Vitória Isabel Augusta Carlota da Prússia (em alemão: Viktoria Elisabeth Augusta Charlotte von Preußen; Potsdam, – Baden-Baden, ) foi a duquesa-consorte de Saxe-Meiningen de 1914 até o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918 como esposa do duque Bernardo III. Era a segunda filha, primeira menina, do imperador Frederico III da Alemanha e sua esposa Vitória, Princesa Real, sendo assim a neta mais velha da rainha Vitória do Reino Unido do seu consorte, o príncipe Alberto.

A princesa Carlota era uma criança difícil e estudante indiferente, com uma personalidade nervosa. A relação com a sua mãe exigente era difícil. À medida que foi crescendo, Carlota desenvolveu um gosto especial por espalhar rumores e causar problemas. Ansiosa por fugir ao controlo dos pais, em 1878, com dezasseis anos de idade, casou-se com o príncipe Bernardo de Saxe-Meiningen. A personalidade fraca do marido teve pouco efeito nela. Conhecida pelos rumores que espalhava e pela sua personalidade excêntrica, a princesa Carlota gostava de frequentar a sociedade de Berlim, deixando muitas vezes a sua única filha, a princesa Teodora, sozinha ao cuidado de membros da família. Posteriormente, também Carlota e Teodora tiveram uma relação difícil.

O irmão de Carlota sucedeu ao pai deles como imperador Guilherme II em 1888, aumentando a sua influência social. Ao longo do reinado do irmão, Carlota ficou conhecida por causar problemas e passou a sua vida a sofrer ataques de doença frequentes, e a viver uma vida frívola e extravagante. Tornou-se duquesa de Saxe-Meiningen em 1914, mas o seu marido acabaria por perder o título apenas alguns anos depois, em 1918, quando a Alemanha saiu derrotada da Primeira Guerra Mundial. Carlota acabaria por morrer no ano seguinte, de ataque cardíaco, em Baden-Baden. Padeceu de uma saúde fraca durante toda a sua vida. Actualmente, muitos historiadores acreditam que sofria de porfiria, uma doença genética que também afectava outros membros da família real britânica.

Primeiros anos

Nascimento e família esquerda|miniaturadaimagem|Carlota quando criança.|267x267px A princesa Vitória Isabel Augusta Carlota nasceu a 24 de julho de 1860 no Neues Palais em Potsdam. Era a filha mais velha e segunda criança a nascer do casamento entre o príncipe Frederico da Prússia e a sua esposa Vitória, princesa real do Reino Unido, conhecida como Vicky na família.Pakula 1997, p.138.Van der Kiste 2012, 33. Nascida de um parto fácil, Carlota foi uma bebé saudável que nasceu dezanove meses após o nascimento difícil do seu irmão mais velho, o príncipe Guilherme.Van der Kiste 1999.Packard 1998, p.106 A sua avó, a rainha Vitória, queria que a sua neta mais velha recebesse o seu nome, no entanto, os prussianos queriam que a nova princesa se chamasse Carlota, em honra da imperatriz Alexandra Feodorovna da Rússia, que tinha nascido princesa Carlota da Prússia. Para agradar a todos, ficou decidido que o seu primeiro nome seria Vitória, no entanto, em família, seria sempre chamada de Carlota. Um dos seus outros nomes, Augusta, foi dado em honra da sua avó paterna, a rainha Augusta da Prússia.

A família paterna de Carlota pertencia à Casa de Hohenzollern, uma casa real que governava o Reino da Prússia desde o século XVII.Pakula 1997, pp.94–101 No final do seu primeiro ano de vida, o seu pai tinha-se tornado príncipe-herdeiro, uma vez que o seu avô subiu ao trono da Prússia como rei Guilherme I. A mãe de Carlota, Vicky, era filha mais velha da rainha Vitória do Reino Unido e do seu marido, o príncipe Alberto. Carlota e o seu irmão, Guilherme, foram os únicos netos que nasceram quando Alberto era ainda vivo.Van der Kiste 2012, 47 Os monarcas do Reino Unido visitaram a sua filha e netos quando Carlota tinha dois meses de idade,Hibbert 2001, p.261Van der Kiste 2001. enquanto que Vicky e Frederico os levaram a visitar os avós na Inglaterra em junho de 1861,Röhl 1998, p.73. seis meses antes da morte do príncipe Alberto.

Crescimento e educação A família, que estava sempre a crescer e acabou por ser composta por oito irmãos,Pakula 1997, pp.153–59. passava os seus invernos em Berlim e os verões em Potsdam. Normalmente, o ano também incluía uma estadia no campo, da qual as crianças gostavam muito. Em 1863, Vicky e Frederico compraram uma pequena propriedade e transformaram-na numa quinta, onde a família podia, ocasionalmente, viver uma vida simples no campo.Ramm 2004. Frederico era um marido carinhoso, mas também oficial no exército prussiano, o que o levava muitas vezes para longe de casa e da família. Vicky era uma mãe intelectual e exigente, que esperava que os seus filhos mostrassem uma personalidade de liderança moral e política, e, quando o marido estava ausente, era ela que supervisionava a educação e criação dos filhos.Pakula 1997, p.323. Pouco depois de chegar ao seu novo país, Vicky esteve no centro de várias discussões e intrigas com a família real prussiana. Estes confrontos fizeram com que acreditasse cada vez mais firmemente na superioridade da cultura inglesa e, por isso, educou os seus filhos em berçários de estilo inglês, e promoveu com sucesso o carinho pelo seu país natal, incorporando aspectos da cultura inglesa em sua casa e levando os filhos em várias viagens a Inglaterra.Gelardi 2005, pp.9–11. miniaturadaimagem|349x349px|A princesa Carlota da Prússia.Embora Vicky tivesse uma relação próxima com a sua filha mais velha nos primeiros tempos, esta foi-se alterando à medida que Carlota foi crescendo. Quando tinha dois anos de idade, a princesa era a "pequena e marota Ditta",Röhl 1998, p.106. e acabaria por se tornar na mais complicada dos oito irmãos.Pakula 1997, p.335. Quando era criança, tinha um comportamento nervoso e mostrava sinais de agitação como, por exemplo, puxar as roupas das pessoas. Desenvolveu cedo o hábito de roer as unhas, o que levou a sua mãe a obrigá-la a andar sempre de luvas. No entanto, as medidas que a mãe tomava mostravam resultar apenas temporariamente.Van der Kiste 2012, 87. A rainha Vitória escreveu à filha: "diz à Carlota que fiquei horrorizada quando soube que ela andava a morder coisas. A avó não gosta de meninas mal-comportadas". Em 1863, a princesa-herdeira registou no seu diário que "a mente da Carlota parece ser demasiado activa para o corpo. Ela passa de nervosa a sensível muito depressa. Não dorme tão tranquilamente como devia e está tão magra". Carlota fazia birras violentas que desagradavam à mãe. Vicky descreveu-as como "ataques de raiva e teimosia tão violentos que ela grita até ficar azul".Röhl 1998, p.107. A menina também era também muito magra e tinha problemas digestivos.Röhl, Warren & Hunt 1998, pp.183–84.

Carlota era uma estudante indiferente, o que transtornava a sua mãe que dava grande importância à educação. A sua governanta declarou que nunca tinha tido "tanta dificuldade" com ninguém como com ela, enquanto que Vicky escreveu numa carta dirigida à mãe referindo-se a Carlota: "a estupidez não é nenhum pecado, mas faz com que a educação seja uma tarefa complicada e difícil".Röhl, Warren & Hunt 1998, p.183. A princesa-herdeira raramente escondia as suas opiniões das pessoas que a desagradavam e criticava abertamente os filhos para os encorajar a esforçarem-se e para lhes retirar qualquer vestígio de vaidade. A rainha Vitória, pediu-lhe para ter uma atitude mais encorajadora e menos reprovadora relativamente a Carlota e era da opinião que Vicky não deveria esperar que a sua filha tivesse os mesmos gostos que ela. O biografo Jerrold M. Packard acha provável que "esta jovem bonita, mas nervosa deve ter sentido a desilusão da mãe desde muito cedo", o que aumentou a separação entre elas.Packard 1998, p.135.

Com o passar do tempo, criou-se uma zanga entre os três filhos mais velhos e os três mais novos da família.Röhl 1998, p. 101.Van der Kiste 2012, 60. A morte de dois dos irmãos mais novos de Carlota (Segismundo em 1866 e Valdemar em 1879), devastou a princesa-herdeira. O historiador John C. G. Röhl especula que os três filhos mais velhos de Vicky "nunca conseguiram corresponder às expectativas da vida idealizada dos dois príncipes falecidos".Röhl 2014, p. 13. A forma severa como Vicky criou os seus três filhos mais velhos (Guilherme, Carlota e Henrique) não foi aplicada na sua relação com as três mais novas (Vitória, Sofia e Margarida).MacDonogh 2000, p. 36. Os filhos mais velhos, sentindo que nunca poderiam satisfazer a desilusão da mãe, começaram a ressentir a forma mais branda como Vicky tratava os seus irmãos mais novos. O historiador John Van der Kiste especula que, se Vicky tivesse mostrado o mesmo nível de aceitação a Carlota que mostrou às suas filhas mais novas, "a relação entre elas poderia ter sido feliz".

No entanto, os avós paternos de Carlota gostavam muito dela e conviviam muito com a neta.King 2007, p. 50. O rei Guilherme e a rainha Augusta mimavam a neta e encorajaram-na a revoltar-se contra os pais,Van der Kiste 2012. o que a levou muita vezes a, juntamente com o irmão Guilherme, ficar do lado dos avós quando eles se desentendiam.Packard 1998, p. 173. Esta revolta foi também encorajada pelo chanceler da Alemanha, Otto von Bismark, que tinha desentendimentos políticos com os príncipes-herdeiros que tinham uma visão mais liberal. Carlota tinha também uma relação próxima com o seu irmão mais velho, embora os dois se tenham afastado quando ele se casou em 1881 com a princesa Augusta Vitória de Schleswig-Holstein (Donna), uma princesa que Carlota descrevia como feia, sem vontade própria e tímida.Vovk 2012, p. 41. Por causa desta opinião, a relação entre Carlota e Guilherme tornou-se problemática.

Noivado e casamento miniaturadaimagem|Carlota da Prússia com o seu marido, Bernardo de Saxe-Meiningen.|esquerda Quando fez catorze anos de idade, Vicky descreveu Carlota como parecendo muito mais nova do que a idade, escrevendo: "Em tudo - saúde, aspecto e inteligência - a Carlota parece uma criança de dez anos!".Röhl, Warren & Hunt 1998, p. 184. A princesa tinha pernas curtas, juntamente com uma cintura e braços compridos, que faziam com que parecesse alta quando estava sentada, mas baixa quando estava de pé. Também não era particularmente bonita.Röhl, Warren & Hunt 1998, pp. 184–84. Sofreu problemas de saúde graves durante grande parte da vida adulta e estava quase sempre num estado mental de agitação e entusiasmo exacerbado que confundia os médicos. Entre os seus muitos problemas de saúde contavam-se reumatismo, dores nas articulações, dores de cabeça e insónia.Van der Kiste 2012, 601.

À medida que foi crescendo, o comportamento de Carlota começou também a incluir tentativas de sedução, espalhar rumores maliciosos e causar problemas, características que a sua mãe já tinha reparado quando ela era mais nova que tinha esperado desaparecerem à medida que ela fosse crescendo.Röhl, Warren & Hunt 1998, p. 185. Vicky descreveu-a como "uma gatinha manipuladora que se pode tornar extremamente carinhosa quando quer alguma coisa. Era da opinião que o "exterior bonito da filha escondia "traços de personalidade perigosos" e culpava a natureza por ter introduzido estas características na sua filha.Van der Kiste 2012, 126.

Em abril de 1877, quando tinha dezasseis anos de idade, Carlota ficou noiva do seu primo em segundo grau, o príncipe Bernardo de Saxe-Meiningen, herdeiro do ducado alemão de Saxe-Meiningen.Van der Kiste 2012, 113. Segundo uma história contado pela biografa de Vicky, Hannah Pakula, Carlota apaixonou-se pelo príncipe quando os dois estavam a passear de carruagem com o irmão mais velho dela. A certa altura, Guilherme começou a acelerar, o que assustou Carlota e a levou a agarrar-se ao braço de Bernardo. Pakula acrescenta que esta paixão repentina mas temporária parece corresponder à personalidade "alternável" de Carlota.Pakula 1997, p. 371. Van der Kiste é da opinião de que a decisão de Carlota de se casar com Bernardo também surgiu do seu desejo de se tornar independente dos seus pais e, acima de tudo, de se livrar das críticas da mãe.