O Gato de Cheshire, Gato Risonho, Gato Listrado ou Gato Que Ri é um gato fictício famoso através do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. A personagem é principalmente caracterizada pelo seu sorriso pronunciado. Embora mais celebrado relacionando-se a Alice no País das Maravilhas, o Gato de Cheshire antecede o romance de 1865 e transcende o contexto de literatura. Evidencia-se também na cultura popular e na mídia - da propaganda política à televisão - , sendo alvo de diversos estudos. Uma da suas características mais distintas é que, de tempos em tempos, o seu corpo desaparece, com a última parte visível sendo o seu icônico sorriso.

Origens Não faltam teorias sobre a famosa expressão "sorrir como um gato de Cheshire" ("grinning like a Cheshire cat") ao longo da história inglesa.

Uma possível origem da frase remete-nos ao povo de Cheshire, certo condado na Inglaterra conhecido pela grande quantidade de quintas leiteiras - daí os gatos sorrirem pela abundância de creme e de leite; Segundo o Dicionário Brewer, "The phrase has never been satisfactorily accounted for, but it has been said that cheese was formely sold in Cheshire moulded like a cat that looked as though it was grinning" Esta foi a explicação declarada em Annotated Alice de Martin Gardner.(o que pode ser traduzido como: "A frase nunca foi satisfatoriamente contabilizada, mas diz-se que o queijo anteriormente vendido em Cheshire era moldado como um gato que parecia estar sorrindo"). O queijo era desfiado a partir da extremidade da cauda, de maneira que a última parte a ser comida era a cabeça do gato sorridente.Gardner, Martin (1999). The Annotated Alice: Alice`s adventures in Wonderland & Through the looking glass. W. W. Norton. ISBN 0-393-04947-0. miniaturadaimagem|Mapa Administrativo de CheshireDe acordo com a explicação de Samuel Maunder em 1853, "This phrase owes its origin to the unhappy attempts of a sign painter of that country to represent a lion rampant, which was the crest of an influential family, on the sign-boards of many of the inns. The resemblance of these lions to cats caused them to be generally called by the more ignoble name. A similar case is to be found in the village of Charlton, between Pewsey and Devizes, Wiltshire. A public-house by the roadside is commonly known by the name of “The Cat at Charlton”. The sign of the house was originally a lion or tiger, or some such animal – the crest of the family of Sir Edward Poore."Maunder, Samuel (1853). The Treasury of Knowledge and Library Reference (12th ed.). Longman, Orme, Brown, Green, & Longmans. p.396 (ou seja, "Esta frase deve ter origem nas tentativas infelizes de um pintor de placas daquele país para representar um leão desenfreado, que era o brasão de uma família influente, nas tabuletas de muitas das pousadas. A semelhança desses leões com gatos fez com que eles fossem geralmente chamados pelo nome mais ignóbil. Um caso similar é encontrado na vila de Charlton`, entre Pewsey e Devizes. Um estabelecimento público na beira da estrada é comumente conhecido pelo nome de ´The Cat at Charltron". O letreiro da casa era inicialmente um leão ou um tigre, ou algum desses animais - o brasão de família de Sir Edward Poore." . A primeira aparição conhecida da expressão literatura remete-nos ao séc. XVIII, com Francis Grose no Classical Dictionary of the Vulgar Tongue em 1788. Nele encontramos a seguinte entrada: "Cheshire Cat. `He grins like a Cheshire Cat; said of any one who shows his teeth and gums in laughing." ("Gato de Cheshire. Ele sorri como um Gato de Cheshire; dito a qualquer um que mostre os dentes e as gengivas ao sorrir.") A frase aparece novamente impressa no pseudônimo de John Wolcot, Peter Pindar, em Pair of Lyric Epistles (1792): "Lo, like a Cheshire cat our court will grin." (isto é, " Lo, como um gato de Cheshire nossa corte vai sorrir") A frase aparece também impressa no romance The Newcomes (1855) de William Makepeace Thackeray: "That woman grins like a Cheshire cat" ("Aquela mulher sorri como um gato de Cheshire")

Um pesquisa publicada em 2015 mostrou o quão fantasiosas eram tanta supostas explicadas vistas na InternetYoung, Peter. "Origins of the Cheshire Cat". Cheshire History. 55 (2015-2016). 184-193.. A expressão foi finalmente explicada amalgamada com a outra frase "grinning like a cat that got the [split] cream" (ou seja, "sorrindo como um gato que tem o creme derramado") - que se poderia referir a qualquer outra região, embora Cheshire tenha sido o principal produtor de leite, queijo e creme por séculos - com o status político privilegiado único de Cheshire. Mesmo que qualquer uma dessas teorias teriam sido algo que a justificasse bem.

A Personagem Aparições no Enredo miniaturadaimagem|Ilustração de John Tenniel - o Gato desaparecendo.

Cap. 6 - "Porco e Pimenta" O Gato aparece pela primeira vez no capítulo 6, "Porco e pimenta", quando Alice vê um Peixe-Lacaio entregar a um Sapo-Lacaio um convite para a Duquesa da casa.

Alice observa esta operação curiosa e, após uma conversa com o sapo que a deixa perplexa, atreve-se a entrar na casa. Logo, ela se depara com a cozinheira da Duquesa a atirar pratos e frigideiras contra esta e a fazer uma sopa, mas é tanta a pimenta espalhada pela casa, que ela deita na sopa, que todos na divisão - a Duquesa, seu bebé e a própria Alice - não conseguem parar de espirrar violentamente, com a exceção da cozinheira e do Gato de Cheshire.

Depois de sair da casa, encontra-se num bosque, onde o Gato de Cheshire aparece e Alice pergunta-lhe se há algum lugar em que não haja gente louca e como ir até lá. O Gato argumenta que todos são loucos, inclusive ele e Alice, acabando por lhe indicar a hipótese de visitar o Chapeleiro Maluco ou a Lebre de Março antes de desaparecer lentamente, deixando apenas o seu icônico sorriso pendente. Alice escolhe a Lebre, na esperança falsa de se não tratar de uma criatura louca (apesar de ter ouvido as considerações do Gato) e parte para lá imediatamente.

Cap. 8 - "O Campo de Cróquete de Sua Majestade" O Gato de Cheshire aparece novamente quando Alice e a Rainha de Copas jogam cróquete (Capítulo 8 - O Campo de Cróquete de Sua Majestade). Ao aparecer só sua cabeça no jogo, a Rainha se irrita com ele e manda cortar a cabeça do Gato. O carrasco se recusa, dizendo que é muito velho para começar a cortar cabeças sem corpo. Devido ao fato de o Gato pertencer à Duquesa, a Rainha solicita a liberação desta da prisão para resolver a questão. No capítulo seguinte, a Duquesa aparece no campo. Ela vai ao encontro de Alice com uma grande simpatia por ela ter salvado seu Gato.

Perspetiva de David Day De acordo com a análise recente do estudioso David Day, o gato de Lewis Carrol era Edward Bouverie Pusey, professor de Hebraico em Oxford e mentor de Carroll.Day, David (2010). "Oxford in Wonderland". Queen`s Quaterly. 117 (3): 402-423. miniaturadaimagem|Imagem mostrando uma catenária formada por um fio flexível fixado entre dois postes. O nome Pusey foi sugerido por Alice, algures no Cap.6, chamar ao gato "Cheshire Puss" (por outras palavras, "Gatinho/Bichano de Cheshire"). Pusey era uma autoridade nos Pais da Igreja e, na época de Carrol, Pusey era conhecido, após a Sucessão Apostólica, como a Catenária Patrística (ou Patristic Catenary).

Como matemático, Carrol estaria bem familiarizado com um outro significado da palavra "catenária": curva plana que representa uma curva formada pelo peso de um fio flexível suspenso em duas extremidades - o que sugere a forma do sorriso do Gato de Cheshire.Day, David (24/08/2015). "The Cheshire Cat`s Grin: Solving the greatest mystery of Wonderland, 150 years later". The Walrus.

"RIDDLE: What kind of a cat can grin?

ANSWER: A Catenary."

- David Day, Queen`s Quaterly (2010)

Outras possíveis inspirações miniaturadaimagem|184x184px|Escultura de um gato de Cheshire sorridente, St. Wilfrid`s Church, Grappenhall, Cheshire Muitas são as outras possíveis sugestões para a inspiração de Carroll relativamente ao nome e expressão do Gato de Cheshire, como numa escultura do séc. XVI de um gato sorridente, na face oeste da Igreja de St. Wilfrid em Grappenhall (uma vila a cerca de 6 km do seu local de nascimento - Daresbury, Cheshire."Lewis Carroll's Birthplace". National Trust. Recuperado 1 Abril 2019. miniaturadaimagem|217x217px|O gato esculpido em St. Nicolas Church, Cranleigh, Surrey O pai de Lewis Carroll, reverendo Charles Dodgson, foi Reitor de Croft e Arquidiácono de Richmond em North Yorkshire, Inglaterra, entre 1843 e 1868; e Carroll aí viveu desde 1843 a 1850.Clark, Ann (1979). Lewis Carroll: A biography. London: J. M. Dent & Sons. ISBN 0-460-04302-1. Historiadores acreditam que o Gato de Cheshire de Lewis Carroll foi inspirado numa escultura da Igreja de São Pedro, em Croft.Gardner, Martin (2000). The Annotated Alice (Definitive ed.). New York / London: W.W. Norton and Company. p. 62. ISBN 0-393-04847-0. esquerda|miniaturadaimagem|275x275px|Imagem de uma fêmea de gato de pelo curto inglês (British Shorthair) Outra possível inspiração terá sido o gato de pelo curto inglês (British Shorthair), visto que Carroll viu um desses gatos ilustrado num rótulo de um queijo fabricado em Cheshire.Stewart, Ian (2010). Professor Stewart's Hoard of Mathematical Treasures. Profile Books. p. 67. A imagem de perfil da Cat Fanciers` Association diz: "When gracelessness is observed, the British Shorthair is duly embarrassed, quickly recovering with a 'Cheshire cat smile'''"Geyer, Georgie Anne. When Cats Reigned Like Kings: On the trail of the sacred cats. Transaction Publishers. p. 219. (o que pode ser traduzido como: "Quando a falta de graciosidade é observada, o gato de pelo curto inglês fica devidamente envergonhado, recuperando-se rapidamente com um "sorriso de gato de Cheshire").

Em 1992, membros da Lewis Carroll Society atribuíram-na (a expressão) a: uma gárgula encontrada num pilar da Igreja de São Nicolas, em Cranleigh, aonde Carroll muitas vezes costumava viajar quando morava em Guildford (embora essa afirmação seja muito duvidosa, porque Carroll havia-se mudado para Guildford três anos depois da publicação de Alice no País das Maravilhas); e a uma escultura numa igreja na vila de Croft-on-Tees, no nordeste de Inglaterra, onde Charles, o seu pai, havia sido reitor."Cheshire Cat found by fans of Lewis Carroll". The Toronto Star. Toronto, ON. Reuters. 8 July 1992. p. C24.

Acredita-se que Carroll tenha visitado a Igreja de São Cristóvão em Pott Shrigley, Cheshire, onde se encontra uma escultura em pedra semelhante ao gato ilustrado por Tenniel no livro."St. Christopher's Church, Pott Schrigley". History. Retrieved 10 October 2017.

Adaptações O personagem fictício do Gato de Cheshire foi retratado por outros criadores e usada como inspiração para novos personagens, nomeadamente na mídia televisiva (cinema, televisão, videojogos) e na mídia impressa (literatura, banda desenhada, etc). Outros conceitos não mediáticos que se serviram da imagem do Gato de Cheshire incluem a música, negócios e ciência. miniaturadaimagem|Gato de Cheshire de pelúcia pertencente ao The Children`s Museum of Indianápolis. Antes de 1951, quando Walt Disney lançou uma adaptação animada da história, havia poucas alusões pós-Alice à personagem. Martin Gardner, autor de The Annotated Alice, perguntou se T. S. Eliot tinha o Gato de Cheshire em mente ao escrever Morning at the Window, mas não nota outras alusões significativas no período pré-guerra.Gardner, Martin (1999). The Annotated Alice: Alice`s adventures in Wonderland & Through the looking glass. W. W. Norton. p.62. ISBN 0-393-04847-0.