosos, os conspiradores; e eu vos digo que todos desaparecem se vós atacasseis o gabinete das Tulherias, porque este gabinete é o ponto para onde todos os fios conduzem, onde se tramam todas as manobras e de onde partem todas as impulsões. A nação é o joquete desse gabinete, quer dizer, de alguns intrigantes que o dominam; eis o segredo de nossa posição, eis a fonte do mal, eis para onde se deve levar remédio, e um remédio vigoroso. »Extrato de um discurso de Brissot sobre as causas dos perigos da pátria e sobre as medidas a tomar (Sessão de 9 de Julho de 1792, Ano 4 da Liberdade), dentro de Escolha de Relatórios, Opiniões e Discursos pronunciados na Tribuna Nacional p. 199, disponível em Google Livre.

A Pátria « em perigo » thumb|left|100px|Jérôme Pétion de Villeneuve Em 15 de julho, a Assembléia declara a pátria « em perigo ». Todos os cidadãos em condições de pegar em armas e servir na Guarda Nacional são colocados no serviço ativo. Espadas são distribuídas aos que não possuem armas, e bandeiras são colocadas nos espaços públicos com as palavras : « Cidadãos ! A Pátria está em perigo ! » . Em 14 de julho, terceiro aniversário da Queda da Bastilha, são organizadas diversas festividades patrióticas. Pétion, demitido de suas funções de prefeito de Paris devido a sua conduta durante os acontecimentos de 20 de junho, é reintegrado a suas funções. Os granadeiros monarquistas constitucionais do Batalhão das Filles-Saint-Thomas afrontam os federados de Marselha, mas este é o último ato de resistência da facção monarquista moderada. O Club des Feuillants, as companhias de granadeiros e caçadores da Guarda Nacional, que formam a força da burguesia, são dissolvidos.

Durante esse tempo, os exércitos aliados austríacos e prussianos chegam à fronteira. A maior parte dos soldados « constitucionais » (monarquistas), assim como uma parte dos Guardas Suiços, estacionam em Paris. Ao mesmo tempo, a Guarda Nacional, formada pela nova classe média, fica aberta para o recrutamento nas classes mais baixas. A declaração do duque Brunsvique-Luneburgo, militar prussiano, em 25 de julho de 1792, anunciando que os Aliados entrariam na França para restaurar a autoridade real e investiriam militarmente contra a Assembléia e a cidade de Paris totalmente contra ao rei, torna-se conhecida no dia 1º de Agosto por excitar a fúria dos seus revolucionários.

Rumo à insurreição left|120px|Georges Jacques Danton O grande espírito desta nova revolução é Danton, um advogado de 32 anos apenas, que não faz parte da Assembléia, mas dirige o Clube dos Cordeliers, um dos mais republicanos, e dispõe de grande ascendência sobre os humildes parisienses. Danton e seus amigos e aliados - Maximilien de Robespierre, Camille Desmoulins, Fabre d'Églantine, Jean-Paul Marat, entre outros - são auxiliados em sua tarefa pelo medo da invasão.

Os voluntários e federados chegam sem parar a Paris e, como um grande número dentre eles deseja juntar-se ao exército, os Jacobinos reorientam aqueles que aceitam seu convite, notadamente 500 marselheses capitaneados pelo girondino Barbaroux. right|120px|Jean-Paul Marat François Mignet escreve que Os clubes políticos discutem abertamente a queda do rei e, em 3 de agosto, Pétion fala à Assembléia, pedindo o fim da monarquia em nome da Comuna. left|100px|Antoine Chrysostome Quatremère de Quincy. Em 8 de agosto, o pedido de acusação de La Fayette é discutido. Ele é absolvido mas (segundo François Mignet) « todos os que votaram a seu favor foram apupados, perseguidos e maltratados pelo povo ao término das reuniões. », notadamente Vincent-Marie Viénot de Vaublanc e Quatremère de Quincy. Esse assédio é acompanhado por ameaças de morte ou invasão de seus domicílios. Étienne de Joly, Ministro da Justiça, escreve ao presidente da Assembléia,

Insurreição O povo não quer esperar o resultado da última proposição de Pétion para prosseguir seu trabalho por vias administrativas. A secção dos Quinze-vingts declara, em 8 de agosto, que, se o destronamento do rei não for pronunciado no mesmo dia, à meia-noite ela fará soar o toque de alarme (toque de sinos) e atacará a residência real das Tulherias. A totalidade das quarenta e oito secções revolucionárias de Paris, salvo uma, os acompanha. Pétion informa a Assembléia Legislativa que as secções « retomaram sua soberania » e que não existe outro poder sobre o povo que o da persuasão.

Na noite do dia 9 uma nova Comuna revolucionária toma posse do Hôtel de ville de Paris, sede do governo. O plano dos Jacobinos da Assembléia, sustentado pelo exército dos federados, é de dissolver o departamento de Paris, para demitir Pétion, instituir uma comuna insurrecional (um governo municipal) e tomar de assalto as Tulherias.

O comitê provisório À meia-noite, o toque de alarme soa. Os insurretos nomeiam um comitê provisório da Comuna, que dirige a insurreição a partir do Hôtel de Ville. Pétion está no Palácio das Tulherias, onde foi convocado pelo rei, que quer se assegurar por ele da situação em Paris, e que recebe a autorização de responder à força com a força.left|150px|Pierre-Louis RoedererUma parte da Assembléia, despertada pelo alarme, inicia uma sessão de emergência sem a presidência de Vergniaud. Tomando conhecimento que Pétion está nas Tulherias, pensam que tenha sido preso e decidem fazê-lo libertar. Eles querem saber, como já havia feito o rei, a situação da cidade de Paris. Pétion acorre a esse pedido. Uma deputação do Hôtel de Ville pede informações sobre Pétion junto à Assembléia, supondo também que ele fosse prisioneiro das Tulherias. Ele parte com a deputação e aí torna-se de fato prisioneiro, mas da comuna insurrecional, sob a guarda de trezentos homens.

A nova comuna pede então ao Marquês de Mandat, comandante da Guarda Nacional, que proteja as Tulherias. Desconhecendo a mudança de regime no Hôtel de Ville, ele obedece a essa ordem. É acusado de ter autorizado que as tropas abrissem fogo contra o povo. A multidão o mata quando este chega ao Hôtel de Ville. A comuna confere imediatamente o comando da Guarda Nacional a Antoine Joseph Santerre.

Pierre-Louis Roederer, procurador geral síndico de Paris desde 10 de Novembro de 1791, passa a noite nas Tulherias. Conhecidos os preparativos dos Jacobinos, um determinado número de medidas de defesa foram tomadas. A Crônica dos Cinquenta Dias de Roederer reporta que, pelas quatro da manhã, a rainha Maria Antonieta o chama e que então ele é prevenido que o rei e a família real desejam refugiar-se na Assembléia Legislativa, por precaução. Roederer ainda observa que apenas dois dias antes dois terços da Assembléia havia se pronunciado a favor de La Fayette e havia sustentado que seu plano era o menos perigoso. A rainha decide mesmo assim resistir pela força e Roederer consente.

Lachesnaye, que comandava as tropas na ausência de Mandat, diz que as tropas da Guarda Nacional estão pronta para a defesa, mas protesta contra a presença de aristocratas « irregulares ». Mandat havia anteriormente aconselhado a rainha a dispensar estes nobres, em vão, argumentando que sua presença desencorajava o zelo dos constitucionais. Como Mandat antes dele, Lachesnaye também é contradito por ela: « Eu respondo por eles seja onde estiverem; eles avançarão em primeiro ou em último nas fileiras, como quiserdes; eles estão prontos para tudo o que for necessário; são homens seguros ». Étienne de Joly e Jérôme Champion de Cicé são enviados à Assembléia para se informarem do perigo e solicitarem sua ajuda.

A revista das tropas pelo rei, às cinco horas da manhã, mostra que este não pode contar com todos os seus protetores oficiais. Os gritos de « viva o Rei ! » misturados aos gritos de « viva a Nação ! » e, às vezes, de « viva Pétion ! » ressoam. Os batalhões armados com lanças são abertamente hostís, gritando « abaixo o veto ! » e « abaixo o traidor ! ». Quando Luís XVI entra de novo, eles deixam suas posições para se colocarem perto da Ponte Real (em francês "Pont Royal") e giram seus canhões contra o castelo. Dois outros batalhões, estacionados no pátio, os imitam e se colocam sobre a Praça do Carrossel ("Place du Carrousel"), em posição de ataque.

Marcha contra as Tulherias thumb|A sede das Tulherias, (Museu da Revolução Francesa). Durante esse tempo, os insurgentes haviam forçado o Arsenal, haviam se armado e avançavam em várias colunas. A forte coluna de 15 000 homens do subúrbio Saint-Antoine pela margem direita e a coluna de 5 000 insurgentes do subúrbio Saint Marceau pela esquerda encetam sua marcha por volta das seis horas; seu número aumenta à medida que progridem. Os artilheiros colocam-se sobre a Ponte Nova ("Pont Neuf") com a tarefa dada pelo departamento de impedir a junção dessas colunas, mas Pierre Louis Manuel, o escriturário da cidade, lhes pede que se submetam e a passagem é liberada.