thumb|308px|Toñanes, no município de Alfoz de Lloredo
thumb|308px|Mapa físico da Cantábria
Cantábria é uma comunidade autónoma espanhola de caráter uniprovincial, reconhecida como comunidade histórica no seu Estatuto de Autonomia.«O Estatuto deixa de se referir à Cantábria como entidade regional histórica, expressão utilizada pela própria Constituição (art. 143) para permitir a existência de comunidades uniprovinciais, sendo substituída pela expressão comunidade histórica (art. 1).» É limitada a leste pelo País Basco, a sul por Castela e Leão, a oeste pelas Astúrias e a norte pelo golfo da Biscaia (do mar Cantábrico). A capital é Santander e a cidade mais povoada. Tem de área e em 2020 tinha habitantes (). A comunidade autónoma é composta por uma só província, também chamada Cantábria, por 10 comarcas e por 102 municípios, sendo um deles — o Vale de Vilaverde — um enclave na Biscaia.
Definida no seu como uma "comunidade histórica", a atual entidade político-administrativa tem os seus antecedentes no Ducado da Cantábria, nas , na e na . A primeira referência a este território é do início do A província moderna da Cantábria foi constituída em 28 de julho de 1778 em , a capital no município de Reocín, um evento comemorado anualmente pelo , não obstante a atual configuração territorial da comunidade autónoma corresponder à extinta Província de Santander, .
A Lei Orgânica do Estatuto de Autonomia da Cantábria foi aprovada em 30 de dezembro de 1981, dotando deste modo a comunidade autónoma de organismos de autogoverno, nomeadamente uma assembleia legislativa, o Parlamento da Cantábria, e um órgão executivo, o Governo da Cantábria. Em 2021, o Presidente da Cantábria (líder do governo autonómico) era Miguel Ángel Revilla, secretário-geral do Partido Regionalista da Cantábria, que foi reeleito em 2019 com o apoio do Partido Socialista da Cantábria.
A Cantábria situa-se na cornija Cantábrica, o nome dado à faixa de terra entre o mar Cantábrico e a cordilheira Cantábrica, no norte da Península Ibérica. Tem um clima oceânico húmido, com temperaturas moderadas, muito influenciado pelos ventos do oceano Atlântico que encontram as montanhas. A precipitação média anual é de 1200 mm, o que permite o crescimento de vegetação frondosa. O seu ponto mais elevado é o , com A região é rica em lugares de interesse arqueológico do Paleolítico Superior, embora os primeiros vestígios de ocupação humana datem do Paleolítico Inferior. Destacam-se neste aspeto as pinturas rupestres da caverna de Altamira, de há anos e classificadas como Património Mundial pela UNESCO em 1985. O área abrangida pelo sítio do Património Mundial "Caverna de Altamira e arte rupestre paleolítica do norte da Espanha" foi ampliado em 2008, passando a incluir um total de 10 cavernas da Cantábria com vestígios arqueológicos do Paleolítico, nomeadamente as quatro situadas no monte Castillo, no município de Puente Viesgo. Com a extensão de 2015 do sítio "Caminhos de Santiago de Compostela: Caminho francês e Caminhos do Norte de Espanha", a Cantábria passou a ter também classificados como Património Mundial as partes dessa rota de peregrinação milenar que passam pelo seu território.
Etimologia Os diversos autores que estudaram a origem etimológica do nome da Cantábria — como Isidoro de Sevilha , Aureliano Fernández-Guerra , Adolf Schulten , Julio Caro Baroja ou , entre outros — não chegaram a um consenso sobre o tema. A opinião mais aceite eplos estudiosos, ainda que insegura, é que o topónimo deriva da raiz cant-, de origem celta ou lígure antiga, que significa "rocha" ou "pedra"; e do sufixo -abr, frequente nas regiões celtas. Daqui se deduz que "cântabro" significaria "povo que habita nas montanhas" ou "montanhês", uma clara referência ao território abrupto e montanhoso da Cantábria.
A Cantábria é uma das comunidades autónomas espanholas com a toponímia mais antiga, dado que o termo "cântabros" aparece pela primeira vez em fontes romanas do , do autor , embora nessa altura ainda não existisse uma entidade política unida no território, que era habitado por diversos povos. No capítulo VII da sua obra Origines, de , Catão fala da nascente do rio Ebro na "terra de cântabros": «[…] fluvium Hiberum: is oritur ex Cantabris, magnus atque pulcher, pisculentus ("o rio Ebro: nasce em terra de cântabros, grande o belo, abundante em peixes")».
Popularmente, a Cantábria é também chamada La Montaña ("A Montanha") e La Tierruca. O primeiro é um topónimo histórico, com uso muito comum até à criação da Província de Santander em 1833. O segundo é uma designação principalmente afetiva (o sufixo -uca é um diminutivo do dialeto cântabro que que pode denotar uma certa nostalgia).
Geografia A comunidade autónoma tem de área e 284 km de costa. O cabo mais saliente e mais setentrional é o cabo de Ajo, no município de Bareyo. Há três âmbitos geográficos bem diferenciados: a , e Campoo, os quais pertencem às bacias hidrográficas dos rios Ebro e Douro. A presença predominante das montanhas e a difícil orografia do terreno explicam que historicamente se conheça toda região cantábrica como "A Montanha".
A Cantábria situa-se no setor central da costa do mar Cantábrico, que constitui o seu limite a norte. A oeste limita com as Astúrias, a leste com o País Basco e a sul com Castela e Leão. Existe um exclave cântabro na província basca da Biscaia — Valle de Villaverde, a leste — e três enclaves da província de Palência na Cantábria — Cezura, Lastrilha e Berçosilha, a sul. A maior parte da região faz parte da cordilheira Cantábrica. Na parte ocidental encontram-se os maciços dos Picos da Europa, com numerosos cumes com mais de de altitude.
Relevo
A Cantábria é uma região de carácter montanhoso e costeiro, com um importante património natural. O seu relevo faz com que 40% da sua superfície se situe acima dos 700 metros de altitude, 75% a mais de 200 m e 33% tem declives de mais de 30%. É a quarta província mais montanhosa da Espanha em termos de desnível do terreno. Nela distinguem-se três grandes áreas bem diferenciadas morfologicamente:
thumb|308px|Paisagem da Marina perto de San Vicente de la Barquera, com uma ria em primeiro plano
— É uma faixa costeira de vales baixos, amplos e de formas suaves, com cerca de 10 km de largura, cuja altitude raramente ultrapassa os 500 m. É limitada a norte pelo mar por intermédio de uma linha de , com penhascos alcantilados que são abertos pelas fozes de cursos de água, que formam rias e praias. No litoral da comunidade destaca-se a baía de Santander. A sul, a Marina limita com a "Montanha", fixando-se tradicionalmente a divisória na .
— É uma larga barreira de montanhas abruptas, paralela ao mar, que constitui uma parte da cordilheira Cantábrica. As montanhas são maioritariamente de rocha calcária, afetadas por fenómenos cársticos, e cobrem a maior parte do território da comunidade. Formam vales profundos, dispostos na direção norte-sul, com encostas íngremes, escavados por rios de carácter torrencial de grande poder erosivo e curtos devido à pouca distância entre as nascentes e as desembocaduras. Os vales configuram várias comarcas naturais , que são bem delimitadas pelas cadeias montanhosas: Liébana, , , , Vale do Pas-Pisueña (ou Vales Pasiegos), Vale do Miera, , e Campoo-Los Valles. À Montanha pertence igualmente a serra do Escudo de Cabuérniga, um cordão montanhoso com altitudes máximas entre 600 e 1000 m, que na parte oriental da Cantábria segue paralela à costa, a cerca de 15 a 20 km dela. As montanhas mais altas encontram-se à medida que se avança para sul, com um alinhamento de cristas que limitam os vales das bacias hidrográficas dos rios Douro, Ebro e dos que desaguam no mar Cantábrico. Em geral, têm mais de de altitude, desde o (), a oeste, até ao (920 m), na parte oriental: (), (), (), () e (). Destacam-se ainda os grande maciços calcários dos Picos da Europa, na parte sudoeste da região, com numerosos cumes que ultrapassam os e onde a presença da moldagem glaciar na sua geomorfologia é mais acentuado. É lá que se situa o ponto mais alto da Cantábria, o cume da (), na divisória com a província de Leão, embora tradicionalmente também se considere que é a (), que se situa no mesmo maciço (dos Urrieles), mas se encontra totalmente dentro do território cântabro.
Campoo e vales do sul — Situa-se no extremo sul da Cantábria. O seu clima, mais continentalizado, é propício ao desenvolvimento de massas florestais de carvalho-negral Quercus pyrenaica), as quais estão em expansão devido ao abandono das terras agrícolas. Também há extensos repovoamentos de pinheiro-nórdico (Pinus sylvestris) nas encostas suaves desta região.
Clima thumb|esquerda|Início do outono na área de Riotuerto
Devido à corrente do Golfo, a Cantábria tem temperaturas mais amenas do que as regiões situadas à mesma latitude na América do Norte (Nova Escócia). O clima da região é do tipo oceânico húmido, com verões amenos e invernos não muito frios, embora haja algumas zonas com clima mediterrânico. As precipitações médias anuais são cerca de na costa, aumentando nas zonas montanhosas até aos , colocando a região na chamada "Espanha húmida" (ou "Espanha verde").
A temperatura média anual é cerca de 14 °C. A neve é frequente nas partes altas entre os meses de novembro e março. Os meses mais secos são julho e agosto, embora geralmente não existam períodos de seca propriamente dita, pois há sempre uma precipitação mínima e as temperaturas nunca são muito elevadas, exceto em algumas zonas de clima mediterrânico ou temperado submediterrânico. Em algumas áreas dos Picos da Europa com clima alpino, acima dos , há nevados durante todo o ano.
Em alguns casos, há diferenças significativas de clima entre algumas regiões. As situadas mais longe do litoral, como Liébana ou Campoo, têm clima de tipo mediterrânico continentalizado. Em isso deve-se a um microclima e em Campoo devido à sua proximidade da Meseta Central.
A influência do relevo montanhoso no clima é importante, sendo a causa principal de fenómenos atmosféricos peculiares, como as chamadas (vento do sul), provocados pelo efeito Föhn. O vento do sul é forte e seco, aumentando a temperatura à medida que nos aproximamos da costa; provoca uma diminuição significativa da humidade relativa do ar e a ausência de precipitação. Estas condições contrastam com as vertentes meridionais da cordilheira Cantábrica, onde o vento é mais fresco e húmido e pode estar a chover quando nas vertentes nortes não chove. Estas situações são mais frequentes no outono e no inverno, quando por vezes se registam temperaturas anormalmente altas de mais de 28 °C. Por vezes há incêndios que são avivados por este vento, como o que .
Por outro lado, as zonas costeiras estão frequentemente sujeitas as ventos constantes provenientes do oceano Atlântico, que muitas vezes são bastante fortes. Em condições muito particulares, mais frequentes nos meses abril, maio, setembro e outubro, os ventos do oeste podem tornar-se (temporais súbitos e violentos).
Hidrografia thumb|Vista aérea da desembocadura da , na qual desaguam os rios Escudo e Gandarilla
Os rios cântabros são curtos, rápidos e pouco caudalosos, percorrendo declives consideráveis devido à proximidade das suas nascentes nas montanhas das fozes no mar Cantábrico. Os seus percursos são geralmente perpendiculares à costa, à exceção do rio Ebro, e o seu caudal é persistente ao longo de todo o ano, devido à precipitação ser quase constante. A rapidez das águas, causada pelos desníveis consideráveis dos leitos, faz com que tenham um grande poder erosivo, formando os vales em forma de "V" característicos da cornija Cantábrica. Em geral o estado e conservação dos rios cantábricos é aceitável, mas a atividade humana, cada vez mais abundante devido ao aumento constante da população nos vales, exerce um forte pressão antrópica.