thumb|210px|Bandeira da Região Autônoma da Sardenha thumb|190px|Nurago Orolo, na comuna de Bortigali, província de Nuoro

A Sardenha é uma ilha do mar Mediterrâneo ocidental situada a oeste da península Itálica e ao sul da Córsega com uma área de .

O início da história da Sardenha remonta ao Paleolítico Inferior. Em 1979, foram encontrados vestígios humanos datados de e os sinais de presença humana mais antigos são de há anos. No entanto, supõe-se que o povoamento só ocorreu de forma estável no Neolítico inferior, cerca de .

A ilha foi sucessivamente povoada por fenícios, cartagineses, romanos, árabes, bizantinos, espanhóis (catalães), saboianos e italianos. Foi chamada de Ichnusa pelos fenícios e Sandálio pelos gregos, porque a sua forma lembra uma pegada.

Pré-história

thumb|Altar pré-nurágico no Monte D'Accoddi, na região de Sassari

Primórdios Embora haja vestígios de presença humana que datam do Paleolítico, os assentamentos permanentes mais antigos só apareceram muito mais tarde, no Neolítico, aproximadamente em

As primeiras populações a estabelecerem-se no norte da Sardenha provavelmente vieram da península itálica através da Córsega, particularmente da Etruria (atualmente Toscânia), enquanto que as que ocuparam a região central da ilha à volta dos lagos salgados de Cabras e Santa Giusta devem ter vindo da Península Ibérica através das Ilhas Baleares. As comunidades do golfo de Cálhari parecerem ter várias origens.

Culturas primitivas ( - ) A primeira civilização com caraterísticas bem definidas e autóctones foi a civilização dita de Bonuighinu, que surgiu no , constituída por populações agrupadas em aldeias dispersas pelo território da ilha, que praticavam agricultura. Os restos de artefactos de cerâmica e obsidiana permitem concluir que essa civilização mantinha contactos estreitos com a vizinha Córsega e o que é hoje a França e a Itália. Desde cedo os habitantes da Sardenha comercializavam obsidiana, uma pedra usada na produção de ferramentas toscas, e este comércio revelou alguns contactos entres os sardos e a maior parte dos povos mediterrânicos.

thumb|esquerda|Megálitos em Pranu Muttedu, perto de Goni, na província de Cálhari

thumb|esquerda|Menires em Pranu Muttedu, perto de Goni, na província de Cálhari

À civilização de Bonuighinu segue-se a mais célebre cultura nurágica, que se inicia na Idade do Bronze antiga, cerca de , que declina progressivamente no fim da Idade do Ferro, cerca de , desaparecendo completamente com a ocupação romana.

Supõe-se que a misteriosa população shardana chegou à Sardenha, vinda do Mediterrâneo oriental, por volta do . Pouco se sabe sobre esta gente, cujo nome (que provavelmente significa Gentes do Mar) foi encontrado numas inscrições egípcias e as hipóteses mais aceites são baseadas em estudos linguístico, segundo as quais este povo partiu de Sárdis, na Lídia, e atingiu o Mar Tirreno, estabelecendo relações com sardos e etruscos.

Existem outras construção típicas de épocas pré-nurágicas e intermédias: os domus de janas (tradução: casas de fadas) escavadas em granito, que eram usadas para inumar os mortes, os túmulos de gigantes, de dimensões ciclópicas e muito frequentes no interior da ilha, e monumentos megalíticos, nomeadamente menires.

Há vestígios de comércio com o Egeu a partir de ; por exemplo, foram descobertas peças cerâmicas procedentes de Cidónia, em Creta. Com o passar do tempo, os diferentes povos da Sardenha parecem ter unificado a língua e costumes, embora tenham permanecido divididos politicamente como vários pequenos grupos tribais, ora em paz uns com os outros, ora em guerra. As habitações consistiam em casas circulares de pedra com telhados de colmo, semelhantes às dos pastores dos dias de hoje.

O nome da cultura nurágica provém da sua arquitetura mais típica: os nuragues (chamados localmente nuraghes no norte e nuraxis no sul), torres defensivas em forma de tronco cónico construídas com grandes blocos de pedra talhada e trabalhada, as quais ganham formas mais articuladas e complexas aquando do período mais resplandecente da civilização, em plena Idade do Ferro.

A partir do ou , as aldeias eram construídas à volta dos nuragues, por vezes com muralhas. Os limites dos territórios tribais eram defendidos por nuragues mais pequenos erigidos em colinas localizadas em locais estratégicos que tinham uma vista privilegiada sobre os territórios vizinhos. Atualmente nuragues estão espalhados pela paisagem da ilha.

Segundo alguns estudiosos, a lendária Atlântida poderia ser a Sardenha da época nurágica. O primeiro arqueólogo a defender essa tese foi Paolo Valente Poddighe em 2004.

Mitologia grega Na mitologia grega, a Sardenha foi ocupada por várias ondas sucessivas de imigrantes.

Os primeiros marinheiros a chegar à Sardenha foram líbios, liderados por Sardo, filho de Máceris, o Héracles egípcio e líbio. O nome da Sardenha deriva de Sardo. Este grupo não foi bem recebido pelos autóctones, e nenhum dos grupos ainda sabia construir cidades, vivendo em grupos espalhados, em tendas e cavernas.Pausânias, Descrição da Grécia, 10.17.2

O segundo grupo foi liderado por Aristeu, filho de Apolo e Cirene. Aristeu mudou-se para a Sardenha por estar triste com o destino de Acteão.Pausânias, Descrição da Grécia, 10.17.3 Pausânias menciona que alguns autores sugerem que Dédalo estava junto com Aristeu, mas ele não aceita esta teoria baseando-se na cronologia: Aristeu casou-se com uma filha de Cadmo, enquanto que Dédalo foi contemporâneo de Édipo. Estes colonos também não fundaram nenhuma cidade, talvez por serem em pouco número e fracos.Pausânias, Descrição da Grécia, 10.17.4

Após Aristeu, os iberos migraram para a Sardenha, sob a liderança de Norax, filho de Hermes e Eriteia, filha de Geriões, e fundaram a cidade de Nora.Pausânias, Descrição da Grécia, 10.17.5

O quarto grupo de colonistas foi liderado por Iolau, sobrinho de Héracles, formado por téspios e homens da Ática. Os téspios fundaram Ólbia, enquanto os atenienses fundaram Ogrile, segundo algumas versões, porque um herói chamado Ogrile os liderava. À época de Pausânias havia na Sardenha locais chamados Iolaia, onde Iolau era adorado pelos habitantes.

Um grupo de troianos, que se separou de Eneias, também chegou à Sardenha, e se misturou com os gregos.Pausânias, Descrição da Grécia, 10.17.6

Alguns anos mais tarde, outros líbios vieram para a ilha, com um forte exército, e derrotaram os gregos, praticamente os destruindo. Alguns troianos sobreviveram, escapando para os lugares altos, mas, à época de Pausânias, quase toda a população da ilha era descendente destes líbios.Pausânias, Descrição da Grécia, 10.17.7

Fenícios e cartagineses () thumb|upright|Máscara cartaginesa dita de Sileno encontrada na antiga colónia fenício-cartaginesa de Sulci, na província de Carbonia-Iglesias

Os ricos recursos mineiros da ilha atraíram a atenção e interesse comercial de povos do Mediterrâneo oriental, como os micénios e os cipriotas, mas são os fenícios que, a partir do e estabelecem várias colónias estáveis em vários portos na costa sarda., que ocupam locais facilmente acessíveis, favoráveis às trocas e comércio.

Os fenícios começaram a visitar a ilha à volta de , cada vez mais frequentemente. É provável que as primeiras visitas fossem motivadas principalmente para apenas passar as noites em locais seguros ou para usarem ancoradouros utilizáveis em quaisquer condições meteorológicas ao longo das suas rotas de comércio entre a costa do que é hoje o Líbano e as costas atlânticas da África e da Europa, que chegavam às ilhas britânicas. Os portos mais usados eram Caralis (a moderna Cálhari), Nora (perto da moderna Pula), Bithia (perto da moderna Domus de Maria), Sulci (na atual província de Carbonia-Iglesias), Tharros (perto da moderna Cabras), Bosa e Ólbia. Estes portos tornar-se-iam colónias fenícias importantes, habitadas por comerciantes fenícios e as suas famílias, que praticavam comércio marítimo e com os locais.

Em , a guerra irrompeu entre os nativos e os fenícios. Estes pediram ajuda à sua ex-colónia de Cartago. Depois de várias campanhas militares, os cartagineses dominaram toda a ilha, incluindo as áreas montanhosas do interior. Segundo alguns a Sardenha foi integrada no império cartaginês em , segundo outros em logo . O domínio cartaginês duraria quase três séculos. Além das minas, os cartagineses exploraram também a produção de trigo e a madeira — a ilha estava então quase totalmente coberta de florestas.

Romanos ()

thumb|esquerda|Termas romanas de Fordongianus

Na sequência da Primeira Guerra Púnica, a Sardenha foi ocupada pelos romanos em , passando a fazer parte da entretanto criada província romana da Córsega e Sardenha em Os romanos prosseguiram o mesmo tipo de exploração económica dos cartagineses e expandiram e embelezaram as cidades costeiras. Fundaram ainda várias colonias, como Túrris Libissonis (atual Porto Torres), Ferônia (atual Posada), as quais foram povoadas por imigrantes romanos.

A fim de afirmar o seu controlo das zonas interiores, nomeadamente da Barbária (atual Barbagia) — cujos habitantes, falantes de uma língua pré-latina, eram considerados especialmente aguerridos e corajosos, mais do que os da costa, — Roma institui uma administração forte e bem organizada, cuja eficácia era assegurada por uma rede de estradas muito ramificada, da qual ainda subsistem alguns troços originais e cujo traçado foi em muitos casos retomado pelas estradas atuais.

A ocupação militar romana marcou o fim definitivo da civilização nurágica. Apesar das diversas campanhas militares conduzidas nas montanhas da Barbaria, o domínio romano do centro da ilha nunca foi sempre mais formal do que efetivo.

A ocupação romana durou 694 anos e só terminou em 476 com a chegada dos vândalos.

Bizantinos e judicados ()

thumb|Igreja bizantina de Nossa Senhora e aqueduto romano de Mesumundu, perto de Siligo, província de Sassari

O enfraquecimento do Império Romano atinge a ilha originando o abandono progressivo da agricultura e um forte recuo demográfico. Abandonada à sua sorte e sem defesa, a Sardenha é ocupada e sofre várias razias dos vândalos do norte de África durante 80 anos, entre 460 e 530 (ou 456-534 segundo outros autores). A ilha faz parte do efémero império vândalo até ser conquistada em 530 ou 534 pelas forças do imperador imperador bizantino Justiniano. Sob o domínio bizantino, o representante imperial governava a partir de Caralis, mas a sua autoridade era praticamente nula na região montanhosa da Barbagia, na parte oriental da ilha, onde um reino bárbaro persistiu durante nove séculos.

A partir do , os árabes e berbereses realizaram várias razias à Sardenha. Especialmente depois da conquista árabe da Sicília em 832, os bizantinos ficaram incapazes de defender efetivamente o seu território mais longínquo, e o governador local assumiu uma autoridade independente. Para melhor defesa, ele dividiu a ilha em quatro judicados: Gallura, Logudoro, Arbórea e Caralis. Em 851, esses territórios já eram quatro monarquias independentes, que por várias vezes, caíram no poder de Génova, Pisa e árabes. Em 1014, uma aliança entre Génova e Pisa derrota o caudilho muçulmano das Baleares Mujaide Alamiri, conhecido como Museto em Itália, que se tinha apoderado de Cálhari.

Com diversos sobressaltos, os judicados sobreviveram até ao fim do , altura em que passam a ser territórios controlados pelas repúblicas marítimas italianas de Pisa e Génova, à exceção do Judicado de Arbórea, que permanece independente até 1410 e autónomo até 1478, ano em que é definitivamente conquistado pelos catalães do reino de Aragão.

Aragoneses () thumb|upright|A rainha de Leonor de Arbórea

thumb|upright|O rei Vítor Emanuel I da Sardenha