José Alberto "Pepe" Mujica Cordano (Montevidéu, 20 de maio de 1935 – Montevidéu, 13 de maio de 2025) foi um político e agricultor uruguaio que serviu como o 40.º presidente do Uruguai entre 2010 e 2015. Durante seu mandato presidencial, foi Presidente Pro Tempore do Mercosul até 12 de julho de 2013.
Ex-guerrilheiro dos Tupamaros, Mujica foi torturado e preso por 14 anos durante a ditadura militar dos anos 1970 e 1980. Membro da coalizão de esquerda Frente Ampla, foi eleito deputado em 1984 e, posteriormente, senador. Entre 2005 e 2008, foi Ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca. Eleito presidente em 2009, sua gestão foi marcada por políticas progressistas e um estilo de vida austero. Após deixar o cargo, foi reeleito senador em 2014 e 2019.
Biografia
Infância e vida familiar Filho de Demétrio Mujica Terra e Lucy Cordano, nasceu em 20 de maio de 1935, no bairro Paso de la Arena, em Montevidéu, Uruguai. Sua família paterna tem ancestralidade basca, vindo da cidade de Múgica e chegando ao Uruguai em 1840.«Mujica paseará por Múxika, la tierra de sus antepasados», artigo do jornal La República (em espanhol).«Mujica recibió las llaves de la ciudad de Muxika», artigo do jornal La República (em espanhol)
A família de sua mãe era composta por imigrantes italianos. Seu sobrenome materno, Cordano, veio de seu avô Antonio, cujas origens são da província de Gênova, da mesma região de onde veio a família Giorello, de sua avó, Paula. Essa parte da família, de origem piemontesa, era de viticultores muito pobres que compraram em muitas prestações uma terra de cinco hectares, paga com grande esforço.
miniatura|José Mujica junto ao presidente Tabaré Vázquez e parte do gabinete ministerial
Mujica recebeu educação primária e secundária na escola n.º 150 de Paso de la Arena, e tendo terminado o liceu, se matriculou no Instituto Alfredo Vásquez Acevedo (IAVA) para cursar Direito, curso que não chegou a concluir, faltando algumas provas.
Mujica era ateu. Viveu desde os anos 70 com a também ex-militante Lucía Topolansky, casamento que só foi oficializado em 2005. Enquanto presidente, Mujica recebia 230 mil pesos (cerca de R$ ) mensais, dos quais doava quase 70% para o seu partido, a Frente Ampla, e também a um fundo para construção de moradias.
Genealogia A ascendência de José Mujica reflete a história da imigração europeia no Uruguai. Seu pai era Demetrio Mujica Terra e sua mãe, Lucila Cordano Giorello.
Sua linhagem paterna é de origem basca. Seus avós paternos eram José Cruz Mujica Cipriani e Eudoxia Zoe Terra Terra. Os bisavós paternos, Manuel Francisco Mujica Yeregui e Catalina Josefa Chipriano, imigraram da região basca da Espanha para o Uruguai por volta de 1840.
Do lado materno, sua ascendência é inteiramente italiana, da região da Ligúria. Seus avós maternos eram Antonio Cordano e Paula Giorello. Antonio era filho de Angelo Cordano e Maria Paola Gribone, enquanto Paula era filha de Giacomo Antonio Giorello e Caterina Parodi. Ambas as famílias eram de imigrantes que se estabeleceram no Uruguai.
Carreira política
Introdução à política As raízes políticas de José Mujica estão profundamente ligadas à sua família e à história recente do Uruguai. Nas montanhas onde morava seu avô paterno, treinavam-se combatentes durante as revoltas lideradas por Aparicio Saravia. Já seu avô materno era um herrerista branco, eleito várias vezes prefeito de Colônia, e sua casa servia como hospedagem para Luis Alberto de Herrera durante as campanhas eleitorais.
Seu tio materno, Ángel Cordano, era nacionalista e simpatizante do Peronismo, tendo exercido grande influência na formação política de Mujica. Em 1954, aos 20 anos, ele votou pela primeira vez no Partido Socialista, liderado por Emilio Frugoni. Dois anos depois, conheceu o então deputado nacionalista Enrique Erro por intermédio de sua mãe, militante do setor político liderado por Erro. A partir de então, passou a militar no Partido Nacional, chegando a ocupar o cargo de secretário-geral da Juventude Nacionalista.
Nas eleições de 1958, o Herrerismo obteve sua primeira vitória significativa, e Erro foi nomeado ministro do Trabalho, sendo acompanhado por Mujica nessa fase. Em 1962, tanto Erro quanto Mujica romperam com o Partido Nacional e fundaram a Unión Popular, em conjunto com o Partido Socialista do Uruguai e o pequeno grupo Nuevas Bases. Naquele pleito, apresentaram Emilio Frugoni como candidato à presidência da República, mas ele obteve apenas 2,3% dos votos, levando-o a abandonar a política naquela mesma noite.
Adesão à luta armada Na década de 1960, Mujica aderiu ao Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros, grupo de guerrilha urbana com o qual participou de diversas operações enquanto seguia trabalhando em sua chácara, até ser forçado à clandestinidade. Durante o governo de Jorge Pacheco Areco, o país mergulhou em uma espiral de violência, e o Poder Executivo passou a invocar sistematicamente as Medidas Prontas de Segurança — um dispositivo constitucional — para enfrentar os grupos armados e reprimir a crescente oposição de sindicatos e organizações estudantis.
Mujica foi ferido por seis tiros em confrontos armados e preso quatro vezes, conseguindo escapar da prisão de Punta Carretas em duas ocasiões. Ao todo, passou quase quinze anos encarcerado. Entre 1972 e 1985, permaneceu preso por treze anos, sendo um dos dirigentes tupamaros mantidos como reféns pela ditadura militar. Esses reféns seriam executados caso o MLN retomasse suas ações armadas. Nessa condição extrema, sob isolamento e em duras condições de detenção, Mujica passou onze anos. Entre os reféns estavam também Eleuterio Fernández Huidobro, futuro ministro da Defesa Nacional, e o fundador do MLN-Tupamaros, Raúl Sendic, cujo filho, Raúl Fernando Sendic, viria a ocupar a vice-presidência da República no segundo mandato de Tabaré Vázquez, até renunciar, sendo sucedido por Lucía Topolansky, esposa de Mujica.
Democratização e alternativa de esquerda Com a redemocratização, foi libertado em 1985, amparado pela Lei n.º 15.737, que concedeu anistia aos delitos políticos cometidos a partir de 1.º de janeiro de 1962.
Nos anos seguintes, fundou, juntamente com antigos militantes do MLN e de outras forças de esquerda, o Movimento de Participação Popular (MPP), que se integrou à Frente Ampla. Nas eleições de 1994, foi eleito deputado por Montevidéu, marcando sua entrada oficial na arena política. Em 1999, foi eleito senador, ganhando destaque nacional. Nesse mesmo ano, foi publicado o livro Mujica, de Miguel Ángel Campodónico.Mujica en crudo, El País (em espanhol).
Em 1.º de março de 2005, o presidente Tabaré Vázquez o nomeou ministro da Agricultura. Seu vice-ministro foi Ernesto Agazzi, que assumiu o cargo em 3 de março de 2008, quando Mujica deixou o ministério para lançar sua pré-candidatura à presidência da República.
Presidência do Uruguai (2010–2015) Candidatura miniatura|Mujica com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a campanha presidencial de 2009 miniatura|Mujica com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 18 de maio de 2014
Em 28 de junho de 2009, o Uruguai foi palco de um momento histórico: as eleições internas da Frente Ampla revelaram José Mujica como o escolhido por mais da metade dos votantes — 52,02% depositaram sua confiança naquele ex-guerrilheiro convertido em símbolo de esperança e sobriedade.Mujica es candidato oficial del Frente Amplio., Página 12 (em espanhol).
Ainda antes da disputa oficial, recebeu palavras e gestos de apoio do Kirchnerismo, revelando uma conexão regional de ideais progressistas e uma sinergia sul-americana de intenções.
Com o fim das internas, a composição da chapa consolidou-se com a figura do respeitado economista Danilo Astori como vice. Em setembro daquele mesmo ano, as livrarias do país acolheram o lançamento de *Pepe: Colóquios*, uma obra do jornalista Alfredo García, onde Mujica, em conversas abertas e sem rodeios, expôs sua visão de mundo, sua filosofia humanista e seu pensamento crítico.
No primeiro turno das Eleições gerais no Uruguai em 2009, em 25 de outubro, Mujica obteve cerca de metade dos votos válidos, abrindo o caminho para um segundo turno contra Luis Alberto Lacalle, que aconteceria no simbólico dia 29 de novembro. E foi nesse dia, envolto em esperança e sobriedade, que José Mujica foi consagrado presidente da República Oriental do Uruguai, com 52,60% dos votos válidos — uma vitória democrática que marcaria uma nova era no país.
Resultado do primeiro turno das Eleições gerais no Uruguai em 2009 CandidatoPartidoVotos% José Mujica Frente Ampla 1.105.277 47,96 Luis Alberto Lacalle Partido Nacional 669.944 29,07 Pedro Bordaberry Partido Colorado 392.307 17,02 Pablo Mieres Partido Independente 57.360 2,49 Raúl Rodríguez Assembleia Popular 14.869 0,67
Resultado do segundo turno das Eleições gerais no Uruguai em 2009 CandidatoVicePartidoVotos% José Mujica Danilo Astori Frente Ampla 1.183.503 52,60 Luis Alberto Lacalle Jorge Larrañaga Partido Nacional 974.857 43,33
Governo de José Mujica (2010–2015) miniatura|José Mujica com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, em 2010
José Mujica prestou juramento como presidente da República Oriental do Uruguai em 1º de março de 2010, no Palácio Legislativo, em Montevidéu. A cerimônia contou com a presença de autoridades de diversos partidos políticos uruguaios, além de líderes internacionais como a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, e os presidentes Cristina Fernández de Kirchner e Néstor Kirchner (Argentina), Rafael Correa (Equador), Hugo Chávez (Venezuela), entre outros.
Antes de assumir, Mujica estabeleceu como prioridades estratégicas os temas da educação, segurança pública, meio ambiente e energia, enfatizando a erradicação da pobreza extrema e a redução da desigualdade social.
Seu estilo de liderança foi marcado pela austeridade, simplicidade e coerência entre discurso e prática pessoais, sendo conhecido por doar cerca de 90% de seu salário para instituições de caridade e viver em uma modesta chácara, dirigindo um Fusca 1987.
Prioridades governativas
Reformas sociais e legislativas Entre os marcos legislativos mais relevantes do governo Mujica destacam-se:
A legalização do aborto até a 12ª semana de gestação, aprovada em outubro de 2012 após intenso debate no Parlamento. O projeto, que havia sido vetado em 2007 pelo então presidente Tabaré Vázquez, foi retomado pela Frente Ampla e sancionado por Mujica. A aprovação do casamento igualitário em abril de 2013, permitindo o matrimônio civil entre pessoas do mesmo sexo, com direitos plenos, incluindo adoção e a escolha da ordem dos sobrenomes dos filhos. A regulamentação da produção, distribuição e venda de maconha recreativa em dezembro de 2013, transformando o Uruguai no primeiro país do mundo a estatizar integralmente o mercado da cannabis para uso recreativo.
Política econômica e social A política econômica do governo seguiu a linha da Frente Ampla, priorizando investimentos sociais e a redução da desigualdade. Entre 2004 e 2013, o peso das despesas sociais no total do orçamento público aumentou de 60,9% para 75,5%. Entre 2004 e 2014, a taxa de pobreza caiu de 40% para 11%, o desemprego diminuiu de 13% para 7% e o salário-mínimo acumulou um aumento real superior a 250%.
Mujica fortaleceu os sindicatos e a negociação coletiva, elevando o Uruguai ao posto de país das Américas com maior respeito aos direitos trabalhistas fundamentais, segundo a Confederação Sindical Internacional.
Política externa No plano internacional, Mujica adotou uma postura de independência crítica, defendendo a autodeterminação dos povos e os direitos humanos. Em 2011, criticou publicamente a intervenção militar na Líbia, posicionando-se contra o uso da força como ferramenta de política externa.