Bartolomeu Lourenço de Gusmão (Santos, — Toledo, ), cognominado o padre voador, foi um sacerdote secular, cientista e inventor nascido no Brasil, considerado o primeiro cientista do continente americano, onde foi autor da primeira patente de invenção.REALE, Manuel Bezerra Barreto, Coronel. Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão: precursor da Aeronáutica, patrono do INCAER. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. É conhecido como o pioneiro da aviação moderna, por ter inventado o primeiro aeróstato operacional. Poliglota e erudito, registrou várias outras invenções, atuou na diplomacia e na criptografia e destacou-se no estudo da história, matemática e mecânica. Camilo Castelo Branco o definiu como "o maior homem que deu o século XVIII a Portugal".

Primeiros anos Possuidor de profundas raízes brasileiras, descendia, por linha de sua mãe Maria Álvares, de uma tetravó paulista, sendo também paulistas sua mãe, a avó, a bisavó e a trisavó. Sobrinho pela linha materna de três padres jesuítas e dois frades capuchinhos, Bartolomeu era o quarto filho de Maria com o cirurgião Francisco Lourenço Rodrigues, de família há duas gerações no Brasil.Valadares, Paulo. Bartolomeu de Gusmão, o Messias desconhecido. Revista da ASBRAP, nº 14, 2008. O casal teria ao todo doze filhos, seis mulheres e seis homens, entre os quais, além de Bartolomeu, estava Alexandre de Gusmão, que viria a se tornar importante diplomata no reinado de D. João V, sendo autor do Tratado de Madri. Já que o Brasil era uma província de Portugal, consta no seu epitáfio, no átrio da igreja de São Romão, em Toledo: "presbítero português nascido na cidade de Santos, Brasil".

Foi batizado simplesmente com o nome de Bertolameu Lourenço, em 19 de dezembro de 1685, na Igreja Paroquial da vila de Santos pelo padre António Correia Peres. Eventualmente altera o prenome para "Bartolomeu", e mais tarde, em 1718, adota a si, tal como o irmão Alexandre, o apelido "de Gusmão", em homenagem ao preceptor e protetor, o jesuíta Alexandre de Gusmão.Bartolomeu Lourenço de Gusmão, RevelarLx

O menino cursou as primeiras letras provavelmente na própria Capitania de São Vicente, no Colégio São Miguel, então o único estabelecimento educacional da região. Prosseguiu os estudos na Capitania da Baía de Todos os Santos. Como a maioria dos seus irmãos, optou ou foi orientado pelos pais a devotar-se à vida eclesiástica. Ingressou no Seminário de Belém, em Cachoeira, onde teria início a sua profícua carreira de inventor.

A edificação, situada sobre um monte de cem metros de altura, possuía precário abastecimento de água, que tinha que ser captada e transportada em vasos a partir de um brejo subjacente. Percebendo o problema, Bartolomeu inteligentemente planejou e construiu um maquinismo para levar a água do brejo até o seminário por meio de um cano longo. O invento, testado com absoluto sucesso, foi considerado admirável e de grande utilidade, inclusive pelo próprio reitor e fundador do seminário, o renomado sacerdote Alexandre de Gusmão, que lhe havia incutido o gosto pelas ciências.

Terminado o curso no Seminário de Belém em 1699, Bartolomeu transferiu-se para Salvador, capital do Brasil à época, e ingressou na Companhia de Jesus, de onde saiu antes de ser ordenado, em 1701. miniaturadaimagem|Estátua do Padre Bartolomeu de Gusmão no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Viajou para Portugal, onde chegou já famoso pela memória extraordinária, ficando hospedado em Lisboa, na casa do 3.º Marquês de Fontes, que se impressionara com os dotes intelectuais do jovem. Contava ele então com dezesseis anos.

Em 1702, Bartolomeu retornou ao Brasil e deu início ao processo de sua ordenação sacerdotal. Três anos depois ele requereu à Câmara da Bahia a patente para o seu aparelho inventado anos antes - o invento para fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar. A patente foi expedida em 23 de março de 1707 pelo rei Dom João V. Foi essa a primeira patente de invenção outorgada a alguém nascido em território brasileiro.

Em 1708, já ordenado padre, Bartolomeu embarcou mais uma vez para Portugal. Logo após sua chegada, em 1.º de Dezembro matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Passados alguns meses, contudo, abandonou a faculdade para instalar-se em Lisboa, onde foi recebido com sumo agrado pelo Rei Dom João V e pela Rainha Maria Ana de Áustria, apresentado que fora aos soberanos por um dos maiores fidalgos da Corte, D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes. Esse homem era ninguém menos que o 3.º Marquês de Fontes, o mesmo que o havia recolhido à sua casa quando da sua primeira estada em Portugal.

As experiências com balões Na capital portuguesa o padre Bartolomeu Lourenço pediu patente ou "petição de privilégio" para um “instrumento para se andar pelo ar” – que se revelaria ser, mais tarde, o que hoje se conhece por aeróstato ou balão –, a qual foi concedida no dia 19 de Abril de 1709.Gusmao, Bartolomeu de. Reproduction fac-similé d'un dessin à la plume de sa description et de la pétition addressée au Jean V. (de Portugal) en langue latine et en écriture contemporaine (1709) retrouvés récemment dans les archives du Vatican du célèbre aéronef de Bartholomeu Lourenco de Gusmão "l'homme volant" portugais, né au Brésil (1685-1724) précurseur des navigateurs aériens et premier inventeur des aérostats. 1917 (Lausanne : Impr. Réunies S. A..) em francês e latim O fato causou celeuma na cidade e a notícia rapidamente se espalhou para alguns reinos europeus. O invento, divulgado por meia Europa em estampas fantasiosas que, em geral, o retratavam como uma barca com formato de pássaro, ficou conhecido como “Passarola”.thumb|200px|Ilustração fantasiosa da Passarola, de 1709. thumb|200px| A Passarola num modelo em escala 1:10 da, exposta no Museo Nacional Aeronáutico y del Espacio de Chile.|esquerda As primeiras ilustrações da Passarola haviam sido na verdade elaboradas pelo filho primogênito do 3.º Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses, com a conivência de Bartolomeu. O 8.º Conde de Penaguião e futuro 2.º Marquês de Abrantes contava 14 anos em 1709 e era, então, aluno de matemática do padre, sendo a única pessoa à qual ele permitia livre acesso ao recinto em que o engenho voador era guardado. Como o rapaz vivesse assediado por curiosos, que constantemente lhe faziam indagações acerca da invenção, resolveu ele, para deixar de ser importunado, elaborar o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado. E para preservar o verdadeiro princípio da invenção – o Princípio de Arquimedes –, atribuiu a ascensão da engenhoca ao magnetismo, que era então a resposta para quase todos os mistérios científicos. Esperava dessa maneira melhor proteger o segredo confiado à sua guarda e ludibriar os bisbilhoteiros. Comunicou o plano a Bartolomeu, que o aprovou, e fingiu deixar o desenho escapar por descuido. A Passarola, inspirada ao que parece na fauna fabulosa de algumas lendas do Brasil, acabou sendo rapidamente copiada, logo se espalhando pela Europa em várias versões, para grande riso dos dois embusteiros.Toda essa trama seria descoberta anos depois por um poeta italiano, Pier Jacopo Martello (1625–1727), e revelada por ele na edição de 1723 do livro Versi e prose, em que fazia um longo e meticuloso histórico das tentativas do homem para voar, das mais antigas às mais recentes daquele tempo.thumb|300px|Bartolomeu de Gusmão apresenta os seus protótipos à corte de D. João V.

Gusmão, a quem o rei concedeu, além do alvará, as chaves da sua quinta em Alcântara, Lisboa, para nela construir e testar o anunciado engenho, não demorou a colocá-lo em prática. Trabalhando com afinco, gastou-se já à época quantia considerável — cerca de duzentos mil réis apenas em arames e, por ordem do rei, o padre teve acesso tanto à quinta dos duques de Aveiro como à de Alcântara para preparar seus experimentos.

Em agosto de 1709, Gusmão realizou perante a corte portuguesa cinco experiências públicas com balões de pequenas dimensões, conduzidas em diferentes dependências do Palácio Real e em locais próximos. A primeira, realizada no dia 3 na Casa do Forte, terminou em incêndio antes mesmo de o protótipo subir. Dois dias depois, em 5 de agosto, noutra dependência do palácio, a Casa Real, o aeróstato provido no fundo de uma tigela com álcool em combustão elevou-se aproximadamente quatro metros, mas começou a arder no ar e foi imediatamente derrubado por serviçais receosos de que incendiasse os cortinados.

Na terceira experiência, realizada no pátio da Casa da Índia, com a presença do rei, da corte, de fidalgos, nobres e de uma grande multidão, o balão conseguiu elevar-se livremente, demonstrando pela primeira vez um artefato humano capaz de flutuar sem apoio, e deslizou no ar até colidir com uma cimalha da torre da Igreja do Rosário, incendiando-se ao cair. Embora inédita, a demonstração foi considerada modesta, distante das promessas de um engenho grande, tripulável e capaz de longas viagens.

A quarta experiência, provavelmente no dia 7 no Terreiro do Paço (hoje Praça do Comércio), mostrou o balonete subir a grande altura, permanecer suspenso por algum tempo e pousar suavemente, sem se queimar. Na quinta, realizada em 8 de agosto na Sala das Audiências do Palácio Real, diante do rei, da família real, do núncio Michelangelo Conti (futuro Papa Inocêncio XIII), de fidalgos e de uma multidão curiosa, o pequeno globo elevou-se até o teto do aposento, manteve-se suspenso e desceu suavemente, sem incidentes.

As experiências demonstraram pela primeira vez a capacidade de um artefato humano elevar-se livremente, mas o resultado permaneceu limitado em relação às promessas de Gusmão. Em 3 de outubro de 1709, uma nova demonstração na ponte da Casa da Índia com um protótipo maior elevou-se a grande altura, flutuou por tempo não medido e pousou sem estrépito. Apesar do êxito da experiência e do interesse despertado, a invenção não foi considerada prática: os balões não suportavam grandes pesos, não podiam ser direcionados e representavam grande risco de incêndio.

Cinco testemunhas registraram essas experiências: o cardeal italiano Miquelângelo Conti, eleito papa em 1721 como Inocêncio XIII, os escritores Francisco Leitão Ferreira e José Soares da Silva, nomeados membros da Academia Real de História Portuguesa em 1720, o diplomata José da Cunha Brochado e o cronista Salvador Antônio Ferreira. Sobre as experiências de Bartolomeu de Gusmão, o cardeal Conti apressou-se em escrever uma carta ao Vaticano, relatando:

"Esta cidade encontra-se divertida pelos discursos sobre uma proposta feita ao Rei por um sacerdote do Brasil, vindo com as últimas naves, o qual pretende inventar nova navegação para ir às Índias sem tocar a Tramontana, porém diretamente pelo levante e poente; e também um engenho para voar, até com dez pessoas dentro, a respeito do qual foram ouvidos os pareceres de muitos ministros e matemáticos."

Em 1843 o escritor Francisco Freire de Carvalho disse haver tomado conhecimento, por intermédio de um ancião chamado Timóteo Lecussan Verdier, de uma outra experiência aerostática, assistida pelo diplomata português Bernardo Simões Pessoa, em que o balão partiu da Torre de São Roque e caiu junto à costa da Cotovia por detrás de S. Pedro d’Alcântara. Segundo Carvalho, Verdier, por sua vez, assegurava que o relato da ascensão lhe fora transmitido pelo próprio Pessoa em tempos muito anteriores ao ano de 1783, quando dos primeiros voos de balões na primeiros voos de balões na França.