A Bíblia é uma compilação de vários textos ou "livros" de diferentes eras, usados nas religiões judaica e cristã.SCHNIEDEWIND, William M. Como a Bíblia tornou-se um livro. A textualização no Antigo Israel. São Paulo: Loyola, 2011. A compilação de vários livros da Bíblia Hebraica em um cânone é o produto dos anos próximos ao cerco Romano de Jerusalém e à subsequente dispersão dos judeus. Um cânone do Novo Testamento começou a aparecer no século II, mas se manteve em fluxo entre as várias denominações cristãs.

Processo de composição da Bíblia Os textos bíblicos foram compostos, raras exceções, por escribas ou amanuenses.Breed, Brennan W. Nomadic Text: A Theory of Biblical Reception History. Indiana UP, 2014Jeremias 36:4; Romanos 16:22 Nesse processo, boa parte dos textos circulavam (às vezes por gerações) de forma oral até serem fixados em texto escritoÊxodo 13:8—9, 14—16; Prov 25:1 pelos escribas. Na composição dos textos bíblicos, era comum incorporarem fontes anterioresLc 1:1-4; Josué 10:13; 2 Sam 1:18; Num 21:14-15) e os escribas tinham a liberdade de editar ou adicionar ao texto. Jeremias 36:28, 32

Os livros individuais do Novo Testamento podem ser datados com certa confiança entre os séculos I e II d.C., mas as datas de muitos dos textos da Bíblia Hebraica são difíceis de estabelecer. Críticas ao texto os coloca, dentro do primeiro milênio a.C., embora haja uma incerteza considerável quanto ao século em alguns casos. A Torá foi redigida na sua forma de cinco livros em torno do ano 450 a.C., usando elementos de até 1000 a.C..Richard E. Friedman, Who Wrote the Bible? has 1000 BC to 950 BC for J. O Neviim e o Ketuvim foram parcialmente compilados no século VI a.C. de materiais dos séculos VII e VIII a.C., e então expandidos no período pós-exílio entre os séculos V e II a.C.

Com exceção dos extensos manuscritos e fragmentos encontrados entre os pergaminhos do Mar Morto, nenhum manuscrito da Bíblia Hebraica vem de antes do século II a.C. O fragmento mais antigo do Novo Testamento é o Papiro P52 da Biblioteca de Rylands, um pedaço do Evangelho segundo João datado da primeira metade do século II. Outros importantes manuscritos antigos datam de cerca de 200 d.C., mais de um século depois que a maioria dos livros do Novo Testamento foram escritos. Por essa razão, a datação de textos mais antigos não pode ser feita diretamente por datação de manuscritos, mas depende de críticas textuais, filológicas e evidência lingüística, bem como referências diretas a eventos históricos nos textos.

A Bíblia Hebraica A autoria de vários textos no Tanakh (a Bíblia Hebraica) é um tópico aberto de pesquisas. Em regra, os livros levaram séculos para atingir uma forma estável, com várias versões de manuscritos circulando simultaneamente. Além disso, há a questão de datar uma tradição ou fonte que tenha existido de maneira independente e tenha sido incorporada posteriormente ao texto. Portanto, afirmar datas sólidas para muitos dos textos é difícil.

Períodos possíveis para composição textual escrita O terminus post quem é o período mais cedo possível para alguma parte do texto ter sido fixado em forma escrita. Para o terminus post quem foi adotado uma perspectiva maximalista, com base em autores como Friedman, Richard Elliott (1987). Who Wrote the Bible?. Harper San Francisco; Evans, Craig A.; Tov, Emanuel (eds.)(2008). Exploring the Origins of the Bible: Canon Formation in Historical, Literary, and Theological Perspective. Acadia Studies in Bible and Theology. Baker Academic ; Carr, David (2011). The Formation of the Hebrew Bible: A New Reconstruction. Oxford University Press. O terminus ad quem é a data limite para o texto ter alcançado sua forma canônica, independente de qual recensão.Para o terminus ad quem foi adotado uma perspectiva minimalista, com base em autores como Gmirkin, Russell (2006). Berossus and Genesis, Manetho and Exodus; Davies, Philip R. (2000). Minimalism, 'Ancient Israel', and Anti-Semitism. The Bible and Interpretation; Lemche, Niels Peter (1998). The Israelites in History and Tradition. Westminster John Knox Press; Thompson, Thomas L. (1999). The Mythic Past: Biblical Archaeology And The Myth Of Israel. Basic Book.Bloomsbury. Livro Terminus post quem Terminus ad quem Gênesis 960 a.C. 300 a.C. Êxodo 1100 a.C. 300 a.C. Levítico 900 a.C. 300 a.C. Números 900 a.C. 300 a.C. Deuteronômio 800 a.C. 400 a.C. Josué 750 a.C. 300 a.C. Juízes 750 a.C. 300 a.C. Rute 530 a.C. 300 a.C. 1 Samuel 750 a.C. 300 a.C. 2 Samuel 750 a.C. 300 a.C. 1 Reis 750 a.C. 300 a.C. 2 Reis 750 a.C. 300 a.C. 1 Crônicas 450 a.C. 100 a.C. 2 Crônicas 450 a.C. 100 a.C. Esdras 450 a.C. 330 a.C. Neemias 450 a.C. 330 a.C. Ester 450 a.C. 200 a.C. Jó 750 a.C. 300 a.C. Salmos 1100 a.C. 100 a.C. Provérbios 1100 a.C. 100 a.C. Provérbios 530 a.C. 300 a.C. Cântico dos Cânticos 530 a.C. 300 a.C. Isaías 770 a.C. 400 a.C. Jeremias 620 a.C. 200 a.C. Lamentações 580 a.C. 450 a.C. Ezequiel 580 a.C. 520 a.C. Daniel 530 a.C. 160 a.C. Oseias 770 a.C. 400 a.C. Joel 750 a.C. 400 a.C. Amós 770 a.C. 610 a.C. Obadias 750 a.C. 580 a.C. Jonas 580 a.C. 400 a.C. Miqueias 750 a.C. 580 a.C. Naum 750 a.C. 580 a.C. Habacuque 750 a.C. 580 a.C. Sofonias 750 a.C. 580 a.C. Ageu 520 a.C. 500 a.C. Zacarias 520 a.C. 300 a.C. Malaquias 539 a.C. 300 a.C.

Torá A faixa de datas que se considera para a Torá (Pentateuco) é um tanto ampla. É certo que date de antes do século II a.C., mas a tendência atual estima que seus elementos mais antigos estejam na faixa entre os séculos X e o VI a.C. A maior parte da Torá foi completada provavelmente em torno do fim do cativeiro na Babilônia (537 a.C.) e o texto chegou à sua forma fixa Massorética pelos idos do século IV a.C.. O texto certamente se tornou fixo em torno do século I a.C. e a conclusão da Septuaginta.

Alguns críticos acadêmicos (os "Minimalistas Bíblicos") insistem que o Torá por inteiro mostra evidências de sua construção composta após 583 a.C., talvez com material proveniente de uma tradição oral anterior, como se fosse uma "prequela" dos livros proféticos. Esses autores apontam que até mesmo no período de Esdras, Neemias e do Cronista havia divergências quanto às celebrações das festas e o casamento com estrangeiros, o que indica que ainda não havia um texto da Torá consolidado.Fried, Lisbeth S. Fried. The Priest and the Great King: Temple-Palace Relations in the Persian Empire, Ezra and the Law in History and Tradition, and Ezra, a Commentary (Sheffield Academic Press, 2015)

Outras pessoas, como o arqueologista Israel Finkelstein, tendem a sugerir que uma porção substancial do Pentateuco seja uma obra do século VII a.C., projetado para promover as ambições dinásticas do Rei Josias de Judá. O Livro dos Reis do século VI a.C. conta a redescoberta de um antigo livro pelo Rei Josias, que seria a parte mais antiga da Torá, em torno do qual os escribas de Josias teriam fabricado o texto restante:

Sob o comando de Josias, haveria então pela primeira vez um estado de Judá unificado, centralizado em torno da adoração de Yahweh com sede no Templo de Jerusalém, com textos retratando o Rei Josias como sucessor legítimo do lendário Rei Davi e então o governante de Judá por direito. De acordo com esta interpretação, países vizinhos que mantinham muitos registros escritos, como o Egito, Pérsia, etc, não têm quaisquer escritos sobre as histórias da Bíblia ou seus personagens principais antes de 650 a.C., e o registro arquelógico de Israel antes de Josias não suporta a existência de um estado unificado no tempo de Davi. Tais afirmações são detalhadas em Who Were the Early Israelites?, de William G. Dever (William B. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids, MI, 2003). Outro livro desse tipo é The Bible Unearthed, por Neil A. Silberman e Israel Finkelstein (Simon and Schuster, New York, 2001).

Uma corrente tradicional de estudiosos (os "Maximalistas Bíblicos") assumem que várias porções do Pentateuco (geralmente, o autor J) são do período da Monarquia Unificada, no século X a.C., que dataria o Deuteronômio e a história Deuteronômica ao tempo do Rei Josias, e que a forma final da Torá foi devida a um redator em tempos de exílio e pós-exílio (século VI a.C.). Essa visão é baseada no conto do achado do "livro da lei" em II Reis 22:8, que corresponderia ao núcleo do Deuteronômio, e as partes restantes da Torá teriam sido compostas para alimentar um pano de fundo, de contos tradicionais ao texto redescoberto.

Neviim O Neviim principal ("Profetas") compõe-se dos profetas anteriores (livros históricos de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis) e profetas posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os chamados doze profetas menores).

Os livros dos Reis mencionam as seguintes fontes: O "livro dos atos de Salomão" (I Reis 11:41) O "livro das crônicas dos reis de Judá" (14:29; 15:7, 23, etc.) O "livro das crônicas dos reis de Israel" (14:19; 15:31; 16:14, 20, 27, etc.).

Os mais antigos livros que chegaram a sua forma canônica são os livros dos profetas Oseias, Amós, Miqueias, Naum, Obadias e Habacuque, cujas evidências linguísticas apontam que tenha sido compostos em período anterior ao Exílio da Babilônia.

A data da composição da parte histórica talvez tenha sido em algum momento entre 561 a.C., a data do último capítulo (II Reis 25), quando Jeoaquim foi libertado do cativeiro por Evil-Merodaque, e 538 a.C., a data do decreto de entrega por Ciro, o Grande.

O Livro de Isaías, na sua forma atual, é considerado pela maioria dos estudiosos como o resultado de um processo extensivo de edição, em que as promessas da salvação de Deus são reinterpretadas e afirmadas ao povo Judeu através da história de seu exílio e retorno à terra de Judá. Poucos acadêmicos seguem essas conclusões, e argumentam a favor da unidade da composição do livro. Quando a versão constante da Septuaginta foi feita (cerca de 250 a.C.), o conteúdo inteiro do livro foi atribuído a Isaías, filho de Amós. Na época de Jesus, o livro já existia na sua forma atual, com muitas profecias nas partes em questão citadas no Novo Testamento como palavras de Isaías.

Ketuvim (Hagiografia) Tradicionalmente, acreditava-se que o Livro de Daniel fora escrito em seu nome durante e logo após o exílio na Babilônia no século VI a.C.. Contudo, a maioria dos estudiosos acham essa visão insustentável à luz da arqueologia e da ánálise textual. Os estudiosos da datação do Livro de daniel caem grandemente em dois grupos: um deles data o livro inteiro a um mesmo autor, durante a profanação do Tempo de Jerusalém (167–164 a.C.) sob o mandato do grego-sirío Antíoco IV Epifânio (reinou entre 175–164 BC); o outro grupo vê o livro como uma coleção de histórias datando de várias épocas, através do período Helênico (com parte do material possivelmente voltando ao fim do período Persa), com as visões dos capítulos 7 a 12 tendo sido adicionados durante a profanação de Antíoco. Por exemplo, Hartman e Di Lella (1978) sugerem múltiplos autores, com algum material datando do século III a.C., culminando com um editor e redator no século II a.C..

As razões para essas datas incluem o uso de palavras em grego e em persa no meio do texto em hebraico, pouco provável de acontecer no século VI a.C., o estilo de hebraico e aramaico era mais parecido com o usado em datas posteriores, o uso da palavra "caldeu" ocorre de modo desconhecido ao século VI, e gafes históricas repetidas mostram uma ignorância sobre fatos do século VI, que um alto oficial babilônico não teria, enquanto a história do século II parece ser bem mais precisa (veja a análise de Ferrell Till).