O método histórico consiste no conjunto de técnicas, procedimentos e princípios epistemológicos que orientam a investigação científica do passado humano. Através dele, a narrativa histórica se distingue da crônica ao submeter as fontes a processos sistemáticos de crítica, interpretação e síntese, com o objetivo de produzir conhecimento ordenado e correlacionado sobre os eventos, estruturas e processos históricos. A consolidação do método histórico enquanto campo de reflexão autônomo ocorreu ao longo do século XIX, especialmente no âmbito da escola histórica alemã, embora suas raízes remontem à filologia e à hermenêutica dos séculos anteriores. Ao longo do século XX, o método histórico foi objeto de intensas disputas intelectuais, que envolveram a crítica marxista, a escola dos Annales, os narrativistas como Hayden White e os questionamentos epistemológicos de filósofos como Paul Feyerabend.

Raízes hermenêuticas e filológicas

A constituição de um método para a história está intimamente ligada ao desenvolvimento da hermenêutica, compreendida como a arte e técnica da interpretação correta de textos. Embora seus fundamentos remontem à antiguidade grega e à tradição judaico-cristã de exegese bíblica, foi a partir do renascimento que a hermenêutica se desdobrou em três especialidades: filosófico-filológica, teológica e jurídica, todas com impacto sobre a história.

A relação entre a história e a filologia era estreita desde o início da constituição da disciplina como campo autônomo, processo verificado a partir do final do século XVIII. Os avanços na tradução e interpretação de textos antigos, assim como a publicação de grandes séries documentais na Alemanha e na França, serviram para aperfeiçoar as técnicas de crítica textual que viriam a fundamentar o método histórico.

Friedrich Schleiermacher foi figura central nesse processo ao ampliar o horizonte hermenêutico, definindo seus pressupostos fundamentais e concebendo a compreensão como uma possibilidade concreta de se conhecer todas as dimensões da vida humana.

A escola histórica alemã e o historicismo

Ranke e a fundação do método

A escola histórica alemã, com Leopold von Ranke como figura central, representou um passo decisivo na profissionalização e metodização da história. O historicismo alemão distingue-se por afirmar a especificidade do conhecimento histórico em relação às ciências naturais, a necessidade da história para a compreensão dos fenômenos humanos, e a ideia de que o passado persiste no presente. Para alguns autores, Ranke foi o "refundador da história nos tempos modernos" e o representante clássico do historicismo, que teria fundado na prática a autonomia do pensamento histórico.

A escola histórica problematizou a história universal iluminista, buscando apoio na hermenêutica romântica e na discussão sobre a singularidade do passado. Ela combateu tanto o positivismo - que, segundo Dilthey, mutilava a realidade histórica - quanto as filosofias idealistas da história de matriz hegeliana.

Johann Gustav Droysen e a Historik

Johann Gustav Droysen é considerado um dos principais teorizadores do método histórico no século XIX. Sua principal obra, Historik (Grundriß der Historik), redigida entre 1858 e 1882, apresenta uma reflexão inovadora sobre as diferentes fases da operação historiográfica, divididas em heurística, crítica, interpretação e exposição. Droysen distinguiu Methodik e Systematik, ou seja, teoria da história e crítica documental, recusando-se a entender a história apenas como uma ciência de textos do passado.

Droysen foi ainda o primeiro a perceber a função orientadora da reflexão teórica sobre a história em relação à sua prática. Para ele, o conhecimento histórico deveria "compreender investigando", uma fórmula que sintetizou sua articulação entre hermenêutica e método. Sua contribuição ao método reside, sobretudo, em liberar o conceito de compreensão da indeterminação que havia adquirido em Ranke, situando-o na realidade histórica e não apenas nos textos ou na linguagem.

Wilhelm Dilthey e as ciências do espírito

Wilhelm Dilthey foi responsável por tornar a hermenêutica uma preocupação histórica e por elevar a dimensão histórica do conhecimento ao estatuto de fundamento das ciências do espírito (Geisteswissenschaften). Para Dilthey, a fundamentação do conhecimento histórico deveria ser encontrada nos fatos da consciência, e não em leis universais como propunham os positivistas. O que o historiador faz, segundo ele, é compreender as objetivações de vida, resultado do diálogo entre o historiador em sua vivência presente e os outros homens em seu tempo vivido.

Para Dilthey, "a compreensão e a interpretação constituem o método adequado para as ciências humanas", uma afirmação que sintetiza o papel central da hermenêutica na epistemologia histórica. O conceito de vivência (Erlebnis) representou para ele a base psicológica de sua hermenêutica, complementado pela distinção entre expressão e significado, pois o passado não se conhece por meio de conceitos abstratos, mas através da consciência histórica.

Langlois, Seignobos e a metódica francesa

O manual Introdução aos estudos históricos (1898), de Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos, consolidou os procedimentos da chamada metódica positivista francesa. Os autores abordam, na seção de Crítica Interna, o que denominam de "crítica de interpretação ou hermenêutica", distinguindo o sentido literal — operação linguística orientada pela filologia — do sentido real, que envolve a compreensão da língua da época, o estilo do autor e o contexto de produção do texto.

O procedimento de crítica interna de Langlois e Seignobos fundamenta-se numa "desconfiança metódica" de inspiração cartesiana — o questionamento sistemático da veracidade das informações contidas nas fontes. Essas proposições identificam-se com a hermenêutica psicologizante ou romântica, distanciando-se das abordagens mais filosóficas de Dilthey. Apesar de minimizarem a influência de Droysen, qualificando-o de "pesado e gongórico" , sua obra incorporava pressupostos hermenêuticos fundamentais.

A crítica marxista e o materialismo histórico

A historiografia marxista constituiu uma das mais influentes alternativas ao método historicista e positivista. Partindo das obras de Karl Marx e Friedrich Engels, essa corrente propõe que a história se desenvolve primordialmente por meio das condições materiais de produção e das lutas de classes que delas emergem, e não através de ideias, indivíduos ou contingências. O método marxista, conhecido como materialismo histórico, distingue entre a base econômica - que engloba as forças e relações de produção - e a superestrutura política, jurídica e cultural, concebida como amplamente determinada por aquela base.

Após a Segunda Guerra Mundial, a historiografia marxista ganhou significativa projeção nos meios acadêmicos ocidentais, especialmente na Grã-Bretanha, onde o Grupo de Historiadores do Partido Comunista, formado em 1946, reuniu estudiosos como E. P. Thompson, Christopher Hill e Eric Hobsbawm. Esse grupo orientou a historiografia em direção à "história vista de baixo", priorizando as experiências de trabalhadores e camponeses em detrimento de modelos deterministas. Sua influência estendeu-se à criação da revista Past & Present em 1952, inicialmente impulsionada por historiadores marxistas.

E. P. Thompson, em particular, realizou uma crítica interna ao marxismo estruturalista de Louis Althusser, que, a seu ver, dissolvia a agência humana em estruturas teóricas abstratas. Em A Miséria da Teoria (1978), Thompson defendeu uma história materialista enraizada na experiência concreta de homens e mulheres reais, afirmando que a classe não é uma estrutura, mas algo que "de fato acontece nas relações humanas". Em 1966, Thompson cunhou o termo "história vista de baixo" para descrever sua abordagem à história social, que se tornaria um dos desenvolvimentos mais consequentes da disciplina no século XX.

A virada narrativa

Contexto e premissas

A partir da década de 1970, um conjunto de teóricos - geralmente denominados de narrativistas ou pós-modernos - passou a questionar os fundamentos epistemológicos do método histórico, argumentando que a história é essencialmente uma forma de narrativa literária e não uma ciência capaz de acessar objetivamente o passado. Essa "virada linguística" deslocou o debate historiográfico da investigação das fontes para o problema da representação.

Hayden White e a Meta-história

Hayden White é o autor mais representativo da corrente narrativista. Em Meta-História: A Imaginação Histórica do Século XIX (1973), White propôs que as obras históricas são estruturas verbais em forma de prosa narrativa que funcionam como modelos ou ícones de estruturas e processos do passado. Para White, os historiadores constituem uma crônica de eventos que organizam em uma história coerente antes de processá-la em um enredo que expressa uma ideologia. Assim, a obra histórica implica sempre escolhas de emplotamento (emplotment), argumentação e implicação ideológica.

White identificou quatro tipos fundamentais de emplotamento: romance, comédia, tragédia e sátira, quatro modos de argumentação: formista, organicista, mecanicista e contextualista, e quatro posições ideológicas. Sua tese central era de que nenhum desses modos de emplotamento corresponde mais adequadamente ao que "realmente aconteceu" do que outro: todos são atos poéticos de construção. Nesse sentido, White rejeitou a noção rankiana de uma "ciência da história" e argumentou que os historiadores utilizam todas as técnicas de um romancista ou dramaturgo na composição de suas obras.

A obra de White marcou uma mudança de paradigma: deslocou o debate do campo da investigação e da crítica das fontes para o campo da representação e da escrita da história. Frank Ankersmit, um de seus principais interlocutores, sustentou que a obra de White tornou obsoleta a visão da linguagem como meio neutro na historiografia, inaugurando o que denominou de "virada linguística" da filosofia da história.

As ideias de White geraram controvérsia considerável entre historiadores profissionais. Críticos apontaram que sua tese dissolve a distinção entre fato e ficção, relativizando a possibilidade de um conhecimento histórico fundado em evidências. Outros o identificaram como o "porta-voz mais magistral" de uma historiografia relativista e pós-moderna, na qual a prevalência de uma narrativa sobre outra seria sempre resultado de estratégias retóricas, nunca de evidências e lógica.

Críticas epistemológicas ao método científico

Thomas Kuhn e a estrutura das revoluções científicas

Antes mesmo da virada narrativa na história, Thomas Kuhn havia questionado a visão cumulativa e linear do progresso científico em A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), introduzindo os conceitos de paradigma, ciência normal e revolução científica. Kuhn demonstrou que a mudança científica não ocorre por simples acumulação de evidências, mas por rupturas radicais de visão de mundo, o que abriu caminho para uma abordagem historicamente orientada na filosofia da ciência.

Paul Feyerabend e o anarquismo epistemológico

A crítica mais radical ao método científico, com implicações diretas para o debate historiográfico, foi formulada pelo filósofo austríaco Paul Feyerabend em sua obra Contra o Método: Esboço de uma Teoria Anarquista do Conhecimento (1975). A tese central da obra é que a ciência deve ser uma empresa anárquica, e que qualquer prescrição metodológica rígida constitui um obstáculo ao progresso do conhecimento.

Feyerabend argumentou que, para cada regra metodológica, existe uma contrarregra igualmente justificável, e que o exame histórico da ciência revela que "não existe uma única regra, por mais plausível que seja, que não tenha sido violada em algum momento".