Epidemiologia (do grego. epi "sobre" demos "povo" logos "estudo"), ou a ciência das epidemias,SOUNIS, Emílio. Epidemiologia geral 2 v. PR, Editora da Fundação da Universidade do Paraná; SP, Atheneu, 1985, V 1 p.5 propõe-se estudar quantitativamente a distribuição dos fenômenos de saúde/doença, e seus fatores condicionantes e determinantes, nas populações humanas.MACMAHON B.; PUGH, T.F. Princípios y métodos de epidemiologia. México, La Prensa Médica Mexicana, 1975.Rouquayrol MZ, Almeida Filho N. Epidemiologia e Saúde. BR, Rio de Janeiro: MEDSI, 2003

A epidemiologia, portanto, é um campo da ciência que trata dos vários fatores genéticos, sociais ou ambientais e condições derivados de exposição microbiológica, tóxica, traumática, etc. que determinam a ocorrência e a distribuição de saúde, doença, defeito, incapacidade e morte entre os grupos de indivíduos.LEAVELL Hugh R.; CLARK, Edwin G. Medicina Preventiva. SP, McGraw-Hill do Brasil, RJ FENAME, 1978

Sumariamente a definição de epidemiologia é o estudo da distribuição das doenças e seus determinantes. Como observa Almeida Filho (1989)ALMEIDA FILHO, Naomar. Epidemiologia sem números, uma introdução crítica à ciência epidemiológica. RJ: Campus, 1989. ISBN 85-7001-550-X p.9 o termo distribuição está contido no termo população e o processo determinação está associado à delimitação da doença que, por sua vez, abrange concepções derivadas da prática clínica e próprias da epidemiologia. O estudo do processo saúde-doença através do método epidemiológico possui uma dimensão de determinação social, e como se sabe, as sociedades estão sujeitas a leis próprias, cuja explicação ultrapassa as possibilidades do método clínico.GRANDA, Edmundo; BREILH, Jaime. Saúde na sociedade. SP: Cortez: Instituto de Saúde; RJ: ABRASCO, 1989 ISBN 85-249-0200-0 p.15BARATA, Rita Barradas. Epidemiologia social. Rev. bras. epidemiol., São Paulo , v. 8, n. 1, p. 7-17, Mar. 2005 . Available from <scielo.br>. access on 18 Oct. 2015. dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2005000100002.

Entendem-se determinantes sociais de saúde como as condições de vida e trabalho dos indivíduos e de grupos da população, que estão relacionadas com sua situação de saúde. Cabe à epidemiologia descritiva a avaliação da frequência ou distribuição das enfermidades e à epidemiologia analítica o estudo dos fatores (causais) que explicam tal distribuição, relacionando uma determinada situação de saúde, ou seja, as desigualdades dos níveis de saúde entre grupos populacionais, com a eficácia das intervenções realizadas no âmbito da saúde pública, ou mesmo identificando suas causas no modo como tais iniquidades são produzidas, na forma como a sociedade se organiza e desenvolve.DEVER, G. E. Alan. A epidemiologia na administração dos serviços de saúde. SP, Pioneira, 1988BUSS, Paulo Marchiori; PELLEGRINI FILHO, Alberto. A saúde e seus determinantes sociais. Physis, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77-93, Apr. 2007. Available from <scielo.br>. access on 18 Oct. 2015. dx.doi.org/10.1590/S0103-73312007000100006.PAIM, Jairnilson Silva. Saúde e estrutura social: introdução ao estudo dos determinantes sociais da saúde. in: SILVA, Lígia Maria Vieira da (org.). Saúde coletiva: textos didáticos. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1994 thumb|500px|Taxas de mortalidade infantil a nível mundial (2000-2006)

Aspectos históricos Desconhece-se qual estudioso utilizou pela primeira vez o termo "epidemiologia". O Oxford English Dictionary cita Parkin (1873) como fonte. Contudo, em 1850, já existia uma London Epidemiological Society; em 1802,LONDON EPIDEMIOLOGICAL SOCIETY. (1892). The Lancet, 139(3566), 24–25. doi:10.1016/s0140-6736(02)13930-4 a palavra aparece no título do livro espanhol Epidemiología Española (Madrid); e em 1799, Webster referia-a num dicionário. Tem como origem, como referido, o grego clássico: epi (sobre) + demos (povo) + logos (conhecimento). A palavra epidemia (segundo Aurélio, 2004AURÉLIO. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. Rr, Positivo, 2004 gr. epídemos, ‘’, + gr. -ia) é muito mais antiga, tendo sido, inclusivamente utilizada por Hipócrates (séc. VI a.C.). As noções de contágio e quarentena são também anteriores ao nascimento da epidemiologia como disciplina científica.BARATA, Rita de Cássia Barradas. Epidemias. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p. 9-15, Mar. 1987. Available from <scielo.br>. access on 16 Mar. 2020. doi.org/10.1590/S0102-311X1987000100002.

Partindo da ideia de que a epidemiologia tem como princípio básico o entendimento de que os eventos relacionados à saúde não se distribuem ao acaso entre as pessoas, podemos entender melhor esse pensamento a partir de um contexto histórico e o saber relativo ao processo saúde-doença na coletividade. Tais saberes se originam a partir do momento em que as doenças surgem e começam a provocar o sofrimento nas pessoas. Dessa forma, tudo começa, seguindo esse princípio do fato de que existe uma doença/enfermidade e que é necessário se conhecer sobre ela e controlá-la no intuito de aliviar tal sofrimento.

Embora haja desde a Antiguidade a presença de diferentes tipos de doenças e também tentativas de controle por parte das pessoas para proporcionar o alívio e o bem-estar, as práticas e os saberes relativos ao processo saúde-doença na dimensão coletiva são consolidados apenas muito tempo depois na história.

Segundo Barata, a medicina hipocrática representa o limiar de positividade dos saberes relativos à saúde e à doença, entretanto numa dimensão individual.

Os primeiros registros da manifestação de doenças e moléstias nos indivíduos datam da Grécia Antiga, um período onde as pessoas acreditavam que as enfermidades e, consequentemente a morte em decorrência delas, eram consequências da punição dos deuses e demônios. Hipócrates então, se contrapõe a essa ideia e analisando o processo de adoecimento das pessoas com base em um pensamento racional, introduz o conceito de doença como o resultado de relações entre o indivíduo e o ambiente, ou seja, que as doenças se originam de uma causa natural ou ambiental e não de um motivo mágico-religioso, marcando a constituição de um saber específico. Cabe destacar que diversos autores identificam na medicina hipocrática a origem dos conhecimentos epidemiológicos e saberes sobre a dimensão coletiva de saúde e doença. Outros, entretanto, não consideram essa possibilidade pelo fato de ainda não haver se constituído a noção de população e coletivo.

No século XVII, essas noções de população, Estado e coletivo começam a ser introduzidas na sociedade. Também denominado por Foucault de Período Clássico, esse período marca então a individualização dos saberes relativos ao processo saúde-doença em sua dimensão coletiva e a construção dos conhecimentos epidemiológicos, levando em conta todo o contexto histórico desse período, com o surgimento do modo de produção capitalista, acompanhado do aparecimento do trabalhador livre, do surgimento do Estado moderno e outra série de transformações.

Com o capitalismo industrial ganhando forças e suas necessidades de mão de obra, leva-se em consideração também o contexto da medicina social e a valorização do corpo como instrumento de trabalho. Com isso, surgem os esforços para manter a saúde da população, a assistência aos doentes, a manutenção da saúde, inicialmente ligadas aos interesses do Estado, mas que com o tempo tais práticas passaram a ser utilizadas também em pesquisas das causas e dos focos patogênicos e o registro dos fenômenos de longa duração.

Com a chegada do século XVIII, houve o surgimento e aprimoramento de práticas caracterizadas pela quantificação dos eventos vitais, óbitos e nascimentos, que foram essenciais e contribuíram para estudos acerca das causas de doenças.

Nesse momento, procedimentos experimentais e contagens surgem, marcando a incorporação da matemática e da estatística na obtenção e quantificação dos resultados das pesquisas, o que possibilitou o desenvolvimento de técnicas e métodos empregando a análise, a medida e a ordem, como base para a construção do conhecimento acerca da epidemiologia, tendo a população como objeto de investigação. Com isso, houve também a construção da ideia de que a distribuição das doenças na população é influenciada por diferentes aspectos, que variam desde aspectos biológicos dos indivíduos até aspectos culturais, econômicos e sociais, que dessa forma, são úteis para o entendimento de que a manifestação do processo saúde-doença entre as populações acontece de maneiras diferentes.

Segundo Michel Foucault (1926-1984)FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. São Paulo, Forense, 1979. citado por Almeida Filho o estudo das epidemias com a lógica da clínica moderna iniciou-se no século XVII, a partir da ordem Real aos médicos da corte para que estudassem a epidemia que periodicamente dizimava o rebanho ovino francês. Cita ainda o estudo estatístico de P.C. Alexandre Louis (1787-1872) de 1960 casos de tuberculose, percursor também da avaliação de eficácia dos tratamentos clínicos utilizando os métodos quantitativos e propõe como fundamento ou raízes da Epidemiologia moderna a interdisciplinariedade da clínica médica, estatística e medicina social, o seu desenvolvimento inicial subsidiário à Saúde Pública. Observa que paradoxalmente os pioneiros estudos de John Snow (1813-1858), considerado o pai da epidemiologia, tenham se iniciado no contexto da medicina social (analisando a distribuição de água e condições de vida dos bairros pobres de Londres no século XIX) apresentando a conclusão resolutiva e antecipando uma demonstração da teoria microbiana, no caso a transmissão do cólera morbo. Sabe-se hoje que o Vibrio cholerae agente transmissor desta patologia só foi descoberto em 1883 por Robert Koch (1843-1910), e as medidas de profilaxia proposta por Snow controlaram a epidemia.ALMEIDA FILHO, Naomar de. Bases históricas da Epidemiologia. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 304-311, Sept. 1986. Available from <scielo.b>. access on 16 Mar. 2020. doi.org/10.1590/S0102-311X1986000300004.

Vale destacar alguns outros nomes importantes na história da epidemiologia:

John Graunt (1620 – 1674), cientista e demógrafo britânico, pioneiro em quantificar os padrões de natalidade e mortalidade; Louis Villermé (1782 – 1863), médico e epidemiologista francês, que realizou pesquisas e avaliou o impacto da pobreza e das condições de trabalho na saúde das pessoas; Ignaz Semmelweis (1818 – 1865), médico húngaro, conhecido por participar da investigação das causas de febre puerperal em Viena, onde observou e constatou que a contaminação das mãos estava relacionada à transmissão de doenças e também ao aumento das taxas de mortalidade. Dessa forma introduziu medidas de higiene como o simples ato de lavar as mãos, o que reduziu muito tais indicadores, ficando conhecido também como um dos pioneiros dos métodos antissépticos; James Lind (1716 – 1794), médico escocês que participou na investigação das causas do escorbuto e sugeriu as potencialidades da análise cartesiana na elucidação causal; William Petty (1623 – 1687), economista, cientista e filósofo britânico, foi um dos pioneiros no estudo quantitativo dos fenômenos sociais, inclusive dos problemas sociais da saúde e da doença, criando o que ele denominava de "aritmética política".

Metodologia da investigação epidemiológica Segundo Pereira,Pereira, Maurício Gomes. Epidemiologia, teoria e prática. BR, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2005. a sistemática predominante de raciocínio, em epidemiologia, é própria da lógica indutiva, mediante a qual, partindo-se de certo número de dados, estabelece-se uma proposição mais geral e, ainda segundo esse autor, os métodos utilizados na epidemiologia são encontrados em outras áreas do conhecimento, embora seja frequente a referência a métodos epidemiológicos, eles devem ser entendidos como certo número de estratégias adaptadas para aplicação a situações próprias do estudo da saúde da população.