A Dama do Mar (Fruen fra Havet em norueguês) é uma peça escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1888. A peça foi lançada a 28 de Novembro de 1888 pela Editora Gyldendalske Boghandels Forlag (F. Hegel & Søn), em Copenhage e Cristiânia, numa edição de 10000 exemplares. Em 27 de dezembro de 1887, o amigo e editor de Ibsen, Frederik Hegel, falecera, e seu filho Jacob Hegel passou a ser o editor do livro.
Sua primeira representação foi a 12 de fevereiro de 1889 em dois teatros: Hoftheater, em WeimarWikipédia, e Teatro da CristiâniaWikipédia, em Oslo. Esta última produção foi encenada por Bjørn Bjørnson, tendo os papéis de Dr. Wangel e Élida sido desempenhados por Sigvard e Laura Gundersen. A peça foi, posteriormente, para o Det Kongelige Teater (Teatro Real), em Copenhage (com estreia em 17 de fevereiro), para o teatro finlandês em Helsingfors / Helsínquia (22 de fevereiro) e para o Kungliga Dramatiska Teatern (Teatro Real), em Estocolmo (estreia em março).
É um drama em cinco atos, e a ação se passa no verão, em uma pequena estação balneária na costa setentrional da Noruega, à margem de um fiorde.
Características
A trama representa a luta entre o determinismo, a sugestão passional, e o livre arbítrio,PROZOR, Conde. Prefácio. In: IBSEN, Henrik. A Dama do Mar (1984). Rio de Janeiro: Editora Globo relatando o debate de Élida Wangel entre a resignação da vida doméstica, burguesa, ao lado de um obscuro médico de aldeia, e a aventura com um estrangeiro, desconhecido, que simboliza, provavelmente, a liberdade. No final, mediante a transformação da liberdade de escolha, Élida se decide pelo marido, com o triunfo do livre arbítrio sobre o determinismo.
É considerada, pela crítica, como a primeira obra simbolista de Ibsen, e uma das mais poéticas. O escritor emprega nela o diálogo duplo: as palavras e frases têm um sentido realista e um sentido místico, misterioso.
Uma das personagens, a filha adolescente Hilda Wangel, reaparecerá em outra peça sua, Solness, o Construtor.
Personagens Dr. Wangel, médico do distrito. Élida Wangel, sua segunda esposa. Bolette e Hilda, filhas do primeiro casamento. Arnholm, professor de colégio. Lyngstrand. Ballested. Um estrangeiro.
Enredo Fonte:IBSEN, Henrik. “A Dama do Mar”. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984. Tradução Vidal de Oliveira. ISBN 85-250-0024-8 Ato I O primeiro ato se passa numa manhã de sol, ao lado da casa do Dr. Wangel. Apresenta primeiramente Bolette e Ballested, conversando sobre a chegada do professor Arnholm, que virá visita-los, e a chegada de Lyngstrand. Balletsted está içando a bandeira, em homenagem ao aniversário da falecida Sra. Wangel, e Lyngstrand, que ainda não o conhece, começa a conversar. Ballested, que é pintor, lhe fala dos planos de pintar uma sereia na paisagem do fiorde que acaba de fazer, e que o quadro há de se chamar “A morte da sereia”. Lyngstrand informa que deseja ser escultor, e que veio passar uns dias ali, para recuperar sua saúde, pois apresenta dificuldades para respirar.
Bolette e Hilda surgem na varanda, sendo cumprimentadas por Lyngstrand. Ballested se retira. Bolette, Hilda e Lyngstrad conversam, e Hilda relata que hoje é o “aniversário de sua mãe”. Bolette a repreende. Lyngstrand se despede, e o Sr. Wangel chega.
As filhas o recebem com alegria, e vêem o professor chegando, dando-lhe as boas-vindas. Sentam-se na varanda e conversam. Arnholm elogia as duas filhas de Wangel, que relata viver feliz com sua segunda esposa, que neste momento está tomando seu banho diário de mar. Tiveram apenas um filho, mortoao nascer, e Wangel relata que a esposa, que Arnholm já conhece, é muito nervosa, e que sua única alegria é mergulhar no mar, daí a chamarem, costumeiramente, de “a dama do mar”. Neste instante Élida chega.
Wangel se retira e os deixa conversando. Arnholm recorda o passado, quando ainda era muito jovem, e relembra que um velho pastor chamava Élida de “pequena pagã”, pois seu nome era de navio e não de cristã. Arnholm observa que Wangel é um homem generoso, e que jamais a imaginou ao lado dele. Fala da antiga pretensão que tivera com relação a ela, da recusa que recebera, observando que ambos nunca mais escreveram um ao outro, e que escolhera então ficar sozinho. Élida confessa que a recusa se devia ao fato de o seu coração, na época, ter um dono, mas não Wangel, e sim outro. Revela que Wangel nada sabe desse passado. São repentinamente interrompidos pela chegada de Lyngstrand, que chega com um ramo de flores.
Lyngstrand cumprimenta e dá as flores à Élida, conforme Hilda lhe informara ser hoje o “aniversário de sua mãe”. Élida e Arnholm percebem o ocorrido, e ela aceita as flores. Os três conversam, sentados na varanda. Lyngstrad fala de seus planos de ir ao sul, pois tem um protetor em Bergen, um armador a bordo de cujo navio trabalhara. Relata também que, para sua sorte, após um naufrágio em águas geladas, adquirira uma doença do peito que o impedira de continuar na vida de marinheiro, permitindo-lhe se dedicar à escultura. Fala de sua pretensão de fazer a escultura de uma mulher que traíra o marido, e a aparição desse marido, que morrera no mar, sob a inspiração de uma história verdadeira ocorrida com um contramestre americano que conhecera em uma de suas viagens. Lyngstrand relata que o americano um dia lera no jornal a notícia sobre o casamento de sua amada e prometera ir buscá-la. Élida se interessa e reconhece a história, trêmula e perturbada, e insiste para que Lyngstrand lhe conte detalhes. Lyngstrand relata que, após um naufrágio, não soube mais notícias dele.
Lyngstrand se despede, Élida fica perturbada, e Arnholm percebe, porém supõe que tal perturbação seja decorrente das filhas de Wangel comemorarem em segredo o aniversário da mãe já falecida. São interrompidos, porém, pela chegada de Bolette, que convida-os para sentarem todos no pavilhão. Élida mostra as flores que Lyngstrand trouxe pelo “aniversário”. Wangel fica embaraçado e tenta explicar, mas ela parece não se importar e manda colocarem as flores no vaso. Hilda julga-a fingida, mas Élida se permite participar da “festa da mãe”.
Ato II O segundo ato ocorre em um belvedere, atrás da cidade, numa tarde de verão. Apresenta inicialmente Ballested conduzindo um grupo de turistas estrangeiros, falando em várias línguas. Hilda e Bolette chegam, após uma rápida subida, e falam sobre Lyngstrand, que o pai o desenganou, por causa do pulmão; Lyngstrand chega e Hilda lhe pergunta sobre sua doença, oferecendo uma flor para a lapela. Lyngstrand sai, Hilda e Bolette conversam sobre ele. Bolette observa o fato de os dois estarem sempre juntos e Hilda confessa que as falsas esperanças de saúde e de felicidade que ela lhe incute a divertem. Bolette a acha má, ao que Hilda diz que gosta de ser assim, e continua a fazer observações maldosas, dessa vez sobre Arnholm, que a seu ver está ficando careca, e relembra que Bolette já foi apaixonada por ele; depois observa que Élida vem caminhando com Arnholm e não com seu pai. Insinua que o lugar de Élida não seria ao lado do pai, e que um dia poderia ficar louca.
Wangel, Élida, Arnholm e Lyngstrad chegam, observam a paisagem. Wangel sugere que vão a uma vista mais alta, mas Élida recusa e os dois ficam, enquanto o resto do grupo sobe. Bolette dá o braço a Arnholm, e Hilda a Lyngstrand, e os quatro saem. Élida e Wangel conversam, sozinhos. Ele sugere que confiem mais um no outro, e ela diz que isso já não é possível. Wangel presume que tal situação se deve ao fato de ela ter sucedido a outra mulher, e fala da “festa de aniversário” para a falecida. Élida diz que ele está enganado. Wangel presume que a infelicidade é por causa do local, das montanhas sufocantes entre as quais vivem, e pensa em mudarem-se para outro lugar. Élida recusa, e pretende revelar a ele o verdadeiro motivo de sua angústia. Sentam-se juntos e ela começa a contar sobre seu antigo caso de amor.
Inicialmente Wangel pensava esse caso ter sido Arnholm, mas Élida nega. Conta-lhe de um navio que estivera atracado em Skjoldviken, onde um crime fora cometido, o assassinato do capitão, e um imediato fora acusado e fugira. O acusado fora exatamente o seu noivo. Wangel fica surpreso. Élida relata que ele era um finlandês do qual ela desconhece o noem verdadeiro, e que ambos costumavam falar muito do mar; um dia, ele marcou um encontro e confessou ter apunhalado o capitão do navio, segundo ele para fazer justiça, mas não lhe quis contar o verdadeiro motivo. Depois o marinheiro tirara do dedo um anel, assim como lhe pedira o seu anel, e atando-os em uma aro, jogou-os ao mar, num sinal de união. Após isso, o marinheiro partiu, mas lhe escreveu algumas cartas, dando-lhe o endereço na América. Élida porém lhe escrevera acabando o relacionamento e, apesar de outras cartas recebidas, inclusive marcando um encontro, mantivera-se firme nessa decisão, deixando de lhe dar respostas.
Wangel pede que Élida esqueça esse homem, mas ela reconhece que sua alma sempre será perseguida por ele, mesmo amanmdo Wangel. Nesse instante, são interrompidos pela chegada do grupo de amigos, que sugere ir dançar. Wangel e Élida ficam, e ela pede a Lyngstrand que fique também; ele aceita. Élida indaga Lyngstrand sobre sua viagem à América, conferindo ser na mesma época do ocorrido no seu passado. Lyngstrad sai e Élida sugere que o homem que amou no passado estava a bordo desse navio em que Lyngstrand estivera. Wangel, surpreso, acha a ideia absurda, julga-a doente, mas ela pede que a salve, e relata ter visto nos olhos do filho perdido ao nascer o mesmo brilho dos olhos do marinheiro. Élida sai desesperada e Wangel corre atrás dela.
Ato III O terceiro ato ocorre em um recanto afastado do jardim dos Wangel. Bolette, Hilda e Lyngstrand conversam, olhando os peixes. Arnholm chega, Hilda e Lyngstrand saem. Arnholm conversa com Bolette, que revela gostar de ler, mas que passa muito tempo cuidando dos serviços da casa, e que se sente isolada vivendo no fiorde. Bolette confessa que gostaria de ir embora dali, e Arnholm observa que ela devia ir para a Universidade. Ela se queixa que o pai vive apenas para a madrasta, e pede que Arnholm interceda por ela junto ao pai. Ele começa a lhe segredar algo, quando são interrompidos pela chegada de Élida. Falam de um navio que parou no fiorde, e Élida confessa o desejo de subir a bordo, revelando tristemente que acredita que o elemento do homem é o mar e não a terra. Depois, pede a Arnholm que vá buscar Wangel, e ele sai, com Bolette.
Élida fica sozinha. Por trás do jardim um estrangeiro chega e a cumprimenta, dizendo que a procura. Élida o reconhece, atônita, e o estrangeiro diz que veio no navio inglês. Ela tenta recusá-lo, manda-o embora, mas ele diz que veio para buscá-la. Élida fica paralisada e grita para Wangel ajudá-la. Wangel chega, Élida lhe diz que aquele é o estrangeiro de que lhe falou. O estrangeiro diz que, quando juntaram seus anéis, era uma união, um pacto que ela esquecera, e que Élida lhe pertence. Sugere que Élida o siga espontaneamente, e segue para o navio, dando a ela um tempo para refletir, até o dia seguinte à tarde, convidando-a para seguir com ele para o mar; se ela não fosse, estaria tudo acabado para sempre.
Élida e Wangel ficam sós. Wangel sugere defendê-la, e até entregá-lo para a lei, pela morte do capitão, se necessário. Élida não permite, mas pede que Wangel a salve daquele homem. No caminho, encontram Hilda e Lyngtrand, que diz ter visto passar o americano que conhecera outrora, e que provavelmente viera vingar-se da infiel. Wangel não entende a observação de Lyngstrand; Arnholm e Bolette chegam, e Bolette os convida para verem o navio inglês subindo o fiorde. Wangel fica pensativo, não entende bem a situação, e Élida pede para ser salva da fascinação e da vertigem do mar que aquele marinheiro representa.
Ato IV