A agroecologia refere-se ao estudo da agricultura desde uma perspectiva ecológica. Tem como unidades básicas de análise os ecossistemas agrícolas, abordando os processos agrícolas de maneira ampla, não só visando maximizar a produção mas também otimizar o agroecossistema total —incluindo seus componentes socioculturais, econômicos, técnicos e ecológicos.Altieri, Miguel; Nicholls, Clara I. Agroecología - Teoría y práctica para una agricultura sustentable. 1ª ed. México: PNUMA, 2000.
Atualmente, o termo agroecologia pode ser entendido como uma disciplina científica, como uma prática agrícola ou como um movimento social e político.Wezel, A., Bellon, S., Doré, T., Francis, C., Vallod, D., David, C. (2009). Agroecology as a science, a movement or a practice. A review. Agronomy for Sustainable Development Nesse sentido, a agroecologia não existe isoladamente, mas é uma ciência integradora (holística) que agrega conhecimentos de outras ciências, além de agregar também saberes populares e tradicionais provenientes das experiências de agricultores familiares de comunidades indígenas e camponesas.Caporal, F. R., Costabeber, J. A., Paulus, G. [http://agroecologia.pbworks.com/f/Agroecologia++Novo+Paradigma+EXt+rural+agroeco.pdf Agroecologia: matriz disciplinar ou novo paradigma para o desenvolvimento rural sustentável]. Brasília: 2006. Acessado em 2 de junho de 2010.
Portanto, a base de conhecimento da agroecologia se constitui mediante a sistematização e consolidação de saberes e práticas, convertendo os conhecimentos empíricos tradicionais em conhecimentos com bases e metodologias científicas, visando a sociodiversidade e a agricultura ambientalmente sustentável, economicamente eficiente e socialmente justa.
Agroecologia aliada ao desenvolvimento de forma sustentável Uma nova visão de agricultura é criada ao reavivar/resgatar conhecimentos esquecidos e/ou suprimidos, que é proporcionalmente fundamentais para serem usados nas técnicas de cultivos de plantas.
O modelo de crescimento econômico proposto nas décadas de 60 e 70 com o aporte de tecnologia pós-guerra, gerou desequilíbrios significativos nos ambientes (naturais, sociais e do trabalho). Na mesma proporção em que há riquezas e poderes centralizados, a miséria, a fome e a poluição se alastram de forma alarmante. Tendo isso em vista, surge a premissa de uma nova forma de organização econômica que vise o desenvolvimento monetário sem danos relevantes à sociedade e seus integrantes, e ao meio ambiente.
A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente define desenvolvimento sustentável como o progresso capaz de suprir as necessidades de uma atual geração sem que para isso seja comprometido o futuro de uma eventual geração posterior. É basicamente um desenvolvimento economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente correto.
De modo, a agroecologia se contrapõe a outros modelos desenvolvimento sustentável, como por exemplo a Revolução Verde, que apresentada como solução para a degradação dos recursos naturais o uso de sementes transgênicas e insumos agroquímicos para potencializar a produção agrícola.
Entretanto, o uso de sementes e insumos patentiados por empresas transnacionais, que põe em risco a soberania alimentar, apenas garantindo a manutenção da monocultura do agronegócio.
O que se sabe de fato é que os monocultivos, baseados nas práticas e tecnologias da famosa Revolução Verde, têm sido responsáveis por um conjunto de eventos externos que levaram a uma crise socioambiental imensurável na história da humanidade.
Em resumo, o grande desafio consiste alterar a relação sociedade e recursos naturais, sendo exigido o desenvolvimento sustentável e a incorporação da agroecologia nos modelos agrícolas conhecidos atualmente. Para isso, o desenvolvimento econômico e social concomitante à proteção ambiental e a agroecologia deve ter atenção política, incentivos à pesquisa e atualizações tecnológicas por parte do Estado, além de ferramentas didáticas para o partilhamento de conhecimento e consciência para todos nós.
A agroecologia é muito mais do que simplesmente tratar sobre o manejo ecologicamente responsável dos recursos naturais. Tendo o marco do seu surgimento nos anos 80, na esteira das correntes que conformam as perspectivas ecosociais, a agroecologia ascendeu como uma perspectiva teórica, recuperando a necessidade de preservação da biodiversidade ecológica e cultural.
No processo de aceitação deste novo paradigma surgem categorias determinantes para a construção de um modelo alternativo de desenvolvimento rural, atribuindo importância à especificidade rural, a noção de economia moral do campo e a ideia de desenvolvimento desde o zero, assim como o reconhecimento de um certo “potencial capitalista", determinada pelo particular lógica dos camponeses.
Sob uma perspectiva mais superficial, a Agroecologia incorpora ideias ambientais e sentimento social a respeito da agricultura, com características e prescritivas contemporâneas,respeitando os limites dos ecossistemas naturais ou artificiais e o ser humano, indo além do pensamento convencional imposto. Em um ponto de vista mais restrito, a Agroecologia se refere ao estudo dos acontecimentos ecológicos e socioeconomico, que ocorrem no ambiente dos cultivos de determinados sistemas agrícolas, o que evidencia o seu enorme potencial de aplicação para resolver questões de degradação ambiental, buscando integrar tecnologias e favorecer a administração do campo de agroecossistemas sustentáveis.
Com a intenção de permitir o desenvolvimento de estilos de agricultura que resultem em um nível maior de sustentabilidade, a Agroecologia proporciona as referências científicas para fortalecer o processo de transição a estilos de agricultura sustentável nas suas diferentes manifestações ou denominações. Preocupa-se com a otimização do agroecossistema como um todo, o que aplica maior ênfase no conhecimento, forma de analisar e de interpretar as complexas interações existentes entre as pessoas, os cultivos, os solos e os animais.
Histórico A palavra agroecologia foi utilizada pela primeira vez em 1928, com a publicação do termo pelo agrônomo russo Basil Bensin.Wezel, A., Soldat, V. (2009). A quantitative and qualitative historical analysis of the scientific discipline agroecology. International Journal of Agricultural Sustainability 7 (1): 3-18Lizarelli, Paulo Henrique. Experiências Agroecológicas nos Projetos de Assentamentos do Paraná. In Sonda, Claudia; Trauczynski, Silvia Cristina(orgs.). ]Reforma Agrária e Meio Ambiente : teoria e prática no estado do Paraná. Curitiba: ITCG, 2010; p. 259
O entendimento da agroecologia enquanto ciência coincidiu com a maior preocupação pela preservação dos recursos naturais nos anos 1960 e anos 1970. Os critérios de sustentabilidade nortearam as discussões sobre uma agricultura sustentável, que garantisse a preservação do solo, dos recursos hídricos, da vida silvestre e dos ecossistemas naturais, ao mesmo tempo que assegurasse a segurança alimentar. Porém, só depois de 1970, quando agrônomos passam a enxergar o valor da ecologia nos sistemas agrícolas, é que o termo começou a ser mais explorado, e a agroecologia passou a ser trabalhada com mais afinco,Gliessman, S. Agroecology: Ecological Processes in Sustainable Agriculture. Ann Arbor: Sleeping Bear Press, 1998. passando a ser entendida como um campo de produção científica e como ciência integradora, preocupada com a aplicação direta de seus princípios na agricultura, na organização social e no estabelecimento de novas formas de relação entre sociedade e natureza.
A agroecologia é ainda uma ciência e uma prática que provêm de práticas tradicionais dos povos originários como indígenas e quilombolas em franca expansão. A partir dos anos 1980, as organizações não governamentais e a ONU foram fundamentais na promoção e divulgação da agroecologia em todo o mundo e especialmente no Brasil.Benthien, P. F. ONGs E Agroecologia no Brasil. Resumos do II Congresso Brasileiro de Agroecologia. In Revista Brasileira de Agroecologia. Publicação da Associação Brasileira de Agroecologia. 2007. Acessado em 2 de junho de 2010. Nos últimos anos nota-se uma preocupação constante de universidades, centros de pesquisa e programas e projetos de extensão em trabalhar aspectos e características técnico-científicas, bem como os impactos sociais provenientes da prática agroecológica.Portal Ambiente Brasil.Agroecologia no Brasil. Acessado em 2 de junho de 2010.
Definição A proposta agroecológica segundo o pesquisador Enio Guterres:
"A abordagem agroecológica propõe mudanças profundas nos sistemas e nas formas de produção. Na base dessa mudança está a filosofia de se produzir de acordo com as leis e as dinâmicas que regem os ecossistemas – uma produção com (e não contra) a natureza. Propõe, portanto, novas formas de apropriação dos recursos naturais que devem se materializar em estratégias e tecnologias condizentes com a filosofia-base"Guterres, I. Agroecologia militante: contribuições de Enio Guterres . São Paulo: Expressão Popular, 2006. Acessado em 19 de dezembro de 2014.
Em sentido mais estrito, a agroecologia pode ser vista como uma abordagem da agricultura que se baseia nas dinâmicas da natureza, dentre as quais se destaca a sucessão natural, que permite a recuperação da fertilidade do solo, sem o uso de fertilizantes minerais, e o cultivo sem o uso de agrotóxicos, através de ações que buscam o equilíbrio natural dos componentes do solo.
A inovação metodológica proposta pelos estudos agroecológicos é a junção harmônica de conceitos das ciências naturais e conceitos das ciências sociais, o que nos leva a um patamar mais amplo de percepção dessa ciência. Tal junção permite o entendimento acerca da agroecologia como ciência, como movimento e como prática dedicada ao estudo das relações produtivas entre homem-natureza, visando sempre a sustentabilidade ecológica, econômica, social, cultural, política e ética. O resgate de saberes de comunidades indígenas e camponesas tradicionais se liga ao saber acadêmico-científico, buscando-se a cooperação e a unidade desses diferentes saberes na construção da agroecologia.Portal Adital - Notícias da América Latina e Caribe. Agroecologia: uma forte alternativa ao agronegócio – Entrevista com José Tardim. Acessado em 2 de junho de 2010.
A agroecóloga brasileira Ana Maria Primavesi, reforça em suas teses o laço que deve existir entre o fazer agroecológico e o saber tradicional e popular:
"A Ecologia se refere ao sistema natural de cada local, envolvendo o solo, o clima, os seres vivos, bem como as inter-relações entre esses três componentes. Trabalhar ecologicamente significa manejar os recursos naturais respeitando a teia da vida. Sempre que os manejos agrícolas são realizados conforme as características locais do ambiente, alterando-as o mínimo possível, o potencial natural dos solos é aproveitado. Por essa razão, a Agroecologia depende muito da sabedoria de cada agricultor desenvolvida a partir de suas experiências e observações locais." Primavesi, A. M. Agroecologia e Manejo do Solo. Revista Agriculturas: experiências em agroecologia, vol. 5, nº 3 - Manejo sadio dos solos. Acessado em 3 de junho de 2010.
No âmbito da agroecologia encontramos ainda discussões sobre manutenção da biodiversidade, agricultura orgânica, agrofloresta, agroenergia, dentre outros temas.
Agroecologia e agronegócio