O Campeonato Brasileiro de Futebol de 1937, originalmente conhecido como Torneio dos Campeões, foi a edição inaugural do novo modelo do Campeonato Nacional organizado pela Federação Brasileira de Football (FBF), sendo a primeira edição do Campeonato Brasileiro, conforme unificação oficializada pela CBF em 2023. Foi vencido pelo Clube Atlético Mineiro, que conquistou o primeiro título brasileiro da história.

Foi o quarto torneio nacional da FBF, sucedendo as três edições do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais (CBSE) organizado por esta (a CBD também organizava seu próprio CBSE), entre 1933 e 1935, cujo nome oficial era "Campeonato Brasileiro de Futebol". O Correio da Manhã (RJ), em janeiro de 1937, tratou a nova competição como "1º Torneio dos Campeões" e como um novo modelo, substituindo o antigo sistema, em que o "título máximo" era definido entre seleções. Já o Correio de S. Paulo, de 7 de janeiro de 1937, usou a nomenclatura "III Campeonato Brasileiro de Futebol" (houve antes duas disputas de clubes organizadas pela FBF e tratadas pelo periódico como títulos nacionais e brasileiros, atualmente contabilizadas como as duas primeiras edições do Torneio Rio-São Paulo). A nomenclatura "Torneio dos Campeões", pela qual ficou conhecida, também foi usada pelo Jornal dos Sports. Independentemente do nome oficial, como o torneio de 1937 foi uma competição de clubes, os quais não representavam seleções estaduais, não é considerado uma edição do CBSE, mas um outro campeonato, que substituiu o de selecionados naquele ano.

Assim, foi o primeiro campeonato nacional de cunho profissional disputado pelos clubes do futebol brasileiro. O Campeonato Brasileiro de Clubes Campeões de 1920, triangular organizado pela CBD, é tido como o primeiro certame nacional, mas foi jogado sob o sistema amador. Em turno único, no Estádio das Laranjeiras como sede, somou 3 times e 3 jogos, e o triunfo foi do Paulistano. O torneio de 1937, por sua vez, teve como fase principal um quadrangular de dois turnos, além de dois jogos em fase prévia, apresentando 6 times e 14 jogos. São competições distintas.

O campeonato teve grande repercussão à época, sendo destacado em veículos de mídia de vários estados, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Santa Catarina. Em dezembro de 1950, antes da partida contra o Stade Français no Parc des Princes, o Le Monde estampou em seu caderno de esportes: “Stade Français, contra o campeão brasileiro”, em referência ao título de 1937. Em 1971, após o Atlético conquistar o I Campeonato Nacional de Clubes (que de 1976 a 2010 foi considerado como primeira edição do Brasileirão, tornando-se a 15ª, sendo desde 2023 a 16ª), o jornal O Globo afirmou que o clube mineiro teria sido campeão nacional pela primeira vez em 1937.

No dia 25 de agosto de 2023, o Torneio dos Campeões foi homologado pela CBF como a primeira edição do Campeonato Brasileiro. O Atlético enviou um dossiê para a CBF em 2022, após a conquista do Brasileirão do ano anterior, solicitando a unificação da conquista de 1937. Foi feito o mesmo reconhecimento dado pela entidade em 2010, quando esta passou a considerar os campeões da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata como campeões brasileiros.

História esquerda|miniaturadaimagem|284x284px|Elenco do Atlético, primeiro campeão brasileiro. Em pé, da esquerda para a direita: Floriano Peixoto (técnico), Kafunga, Florindo, Zezé Procópio, Lola, Bala, Alcindo, Quim, Clóvis; agachados: Paulista, Alfredo, Guará, Nicola, Rezende e Elair. A competição foi organizada pela Federação Brasileira de Football (FBF), a associação profissional da década de 1930 no Brasil, quando o movimento de profissionalização começou a emanar. A FBF tinha como filiados os clubes que adotaram o regime profissional, enquanto a CBD (atual CBF) resguardava o futebol amador e, também, geria a Seleção Brasileira. A discussão, entre outros motivos, era em função das exigências de prêmios e remuneração devidas aos jogadores profissionais.

Nesse contexto, em 1937, a FBF, que já havia realizado três edições de seu Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais (1933 a 1935), por estar pressionada financeiramente, optou por reunir os clubes campeões estaduais de 1936 das suas ligas filiadas.BRAGA, Rodrigo Guimarães Saturnino. Campeonato brasileiro de seleções estaduais de futebol: Uma história política do futebol brasileiro da Primeira República ao Estado Novo (1922-1945). 2021. 244 f. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Bens Culturais e Projetos Sociais, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2021. Dessa forma, substituiu sua competição de seleções por uma competição de clubes, que foi tida como campeonato nacional, diante da ausência do campeonato de selecionados naquele ano. Entre 1937 e 1938, a FBF e a CBD passaram por um processo de pacificação, sendo a edição de 1938 do campeonato de seleções a primeira após a vinculação daquela a esta. "O CBSE (Campeonato Brasileiro de Seleções) voltou a ser disputado no final de 1938, até março de 1939 (...). Em agosto de 1938, a FBF abandonou a ideia de um campeonato de clubes campeões estaduais e confirmou o CBSE”, conforme o pesquisador Rodrigo Guimarães Saturnino Braga. A FBF foi extinta em 1941, tendo a CBD ratificado seus atos.

Participaram seis equipes de cinco estados e duas regiões do Brasil, conforme divisão regional que perdurou de 1913 a 1938: antigo Distrito Federal, antigo Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, estados da Região Oriental; e São Paulo, estado da Região Meridional. Os participantes foram: Fluminense, campeão carioca de 1936 (LCF); a Portuguesa, campeã paulista de 1936 (APEA); o Atlético, campeão mineiro de 1936; o Rio Branco, campeão capixaba de 1936; o Aliança, campeão campista de 1936; e a Liga de Sports da Marinha (LSM), equipe convidada, dirigida pelo famoso técnico húngaro Nicolas Ladanyi. A LSM, fundada em 1915, é a origem do atual CEFAN e era subordinada a então Diretoria do Pessoal da Marinha do Brasil. O Aliança foi tricampeão campista, de 1936 a 1938, sendo ligado à Usina do Queimado; foi fundado em 1932 e extinto em 1946.

O Fluminense foi apontado pela mídia esportiva da época como o candidato favorito ao título.Acervo Jornal OGLOBOPágina visitada em 05 de Setembro de 2014. O Tricolor Carioca contava com grandes estrelas do clube em sua escalação, como Batatais, Carlos Brant, Preguinho, Russo, Romeu Pellicciari e Hércules, entre outras. A mídia tratava aquela formação, tendo vários jogadores criados no futebol paulista, como a mais forte do Brasil. Para muitos, esse foi o melhor time da história do Fluminense,Historia do Fluminense Página visitada em 05 de Setembro de 2014. e foi com esse esquadrão que o clube conquistou o Torneio Aberto de 1935 e o Campeonato Carioca de 1936 da LCF (Liga Carioca de Futebol Profissional), derrotando, na final deste último, o Flamengo de Leônidas da Silva e Domingos da Guia, jogando como "o campeão carioca" no Torneio dos Campeões de 1937. A imprensa ressaltava que o principal rival do time carioca na briga pelo título seria o Atlético, que também contava com jogadores de renome nacional, como Kafunga, Zezé Procópio, Luiz Bazzoni e Guará.

Jogadores presentes naquela campanha ainda figuram entre os maiores goleadores e com mais partidas pelo clube mineiro (filiado ao profissionalismo em 1933), casos do goleiro Kafunga, que ficou 20 anos no clube, e do atacante Guará (homenageado com o Troféu Guará), que é o quarto maior artilheiro da história do Galo, com 168 gols.

Atlético e Fluminense protagonizaram a grande rivalidade do torneio. Na primeira rodada, os cariocas derrotaram os mineiros por 6 a 0 no Estádio das Laranjeiras (curiosamente, no Brasileirão seguinte, em 1959, o campeão também sofreria a maior goleada: 6 a 0 em favor do Sport sobre o Bahia). No returno, em partida realizada no Estádio de Lourdes, o Atlético venceu por 4 a 1. O jogo definidor da conquista se deu contra o Rio Branco, uma vitória do Galo pelo placar de 5 a 1, que em 3 de fevereiro de 1937, em BH, conquistou o "título de campeão dos campeões" antecipadamente, conforme destaca o Jornal do Brasil do dia seguinte. O time mineiro jogou a última partida do torneio já na situação de campeão; contra a Portuguesa, fora de casa, ganhou por 3 a 2. Foi a única vitória de um visitante nos 12 jogos do quadrangular. Após seis rodadas, o time mineiro conseguiu quatro vitórias, um empate e uma derrota. O título teve repercussão na mídia da época.

O Rio Branco foi o terceiro colocado, possuindo a melhor posição de um clube capixaba no Campeonato Brasileiro (a melhor campanha a partir de 1959 também foi do Brancão, em 1963, quando ficou em 7° lugar).

A segunda edição do Campeonato Brasileiro ocorreria 22 anos depois, em 1959, sob a jurisdição da CBD, tida como antecessora direta da CBF. Desde então, o campeonato nunca foi interrompido. A logística era o maior problema da organização do futebol brasileiro na primeira metade do século XX. O tamanho continental do país ainda inviabilizava a disputa com clubes de norte a sul. Em 1937, a aviação comercial brasileira completara apenas 10 anos, haviam poucas rodovias e navios levavam dias ou semanas para atravessar de uma ponta a outra.

O Campeonato Brasileiro com muitos jogos para todos os participantes, como atualmente, surgiu apenas com o Roberto Gomes Pedrosa, em 1967. O campeão deste, por coincidência, também foi definido em um quadrangular final. Pela Taça Brasil, quatro dos cinco vencedores tiveram menos de dez eventos: o Palmeiras jogou quatro vezes em 1960 e seis em 1967; o Santos foi pentacampeão entre 1961 e 1965 com uma média de 4,8 partidas; e Botafogo (1968) e Cruzeiro (1966) jogaram sete e oito vezes, respectivamente.

Unificação Em 2010, quando a CBF unificou os títulos da Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata como Campeonato Brasileiro, cogitou-se a inclusão do título de 1937 do Atlético. O presidente do Atlético na época, Alexandre Kalil, não fez a devida protocolização.

Em dezembro de 2021, o Atlético-MG, mediante o Presidente Sérgio Coelho, demonstrou interesse em ter o Torneio dos Campeões de 1937 como edição do Campeonato Brasileiro, mas não fez um pedido formal ainda naquele ano.

Em 25 de agosto de 2023, a CBF oficializou o Torneio dos Campeões como primeira edição do Campeonato Brasileiro, homologando a unificação. O reconhecimento se deu com base em dossiê de mais de 60 páginas, em que anexou-se jornais da época, de diferentes estados, descrevendo o certame como título brasileiro. Uma taça simbólica foi confeccionada pelo próprio clube, já que não recebeu uma à época. O tetracampeão Fluminense, que desde 1959 nunca ficou em segundo lugar, passou a também figurar na lista de vice-campeões.

A decisão foi criticada por alguns jornalistas esportivos, como Paulo Vinícius Coelho, Mauro Cezar Pereira e Renato Maurício Prado.

Participantes EquipeCidadeEstadoClassificaçãoAliançaCampos dos Goytacazes RJCampeão campista de 1936Atlético MineiroBelo Horizonte MGCampeão mineiro de 1936FluminenseRio de Janeiroborda|22x22px|Distrito Federal DFCampeão carioca de 1936 (LCF)Liga da MarinhaRio de Janeiroborda|22x22px|Distrito Federal DFConvidada pela FBFPortuguesaSão Paulo SPCampeã paulista de 1936 (APEA)Rio BrancoVitória ESCampeão capixaba de 1936

Fase preliminar Em itálico, as equipes que possuem o mando de campo no jogo único, em negrito as equipes classificadas.

Primeira fase

Segunda fase

Quadrangular final

Partidas

Premiação Campeonato Brasileiro de Futebol de 1937Clube Atlético MineiroCampeão(1° título)

Classificação Final A classificação geral é determinada através da fase em que o time alcançou e a sua pontuação, levando em conta os critérios de desempate.